Tempestuoso
18 Você não Sabe como Eu me Sinto
Notas iniciais
Era um vídeo, pus para reproduzi-lo e imediatamente uma música ofensiva começou a tocar, eu não conheci o seu nome, mas era uma letra muito degradante à figura feminina. A primeira coisa que apareceu foi um título em caixa alta: AS MAIS VADIAS DE ST’AGNES. O que se seguiu foi uma seleção de fotos de alunas nuas, incluindo muitas que eu conhecia e tinha ligação, com uma legenda ofensiva embaixo.
Foram ao todo onze garotas, com duas contaram como uma. Eu conhecia mais da metade delas: Georgina, Mirna & Lucy, Camille, Maggie e Sam. Por alguns minutos fiquei sem reação, absorvendo uma informação que eu não queria que fosse absorvida.
Olhei para os lados e eu estava sozinho, queria preserva-las, mas sabia que provavelmente o vídeo já estava circulando pela escola e essas trocas de informações eram incontroláveis. Pensei no que deveria fazer, se devia contatar cada garota que eu conhecia e aparecia no vídeo ou deixar que este chegasse até as mãos delas, ou até mesmo levar direto para direção.
Andei para um lado e para outro tentando decidir, optei por avisar a única pessoa que eu era realmente íntimo, Sam. Mandei mensagem para seu celular, mas ela não estava online, então telefonei.
“Alô, Sam”
“Alô, Blake. Oi.”
“Preciso falar com você, é meio que urgente.”
Ela ficou muda por um instante, supus que já soubesse o que eu fosse falar.
“O que aconteceu? Te fizeram alguma coisa? Pode falar por celular se quiser, só estou com a Beth no meu quarto.”
“Não, não. Não é bem um problema meu...” — Eu estava me atrapalhando com as palavras. – “Mas preciso falar pessoalmente com você.”
“Vish, então é sério. Eu já estou indo então.” — Pude escutar movimentação no outro lado da linha. – “Quer que eu vá sozinha, ou posso levar a Beth junto?”
“Acho que é até melhor trazê-la.”— Imaginei que Beth poderia dar um suporte melhor que o meu.
“É sério mesmo, já estamos indo. Nos encontra na bifurcação entre as alas “Pode ser...”
“Até mais.”
“Até mais.”
Eu estava um pouco longe do lugar marcado, por isso quando cheguei, elas já estavam lá.
— Oi. – Falaram juntas, ambas compartilhavam da expressão preocupada.
Esbocei um sorriso amarelo.
— Oi. – Minha voz saiu seca.
— Algo ruim vem por aí. – Li os lábios de Beth sussurrando nos ouvidos de Sam.
— Exatamente. – Falei em tom baixo para mim mesmo.
— Está tudo bem? – Sam me perguntou.
— Não, nenhum pouco.
— O que aconteceu?
— Eu recebi um vídeo... – Comecei a falar levantando o aparelho. – Não é fácil falar, é algo um tanto delicado de se dizer, mas...
Antes que eu pudesse terminar minha fala, o celular dela vibrou e institivamente ela o pegou. Estiquei o pescoço para tentar ver o seu visor, porem a posição que me encontrava e a pouca altura me atrapalhava. Seus olhos antes distraídos focaram na tela e não piscaram mais e conforme sua expressão ia mudando eu descobria qual era o teor do que via. Se antes, eu tivera o receio que ela tivesse recebido o vídeo, naquele momento não precisava mais me preocupar.
Beth conseguia acompanhar o que ela via, pois estava atrás dela e me confirmou definitivamente que ela estava me vendo ao me lançar um olhar nervoso.
— Era isso que ia me mostrar? – Sam falou com a voz falha e virando o visor para mim.
O mesmo vídeo que me enviaram passava no seu celular, rangi os dentes sem saber o que responder. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós, Beth e eu a encarávamos esperando alguma reação e essa fazia o mesmo, alternando um por vez.
