Templo das Bacantes Vol. 3
32 A, de Camus
Notas iniciais

Templo das Bacantes, 23:30pm
Oito anos que já vinha cumprindo aquela enfadonha e nada apropriada, especialmente para alguém com um histórico como o seu, atividade como segurança da casa. Muitas foram as vezes em que se perguntara por que continuava a fazer aquilo. Por que, logo ele, cujo maior prazer era matar, aceitava ser pago para proteger a integridade física e espiritual de pessoas que certamente não pensaria duas vezes em mandar as almas direto para o inferno.
A resposta quase sempre vinha na mesma forma.
— Você não leva seu trabalho nada a sério, né Máscara? — riu a bacante sentada no colo do italiano depois de dividir com ele um gole do mais puro Bourbon servido por sua língua perfumada e macia. A manobra sensual, quase obscena, deixou impressa nos lábios finos do cavaleiro uma marca cremosa e púrpura de batom com cheiro de cereja.
— Che cosa? — ele perguntou passando a língua entre os lábios e dando a ela um sorriso malicioso. — Não ouvi o que disse, bella.
Sem mais a moça levou ambas as mãos às duas orelhas dele e arrancou delas os protetores auriculares.
Máscara da Morte fez uma careta feia, mostrando os dentes e encolhendo os ombros assim que música frenética e o som ambiente das vozes e risadas em volume altíssimo lhe golpeou impiedosamente os tímpanos, acostumados à leveza e poesia dos clássicos eruditos.
— Eu disse que você não leva o seu trabalho a sério — ela repetiu aos risos elevando a voz. — Não deveria estar aqui no bar, com a casa lotada como está.
O italiano deu um longo suspiro, revirou os olhos e no melhor estilo canceriano dramático inclinou-se em direção ao colo dela até meter o nariz pontudo todinho na junção entre os seios fartos.
— No seja injusta comigo, Rebecca. O que io mais faço é lavorare! — disse, com a voz abafada pelos seios macios. — Tudo na mia vita é lavoro e mais lavoro... Lavoro qui, lavoro em casa mia, lavoro fora... lavoro, lavoro... Io tô cansado de tanto lovoro!
Misty de Lagarto tinha chegado ali a tempo de ouvir toda aquela lamúria, e nada convencido dela retirou o copo de Bourbon da mão de Rebecca e lhe fez um sinal para que descesse do colo do canceriano e voltasse a circular pelo salão imediatamente. Na ausência de Afrodite, que se apresentaria naquela noite, era Lagarto quem estava auxiliado Geisty na organização da casa.
— Pois deveria deixar para descansar depois, Máscara, e de preferência fora do expediente! — disse Lagarto devolvendo o copo ao balcão. Enquanto acionava o ponto eletrônico para atender a um chamado da amazona de Serpente, olhou para baixo e viu que Máscara da Morte tinha um dos pés descalços. Sentiu um arrepio incômodo na coluna. — Anda, coloca esse sapato no pé e volta já para o seu posto! Dieu!
Misty saiu pisando duro e puxando Rebecca consigo pela mão.
No momento seguinte Aldebaran, do lado oposto do balcão, debruçou com os cotovelos sobre este e olhou quase sério para o italiano. Quase, porque era humanamente impossível levar Aldebaran à sério.
— Aê, qual o problema com o sapato, ô comédia? — ele perguntou já esticando os olhos curiosos para baixo.
Máscara da Morte levantou os olhos para ele enquanto acendia um cigarro.
— O mio dedão está me matando!
— Puta que me pariu! Minha Nossa Senhora! Mermão, tu não fala isso hoje não! — Touro exclamou, com os olhos jabuticabas arregalados. — É aquele dedo profeta que dói para avisar que vai dar merda?
— Ah, no! — o italiano respondeu efusivo soltando a fumaça para o alto. — É só unha encravada mesmo.
Aldebaran enxugou a testa suada com o paninho que sempre trazia em um dos ombros e suspirou aliviado.
— Ufa! Graças a Deus! Me deu até suador! Menos mal... Sacomé, cara, o home tá aqui hoje, né — apontou fazendo um bico para um ponto no salão onde Saga estava em uma mesa acompanhado de mais três homens. Um deles era o dono da mais influente empresa norueguesa de transporte de pescados no mundo todo, Nicodemou Daskalanis. Os outros eram o advogado e o segurança pessoal dele. — É a primeira vez que ele vem aqui no bordel desde que o encosto foi exorcizado pros quintos do Hades. Não que eu ache que isso seja um problema, mas seguro morreu de velho, né?
Máscara da Morte deu de ombros. Agora, enquanto tragava profundamente o cigarro, olhava fixamente para a mesa onde estava Saga, percebendo uma certa melancolia tanto em seu semblante quanto nos gestos. De longe ele lembrava aquele homem de semanas atrás, cuja altivez e prepotência saltava dos poros feito suor. Era visível e facilmente perceptível o desagrado dele em estar ali.
E de fato o Cavaleiro de Gêmeos sem dúvida alguma, e se tivesse escolha, declinaria daquele compromisso; isso se este não tivesse sido previamente agendado semanas atrás pela própria amazona de Serpente.
Na ocasião, Geisty sequer imaginou que quem estaria sentando à mesa junto do proprietário das transportadoras Daskalanis naquela noite seria Saga em sua plena consciência, ao invés daquela sua versão odiosa e desprezível. Por essa razão precisou passar algumas poucas horas reunida com ele para lhe por a par dos acordos de parceria que ela, junto de sua versão maligna, estavam negociando com o magnata. Tarefa que para ela não fora nada fácil, já que ainda sentia-se extremamente desconfortável na presença do geminiano e o evitava o máximo possível. Contudo, foram meses de trabalho duro e muita lábia até que enfim conseguisse convencer Nicodemou Daskalanis a aceitar fazer negócios com a máfia grega. E como era Saga quem respondia por esta seu trabalho terminava ali.
Gêmeos sempre fora muito competente em lidar com os assuntos da máfia e agora não seria diferente, Geisty sabia. O problema era que Saga não estava em seus melhores dias e isso era perceptível, a julgar pela garrafa de água tônica e os drinks à base de chá gelado de mate com hortelã que ele pediu para acompanhar os convidados em seus whiskys e gins.
Vez ou outra, cavaleiro e amazona trocavam um olhar furtivo, cada qual com seus próprios pensamentos, então logo voltavam suas atenções para o que as demandava de fato. Saga para o magnata e seus homens, Geisty para o salão, as bacantes, os convidados...
Esses, por sinal, eram muitos naquela noite.
Não apenas o sobrinho mais velho do senador Praxédes fazia aniversário no mesmo dia que comemorava o lançamento de sua candidatura a prefeito de Atenas, mas os membros mais influentes de duas organizações criminosas poderosas também se reuniam ali para selar uma importante negociata; o líder da Vory v Zakone e o chefe argelino da máfia internacional de cambistas, Essaid Nafofa.
