Temple Bar

1 Temple Bar (capítulo único)


Notas iniciais
Essa fic é dedicada a Nathalie Caldeira, que pediu o casal Manigold e Verônica no amigo oculto realizado pelo forum de rps yaoi Santuário (http://santuario.jcink.net). Desculpe por estar postando com atraso. O título da fic é uma música do Tiziano Ferro, que a princípio não tem nada a ver com a fic, mas conforme forem lendo vão descobrir que sim (mas isso não é uma songfic). As referências ao mundo drag foram todas retiradas do reality show: Ru Pauls Drag Race (especialmente a sexta temporada).

O clube estava lotado. Entre bebidas coloridas e olhares trocados entre as belas figuras que desfilavam pela boate alternativa, o público esperava ansioso o grande acontecimento da noite. Mas enquanto o grande momento não chegava, o DJ distraía as mentes e corpos que dançavam sinuosamente, sozinhos ou causando atrito entre si. E se na pista de dança e bares da boate o clima era de alegria e diversão, na área reservada do estabelecimento, que servia como camarim dos eventuais artistas que se apresentavam na casa, a tensão e o caos dominavam.

O espaço era demasiadamente pequeno para acomodar as quinze drag queens participantes do concurso. Somadas a isso se viam as dezenas de perucas, roupas, maquiagens e outros acessórios espalhados pelo chão, tornando quase impossível a movimentação dentro do local. Verônica tinha dado sorte. Possuía lugar garantido na bancada em frente ao espelho, onde podia fazer a sua maquiagem valendo-se da melhor luz do ambiente, enquanto as outras queens estapeavam-se por um pedaço do vidro reflexivo. Algumas faziam malabarismos com os pequenos espelhos que acompanhavam os conjuntos de sombra e os pincéis que mudavam suas feições.

Uma das vantagens de ser funcionária da boate era ter acesso à casa antes dela ser aberta ao público e a sorte de poder guardar o melhor lugar no camarim para se preparar para a apresentação. Mas Verônica estava longe de se sentir sortuda. Pelo reflexo do espelho ela podia observar as jovens queens, seus vestidos belamente bordados e a facilidade com que a pintura deslizava pelos rostos jovens. Deveria ter umas duas ou três competidoras veteranas como ela, mas nenhuma era tão veterana quanto ela. Era a quarta vez que Verônica competia pelo título de Miss Queeniverse,evento realizado anualmente e que esse ano seria sediado na boate na qual trabalhava. O seu maior sonho era conquistar o prêmio e o passar dos anos não estava ajudando com essa tarefa.

— Cadê meu espartilho? – ouviu-se ao fundo da sala uma vez um tanto estridente. – Alguém pegou meu espartilho!

— Querida, nem com três espartilhos você consegue fazer uma cintura nesse seu corpo de caminhoneiro – retrucou uma concorrente de língua afiada. – Não crie caso pela falta de um, não vai fazer diferença mesmo.

Um início de confusão se formou e os ânimos se exaltaram à medida que outras drags deram falta de itens, a maioria apenas perdida no caos de glitter e paetês que se instalara no camarim, mas que foram tomados como boicote de suas rivais. A gritaria era geral, e enquanto umas tentavam colocar panos quentes, as moças que começaram a discussão estavam quase saindo partindo para o confronto físico. Antes que o primeiro tapa fosse desferido, a porta do camarim se abriu e uma voz potente chamou a atenção das artistas:

— O que está acontecendo? Eu consigo ouvir a gritaria do bar — o moreno de terno estreitou os olhos e se aproximou das duas figuras paralisadas ainda em posição de ataque, se interpondo entre elas.

— Vocês querem brigar? Então podem fazer isso na rua, pois eu vou chutar pra fora desse clube qualquer um que me causar problemas. Está claro?

As drags se olharam assustadas e encolheram os ombros, acuadas frente à força daquele homem, mesmo que no alto de suas plataformas elas superassem consideravelmente o tamanho do moreno com cara de poucos amigos, alinhado no terno preto. O segurança sabia ser bastante persuasivo, não deixando dúvidas de que iria cumprir a ameaça em caso de desobediência. A fama de Manigold era bastante conhecido entre os frequentadores, menos pelos seus atos do que pelo seu histórico de quando ainda fazia parte do batalhão policial da cidade. Os boatos acerca da sua expulsão da corporação, restando-lhe como alternativa de sobrevivência ser chefe de segurança de uma boate gay, completavam sua aura de perigo. O tumulto rapidamente se dissipou, mas o italiano não pareceu confiante naquela súbita calmaria. Com o cenho cerrado e expressão claramente contrariada, dirigiu-se à Verônica, que durante toda a comoção permaneceu sentada em seu banquinho, modelando a peruca loira.