— O que foi? – Sua voz continuava falha. – Essas são as consequências de ser uma destruidora de corações e uma vadia por muito tempo. – Percebi que ela estava perdendo o controle e tentando se apoiar no humor ou na auto depreciação.
Contrai os lábios, inevitavelmente lhe olhava com condescendência, Beth fazia o mesmo e também lhe acariciava. Trocamos olhares nervosos, percebíamos que nossa amiga estava desmoronando. Repentinamente Beth a puxou para um abraço forte, na posição que ficaram eu podia ver o rosto de Sam, suas feições contraindo-se e as lágrimas molhando os ombros da outra.
Eu quis abraçá-la também, mas travei pensando se seria invasivo naquele momento entre as duas. Ficaram se abraçando por um tempo sem dizer nada, apenas ao som dos fungados do nariz de Sam. Ela, em um momento, levantou levemente o rosto e olhou para mim. Sua expressão era tão triste e vulnerável que não vi outra opção, se não, abraçá-la também.
— Eu mereço isso? – Ela se perguntou alto, a voz tinha saído abafada, mas eu pude escutá-la pela proximidade.
— Não. – Sussurrei no seu ouvido. – Você é uma pessoa muito boa para coisas ruins estarem acontecerem.
— Eu não sou. – Se livrou do nosso abraço. – Eu não sou. – As lágrimas insistiam em sair dos seus olhos.
— Você também me faz tão bem, não merece isso. Ninguém merece isso, é nojento e desumano. – Beth foi até ela e segurou o seu rosto, tentando acalmá-la. – Você é uma pessoa boa sim.
— Não, eu sou uma vagabunda! O que minha vó vai pensar de mim? Vai pensar que eu sou igual a minha mãe. – Falou mais para si do que para nós, tossindo compulsivamente em seguida.
— Você não é uma vagabunda. – Beth falou. – E mesmo que fosse, não teria nenhum problema.
— Eu... – Sam tentou responder mas a tosse lhe impediu.
Foi uma longa e angustiante crise, a tosse era parecida com a de uma pessoa idosa que fumara a vida toda. Dado um momento que tossia tanto que teve que se escorar na parede para não cair, eu estava pronto para levá-la para enfermaria quando ela parou. Limpou a boca com a mão e eu vi que ela continha um pouco de sangue.
— Você está bem? – Perguntei.
— Não. – Sua voz quase inaudível. – Alguém poderia, por favor, pegar um copo d’água para mim.
Eu fui enquanto Beth tentava acalmá-la, pois voltara a chorar compulsivamente. Por sorte, tinha um bebedouro por perto, então logo voltei com água.
As tentativas de Beth deveriam ter falhado, pois Sam chorava ainda mais. Entreguei-lhe o copo e fiquei estático sem saber como reagir. Passaram-se alguns minutos e o choro foi diminuindo até se tornar um leve lamurio. Beth tentara abraçá-la várias vezes nesse período de tempo, mas em todas havia sido repelida, somente na última tentativa havia finalmente sido feliz.
— Eu não mereço o carinho de vocês. – A voz de Sam ainda continuava baixa, apesar de ter melhorado com a água. Eu tinha tomado o cuidado de pegar uma em temperatura morna.
— Por que não? – Cometi a burrice de perguntar sentando-se ao seu lado. Sam e Beth haviam sentado no chão apoiando as costas na parede que antes a primeira se escorara enquanto tossira.
— Você não entenderia. – Ficou cabisbaixa.
— Estamos aqui, somos seus amigos e vamos te dar todo o apoio possível. – Beth não a abraçava mais, mas mantinha o contato com as mãos.
— Minha vó vai ficar com uma raiva absurda de mim, mais outra filha sujando o nome da família. Olha que nem temos um nome de verdade para zelar nessa comunidade. – Sorriu amarelo.
— Sam, eu conheço a Emy, ela vai ficar do seu lado. Eu posso apostar...