Com a data de sua partida para a Sibéria já praticamente estabelecida, Camus de Aquário precisou antecipar, e acelerar, muitas das negociações da máfia que não podia deixar a encargo de Andreas, seu braço direito. Uma delas era uma parceria no esquema de venda, posse e contrabando de ingressos para as Olimpíadas mais aguardadas das últimas décadas, a que seria realizada na cidade de Atenas. Aquele era um acordo que de fato não demandava tanta urgência, porém Camus não podia se dar ao luxo de contar com a sorte. Ele exigia que o controle da venda e cortesia dos ingressos para toda a Europa ocidental e do leste estivesse exclusivamente nas mãos da Vory v Zakone, e somente uma negociação cara à cara com Essaid Nafofa tornaria isso possível.
O Templo das Bacantes fora escolhido como terreno seguro para essa negociata, a qual traria milhões para os cofres da máfia russa. Naquela noite Afrodite faria uma apresentação, um musical erótico encomendado pelo próprio senador Praxédes para seu sobrinho, logo o cenário se desenhava perfeito. Com a casa lotada pela escória política ateniense e seus tantos cupinchas, mais o extenso público que sempre marcava presença nas apresentações ocasionais de Afrodite e Geisty, haveria gente e motivos de sobra lá para camuflar os olhares que certamente seria incapaz de desviar do palco assim que os holofotes iluminassem o pisciano. Contudo, por precaução Camus escolheu para acompanha-lo naquela noite o seu braço direito, Andreas, e os outros quatro homens de sua estrita confiança, Chesla, Miroslav, Josef e Victor. Achou por bem ir acompanhado de todos eles, já que a comitiva de Essaid Nafofa contava com mais sete argelinos de fisionomias nada amistosas, e se tivesse que vencer aquela batalha de egos baseado nas carrancas mais intimidadoras ele tinha certeza de que seus russos dariam fácil conta do recado.
Assim, lá estavam eles, numa das mesas de toalhas negras tão longas que tocavam o chão e que ficava bem próxima do palco. Sobre esta haviam várias fileiras de pó branco prontas para consumo junto de toda a sorte de garrafas, desde os whiskies mais caros da casa até as vodcas russas mais raras, umas já pela metade, outras tão secas quanto o ar do deserto. Em torno deles muita fumaça de charutos e cigarros e algumas prostitutas de seios à mostra com sorrisos gentis. Todos aguardavam a apresentação, mas certamente nenhum estava mais ansioso que Camus.
Ao lado deles, Praxédes e seu sobrinho algazarreavam sentindo-se os donos da noite. Cerca de vinte homens ocupavam o espaço compartilhando três mesas, bebidas, drogas e mulheres. Aquela noite tinha custado alguns bons milhões aos cofres públicos da cidade de Atenas.
Ocupando o centro do salão estavam os frequentadores assíduos da casa, alguns novos visitantes ilustres, mais convidados do senador e alguns de Geisty e Afrodite. Na outra extremidade estava Saga e o magnata dos transportes marítimos.
Gêmeos talvez fosse o único que não consumia álcool ali naquela noite, pois que até Geisty lá pelas tantas havia se rendido a uma farta taça de Chianti.
— Bebendo em serviço, querida?
A alfinetada de Misty fez a amazona lhe lançar um olhar dardejante antes de virar o último gole de vinho goela abaixo e deixar a taça vazia sobre o balcão do bar.
— Bêbada ainda sou mais competente que você, querido — ela respondeu enxugando o cantinho dos lábios com a ponta do indicador. — Resolveu o problema da reserva do arcebispo?
Misty suspirou e revirou os olhos num gesto enfadonho.
— O Ronie já vai lá para o quarto. Pedi para o pecador esperar só mais dez minutinhos. Olha, amor, eu não tenho culpa se a loca do Afrodite marcou dois programas ao mesmo tempo para o Ronie. Ele sabe muito bem que o arcebispo é cliente fixo do Ronie e que vinha hoje.
— Afrodite anda com a cabeça na lua esses dias... digo, mais do que o normal dele — Geisty disse preocupada. — Será que ele está com algum problema?
— Ah, sim! Ele está! As sinapses dos dois neurônios na cabeça dele devem estar dando tilt.
Geisty respirou fundo e deu uma rápida olhada no relógio elegante em seu pulso, em seguida agitou as mãos no ar bem ao seu modo italiano.
— Por falar no Afrodite, faltam só dez minutos para o show. Eu vou lá dar uma apressada nele no camarim, e você mande servir outra dose de Bourbon para o arcebispo junto com uma tábua de frios com damascos e tâmaras, do jeito que ele gosta. E diga a ele que o Viagra hoje é por conta da casa, pelo atraso do Ronie.
Geisty mal terminou de dar a ordem e seguiu direto para o camarim de Afrodite. No caminho não pôde evitar olhar para a mesa onde estava Saga. Desviou rapidamente o olhar quando seus olhos cruzaram furtivamente com os dele.
Sentia o peito apertar como nunca enquanto cruzava o salão; forçava-se a ignorar aquela sensação.
***
Com dois toques fortes na porta Geisty entrou sem precisar se anunciar.
— Cinco minutos! Dite você está pronto? — ela perguntou procurando pelo pisciano naquele mundaréu de araras de roupas coloridas espalhafatosas, acessórios brilhantes, garotas seminuas e muitos, muitos arranjos de flores.
Esses sempre vinham aos montes quando Afrodite se apresentava no Templo das Bacantes, e todos tinham o mesmo remetente: Bruce Wayne.
— Quase! Aquenda só mais uns minutinhos, Mosca.
A voz veio gritada do fundo do cômodo e chamou a atenção imediata dos olhos violetas, mas tudo que estes viram foram os corpos esbeltos de Karina, Natasha e Yumi já com o figurino da apresentação, curtíssimos e insinuantes vestidos de látex preto, meias arrastão e botas até as coxas de saltos altíssimos. A maquiagem e o cabelo remetiam à Era do rádio, e aquela mistura casou muito bem com a proposta e a música escolhida por Shina de Ofiúco, que também havia coreografado o número.
— Meninas, se já estão prontas podem ir para o palco. O pessoal do som já está fazendo os últimos acertos — orientou a amazona batendo palmas estridentes para lhes chamar a atenção. A ordem dela foi prontamente atendida.
Sozinha ali Geisty foi até ao fundo do camarim, onde encontrou Peixes fazendo um gargarejo com uma mistureba de ervas, gengibre e mais algumas coisas de aparência bem contestável.
— Uau! Você está lindo! — ela sorriu surpresa, recostando-se no batente da porta do pequeno lavabo que havia ali. — Afrodite, você está com algum problema?