— Não deixe isso acontecer de novo – falou o italiano em tom de repreensão.

A loira ergueu uma sobrancelha.

— Está falando comigo?

— Você é gerente desse lugar, só posso estar falando contigo.

A veterana inspirou profundamente antes de responder.

— Não estou aqui a trabalho, Mani. Sou uma participante do concurso, assim como as outras meninas.

— Não me interessa essa palhaçada de concurso do boiola mais bonito. Ainda é seu dever manter as coisas em ordem.

Verônica não teve tempo de responder. Engoliu seu orgulho e sua revolta ao mesmo tempo que via o italiano dar as costas e bater a porta atrás de si com violência. As outras concorrentes fizeram o mesmo, com exceção de uma pessoa:

— Ele não está errado. Você devia focar no seu trabalho em vez de um concurso onde não tem chances de ganhar.

Pelo reflexo do espelho Verônica observava o sorriso irônico de Kimmy Kim, a transformista asiática e favorita na corrida pela coroa. Sua língua era tão afiada quanto o delineado nos olhos puxados. Quem a visse na rua jamais desconfiaria que por baixo da maquiagem perfeita e longos cabelos negros como nanquin existia um homem. Kim tinha como maior trunfo sua similaridade com uma mulher de verdade, algo do qual ela se orgulhava e usava como carta para destratar suas concorrentes. Você não deve se dar ao trabalho de colocar um salto alto se não consegue ficar bonita, ela dizia. Os tempos eram outros, realmente. Na época de Verônica, ser drag era transgredir, chocar e se divertir. Era dar um tapa na cara da sociedade da forma mais escandalosa possível, como se dissesse: olha o que vocês estão perdendo. Agora ser drag era ser bonita. Um suspiro cansado escapou de seu peito e Verônica agradeceu, aliviada, quando a produtora anunciou que elas deveriam subir ao palco.



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O concurso era composto de três etapas. A primeira consistia em um desfile de gala. A segunda em um desfile de roupas temáticas, onde as drags deveriam se vestir como sua diva inspiração. E a terceira, era a batalha de lip sync. Na primeira rodada dez competidoras foram eliminadas, não demonstrando graça e vivacidade suficientes para mantê-las na disputa. O segundo turno foi mais apertado, mas o nome de Verônica apareceu como uma das cinco finalistas, e apesar da convocação ter sido feita em ordem aleatória, não foi nada agradável ter sido chamada por último. Mas apesar da apreensão e frio na barriga que ainda percorriam o corpo e a mente da veterana, conforme a competição foi avançando e as concorrentes deixando o palco, Verônica foi ganhando confiança. Sentia que havia passado pelo mais difícil, pois as outras drags eram lindas, com seus vestidos bem costurados e maquiagem perfeita, mas a última prova era diferente. A batalha de lip sync, onde as concorrentes tinha que dublar uma música e empolgar o público com sua presença de palco, era sobre performance. Nesse ponto a experiência de Verônica era um trunfo e ela não tinha dúvida de que superaria as jovens queens. Sem dúvidas a sua apresentação de Glamazon levantou a plateia, fazendo todo mundo cantar e dançar juntos junto com ela. Uma corrente de adrenalina percorreu seu corpo e o sorriso estampou sua face quando Verônica adquiriu a confiança de que realmente poderia ganhar. Depois de quatro anos, quatro tentativas, finalmente sentia que seu esforço seria compensado.

As cinco finalistas esperavam lado a lado enquanto a apresentadora fazia os pronunciamentos finais. Agradecimentos à casa, patrocinadores e público pagante que só aumentavam a ansiedade das competidoras. Então, o momento da premiação. Por ordem inversa de pontuação, as queens eram chamadas e recebiam os parabéns pela colocação, assim como um buquê de flores.

