Templo das Bacantes Vol. 3
34 Amor à flor da pele - Parte 1

Moscou, Rússia, 17:45
Na quarta-feira, Afrodite acordou cedo e excepcionalmente chegou ao Templo das Bacantes meia hora antes de Geisty, a quem recebeu com um sorriso animado, uma caneca bem cheia do capuccino da amizade e o restante das planilhas do Excel conferidas e preenchidas. No entanto, todo esse empenho tinha um bom, ou melhor dizer, um justo motivo. Estava muito próximo do dia em que Hyoga e Camus partiriam para a Sibéria, e Afrodite sentia que precisava aproveitar ao máximo o tempo que ainda tinha junto deles.
Por isso, depois do café da manhã com Geisty na Descolândia, de deixar adiantado o trabalho dos dias seguintes e de uma passadinha, como fazia todos os dias, no hospital para ver Kiki, Mu e Shaka, Afrodite retornou à casa de Peixes, vestiu-se com seu disfarce de mãe e partiu para a Rússia para passar o dia com Hyoga. Como não queria perder tempo o fez usando seus dons de cavaleiro, já que os voos fretados eram um luxo que só gostava de dispor em situações de paz e tranquilidade, o que não era o caso. Há muito não sentia paz, tampouco tranquilidade.
Quando chegou em Moscou encontrou Hyoga já o esperando ansioso para o dia de aventuras, e embora o garoto estivesse completamente familiarizado com cada pequeno pedacinho daquela cidade, sempre havia algo novo quando a via pelos olhos azuis aquamarine de Maman Di. Assim, as esculturas esquecidas dos tempos soviéticos no Parque Gorky ganhavam um prisma diferente, quase sempre lúdico, já que Afrodite tinha sempre o dom de trazer leveza ao inexorável, então eles se esqueciam daqueles tempos severos rindo das carrancas dos políticos manchadas por cocô de pombo. No Museu dos Cosmonautas, enquanto olhavam para a réplica da Sputinik, eles passaram horas de mãos dadas discorrendo sobre os esforços do homem comum em desbravar o Universo e desvendar seus segredos, quando todo o mistério da criação estava bem ali, debaixo de seus narizes... mas eles preferiam criar e adorar seus próprios deuses, ou mesmo convencer-se de que deuses não existem. Talvez fosse melhor assim.
Na hora do almoço eles foram a um Fast Food, muniram-se cada um de três hambúrgueres com fritas e refrigerante e foram comer sentados nas escadarias do Teatro Bolshoi. Afrodite dizia que assim podiam ter Natássia junto deles, já que ela passou grande parte da vida naquele lugar e, segundo ele, uma parte da centelha dela estava ali, embrenhada naquelas paredes, nas flores do jardim, na melodia ao piano que se ouvia de longe; talvez um ensaio de balé estivesse acontecendo naquele momento. A centelha a que ele se referia era a lembrança de Natássia.
Hyoga gostava de acreditar naquilo, por isso repetiam aquele gesto ao menos uma vez por mês. Ao termino da refeição Afrodite deixava uma rosa branca onde estavam sentados e eles iam embora de mãos dadas.
Quase no fim da tarde finalmente eles chegaram no ponto do passeio que Peixes mais gostava, o Gum, um shopping center bem no centro da Praça Vermelha. Era sempre ali que ia parar boa parte do patrimônio financeiro de Camus de Aquário, e naquele dia Afrodite não economizou esforços em torrar a grana do noivo. Entre as joias e vestidos estavam também os muitos presentes para os amigos da Grécia e a infinidade de mimos para Hyoga, muitos cobertores, pijamas quentes para baixíssimas temperaturas, botas forradas com lã de carneiro, gorros, cachecóis, meias, protetores de orelha, luvas e até um potente aquecedor de ambiente. Ele sabia que Camus não permitiria nada daquilo em sua cabaninha precária no meio do deserto siberiano, mas não custava tentar.