— Hum... — Peixes gemeu antes de cuspir o preparado e depois lavar a boca com água. — Não. Só acordei meio rouco hoje e essa música exige uns tons altos que quando fui passar o som não consegui alcançar... Mais parecia uma seriema fanha, alôca! — virou-se de frente para ela e suspirou fazendo um bico, aparentemente chateado. — Ah, quer saber? Tem um problema sim. Você.
— Eu?! — ela piscou os olhos surpresa levando as mãos ao peito.
— Sim, Mosca, você. É a primeira vez que me apresento sem você — disse num tom cheio de manha. — Não vai ser a mesma coisa... Ah, eu queria você lá comigo.
— Eu sinto muito te deixar na mão dessa vez, bicha linda, mas é que... eu não iria conseguir, sabe? — ela lamentou abaixando o rosto. Seus olhos então se prenderam no bico de metal das botas militares de vinil branco que ele usava. — Ainda mais com o Saga na plateia hoje... Sei que não é nada profissional da minha parte, mas dessa vez não dá. — lamentou, ajeitando a franja com os dedos num cacoete insistente.
— Eu entendo — ele disse sorrindo, depois segurando no queixo dela a fez levantar a cabeça e olhar em seus olhos. — Estou só fazendo um charminho, não me leve tão a sério... Mas na próxima quero você junto comigo, heim? Trata de voltar a ser a minha Mosca de estimação logo, sua franjuda odiosa. Sinto sua falta.
Geisty sorriu para ele.
— Vem cá — ela o pegou pela mão coberta por uma luva de látex branco que ia até um palmo acima dos cotovelos e o fez se sentar numa das cadeiras que havia ali, depois retirou um batom das profundezas do decote estruturado de seu vestido e começou a passar nos lábios dele. — Assim você me leva junto com você para o palco.
Peixes sorriu para ela com os olhos. Sentia seu coração quentinho só por aquele gesto tão simples.
— Não vai me passar sapinho com esse seu batom com cheiro de xarope vencido não, né?
— É a Shina que tem sapinho, não eu.
Ambos deram juntos uma longa e sonora gargalhada.
***
Quando Afrodite seguiu para o palco, Geisty o acompanhou até as escadas que davam acesso a esse, onde as bacantes que fariam parte do número já o esperavam. Ali eles se separaram e ela voltou para o salão para assistir de camarote ao amigo cavaleiro fazer queixos caírem e outras partes dos corpos sedentos dos expectadores subirem.
Quando as luzes do salão se apagaram e gradativamente as do palco foram colorindo o cenário em que se daria o musical, em sua mesa discretamente Camus puxou um óculos escuros do bolso interno do blazer e os colocou. Com eles poderia olhar à vontade para Afrodite no palco e se esbaldar com cada pedacinho dele. Seus capangas estavam acostumados àquele gesto, pois que era assim que Camus agia quando queria estudar os homens com quem fazia negócios, em seus momentos de distração, sem levantar suspeitas.
Pobre iludidos.
Assim que os primeiros acordes da canção soaram pelo salão, luzes brancas iluminaram o palco revelando os músicos numa formação idêntica à de um grupo clássico de Blues. Trompete e saxofone reluziram forte exibindo seu brilho de ouro, que somado à elegância do piano e dos smokings dos músicos conduziram de imediato a plateia aos tempos dos concertos de Blues e Jazz nos pubs do subúrbio. Karina, Natasha e Yumi gingavam seus corpos esbeltos no ritmo da batida atrás de três tripés com microfones do modelo antigo. Há dois anos elas eram as vocais de apoio oficiais do Templo das Bacantes e acompanhavam Afrodite em quase todos os seus números. A canção escolhida por Shina foi um clássico do gênero, eternizado pela musa do Blues Etta James, I Just Wanna Make Love To You, por isso o figurino de Peixes remetia à letra e tinha tudo a ver com ele, era obsceno, esplendorosamente sensual e debochado.
Quando a atração principal daquele número surgiu no palco, em meio a uma nuvem de fumaça com perfume de rosas, o som alto e agudo de um estalo de chicote fez muita gente na plateia encolher os ombros num sobressalto. Na mão direta de Afrodite, este gingou no ar mais uma vez antes de se enrolar habilidosamente em sua cintura nua e esguia, já que a calça de látex branco tinha o cós tão baixo que cobria exatamente apenas o essencial. Na cabeça uma cartola branca, propositalmente pensa para um dos lados, trazia presa junto à fita de cetim da mesma cor uma rosa vermelha exuberante, e compondo o visual talvez estava a peça que mais chamava a atenção e instigava muitos dos homens presentes ali, uma larga coleira de couro que cobria quase todo seu pescoço e exibia na frente a letra A, grande, brilhante, moldada em ouro e cravejada com diamantes.
Todos no salão imediatamente deduziram que se tratava da letra de seu próprio nome, A de Afrodite, porém somente ele e Camus sabiam que não.
Aquele A era de Aquário.
“I dont want you,
To be no slave.”
Já na primeira estrofe Afrodite procurou Camus pelo salão. Quando o encontrou, naquela mesa cheia de russos e outros brutamontes mal encarados, abriu um sorriso largo para ele e passou os dedos pela letra A na coleira em seu pescoço.
“I dont want you,
To work all day.”
Na mesa, Camus devorava o sueco com os olhos protegidos pelos óculos escuros. Não era capaz de desvia-los nem por um instante da figura fascinante que o seduzia em segredo.
“But I want you, to be true
And I just want to make love to you.
Yes, love to you.”
Na mesa do senador Praxédes, o sobrinho fanfarrão e alguns dos homens mais despojados de seus disfarces de homem hétero, cidadão de bem e pai de família, já tinham levantado de seus assentos e agora acenavam e gesticulavam para o pisciano no palco, indo ao delírio com o número. E por mais que estivesse acostumada àquele tipo de coisa, Geisty nunca deixava de rir do papel patético ao qual eles se prestavam. Certamente se cruzassem com Afrodite na rua num dia comum, não apenas lhe virariam a cara ou o olhariam com desprezo e nojo como ensinariam também seus filhos a fazerem o mesmo.
Ela pensava nisso quando seu rosto bonito assumiu um semblante de puro desagrado, então para mandar a revolta embora pediu uma nova taça de Chianti a Aldebaran, que também assistia ao show com um sorrisão no rosto.
Um sorriso cheio de satisfação também estampava o rosto do magnata dos transportes marítimos. Muitos foram os elogios que Nicodemou Daskalanis teceu ao Cavaleiro de Peixes para Saga, que concordava cordialmente com cada um deles.
Mas ao contrário do magnata e de quase todos ali, os olhos de Saga não estavam presos ao belíssimo homem no palco, mas à figura vestida em um lindíssimo Versace azul prateado recostada no balcão do bar. Já tinha contado quantas taças de vinho ela tinha pedido desde que chegara ali; foram muitas, o que lhe causou bastante preocupação. No entanto, que moral ele tinha para querer agora cuidar dela? Sendo que tinha sido ele a coloca-la em tal situação.