— Não. – Sam me interrompeu. – Você não a conhece como eu, a nossa história e por tudo que passamos. Mesmo que ela seja como parte da sua família, você nunca vai a conhecer como eu a conheço.
— Conheço o suficiente para saber o quanto ela é bondosa.
— E antiquada, com valores que você não faz ideia de quão arcaicos. Eu não quero ser um exemplo igual a minha mãe. Ainda mais agora que ela está doente, como você acha que ela vai reagir a isso? – Sam secava o rosto com as próprias mãos.
— Infelizmente, ela precisará ficar sabendo, Sam. Não podemos deixar isso impune e se a ação não partir de você, partirá de alguma outra garota do vídeo. – Beth falou.
— No final, eu sempre me fodo ou me foderei. – Sam fungou.
— Temos que descobrir quem foi o responsável... – Falei.
— Acha mesmo que a escola deixará isso tornar uma grande proporção? — Novamente fui interrompido. – Aqui é um escola católica, só isso já o suficiente para não querer sujar o nome dela e outra, olha o tipo de gente que tem aqui....
— Só pessoas ricas. – Beth completou. – Mas as envolvidas também são de família rica.
Essa afirmação deixou Sam sem fala.
— Eu só queria que isso passasse sem me atingir mais do que já atingiu. Eu só quero viver a minha própria vida em paz, só isso.
— Não é sua culpa. – Fiz um carinho nela. – As pessoas são cruéis umas com as outras sem nenhum motivo.
— Não é sem motivo! Não. O que eu quero dizer é que eu aprontei muito nos meus primeiros anos de colégio e que fiz muita coisa errada para muita gente. Não seria difícil alguém fazer isso para mim.
— Mas esse vídeo pode também não ser um ataque especifico para você. Tem mais outras dez garotas envolvidas e expostas, qualquer uma delas poderia ter sido o alvo de alguém e as outras terem sido usada para aumentar o número de suspeitos.
— Como assim?
— Com mais pessoas envolvidas, a probabilidade de se achar o culpado diminuiu.
— Desde quando você entende de probabilidade? – Perguntei. – Você é da natureza e astros, nunca imaginei que você inteligente também para lógica.
— Para se entender a movimentação dos astros tem que se saber um pouco de matemática, lógica e outras muitas coisas.
— Pois é, Beth não é uma total perdida. – Sam comentou atraindo nossa atenção.
Tínhamos nos perdido em uma ramificação da situação principal. Podíamos perceber que por mais que Sam falasse com nós, ainda estava presa em seus próprios pensamentos e possíveis neuras.
— Eu sinto muito. – Falei para ela.
— Não... – Começou a tossir como antes. — ... sinta.
— Acho melhor você levar ela de volta ao dormitório. – Sussurrei para Beth, enquanto Sam novamente tossia compulsivamente.
— Vou ajudá-la e também conversarei mais sobre essa questão da culpa e da avó. – Sussurrou de volta, antes de pegar Sam e arrastá-la de volta a Ala feminina.
Acenei para elas enquanto as via partir, Sam ainda tossia muito e por isso nem percebeu ou viu.
Conforme sumiam da minha visão, uma estranha sensação de vazio me dominava. Sentia que deveria ter feito mais por ela, que deveria ter lhe dado mais apoio e ter lhe dito melhores palavras de consolo. Porém, por experiência própria, sabia que por mais que se demonstrasse condolência a dor do outro, nunca seria o suficiente para confortá-lo.
—x-
Se na semana passada eu carregara os olhares de todos nas costas, Sam era quem o fazia agora. Eu tinha combinado com ela e Beth de encontrá-las no mesmo local do dia anterior para irmos tomar café juntos. Só tive a certeza que iriam quando as encontrei, imaginei que Sam não quisesse sair em público no dia posterior a divulgação do vídeo.