— Em Quinto lugar: Horny Montana — a apresentadora lia a ficha com as colocações. — Quarto lugar: Lolly Pops. E em terceiro lugar…

Verônica apertou os dedos no vestido de cetim e fechou os olhos. O máximo que havia chegado nos concursos anteriores era terceiro lugar. Os lábios balbuciaram uma prece e ela ouviu o veredito dos jurados:

— Em terceiro lugar: Harley Queen!

A plateia aplaudiu entusiástica enquanto Harley tomava a frente do palco para receber o seu buquê, assim como Verônica que batia as mãos euforicamente uma contra a outra. Ela havia superado seu próprio limite e estava a um passo da vitória. Entre ela e a coroa restava apenas um obstáculo: Kimmy Kim.

— Meninas, por favor, aproximem-se — as finalistas foram conduzidas para a frente do palco para a frente do palco e se deram as mãos em um gesto de fair play.

Flair Play, apesar de Verônica torcer internamente para teto do clube cair na cabeça da asiática e arrebentar aquela cara de boneca de cera. “Falsa”, pensa a veterana ao observar o sorriso de miss estampado na face oriental, o qual Verônica mimicava perante a plateia.

— E Miss Queeniverse desse ano é…

As mãos de Verônica tremeram e se cerraram ansiosas, talvez com mais força do que deveria, tendo em visto a careta de dor que passou rapidamente pelo rosto de Kimmy Kim e esta suspirou aliviada quando a veterana finalmente soltou suas mãos. Verônica largou Kim para bater as palmas em parabenização à ganhadora e receber o buquê de segundo lugar das mãos do assistente de palco. Seus lábios se contorceram em um largo sorriso, contrariando o tremor que quase denunciou um início de choro, e Verônica não soube como conseguiu conter as lágrimas quando a coroa foi acomodada perfeitamente na cabeça de Kim.



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“Já chega”. Verônica mirava a expressão cansada refletida no espelho. Cliente e funcionários já haviam ido embora da boate, restando apenas ela e um ou outro membro da equipe de limpeza e da segurança.

— Já chega — repetiu em voz alta enquanto retirava a peruca.

Os dedos compridos correram pelos cabelos curtos, os fios ainda mais claros que a peruca que usava. Sem pressa retirou os cílios postiços, molhou um pedaço de algodão no demaquilante e começou a retirar a pintura; a mágica se dissolvendo junto com as cores que iam dando lugar a um bege homogêneo.

Duas batidas na porta e o homem não esperou Verônica responder para entrar no espaço reservado.

— Já foram todos embora, até quando vai ficar aí — perguntou o segurança, deixando claro que era hora de fechar a casa.

— Estou terminando de me limpar. Eu tranco tudo antes de sair.

— O que é isso? — Manigold avançou alguns passos e pegou o buquê de flores que quedava jogado no lixo. — Você não deveria ser tão mal-agradecido. Segundo lugar é uma boa conquista e flores tão bonitas não merecem ser descartadas com tanto desdém.

Verônica revirou os olhos. Era só o que faltava: receber sermão de Manigold.

— Se gostou leve para você — falou em um tom entediado.

O italiano levou o ramalhete ao rosto inalando o perfume, aceitando a oferta.

— Quando eu era criança na Itália as minhas irmãs mais velhas me obrigavam a brincar com elas… — contou em tom nostálgico, enquanto tateava a suavidade das pétalas — Elas me faziam colher flores nos jardins dos vizinhos e depois trançar seus cabos para fazer coroas de princesas.

O italiano contou a história sem detalhar, no entanto, que era ele quem as irmãs vestiam de princesa, fazendo o menino de oito anos de boneca humana.

— O que você ainda está fazendo aqui, Mani?

— Te esperando. É perigoso sair daqui sozinho a uma hora dessas, considerando os malucos que andam por aí. Eu te dou carona.

— Não precisa, eu pego um taxi — Verônica estava pouco se importando se fosse atacada por uma gangue de homofóbicos ou neonazistas na saída da boate gay, ela já estava destruída o suficiente por dentro, que pensava seriamente se não seria um alívio se ela virasse apenas estatística.

— Não seja besta, você não vai conseguir taxi aqui.

— Então eu pego um uber! Apenas vá embora! — e virando-se com os olhos já mareados de lágrimas, jogou um frasco de perfume que estava sobre a bancada na direção do segurança.

O homem desviou do vidro que se chocou violentamente contra a parede, contaminando o ambiente com sua essência.