Saga respirou fundo levando as mãos aos olhos e os esfregando cansado.
No refrão da canção, Afrodite desceu do palco e agora circulava pelas mesas com o chicote na mão incitando os convidados. Por onde passava, uma chuva de pétalas de rosas, cujo perfume inebriava e excitava, o acompanhava.
Na mesa do senador Praxédes ele sentou no colo do aniversariante e enrolou o chicote em torno do seu pescoço. Simulou um beijo tórrido enquanto fingia enforca-lo.
Quem dera pudesse mesmo apertar aquele chicote até a cabeça dele rolar pelo piso de mármore escovado do salão. Seria um político corrupto a menos na extensa lista de canalhas em cargos públicos de Atenas.
Antes de voltar ao palco para a última parte do número, Afrodite propositalmente passou pela mesa de Camus e discretamente passou os dedos por seus cabelos ruivos. O aquariano reagiu o tocando com seu Cosmo gelado, provocando nele um arrepio tão frenético que quase o fez engasgar-se enquanto cantava. Uma interação que passou completamente despercebida por qualquer um ali, mas que deixou a ambos excitados.
Camus nem sequer ouvia os comentários maldosos e ofensas que seus homens direcionavam a Afrodite. Sua atenção era exclusiva dele.
“I don't want you sad and blue
And I just wanna make love to you
Love to you, ooohooo
Real love to you, ooohooo”
Afrodite cantava sem tirar os olhos de Camus, que prisioneiro daquele olhar hipnotizante apanhou o copo de vodca e o levou à boca, mas não sorveu a bebida de imediato. Ao em vez disso ele passava a língua discretamente na borda junto aos lábios como se estivesse beijando o vidro. Na penumbra, e bêbados como estavam, os homens na mesa nem se deram conta do gesto, mas Afrodite sim. Do palco ele sentia o coração acelerado, o peito quente e o pênis já meio rijo pulsando, apertado dentro do látex.
“And I just wanna make love to you”
Peixes não sabia como, ainda, mas precisava desesperadamente beijar aquele homem ou enlouqueceria.
Camus, no entanto, fora tirado daquele momento de êxtase sublime por um cutucão que Chesla lhe deu no braço.
— Eu tô muito louco ou essa bicha tá olhando para o senhor e fazendo gracinha, chefe? — disse o russo, que apesar de já bem bêbado tinha notado que Afrodite olhava insistentemente na direção da mesa em que estavam.
Camus fora pego de surpresa pela pergunta. Relativamente irritado, despejou a vodca toda do copo garganta abaixo e o devolveu à mesa tranquilamente.
— Isso incomoda você? — questionou sem demonstrar nenhuma emoção, em seguida acendeu um cigarro e fez um sinal para o garçom que lhe trouxesse mais uma garrafa de vodca russa.
— Claro que incomoda! Quem esse viado nojento pensa que é?
Atentos à conversa, Josef olhou para Camus na mesma hora que Andreas. O primeiro pigarreou e fez um gesto de extremo desagrado, concordando com Chesla, o segundo encostou as costas na cadeira e cruzou os braços sem dizer nada.
— Ele é um Cavaleiro de Ouro. Um irmão de armas. Deixa ele olhar para quem ele quiser, merde, non caiam nos jogos dele — Camus respondeu calmamente.
— Que insolente! — protestou Josef. — Esse maricas nunca soube qual o lugar dele. Bicha estúpida!
— Está merecendo uma boa surra! — completou Victor.
— É. Dimitri já teria dado um jeito nele. — completou Chesla.
Camus sentiu ganas em arrancar a língua deles.
Embora esperasse por algo parecido quando decidiu trazê-los consigo para a reunião com os argelinos, sabendo que Afrodite se apresentaria naquela noite, a menção do nome do antigo Vor fez o sangue do aquariano ferver. No entanto, seu rosto permanecia frio e calmo feito um lago congelado.
— Chesla, Dimitri está morto — disse com a voz firme e em tom autoritário. — Dentro daquela cova no cemitério Vagankovskoie sua carne podre alimentou os vermes por dias até non sobrar mais nada além dos ossos. Eu honro sua memória e seu nome, mas agora eu sou o Vor, e eu non sou Dimitri Yurievich Volkov. Non admito que me comparem a ele.
Naquele ponto, um frio incomum e sobrenatural fez a pele de todos na mesa arrepiar e os queixos baterem frenéticos. Os argelinos, sem entender de onde este vinha, começaram correr os olhos pelo salão à procura de alguma saída de ar condicionado, mas não viam nada.
Porém os homens da Vory sabiam bem de onde ele vinha.
— Se algum de vocês estiver nostálgico demais, com saudades dos tempos em que Dimitri era o Vor, eu posso fazer o favor de manda-lo agora mesmo para junto dele — emendou Camus calmamente ao tragar o cigarro em seus dedos.
— Mãe Santíssima, chefe! — disse Miroslav recolhendo o blazer deixado nas costas da cadeira e o jogando sobre os ombros. — Não dê ouvidos a esses idiotas não!
— É, ninguém sente falta do Dimitri, chefe! Não é, Chesla? — disse Victor batendo os dentes.
— Porra, com certeza! Foi mal, chefe — concordou Chesla virando uma dose de vodca goela abaixo. Tremia tanto que deixou cair metade por cima da mesa.
Andreas seguia acompanhando a discussão calado.
— Ótimo! — disse Camus respirando fundo. — Também me desagrada essa bicha e suas provocações, mas aqui na Grécia nós somos vizinhos e eu lido com isso desde a infância. Ele sempre foi assim... basta ignorar — Fez uma pausa e apontou discretamente para o palco. — Non se esqueçam que ele é um Cavaleiro de Ouro. Um soldado de Atena do pelotão de elite exatamente como eu, e que pode matar num estalar de dedos qualquer um nessa mesa, inclusive a mim, antes que conseguíssemos piscar os olhos... A Vory v Zakone tem um acordo de paz com o Santuário há décadas, e que eu pretendo manter enquanto for o Vor. Nós non os incomodamos, eles non nos incomodam. Isso está claro?
Todos fizeram um gesto afirmativo com a cabeça.
O Santo de Aquário achava extremamente desgastante aqueles debates, porém jamais perdia a oportunidade, sempre que esta surgia, de tê-los. Acabar com a homofobia dos homens da máfia era uma tarefa impossível, ele bem sabia disso, mas ele podia ao menos tentar ameniza-la, torna-la menos nociva e letal. No entanto, precisava ser cauteloso, discreto, sutil e paciente. Era um trabalho lento que talvez nem desse frutos, mas que ele não abriria mão.