O caminho até o refeitório foi tranquilo, havíamos acordado mais cedo e por isso não havia quase alunos nos corredores ou no refeitório. No entanto, durante o restante do dia não seria assim para minha amiga, infelizmente teria que encarara a todos.
— Tem certeza que não quer ficar no seu dormitório? – Lhe perguntei enquanto comíamos cereal no refeitório deserto.
— Não! – Ela falou incisiva.
O vídeo ainda não devia estar circulando entre os funcionários da escola, pois os que trabalhavam na cozinha a trataram e lhe olharam como normalmente. Ela estava abatida, o rosto estava limpo de maquiagem e os olhos inchados pelo choro da noite.
— Mas... – Tentei argumentar, porém fui interrompido.
— Não! Eu não vou ficar reclusa, eu sou a vítima. Quem tem que ficar recluso é quem fez e compartilhou o vídeo. Se queriam me atingir, vou tentar demonstrar ao máximo que não conseguiram.
Olhei para Beth e ela esboçou um meio sorriso.
— Seu colega de quarto perguntou sobre o vídeo, não? – Sam perguntou.
— Não, ainda não. Não o vi ontem, já estava dormindo quando cheguei e hoje acordei mais cedo, então...
— Ótimo, mas não duvido que faça isso, ele anda com o pessoal babaca da escola.
— Tem toda razão.
— Se ele fizer alguma gracinha, certifique-se que seja a última. – Ela me pediu com um olhar de cumplicidade.
— Pode deixar. – Fiz continência
— Violência nunca é a solução. – Beth comentou aérea, olhava para o teto como se pudesse ver o céu.
— Quem disse que vou partir para violência?
— E você olha o que no teto? – Sam perguntou intrigada.
— Nada. – A ruiva nos deu plena atenção.
— Já tiveram alguma ideia do que fazer agora em relação ao vídeo? – Perguntei.
— Sam está esperando que uma das outras vítimas o leve na diretoria e dar encaminhamento nas providencias legais.
— Por que você não faz isso? – Perguntei para Sam.
— Porque eu sou uma aluna bolsista e tenho a certeza que se for tomar qualquer iniciativa serei abafada, se não for até castigada.
— Como assim?
— Discurso de moral feminina e de como eu não o tenho só por existir essas fotos.
— Isso é um absurdo. – Me indignei.
— Mas, infelizmente é a verdade. – Beth falou. – Porém, ainda podemos tentar descobrir por conta própria quem fez o vídeo.
— Detetives.
— Adoro.
— Sam você lembra para quantas mandou foto nua? – Beth perguntou.
Mesmo tendo a pele mais escura, deu para perceber o rubor de Sam.
— Não tenho certeza de quantos. – Ficou pensativa por um instante. – Mas aquela foto não parece com nenhuma que eu já mandei para alguém.
— Posso ver o vídeo novamente? – Beth pediu.
— Apaguei do meu celular. – Falei.
— Pegue o meu. – Sam o entregou.
— Deveria ter deletado do seu celular. – Comentei.
— Pretendo, mas não consegui mexer no celular desde ontem. Tenho medo que me enviem outra coisa do tipo.
— Não tiro sua razão.
— Sam, na foto você está com o cabelo curto. – Beth nos interrompeu, mostrando para ela. – Consegue reconhecer o lugar?
— É familiar, mas não lembro exatamente. Quer ver se conhece, Blake? — Sam fez a menção de mostrar o celular.
— Não, não quero. – Empurrei seu braço esticado de volta para ela. – Não quero te ver novamente assim.
— Muito cavaleiro. – Beth comentou.
— E gentil. – Sam completou.
— Faço o possível. – Ri, antes de dar mais uma colherada no meu cereal.
A porta do refeitório se abriu e uma barulhenta manada de atletas entraram. Com essa nossa conversa, não havíamos notado como a demografia do ambiente tinha aumentado até a chegada dos garotos. Os presentes na mesa trocaram olhares aflitos.