Quando chegaram em casa, Afrodite pediu a um dos funcionários que levasse as sacolas com as compras para o escritório e ficou com apenas uma, a qual levou consigo para a cozinha. Ali ele despejou os artigos sobre a mesa, diante dos olhos curiosos de Hyoga e de Fiodr, a quem ele pediu que o ajudasse a preparar um chá com bolinhos.
— Oui, Mademoiselle — respondeu o inexorável mordomo, como sempre fazia, já se virando de costas para Afrodite, que tinha um avental nas mãos para vesti-lo por cima do fraque.
— Hyoga, meu bem, pegue o diário da maman na bolsa — pediu o pisciano enquanto dava um laço caprichado nas tiras do avental de Fiodr. — Prontinho, Jarbas. Assim não vai sujar sua roupinha de pinguim.
— A senhora tem um diário, maman? — Hyoga perguntou trazendo para ele o caderninho de capa de pelúcia cor-de-rosa salpicada por gliter branco.
— Não. Você tem um diário, só que quem escreve sou eu — respondeu o pisciano que após se desfazer da peruca platinada prendia os cabelos azuis num coque bem no alto da cabeça. Para proteger o vestido de seda azul marinho ele vestiu também um avental igual ao que colocara em Fiodr, cuja barra era bem maior do que a saia do vestido, a qual deixava suas coxa roliças à mostra. Livrou-se dos Louboutin de salto altíssimo os jogando debaixo da mesa e então pegou o caderninho das mãos de Hyoga, que agora tinha uma expressão confusa no rosto.
— Meu? — Ele perguntou.
— Sim, seu. É que estou escrevendo umas coisas aqui para você, tipo... ensinamentos e sabedorias cotidianas. Já que vai passar anos enfiado naquela Sibéria precisa saber de umas coisas importantes.
— Tipo o quê? — Hyoga riu divertido ao comparar mentalmente o diário rosa frufru da “amazona de Peixes” com os diários milenares que costumava estudar, como o do renomado Degel de Aquário.
— Tipo como fazer café e bolinhos de chuva passados no açúcar.
— Ah, sim, isso é realmente muito importante! — Hyoga apertou os lábios. Para ele agora ficara mais claro do que nunca a diferença entre Cavaleiros e Amazonas.
Afrodite estreitou os olhos e o encarou muito sério.
— O que é isto que estou vendo aí?
— Onde?
— Nessa sua cara bonita.
— Na minha cara?
— Ah! Já sei! É deboche.
Hyoga teve um sobressalto.
— Não, maman! — Ele respondeu de pronto arregalando os olhos, mas segurando a vontade de rir.
— Pois para o seu governo, um homem que sabe fazer bolinhos de chuva passados no açúcar e café, um otim... digo, uma bebida, quente e revigorante, tem muito mais chances de arrumar uma parceira do que um mocorongo que não sabe.
— Parceira? — Ele perguntou curioso.
— Sim, oras. Filho, você precisa saber fazer uns quitutes para na eventualidade de encontrar uma esquimózinha bonitinha perdida em algum iglu por lá.
— Maman! — Hyoga arregalou os olhos e riu.
— Vai por mim, para quem certamente está acostumada a comer gelo e sardinha, conhecer um homem que lhe ofereça bolinhos com café quentinho conquistará seu coração na certa! Não estou certa, Jarbas? — disse e deu um tapinha nas costas do mordomo que estava parado ali entre eles feito um dois de paus.
— Oui, Mademoiselle.
— Viu! Jabas sabe como conquistar uma garota! Deve estar solteiro porque não sabe fazer bolinhos açucarados — disse Afrodite indo até o armário para pegar tudo que fosse preciso para preparar a receita. — Mas isso muda hoje! Jarbas, você vai aprender a fazer o melhor bolinho desse mundo e vai conquistar muitas amapôas... digo, muitas velhas senhoras distintas. Depois do baile da terceira idade é só chama-las para comer um bolinho com café aqui e então levar para o matadouro.