— E como dei a minha palavra ao Patriarca, non tolerarei nenhum tipo de problema causado pela implicância de vocês com o Cavaleiro de Peixes e também com os miches que atendem aqui. Isso é desperdício de tempo e dinheiro, além de extrema burrice, porque enquanto estão com seus olhos em cima do viado no palco, os meus estão bem nas mãos desse argelino filho da puta que agora mesmo está tentando bater a carteira do Josef.
Camus blefava, óbvio. Aproveitou-se da bebedeira do argelino e da proximidade das cadeiras para distrair a atenção de seus homens, que caíram como patinhos.
Num sobressalto Josef colocou a mão sobre a carteira a encontrando bem segura no bolso de sua calça, o que não o impediu de sacar a arma e lançar um olhar assassino para o argelino ao seu lado, que bêbado como um gambá nem se tocou.
— Ei! Guarda já essa arma, Josef! — pediu Andreas que estava sentado ao seu lado, o fazendo abaixar o braço e esconder a arma. — Tá maluco, porra?
— Estão vendo? Talvez esse tenha sido o erro fatal de Dimitri. — disse Camus recuperando a atenção imediata de todos eles. — Enquanto ele tinha que estar olhando para o que importava, estava se distraindo atrás de bater em bicha... Eu já disse isso uma vez a vocês, vou repetir e espero que non tenha mais que tocar nesse assunto. Non quero nenhum de vocês batendo em viado, porque a receita é simples. Bater em bicha chama a atenção da mídia e da porra da polícia. Os diretos humanos fazem um estardalhaço de merde. Se querem dar uma surra em algum viado, que seja por motivos relevantes, como dívidas ou acerto de contas, porque se qualquer um de vocês me causar problemas por motivos idiotas como bater numa maldita bicha, eu juro que mato os dois, o maricas e o desgraçado que bateu nele. Fui claro?
— Sim chefe! — todos responderam em uníssono.
— Parfait! — ele disse servindo-se de uma nova dose de vodca. — Estamos numa noite de descontração. Acabamos de fechar um acordo milionário e logo que o musical acabar seremos servidos das mais belas vadias de toda Europa, então façam o favor de non estragarem o meu bom humor, putains de merde.
Com o silêncio voltando a reinar na mesa da máfia russa, Camus pode voltar sua atenção para Afrodite no palco que terminava de encerrar a apresentação. Ainda tiveram tempo de trocar um olhar antes que Peixes deixasse o palco. Aquário estava levemente irritado e frustrado por seus homens terem lhe roubado os instantes finais, mas só de estar ali e poder ver Afrodite em todo aquele esplendor de beleza e sensualidade já tinha valido à pena.
Passados alguns minutos, como prometeu que faria Camus fez um sinal a Misty e ordenou que viessem bacantes para servir aos homens na mesa, aos seus e também aos argelinos. Geisty tinha deixado Lagarto encarregado da mesa dos russos, pois nem sequer passaria perto dela, tampouco olharia na cara de Camus.
Essaid Nafofa e mais um de seus homens recusaram subir com as prostitutas. Essaid por ser fiel à esposa, grávida de 8 meses e que tinha ficado na Argélia, o outro por ser impotente. Recém-casado, Andreas também teve um surto de fidelidade à esposa e preferiu ficar na mesa com Camus e Miroslav. Esse último estava tão bêbado que cantava o hino nacional da extinta União Soviética com a mão sobre o peito enquanto no salão tocava Lady Marmalade.
Quando novamente as luzes do salão se apagaram e as do palco coloriram o tablado, deu-se início a um dos números mais queridos e esperados da casa, o show de strip-tease de Shina de Ofiúco.
Camus sentia arrepios só de pensar naquele número e na amazona que o executava. A verdade era que ele nunca tinha se recuperado totalmente da única, e trágica, vez em que precisou comprar, anos atrás, um programa com uma bacante para reafirmar seu papel de homem hetero, viril e machão, e surpreendeu-se ao ver Shina de Ofiúco entrar no quarto. Uma amazona ninfomaníaca e bêbada de catuaba, somado a um cavaleiro gay enrustido, completamente drogado e com várias gramas de cocaína agindo no corpo se mostrou uma mistura extremamente perigosa. Camus ficou tão traumatizado com a experiência que passou a ter pavor de Ofiúco. Sentia-se mal a cada vez que se lembrava dos gemidos de puro delírio que saiam da boca dela enquanto lhe cavalgava em ritmo frenético, puxando seus cabelos e gritando “Venha Cobra!”, parecendo incorporada por algum tipo de demônio da luxuria.
No entanto, o que fez o Cavaleiro de Aquário arrepiar-se da cabeça aos pés naquela noite durante a apresentação de Ofiúco não foi desconforto, tampouco repulsa, mas umas mãos macias com dedos de unhas ligeiramente longas que o surpreenderam ao correrem sorrateiros por debaixo da calça arranhando suas panturillhas.
— Qu'est-ce que c'est?
Num reflexo involuntário Camus recolheu as pernas e no ato acertou algo debaixo da mesa com um chute.
Ouviu um gemidinho abafado e então travou.
“Non pode ser!”
Sobressaltado ele espalmou as mãos na mesa e arregalou os olhos que divisavam aleatoriamente o palco, sentindo o coração retumbar dentro do peito.
Então novamente as mãos tocaram suas pernas debaixo da mesa. Agora por cima da calça.
Precisas e destemidas elas apertavam deliciosamente suas coxas e escorregavam apressadas em direção à virilha.
“Dieu, Afrodite! Ficou enlouqueceu de vez?”
Ele usou o Cosmo para falar com pisciano debaixo da mesa.
“Louco eu ficaria se não tocasse em você agora.”
Peixes respondeu já desafivelando o cinto das calças de Aquário.
“O que... o que pensa que está fazendo?”
Camus disse enquanto corria os olhos pelos homens em sua mesa. Todos tinham as atenções totalmente voltadas para Shina no palco. Miroslav ao final do hino da URSS desmaiou de bêbado.
“O que te parece, Camus? Eu vou chupar o seu pau.”
A simples menção daquilo o fez ficar totalmente duro na hora.
Era certo que o perigo e a ousadia de Afrodite, que beirava ao inaceitável, contribuíram para seu estado de excitação plena, mas aquelas mãos, apressadas a descerem seu zíper para puxar-lhe o pênis para fora da cueca, o faziam experimentar uma sensação indescritível de euforia, e com essa vinha junto um prazer arrebatador.
Com o coração palpitante e suando frio Camus levou uma das mãos para debaixo da mesa. Quando tocou os cabelos macios de Peixes fez neles uma carícia, mas logo os sentiu se afastarem e no instante seguinte lábios macios abocanharam dois de seus dedos. Fechou os olhos quando sentiu a língua tenra e quente brincar com seus dedos, então um calor súbito tomou todo seu corpo o fazendo estremecer.
Felizmente ainda mantinha os óculos escuros no rosto, pois que seus olhos avelãs semicerrados agora estavam enegrecidos pela luxúria.