— Vejam só, nossas celebridades sentam juntas. – Escutei o gritar deles, imediatamente ficamos vermelhos.
— Aguentem firme. – Beth falou para nós. – Principalmente você Sam. – Tocou na mão dela.
— Podemos ir embora. – Propus, sabia que o foco das provocações não seria eu.
— Não vamos embora. Devemos ser fortes e uma hora ou outra vamos ter que encaram outra situação assim, é melhor já estar preparado. – Foi gentil da parte dela ainda me considerar um alvo.
— Olha quem chegou. – Beth apontou para porta.
Quase como se tivesse a música das poderosas de Meninas Malvadas, Vick e seu grupo entrou no refeitório, empurrando qualquer que passasse no seu caminho. Pensei que viriam até mim, pois caminharam na nossa direção, por sorte só se sentaram em uma mesa próxima da nossa.
— Cadê a Camille?
— A vaca estava no vídeo, não sabe se prevenir. – Vick respondeu.
Na distância que estávamos era possível ouvi-las claramente.
— As gêmeas também foram pegas. – Uma outra garota comentou.
— Só a Lucy, Mirna não é burra para cometer esses erros com nudes. Minhas unhas estão boas? – Vick mostrou suas unhas para o seu grupo.
— Acho melhor você fazê-las.
— Mimi, faça minhas unhas, por favor. – Minha irmã ordenou.
Mimi pegou um quite manicure de não-sei-de-onde e começou a fazer as unhas da minha irmã.
— Você desconfia de alguém, Vick?
— Pode ser qualquer um, atingiu nossas garotas e algumas das outras vadias. Mas é como eu digo, nude só se for sem rosto. Foram muito burras se mandaram com, é um erro de principiante.
— Então por que Mirna também aparece?
— Foto da mesma pessoa, ela tem uma irmã gêmea idêntica, só colocaram outra foto falando que era ela. Kiki, por favor, meu suco. – Vick fez biquinho enquanto Kiki levava o canudo do suco até a sua boca.
— Isso é o que eu chamo de tirana. – Sam comentou, chamando a minha atenção.
— Ela pediu. – Respondi.
— E isso é lá pedido que se faça, quando as suas mãos estão ocupadas por estarem sendo feitas?! – Beth comentou.
— Privilégio para poucas. – Vick falou bem alto.
Assim como podíamos ouvi-las, elas também podia nos ouvir.
— Pois é. – Beth a encarou.
— Não perca seu tempo com ela. – Sam interviu.
— Isso mesmo, siga o conselho da safada da sua amiga, antes que seja tarde. – Agora eu que a encarei. – Não estou mentindo, não é o meu nome e nem minha foto pelada que aparece em um vídeo, quase uma sex tape.
— Não, o que aparece relacionado a você, é o chifre que o Marc coloca na sua cabeça com a Camille há mais de um ano. – Sam retrucou.
Ouve comoção do lado de Vick, ela parou de fazer as unhas para poder nos encarar de pé.
— Eu e ele não estamos mais juntos.
— Ótimo para vocês.
— Não posso dizer o mesmo para você.
O grupo que o Marc costumava andar se aproximou na mesa das garotas e começou a encarar Sam, ele não estava presente, imaginei que tivesse sido expulso por causa da minha irmã.
— Belas tetas. – Um deles comentou para Sam.
— Não são bonitas, parecem meio vesgas. – Um outro comentou.
— Não são, eu lembro delas. Não tem como esquecer sua primeira espanhola.
— Vocês são nojentos por ter ficado com aquilo. – Kiki quis ofender.
— Não era tão usada quando eu a peguei.
— Eu não a peguei.
— Como assim você não a pegou? Todo mundo já pegou!
— Quando eu cheguei ela já tinha diminuído a frequência.
— Verdade, desde o ano passado ela tinha parado de ir nas festinha de férias.
— CHEGA! – Sam gritou. – Não permito que falem de mim como um objeto sexual!