Felizmente Hyoga, tampouco Jarbas, ouviram a conclusão daquela frase, pois que a “madame” fazia tanto barulho com as panelas procurando a mais adequada que mal ouviam seus pensamentos.
— Maman, eu não estou indo para Sibéria arrumar uma namorada. Estou indo treinar para clamar a armadura de Cisne — Hyoga disse rindo. — Além disso, eu sou novo para isso, né.
— Ah! Agora sim você chegou no ponto que eu queria! — disse Peixes virando-se para ele de supetão e lhe apontando uma colher de pau. — Bem lembrado! Você é só uma criança, a minha criança. E se é jovem demais para arrumar uma namorada, também é para matar gente pela Vory v Zakone, não acha?
— Maman... Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.
— Claro que tem!
— Matar não é uma escolha, é uma necessidade, maman! Faz parte do meu crescimento e amadurecimento como futuro cavaleiro e Vor.
— Necessidade se tem de comer, dormir, rir e de fazer xixi, não de matar! Aproveita e anota isso aí no meu diário que é seu. Criança não namora, e criança não mata para máfia, embora o seu pai te ensine o contrário — fez uma pausa e então suspirou profundamente. Já tivera antes aquela conversa com Camus, e embora não gostasse de saber que Hyoga seguiria os passos do pai, não tinha como mudar isso, já que era seu único sucessor. Além disso, não fosse pela máfia, a vida como cavaleiro de Atena mudaria Hyoga para sempre, como havia mudado a si mesmo e tantos outros que partilhavam do mesmo destino. Seu amado garotinho de dez anos nunca seria uma criança comum, e ele não podia fazer nada para evitar. Apenas podia ser o que Camus lhe pediu para ser, a rosa no meio da lama, o toque de amor e sensibilidade que manteria vivo em Hyoga sua centelha de bondade e misericórdia. — Não anota isso não... — falou resignado e num tom melancólico. — Anota a receita dos bolinhos. Isso já é suficiente.
Hyoga sentou-se na cadeira, abriu o caderninho e passou a anotar tudo que Afrodite fazia junto de Fiodr, que seguia os passos da receita direitinho, já que o pequeno russo repetia para ele em sua língua mãe tudo que a “amazona” dizia.
Camus tinha muitas cozinheiras na mansão, mas sempre que Afrodite resolvia ir para a cozinha dispensava a todas e arrastava Fiodr consigo. Adorava aquela companhia muda e disciplinada dele. Não sabia dizer o motivo, mas tinha um carinho enorme pelo mordomo.
— O óleo tem que estar bem quente para fritar — disse o pisciano e virando-se para Hyoga emendou: — Ah, falando nisso, filho, eu vou colocar uns isqueiros na sua mala, mas não deixe o seu pai ver. Depois que ele te ensinar como fazer fogo no gelo você finge que tá fazendo do jeito dele e usa o isqueiro... Vê aí se o óleo está quente, Jarbas. — apontou para a panela.
Enquanto punha no óleo quente uma bolinha de massa, Afrodite viu Hyoga se aproximar para olhar como ele fazia quando foi surpreendido por uma pergunta que o fez rir baixinho:
— Maman Di... a senhora acha que alguma garota se interessaria por mim?
— Meu amor, a pergunta certa seria se eu acho que alguma garota não se interessaria por você! — disse ele. — Você é um garoto lindo, forte, inteligente, corajoso, poliglota, cabeludo e rico. Que doida não se interessaria por você?
Hyoga deu de ombros.
— Sei lá... garotas são tão... esquisitas.
— Você diz isso agora e também porque só conhece aquelas meninas estranhas da sua escola e as putas... digo, as moças que trabalham nas casas de entretenimento da Vory, mas logo, daqui uns poucos anos, você vai mudar de ideia... Jarbas, querido, pode tirar esses senão vão queimar — disse instruindo o mordomo que com a espátula na mão virava os bolinhos para lá e para cá. — Ainda mais isolado naquele fim de mundo num frio de rachar... Ter um pezinho de esquimó para esquentar o seu é ótimo.