Aos poucos Camus foi relaxando e aceitando aquele jogo perigoso, então acomodou-se melhor na cadeira e abriu mais as pernas, sentindo Afrodite encaixar-se entre elas enquanto lhe masturbava com maestria ainda chupando seus dedos.
“Ah, Dieu, Ma Belle... você é um viado muito do safado.”
“E você é uma bicha muito da gostosa, Camy... Ficou me provocando o tempo todo com essa sua cara de bandido.”
Camus riu discretamente e apertou com força a toalha da mesa quando sentiu Afrodite abandonar seus dedos para passar a língua em sua glande úmida, fazendo movimentos como se tivesse lambendo um saboroso picolé.
“Oh, Dieu!”
Aquilo era demais para ele suportar.
Quando sentiu a boca quente e experiente de Afrodite envolver seu pênis, dando início àquela felação esganada e delirante da qual estava tão acostumado e que sempre o levava à loucura, Camus soube que precisava fazer algo para não se entregar. Ainda que bêbados e muito mais interessados nos seios nus de Shina no palco, haviam quatro homens consigo ali. Não podia contar somente com sua descrição e autocontrole, até porque já sentia-se às vias de perder a ambos completamente.
Assim, com certo desespero e muita pressa Camus fez sinal para o garçom e solicitou-lhe que trouxesse mais bebidas, mais Bourbon, mais vodca, depois acenou para a primeira bacante que viu por ali e a chamou com urgência. Era Rebecca.
— Oi, querido, quer subir? — ela perguntou cheia dos sorrisos ao chegar ali.
— Ah, non, non, cherrie... eu quero... quero que você e mais uma garota dancem para nós, em cima da mesa, s'il-vous-plaît.
— Em cima da mesa!?
— Oui. Quero que entretenham a mim e a meus convidados... Você... você eu quero que dance de frente para mim, mas de olhos fechados... o tempo todo de olhos fechados... e... e eu quero que se toque, se toque entre suas pernas... Quero vê-la se acariciando para mim... — Camus falava com voz sussurrada.
Rebecca o percebeu ofegante, mas achou por bem não perguntar nada. Na verdade estava acostumada às excentricidades dos clientes do Templo das Bacantes, e dançar sobre uma mesa cheia de copos e garrafas para um dos cavaleiros de Atena que julgava estar caindo de bêbado era a menos estranha delas.
— Ah, pois não... só um minutinho, deixa ver quem eu encontro disponível... — disse a angolana que ao avistar Fúlvia lhe fez rapidamente um sinal.
Debaixo da mesa Afrodite ria da manobra do aquariano para distrair a atenção dos homens. Ele tinha que reconhecer a genialidade de Camus quando se tratava de pensar numa solução rápida para fugir das berlindas que sempre o colocava.
Com as duas garotas sobre a mesa, Afrodite sentiu-se ainda mais excitado e confiante para prosseguir com aquela felação deliciosamente atrevida, e sua empolgação era tanta que por vezes batia a cabeça na mesa. Nessas horas as garotas se desequilibravam, os homens se sobressaltavam e Camus então apressava-se em fingir ter sido ele a bater com os joelhos, pedindo em seguida desculpas pelo transtorno.
Ele bateu os joelhos na mesa muitas vezes...
“Ah, Aphrodite...”
Camus gemia em pensamento, alucinado e rolando os olhos por debaixo dos óculos escuros; mesmo com o estardalhaço de sons em torno de si, vozes, risos, música, gritos, ele era capaz de ouvir o som das chupadas obscenas que Peixes dava em seu pênis, e mordia os lábios para não gritar de prazer. Qualquer um que o visse ali poderia jurar que todo aquele frenesi era provocado por Rebecca, que de joelhos sobre a mesa e de frente para ele o provocava se masturbando exatamente como ele havia lhe pedido.
Contraiu-se todo quando sentiu os lábios de Afrodite roçarem em seu púbis e a garganta dele sugar seu pênis com pressão surpreendente, então num reflexo escorregou mais para baixo e novamente levou uma das mãos para debaixo da mesa. Com ela agarrou com toda força a cabeleira azul no meio de suas pernas.
Felizmente os homens ali na mesa estavam ocupados demais babando pelas garotas para prestar atenção no aquariano, e quem quer que por acaso o estivesse olhando de longe certamente pensaria que toda sua empolgação se dava graças ao show particular de Rebecca.
“Oui... assim! Engole ele todo! Ah, Aphrodite, meu pau vai explodir!... Que tesão!... Oh, Dieu, você é completamente maluco, peixinho.”
“Maluco por você, princesa. Maluco por esse seu pau gostoso.”
Peixes retomou o vai e vem, agora com os dedos de Camus atracados a seus cabelos lhe impondo um ritmo mais forte e acelerado. Seus lábios quentes proporcionavam ao francês uma sensação única de calor, que subia pelo estômago e parecia incendiar-lhe o peito. De fato Afrodite sabia chupar um pau como ninguém, mas aquilo era diferente.
A sensação de perigo, a adrenalina de serem descobertos a qualquer momento o excitava de uma maneira que ele era incapaz de compreender, e ninguém melhor para lhe proporcionar aquela sensação que Afrodite de Peixes.
Com as pernas tremendo muito além do que já era capaz de controlar e o coração palpitando tão rápido e forte que podia jurar que ouvia as batidas, Camus mordeu a parte interna da bochecha para conter um gemido que queria escapar de sua garganta apertada, então se dando conta de que estava prestes a gozar, e que não conseguiria disfarçar, olhou para a bacante e em desespero a puxou pelo braço dando nela um beijo na boca digno de cinema.
Enquanto gemia na boca de Rebecca, Camus gozava feito um alucinado na boca de Afrodite, empurrando-se mais e mais para dentro dela conforme o sentia sugar seu sêmen como se pretendesse exauri-lo por completo.
O orgasmo que experimentava era tão intenso que sem perceber devorava os lábios da angolana com um furor quase selvagem, os mordendo e os chupando feito louco, e só se deu conta de que também apertava o braço dela com extrema força quando a ouviu sussurrar um queixume.
Com um esforço tremendo separou-se de Rebecca e também soltou os cabelos de Peixes debaixo da mesa.
— Pardon... cherrie... — disse ofegante e ainda sofrendo leves espasmos. Mordeu maliciosamente o queixo da bacante e então finalmente tirou os óculos e olhou nos olhos dela. — Ah, Dieu! Você... você me deixou... louco, garota!
Rebecca sorriu para ele envaidecida.
— Nossa, o seu beijo é tão bom, senhor Camus... Tem certeza de que não quer subir? — ela perguntou roçando os lábios nos dele. — Eu gostei disso de verdade. Eu posso fazê-lo gozar de novo, e de uma forma muito melhor.
“Eu também posso!”
A voz de Afrodite na cabeça de Camus veio acompanhada de um roçar de unhas em suas virilhas e uma lambida em seus testículos.