— Se comportou como um, por tanto tempo é agora quer ordem? – Um deles rebateu. – Olhe para o seu passado e tudo que fez, antes de querer permitir ou não alguma coisa!
Sam se aproximou desse garoto e o encarou de baixo, ela já tinha naturalmente pouca estatura e para acentuar a diferença, o garoto era bem alto, poderia facilmente ser um jogador de basquete. Faíscas poderiam ter saído dos olhos, subitamente ela o empurrou para trás e cuspindo na sua cara.
Ouve um comoção generalizada, Sam foi puxada para trás por Beth quase tropeçando nela e caindo. A garoto não ficou muito tempo paralisado pela surpresa, tomado pela fúria avanço em nossa direção, porem foi impedido pelos outros garotos.
— VAGABUNDA! – Ele gritou, as veias do seu pescoço estavam saltadas e o cuspe da minha amiga escorria pela sua bochecha.
— SEU BROCHA DE MERDA! – Sam gritou de volta.
Todos no refeitório pararam o que faziam para presenciar a briga.
— Bate nessa vagabunda! – Kiki incentivou.
Os que seguravam o garoto tiveram que aumentar o esforço de contê-lo, pois este se empenhava cada vez mais em avançar em Sam.
— Não vai bater nela! – Me coloquei na frente da minha amiga.
Eu não sabia o que estava fazendo, mas sabia que tinha que defender Sam e Beth.
— Tira seu irmão daí, Vick! – O garoto falou para minha irmã, imediatamente olhei para ela.
Algumas de suas garotas gritavam incentivando o nosso possível agressor, enquanto outras como ela se mantinham indiferentes. Antes ela mantinha a atenção ao trabalho que Mimi vazia em suas cutículas, ao ser citada apenas levantou os cílios e me encarou profundamente, senti todo o ódio e recentemente que me enviava.
— Se marcar o rosto dele consegue um encontro comigo.
A resposta foi surpreendente para todos, inclusive para mim e para meu futuro agressor que teve um momentâneo freio de raiva para poder absorver aquela informação. Suas próprias seguidoras lhe olharam atônitas. Fiz a minha melhor expressão: “sério isso?” e obtive como resposta uma jogada de cabelo da parte dela.
— Aí! Borrei minha unha. – Ela falou.
— Vem! – Escutei antes de ser puxado pela camisa por Beth.
Me atrapalhei todo antes de começar a correr, quase caindo, vi nosso adversário se livrando do seus amigos e correndo na nossa direção como um boi em uma tourada. Pretendia correr sem parar com minhas amigas para algum lugar seguro, porém fui impedido quando colocaram um pé propositalmente no meu caminho fazendo-me tropeçar. Beth e Sam continuaram a correr enquanto nossas mãos se soltavam e eu cai de barriga no chão, só não sendo de cara porque consegui esticar a tempo meus braços e consequentemente amortecendo a queda.
Tinha fechado os olhos por reflexo e quando os abri, olhava somente para o chão, fui levantando a cabeça lentamente, vi minhas amigas paradas a pouco metros a minha frente olhando para mim. Escutei a risada do público que assistia e que me atingiu como uma saraivada de flechas. Minhas mãos e pulsos doíam pelo impacto, porem o que deveria estar mais vermelho em mim era a minha face pela vergonha.
Olhei para os lados a procura do acarretador da minha queda e vi Marc sentado na mesa ao meu lado, ele sorria e possuía uma expressão de divertimento. Estranhei a demora em ser apanhado pelo meu agressor, no entanto, podia ouvir sua risada atrás de mim.
— Você quer bater em mim, então vá em frente, mas não vai tocar nele. – Sam se manifestou, cortando a gargalhada generalizada e caminhando até a minha frente.
Beth tocou no meu ombro atraindo a minha atenção, me ajudando a levantar e segurando a minha mão.