De repente Afrodite olhou estarrecido para Hyoga e ao vê-lo o encarando com a fisionomia séria se deu conta de que estava sendo direto demais, inadequado demais, afinal Hyoga era só um garotinho, e ele era mãe, e as mães deveriam ser figuras castas. Ele sim achava completamente normal transar dentro de um iglu quando se está isolado num deserto de gelo, independentemente da idade que tivesse, já que sua vida sexual começou muito mais cedo do que o ideal, mas não Hyoga.
Rapidamente então o pegou pela mão e o conduziu até a mesa onde se sentaram lado a lado.
— Filho, você está certíssimo — disse ainda segurando as mãozinhas dele nas suas. — O que eu quis dizer é que... bem... nada te impede de querer bem outra pessoa, de tratar bem, de desejar e gostar da companhia dela. E se isso acontecer enquanto estiver lá, na Sibéria, ótimo, porque assim não ficará tão sozinho. O seu pai vai te dizer o contrário, que deve se fechar para o mundo, para as pessoas, que deve fazer igual a ele e enfiar os seus sentimentos no c... no baú e jogar as chaves fora, mas não, não deve fazer isso, não precisa fazer isso. Não é se tornando um homem rude e solitário que fará de você um cavaleiro poderoso. Isso só fará de você um cafuçu, nada mais.
— E o que acha que fará de mim um cavaleiro forte, maman?
— Amigos... amor... — disse com um sorriso no rosto e os olhos brilhantes, tocando o nariz de Hyoga com a ponta da unha comprida esmaltada em azul turquesa. — Sabe, vou falar na sua língua. A amizade e o amor são habilidades especiais que quando você conquista te dão bônus de força, determinação e coragem. Acredite, você fará o que for preciso e romperá qualquer barreira para defender seus amigos e as pessoas que você ama.
— Entendi, maman.
— O treinamento que Camus te dará é pesado, difícil, doloroso, mas necessário para que fortaleça o seu Cosmo e o seu corpo, mas se tiver uma esquimozinha por lá com quem possa comer uns bolinhos com café de vez em quando tudo ficará mais fácil — disse lhe fazendo um carinho na bochecha corada — Aquenda o seu pai e eu. Por mais que nosso relacionamento seja proibido porque eu preciso fingir ser um homem que finge ser uma mulher... não, quero dizer, eu sou uma mulher que finge ser um homem que finge ser amada... não... Bom, você entendeu que eu sou uma mulher de verdade que precisa fingir ser um cavaleiro, né?
— Sim maman.
— Então, e por mais que eventualmente o seu pai negue e tente esconder os sentimentos dele, é o amor que sentimos um pelo outro que nos dá força e nos mantém perseverantes. Esse é o verdadeiro superpoder dos Cavaleiros de Atena, o que faz nossos Cosmos se elevarem ao infinito. Amor.
Hyoga sorriu emocionado. A história de amor da amazona corajosa que burlou as tradições milenares do Santuário para poder servir Atena e que conseguiu aquecer o duro e frio coração do temido Cavaleiro de Aquário, era para ele como um inspirador e belo conto de fadas, porém ainda melhor, uma vez que era a história de amor de seus pais.
Com um ou dois suspiros o menino
— Maman — disse Hyoga, mas interrompeu-se parecendo acanhado e encolheu os ombros evitando olhar nos olhos de Afrodite.
— Hum?
— É que... Acho que não levo jeito para conquistar uma garota. Eu fico nervoso perto das meninas, sabe.
Peixes levou ambas as mãos ao próprio rosto, apertou as bochechas e sorriu.
— Oh, meu amor, mas isso é normal.