Aquário respirou fundo contendo um gemido e em reflexo apertou o corpo do sueco entre suas pernas.
— Com certeza você pode... — Camus riu, e Rebecca achou que ele ria para ela. — Mas fica para uma próxima vez, cherrie, hoje já é suficiente... Depois, non posso deixar meus convidados sozinhos.
“Não pode deixar é o seu papa sozinho. Hum, Camy, vem aqui, vem.”
Naquele ponto, Camus olhou para os homens na mesa. Só estavam ali agora Essaid, completamente bêbado e largado na cadeira enquanto balbuciava algo incompreensível, e Miroslav, que ainda dormia debruçado na mesa com alguns guardanapos de papel colados em seu rosto vermelho como um tomate.
O outro argelino acabou subindo com Fúlvia. Andreas tinha recebido uma ligação da esposa e achou por bem retornar o telefonema de um local menos barulhento. Tatianna Stepanova era uma mulher que homem nenhum gostaria de ver irritada. Camus chegou a ver quando ele saiu apressado da mesa com o celular na mão.
— Não acho que eles necessitem tanto assim da sua companhia, senhor Camus. Podíamos nos divertir muito mais no meu quarto — disse a bacante descendo da mesa, então para surpresa dela o aquariano lhe tomou a mão a puxando para mais perto.
“Alôca! Que amapô abusada! Se livra dela logo, Camus, ou eu vou dar na cara dos dois, heim viado!”
De repente, Camus sentiu uma mordida em uma de suas coxas e se contraiu todo, então para disfarçar meteu a mão no bolso interno do paletó, que estava sobre as costas da cadeira, e de lá retirou um maço farto de Dólares. O entregou todo à Rebecca.
A garota arregalou os olhos, surpresa com a quantia que era muito mais do que ela faturava em um mês inteiro de trabalho.
— Nossa! Tudo isso é para mim?
— Oui. Você merece, cherrie — ele deu um risinho dissimulado. Estava pagando era para que ela sumisse logo dali e o deixasse sozinho com Afrodite, pois que satisfeita ela não insistiria mais em um programa consigo. — Agora vá, anda. Eu quero ficar sozinho.
— Obrigada! Tenha uma boa noite, senhor Camus. — Ela disse deixando o local toda saltitante.
Assim que Rebecca saiu, num ato de extrema ousadia Camus levantou discretamente a toalha da mesa e olhou para baixo, para o meio de suas pernas, então seus olhos avelãs encontraram os de Afrodite, que descansando a cabeça em seu colo lhe sorriu de uma forma tão encantadoramente safada que sentiu-se excitado ao mesmo tempo que emocionado.
Como era possível amar tanto aquele homem maluco?
Acariciou o rosto dele com ternura e sem pensar muito, pois que se pensasse perderia a coragem, correu rapidamente os olhos pelo salão e certificando-se de que ninguém olhava para aquele canto isolado escorreu para debaixo da mesa junto dele. Na manobra, tão arriscada quanto cuidadosa, empurrou Peixes o fazendo se deitar de costas no chão; mal encaixou-se em cima dele tomou seus lábios inchados com um beijo forte e ansioso, vivendo aquele momento como se nada mais importasse, nada mais existisse.
— O que foi que fez comigo? Ainda non sinto direito minhas pernas — Camus sussurrou na boca do sueco enquanto chupava sua língua. — Você quase me matou de tesão, Afrodite.
— Com certeza é preciso mais do que um boquete debaixo da mesa de um bordel para te matar de tesão, mon amour — Peixes sussurrou de volta chupando os lábios de Aquário com tanta avidez que parecia pretender engoli-lo inteiro.
— Hum... parece que você também se divertiu bastante! — o francês murmurou ofegante quando desceu a mão até o meio das pernas dele o percebeu com as calças abaixadas e o pênis ligeiramente flácido e bem molhado.
— Seria muito melhor ter gozado na sua bunda, princesa, mas ultimamente eu não ando nada exigente — ele brincou mordiscando o queixo do aquariano. — Logo você vai se enfiar lá nos cafundós da Sibéria, né, então eu tô agarrando todas as oportunidades que tenho de ter você comigo.
— Sei... — Aquário disse afundando o nariz na curva do pescoço dele, sorvendo sedento o perfume único e inebriante de rosas que exalava da pele e dos cabelos azuis. — E non podia esperar até que chegássemos em casa? Confessa, seu safado, você queria me provocar, queria me enlouquecer como sempre faz... Ah, eu devia te dar uma lição por continuar sendo um filho da puta inconsequente, Afrodite.
O francês grunhia rouco e ofegante enquanto chupava os mamilos do pisciano o fazendo contorcer-se todo debaixo de si.
— Ah, sim! Sim, Camus! Me dá uma lição, vai! Bandido! — Peixes ria baixinho, muito excitado. Com ambas as mãos dentro das calças dele beliscava e arranhava suas nádegas sem dó nem piedade.
— Louco! Ah, eu te amo tanto, Afrodite — murmurou rouco mordendo a coleira no pescoço dele. — O negócio com os argelinos foi um sucesso! Vou mandar Andreas acompanha-los até o hotel, então estarei livre para você.
Súbito Afrodite agarrou Camus pela gravata e o encarou firme nos olhos avelãs, o deixando apreensivo.
— Por Dadá, viado, fala de novo! — disse mordendo os lábios.
— Falar o quê? Que estou livre para você, ma vie! — perguntou Camus lhe beliscando os mamilos.
— Não. Argelinos!
— Quê?
— Me dá um tesão louco quando você fala argelinos, Camus, assim, com essa cara de bandido sujo e executivo corrupto cheio da grana ilícita.
Aquário riu a princípio. Peixes tinha uns fetiches excêntricos e uns gostos para lá de duvidosos, mesmo assim ele nunca era capaz de declinar de seus jogos sexuais.
Olhando bem nos olhos dele, os percebeu escuros, cheios de luxúria, então segurou em seu rosto belíssimo com ambas as mãos e sussurrou, lento e rouco, ao mesmo tempo em que roçava os lábios dele com os seus.
— Argelinos!
Afrodite contraiu-se todo debaixo dele, cerrou os olhos e soltou um gemido que brotou do fundo do peito e explodiu pela garganta.
— Aaaaaaaaaahhhhmmmmmmmm
Camus rapidamente tapou a boca dele com a mão, e só a retirou depois de ter abafado mais três ou quatro gemidos tórridos.
— Vamos ficar aqui para sempre, Camy? — Peixes sussurrou olhando nos olhos dele, então tomou-lhe a mão com a sua e conforme falava ia beijando cada um de seus dedos. — Debaixo da mesa é maravilhoso! Aqui não tem russos, não tem máfia, e aqui não tem Lagartixas!... Aqui não tem nada além de você e eu... Ninguém para atrapalhar nossa felicidade.