— Que confusão é essa? – As Irmãs inspetoras finalmente apareceram dispersando a aglomeração de alunos que se formara em nossa entorno e que eu não notara antes. Os envolvidos não responderam. – Terei que levá-los até a Irmã Florence para que falem?
— Ele tentou nos agredir. – Beth falou.
— Só o McCarthy e a Willy, não em você esquisita. – Resmungou.
— Os quatro comigo. – A inspetora ordenou.
As seguimos até o último andar do prédio Principal no escritório da diretoria. Meu grupo se mantinha mais próximo da inspetora, enquanto o outro garoto ficava mais afastado.
— É a oportunidade de você falar tudo o que tem que falar sobre o vídeo. – Beth falou para Sam.
— Já falamos sobre isso... – Suspirou.
— Ainda acho que a situação está ao seu favor. – Comentei.
— Acha mesmo?! – Sam foi bem irônica, eu tinha feito um comentário idiota.
— Desculpe.
Ao chegarmos no escritório tivemos que ficar em uma espécie de sala de espera pois a Irmã Florence estava resolvendo um assunto muito importante para nos atender naquele momento.
— Você precisa contar tudo, até a parte do vídeo. – Beth murmurou para Sam.
Estávamos sentados em um pequeno sofá de três lugares, enquanto o outro garoto estava em uma poltrona do lado oposto da sala e a inspetora conversava com a secretaria da diretora no balcão perto da porta.
— Acho melhor outra pessoa fazer isso, tenho certeza que só o depoimento da inspetora vai ser suficiente para encrencá-lo. – Indicou com a cabeça o outro.
— Mas a questão é bem maior do que isso, maior do que só ele.
— Não quero falar sobre isso agora. – Ela coçou a nuca.
Demorou muito tempo para sermos atendidos, já havia passado o intervalo de almoço quando as pessoas que a Irmã Florence se reunia saíram da sua sala.
— Desculpem, mas terão que esperar mais meia hora enquanto eu almoço. – Ela falou quando nos viu. Todos bufaram insatisfeitos. – Seria algo mais urgente para que eu adiasse ainda mais meu almoço? – Ela perguntou para inspetora.
— Não, apenas problemas disciplinares.
— Então, voltarei logo.
Esperamos por mais meia hora até a Irmã Florence voltar, nesse meio tempo Beth avisou a inspetora que apenas Sam iria conversar com a diretora e que esperaríamos no lado de fora, isso gerou um olhar preocupado de nossa amiga.
— Sem mais delongas. – A Irmã falou ao retornar e abrir a porta para recebê-los.
Observamos Sam entrar e lançar um último olhar de medo ao ter a porta fechada atrás de si.
— O que vai acontecer? – Perguntei imediatamente para Beth.
— A Inspetora viu tudo, ele não vai ter uma boa defesa, então no mínimo alguma punição vai ter que receber, pode ter um agravante se Sam falar.
— Acha que ela realmente vai falar?
— Não sei, mas espero que sim.
— Mas... – Comecei a falar mais fui interrompido.
— Blake, um momento. – Beth se acomodava no sofá sentando com as duas pernas dobradas sobre ele e fechando os olhos. – Eu vou canalizar um pouco de energia da natureza e enviá-las para Sam. – Ela começou a respirar fundo, como se estivesse em um transe.
Vi a recepcionista lhe lançar um olhar feio, não era muito sensato canalizar energia de modo pagão em uma escola e convento administrado por freiras. E novamente demorou, Beth pôde canalizar umas quatro vezes energia até que a porta da Irmã Florence voltasse a abrir, e considerando que cada canalização parecia demorar uma eternidade.
O primeiro a sair foi o nosso agressor, que seguiu diretamente para o corredor sem parar, aparentemente muito irritado. A inspetora e Sam foram as próximas, fechando a porta atrás delas.