— Normal? — Hyoga levantou o olhar para ele. — Como pode ser normal eu não sentir esse nervosismo quando estou perto dos inimigos da Vory ou mesmo do Santuário, mas sentir perto das meninas? Isso é tão idiota.
— Ora, porque você é homem... um mini homem ainda, mas ainda assim um macho padrão. No seu caso é ainda um pouco pior, já que deve estar sendo doutrinado pelos péssimos conselhos do seu pai. A questão é que você está crescendo e logo vai começar a sentir... bem... sentir...
Hyoga olhava para ele curioso e em expectativa.
— Sentir o quê? Tesão? Libido?
Peixes arregalou os olhos assustado.
— Acuenda! Não faz isso comigo. Não assim... — disse engolindo em seco. — Você já sabe o que é... isso?
— Tesão? Claro que sei, maman — riu ele, ainda que envergonhado. — Eu já tenho dez anos, sou quase um cavaleiro, é lógico que eu sei o que é tesão, e também sei quase tudo sobre sexo.
— Credo, se me desse um tiro na cara não teria me assustado tanto! Como o tempo passa! — Peixes respirou fundo olhando absorto para ele.
— Bom, eu... eu já ia mesmo escrever no meu diário que é o seu diário umas dicas, sabe, para... para te ajudar a entender as transformações que se darão no seu corpo na puberdade e... Dadá, isso tá mais difícil do que imaginei que seria — disse passando a barra do avental no pescoço, sentindo o suor brotar aos poucos de sua pele.
Nessa hora Hyoga olhou sério para ele e com toda naturalidade do mundo disse:
— Maman! Não precisa se preocupar com esses assuntos. Embora eu já saiba dessas... dessas coisas na teoria, afinal o pére já me explicou tudo, eu acho melhor ter esse tipo de conversa com ele que também é homem, né. Eu sei o que os adultos fazem no quarto quando estão juntos, assim como eu sei o que é o Templo das Bacantes. A casa de shows que a senhora dirige junto com a tia Geisty e o tio Mu é também um prostíbulo. Eu não sou inocente, mas... sabe, é um pouco constrangedor para mim falar sobre essas coisas com a senhora porque a senhora é mulher, e não é qualquer mulher. É a minha maman.
Embora as palavras soassem extremamente maduras e firmes, o rosto de Hyoga estava completamente ruborizado.
— Dadá misericordioso! — exclamou Afrodite, que tinha os olhos esbugalhados cravados no rosto acanhado de Hyoga. O papel de mãe zelosa e casta por vezes lhe punha em situações para lá de embaraçosas, como aquela em que tinha que fingir não conhecer mais da fisiologia masculina do que uma dama deveria conhecer. — Mas, filho, justamente por ser sua mãe é que quero que saiba que pode falar de qualquer assunto comigo, certo? Mas, se você se sente melhor em falar disso com seu pai eu não vou forçar a barra, mas vou deixar umas coisas anotadas no meu diário que é seu diário.
— Certo... Mas a senhora tem razão quando diz que faríamos tudo por nossos amigos, e que é essa determinação em proteger as pessoas que amamos que nos faz fortes. Eu queria poder fazer algo pelo Kiki... ele é meu único amigo de verdade — disse, e triste baixou a cabeça recordando-se do rosto abatido do lemuriano ruivinho, a quem visitou há dois dias atrás. — Eu faria o que fosse preciso para vê-lo curado.
— Oh, meu amor, eu sei que faria. Todos nós faríamos — disse Afrodite o puxando para um abraço forte. — Mas temos que ter fé, em Atena, em Dadá, mas principalmente no Mu e no Shaka, que estão fazendo o possível e o impossível por ele testando diversas formas de cura. Logo eles vão encontrar a ideal.
— E eu tenho. Eles vão conseguir, mas é que... — Hyoga fez uma pausa enquanto encaixava a cabeça na curva do pescoço de Afrodite. — É que... eu não queria ir para a Sibéria sabendo que ele ainda está tão doente e depois não poder mais ir visita-lo... Já vai ser tão ruim estar isolado e ainda mais sem notícias.