Camus segurou o ar dentro dos pulmões enquanto seus olhos se mantinham presos no rosto de Afrodite.
Aquelas eram palavras duras de se ouvir. Uma profunda melancolia então transbordou de seu coração para seus olhos.
— É isso mesmo que você quer, ma fleur?
— É.
— Passar toda a eternidade aqui, embaixo dessa mesa? Ocultos por uma toalha e com as pernas de dois bêbados nos atrapalhando?
— Não é perfeito? — Peixes respondeu sorrindo. — Ao menos aqui é bem melhor do que lá fora. A toalha será nosso escudo e esse nosso Paraíso particular, a nossa Bora-Bora com cheiro de inferninho em vez de cheiro de maresia e camarões no azeite. O que acha?
Camus sorriu para ele em resposta, porém aquele estava longe de ser um riso divertido. Era um riso triste e pesado. A verdade era que estava a cada dia arrastando Afrodite mais e mais fundo para dentro de seu pequeno e feio armário.
— Ei, Camy? — Afrodite perguntou ao notar a mudança repentina no clima entre eles. — Por que está com essa cara de cafuçu arrependido? Era só uma brincadeira.
— Ah, oui... eu sei, ma belle. Non é nada — ele disse beijando os lábios do pisciano com um beijo terno e apaixonado, então apressou-se logo em mandar para longe todas aquelas reflexões inconvenientes para poder desfrutar mais uma vez daquele instante junto do amado. — Mon amour, mesmo que a sua proposta me seja muito tentadora, eu ainda tenho uma melhor — sussurrou mordiscando a orelha dele.
— Hmm! Tem?
— Oui, tenho.
— Então me fala assim no meu ouvidinho, fala.
— Hoje eu quero te amar a noite toda, sem pausa e sem descanso, até fazer você ficar rouco de tanto gritar de prazer nos meus braços — sussurrou delineando a letra A na coleira dele com o indicador. — Só que non creio que essa toalha de mesa seja um boa proteção antirruído, non?
— Safado! — Afrodite riu e deu um tapa forte na bunda dele.
Camus riu para ele de volta.
— Que tal sairmos daqui de baixo antes que o Andreas volte? Você sobe e me espera em Aquário. Non vou demorar.
— Proposta aceita — Peixes respondeu beijando os lábios dele. — Eu espero você na Batcaverna. Se prepara que hoje quero usar todos os itens do Batcinto de utilidades!
— Hum, então algo me diz que essa noite terei que criar um isolamento acústico usando gelo eterno... E se você for um bom peixinho, talvez a princesa aqui possa gritar também, bem alto, o nome de seu papa, e aí quem vai ficar rouco sou eu — Camus riu enquanto propositalmente pressionava o quadril contra a virilha dele.
Afrodite mordeu a boca excitado, depois respirou fundo e com um último beijo quente e vigoroso se despediu de Aquário deixando o esconderijo primeiro, escorregando pelas beiradas daquele setor do salão numa velocidade muito acima daquela que olhos civis e de Cavaleiros de Prata pudessem perceber.
Camus, no entanto, ainda ficou ali por mais um tempo, sem sair do lugar.
Debaixo da mesa, ele deitou-se de costas no chão, pegou um cigarro na cigarreira e o acendeu. O ambiente pequeno e fechado logo se encheu de fumaça na medida em que ele ia tragando lentamente enquanto refletia sobre tudo que acabara de acontecer.
Camus conclui que Afrodite estava certo. Aquele cenário combinava muito consigo; na verdade ele era perfeito para si, tão decadente quanto sua vida. Era um Vor, um Cavaleiro de Ouro, um homem rico, influente e poderoso, que agora estava jogado debaixo de uma mesa de bordel com as calças abertas sentindo uma paz que luxo nenhum fora capaz de lhe proporcionar. Porém, o namorado estava errado em um detalhe: não desejava aquilo para Afrodite. Jamais suportaria vê-lo preso e afundado em mágoas como as que carregava consigo.
Com um suspiro segurou o cigarro com os lábios para poder fechar as calças, então afivelou o cinto e no instante em que se preparava para voltar para o lado de fora eis que a toalha foi levantada e o rosto de Andreas surgiu ali com uma expressão confusa.
— Camus? O que está fazendo aí, homem de deus? — o russo questionou surpreso, sendo golpeado pela nuvem de fumaça.
Pego no pulo Camus demorou um momento até que conseguisse pensar em uma desculpa no mínimo aceitável; obviamente não havendo nenhuma, talvez pela primeira vez na vida desde que era pego em situações contestáveis ele disse a verdade.
— Fumando — ele disse calmo e indiferente, como não falasse nada além do óbvio. Seus olhos mantinham-se fixos no tampo de madeira. — Non está vendo?
— Debaixo da mesa?
— Oui. Algum problema com isso Andreas?
— Ah... não... quer dizer... — o russo gaguejava confuso e alarmado. Sua necessidade de uma explicação lógica súbito o fez pensar que talvez o chefe tivesse exagerado na vodca ou então cheirado pó além do normal para ele, mas a verdade era que conhecia Camus muito além do que o próprio francês imaginava. — Não há nenhum problema em fumar debaixo da mesa, chefe.
Era óbvio que alguma coisa havia acontecido com Camus. Não iria questioná-lo, pois que cabia ao Vor os interrogatórios. Também não era estúpido para não notar a melancolia estampada na fisionomia dele e em sua voz baixa e pesada. Fora justamente sua inteligência e sagacidade que fizeram Camus escolhe-lo como seu braço direito.
E justamente por estar ciente de que haviam questões que não lhe competiam tomar par, e outras que Camus simplesmente não podia dividir consigo, que Andreas, para total surpresa do aquariano, afastou a cadeira e enfiou-se debaixo da mesa junto dele.
— O que... o que você está fazendo? — foi a vez de Camus perguntar de olhos arregalados.
— Vai um pouco mais para lá, chefe — o russo disse calmamente enquanto se sentava ali ao lado dele e retirava um cigarro do maço em seu paletó. — Estou fumando um cigarro com você. Me empresta o isqueiro? O meu está em cima da mesa.
Camus ergueu uma das sobrancelhas alarmado, porém não disse nada. Num gesto mecânico lhe cedeu o isqueiro assim que ele apertou o cigarro entre os lábios.
— Era a Tatianna no celular? — indagou após um pequeno e confortável silêncio entre eles.
— Éra — Andreas confirmou com um sorriso cansado. Queria fazer uma pergunta de volta, mas não se atreveu.
Mais uns instantes de silêncio confortável e eles sincronizaram as tragadas nos cigarros.
— É foda, Andréas... é foda.
— É... é muito foda, chefe.
— Vamos fumar mais um... pela Tatianna.
Andreas fez que sim com a cabeça.
Eles ficaram ali por mais uns cinco cigarros.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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