— Que seja — então ele deu meia volta e se retirou, deixando a drag sozinha para chorar em paz e convulsionar em soluções.



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Verônica conseguiu limpar os cacos de vidro, mas ia demorar pelo menos uma semana para o cheiro do perfume francês sair. Demorou uns vinte minutos entre a limpeza do lugar e a dele próprio, agora de cara lavada e roupas de rapaz. Seu eu feminino bem guardado na bolsa de viagem esportiva que carregava os acessórios que o transformavam. As olheiras abaixo dos olhos inchados reforçavam seu aspecto cansado, mas duvidava de que conseguiria dormir quando chegasse em casa. Enquanto dirigia-se para a saída da boate um barulho chamou sua atenção. Era um velho piano que servia como decoração do estabelecimento e que o dono achava que adicionava glamour ao local, embora só ficasse deslocado em relação a temática do lugar.

— Qual o seu problema? Por que não foi embora?

— E eu falei que ia te dar carona — o italiano respondeu com um sorriso no canto da boca, um tanto irônico aos olhos do outro, sem se dar ao trabalho de parar de dedilhar as teclas desgastadas. A música que deveria ser romântica soava um tanto melancólica.

— E eu disse que não — o tom de Verônica foi sério e decidido, assim como seus passos em direção à porta.

— Eu não sei porque você se importa tanto. É só um concurso idiota.

— Pode ser idiota pra você, mas é importante pra mim! — Verônica esperneou, os sentimentos aflorando novamente: a derrota, o fracasso, a sensação de impotência que iam muito além do concurso. — Alguém como você, que vive de intimidar os outros, jamais iria entender o que esse concurso representava pra mim.

— Nisso você tem razão, eu realmente não entendo — baixou a tampa que protegia as teclas do piano e caminhou em direção ao outro outro, era estranho vê-lo em trajes masculinos, a aparência demasiadamente distinta da de quando estava maquiado. — Também não entendo como aquela menina ficou em primeiro lugar. Se eu fosse jurado teria votado em você.

Verônica engoliu seco, controlando-se, dessa vez com sucesso, para não desabar mais uma vez. Receber a piedade do segurança brutamontes era patéticos demais.

— Você fica diferente vestido de homem — o italiano posou a mão direita sobre a cabeça do outro, que sem o salto plataforma batia um pouco abaixo do seu queixo. — Eu pensava que você era mais alto que eu.

— Agora que você fez essa incrível descoberta, posso ir embora? — o outro replicou em tom sarcástico.

— Espera — o italiano vasculhou o interior do paletó. — Eu sei que não era essa coroa que você queria, mas… — então depositou o arco feito de margaridas trançadas com cuidado sobre os fios loiros. — Fica bem em você.

Verônica mordeu o lábio inferior, que tremia sobre os dentes perfeitos. Deixou a cabeça pender para frente e a testa encostar no peito do italiano, enquanto lágrimas escorriam pelas laterais do seu rosto.

— Você vai me deixar eu te levar pra sua casa...ou pra minha? — perguntou Manigold, apoiando as mãos carinhosamente nos ombros do outro homem.

O loiro assentiu com a cabeça, um roçar sutil no peito do maior.

— A segunda opção então — Mani falou com um sorriso, apertando o abraço antes de deixarem a boate de vez.

E no final da noite Verônica percebeu que aquela coroa de flores lhe servia muito melhor e que o prêmio que ganhara era mais importante que qualquer concurso.

Notas finais
Eu não sei muito bem como lidar com personagens de Lost Canvas, então eu fui por um caminho que eu me sentia mais confortável de drag queen. Achei que serviria à personagem. Eu quase fiz ela ser chamada por engano como vencedora, mas ia ficar muito plágio do miss universo 2016, *risos* (a ideia pro concurso veio desse acontecimento). Eu imagino a versão humana drag da Verônica igual a Lorelay Fox (https://www.youtube.com/watch?v=2SWWCUAHvZQ) e ele desmontado igual a Coutney Act na versão homem (https://theconceptionofconstruction.files.wordpress.com/2015/04/shane-jenek-courtney-act.jpg). Pra quem conhece Ru PAuls drag race, sim, a Kimmy Kim é a Gia Gunn (mas nós amamos a Gia). Eu não cheguei a utilizar na fic, mas o nome verdadeiro da Verônica é Alan (eu que batizei assim, não é oficial). Bjssssssssss
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!