— Mas quem disse que vai ficar sem notícias? Estarei lá toda semana para te levar amor, apoio, sopa quentinha e notícias! — disse Peixes beijando os cabelos loiros dele.
Hyoga de repente afastou-se para poder olhar Afrodite nos olhos contornados caprichosamente com lápis azul metálico.
— Maman, vamos ser sinceros. A senhora sabe que não vai poder ir para lá toda semana, não sabe? — disse sério.
Afrodite respirou fundo e apertou os lábios. Fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— E a senhora sabe que também não vou poder levar nada do que comprou hoje no shopping. Nem os cobertores, nem os pijamas de lã, as botas, gorros, meias, cachecóis...
— Nem os travesseiros térmicos?
— Nem eles, maman.
— Os isqueiros?
— Nem os isqueiros, nem as sopas, os chocolates, os tapetes de lã e muito menos o aquecedor. Nada.
— O seu pai é um brucutu enferrujado!
— O meu pai é o Cavaleiro de Aquário, maman, e eu sou seu sucessor, é assim que tem que ser... e ele vai deixar a senhora ir para lá uma vez por mês, quem sabe. — Hyoga suspirou longamente e voltou a abraçar forte Afrodite. — E eu não acho que ele esteja errado ou sendo rígido demais, porque eu quero ser forte como ele e para isso preciso seguir seus passos, mas... eu queria tanto que as coisas na Grécia estivessem bem, que Kiki estivesse bem, e que a senhora pudesse estar lá comigo, todos os dias, todas as horas.
Eles continuaram como estavam por um tempo, juntinhos em silêncio, confortando um ao outro sem se mover, até que de repente Afrodite segurou Hyoga pelos ombros e o afastou para que pudesse olhar em seu rosto.
— Que as coisas na Grécia fiquem bem enquanto estiver na Sibéria, isso não posso te garantir, já que aquele Santuário é a própria casa da mãe Joana e todo dia acontece um babado diferente... Se o Kiki vai ficar bem, isso também não posso te garantir, mas te falei para ter fé. Essa doença que pegou ele não sabe com quem ela foi se meter! Agora, estar lá na Sibéria junto com você todos os dias e todas as horas, isso sim, eu posso dar um jeito — disse entregando a ele um sorriso sapeca e o olhar de quem estava tramando algo.
— Como? Não vá brigar com meu pai de novo. Ele vai acabar tirando da senhora até as visitas mensais.
— Não. Ele nem precisa saber.
— Saber o quê?
Afrodite discretamente olhou para Fiodr no fogão que concentradíssimo fritava os bolinhos, com cuidado para não deixar nenhum queimar, depois voltou-se para Hyoga, pediu que ele ficasse sentado paradinho e então acendeu seu Cosmo. Diante dos olhos azuis curiosos do russo, Afrodite juntou as mãos, fechou os olhos e concentrou-se. Nos instantes que se seguiram, nas palmas unidas de suas mãos uma espiral do que parecia ser um tipo de pó escarlate muito fino e brilhante começou a girar e girar, cada vez mais rápido, e a cada novo giro o pó aos poucos se liquefazia, até tornar-se totalmente líquido depois de alguns poucos minutos, pairando no ar sobre as mãos do cavaleiro feito sangue vivo.
— O que é isso? — Hyoga perguntou curioso.
— É um pigmento vermelho extraído das Rosas Diabólicas Reais que crio com meu Cosmo, porém totalmente livre de toxinas... Anda, tira o relógio, estica o braço e me mostra o seu pulso.
Sem nem questionar nada, já que tinha confiança plena em qualquer ato ou palavra vinda daquela “amazona” que agora era sua mãe, Hyoga executou a ordem, atento ao que ela faria em seguida. Afrodite então conduziu com telecinese aquele pequeno espiral líquido de pigmento vermelho até o pulso do garoto e com seu Cosmo o fez penetrar na pele, pouco a pouco, e a medida que a tinta era absorvida esta era moldada pelo cavaleiro até no fim assumir o desenho de uma rosa perfeita.
— Maman! É uma tatuagem? — Hyoga perguntou eufórico, sem conseguir tirar os olhos do desenho que se mexia debaixo de sua pele parecendo vivo.
— Sim! — Afrodite sorriu. — Está quase pronta, só mais um minutinho... É a primeira vez que tento fazer algo assim, mas meio que tudo que eu penso o meu Cosmo dá um jeito de criar, então... acho que vai dar certo. Eu já sintetizei pigmentos a partir das rosas que crio com meu Cosmo. Foi assim que pintei meu cabelo de vermelho naquela festa de Halloween do Batman, lembra?
— Lembro. A senhora estava de Hera Venenosa. Estava linda!
— Foi do babado aquele dia. Dadá é mais! — Ele disse e logo em seguida se benzeu. Nesse dia em questão tinha sido negligente e atacado por Diógenes, o braço direito de Polifemo, que acabou com os testículos congelados. — Pronto!
— Uau! Irado! — Hyoga levantou o pulso até a altura dos olhos e absorto passou os olhos por cada detalhe. Era uma tatuagem pequena, dava para ser escondida perfeitamente pela pulseira do relógio ou por ataduras, mas era viva como uma rosa real.
— Pela poderosa deusa! Eu fiz uma tatuagem em você! Alôca! O brucutu do seu pai vai me matar — disse Peixes levando ambas as mãos ao rosto lívido.
— Maman, eu sinto como se ela estivesse viva!
— E ela está. É o meu Cosmo que está aí, dentro de você. Essa rosinha é um pedacinho de mim que irá com você para a Sibéria, e toda vez que se sentir triste, com medo ou com saudades é só olhar para ela, só senti-la — ele sorriu acariciando o rosto do menino.
— Obrigado, maman. Eu adorei! — Hyoga jogou-se nos braços dele o enchendo de beijos.
— Ah, meu amor, mon petit, vou sentir tanta saudades... Olha, não deixe o seu pai nem ninguém ver essa tatuagem, heim.
— Não vou deixar, é nosso segredo.
— Fechado. Agora vamos ajudar o Jarbas com os bolinhos que daqui já estou vendo que ele fez bolinhos de tempestade e não de chuva.
Ao chegarem no mordomo, Afrodite assumiu o fogão enquanto Hyoga foi preparar o café. Lancharam juntos os três. A madame sempre fazia questão que Fiodr se sentasse à mesa com ela e Hyoga quando Camus não estava em casa, assim um fazia companhia ao outro. O mordomo não ficava muito confortável em dividir as dependências e atividades dos patrões com eles, mas não era como se pudesse dizer não aos caprichos de Afrodite.
O jantar se deu horas mais tarde, com apenas Hyoga e Afrodite, que na ausência de Camus dispensaram os cozinheiros e pediram uma pizza tamanho gigante de anchovas com abacaxi e queijo cheddar. Para brindar beberam suco de tomate estupidamente gelado. Hyoga ficava impressionado em como sua mãe, uma dama tão sensível e delicada, pudesse ter o apetite de um homem, mas não a contestava. Adora a companhia dela nas refeições, até porque só ela dividia consigo o gosto peculiar por combinações tão exóticas.
Já passava da meia-noite quando cansados de esperar por Camus e de jogar Game Boy os dois adormeceram na sala. Fiodr, atencioso e dedicado como sempre, veio recolher a criança para colocá-la na cama e acordar a madame para que fosse dormir na suíte de Camus.
Afrodite poupou o simpático senhor e ele mesmo levou Hyoga para o quarto, dirigindo-se em seguida para a suíte onde encheu a banheira de hidromassagem, despejou os muitos saches de sais de banho que havia comprado naquela tarde e enfiou-se dentro para esperar o francês.
Continua...
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