— Sr. McCarthy e Srta. Grant estão dispensados do restante das aulas de hoje, porém possuem a responsabilidade de correr atrás da matéria perdida. – A inspetora começou a falar severa. – Não receberam punição sobre o ocorrido mais cedo, mas ficam avisados que na próxima confusão ou perturbação que estiverem envolvidos ficarão de castigo pelo resto do ano letivo. O Sr. Blair recebeu a devida punição e exijo que mantenham a convivência saudável com ele.
— Sim, Irmã. – Beth e eu falamos juntos.
— Agora, por favor, sigam até seus respectivos dormitórios com a Srta. Willy. – Gesticulou em direção a porta. – Em silencio. – Salientou.
— Sim, Irmã. – Repetimos os três antes de sair.
— Com certeza que vamos para os nossos dormitórios. – Sam falou quando já estávamos no final do corredor.
— Sério? – Estranhei.
— Não, vamos para aquele banco lá no bosque. – Elas riram da minha lerdeza.
— Mas deve estar frio. – Lamentei.
— Vamos. – Cada uma puxou uma respectiva das minhas mãos.
—x-
Conversamos até um pouco depois do final da última aula eletiva no meio do bosque quase deserto, vez ou outra víamos algumas freiras passando, indo ou voltando da igreja. Sam nos contou o porquê de terem demorado tanto, fora por causa das três narrativas e dos três interrogatórios, e o principal, por ter denunciado o seu vídeo, o que acarretou em uma sucessão de outros acontecimentos que levaram ainda mais tempo.
— No fim, ele só ficou suspenso do time de basquete. – Ela concluiu, fumaça saí da sua boca devido a temperatura baixa do ambiente.
— Só isso? – Beth parecia extremamente irritada. – Você tem a sua intimidade exposta e ele ganha só uma suspensão do time de basquete, nem para ser expulso, no mínimo! – Estava indignada.
— Mas não sabemos se foi ele que fez o vídeo. – Argumentei.
— Mas sabemos que se ele tivesse a oportunidade de fazer, faria! – Praticamente gritou comigo, eu nunca tinha visto este seu lado. – Isso é um absurdo!
— Estamos de mãos atadas, agora só vão investigar quem fez para poder saber como abafar depois. – Sam falou.
— Obviamente é mais de um envolvido...
— Beth. – Sam a interrompeu, antes que prosseguisse mais na fala. – Por favor, chega desse assunto.
A ruiva fez a expressão de quem engole seco e se calou.
— Aqui está muito frio. – Falei, saindo fumaça da minha boca.
— Eu gosto daqui. – Sam comentou.
— Eu também. – Beth concordou.
Elas olharam para horizonte, sem ser para algo específico. A vegetação morta do bosque até poderia ser bonita de dia, mas de noite, deveria ser bem ameaçadora. Tudo possuía dois lados, até minhas amigas. Sam mesmo com a postura de desprendida, se importava com algumas opiniões e era frágil dependendo da forma que era atingida. Beth aparentava ser uma pessoa distraída e tranquila, mas ficava bem agressiva com injustiças ou causas sócias.
— Mundo patriarcal é foda. – A ruiva não resistiu de falar.
Olhamos de um para os outros e rimos.
— O que é mundo patriarcal? – Perguntei.
— É a nossa sociedade e modo como ela foi construída, todos os nossos valores e comportamentos ditos como comuns. Patriarcado tem a ver com a figura masculina e como tudo gira e desenvolveu a partir dessa figura, o machismo basicamente.
— Quando surgiu o esse patriarcado?
— Desde a época das cavernas, quando foi definido que o macho deveria caçar e a fêmea cuidar da prole, quando ouve a separação dos trabalhos e a definição de que um era melhor que o outro e poderia assim mandar nele. Esses são os valores de raiz o que eu posso melhor dizer, mas o patriarcado da nossa sociedade ocidental foi fixado com toda certeza pela igreja católica romana.
— Pela igreja?
— Blake, a igreja mudou muito e era muito pior no passado, mesmo ainda apresentando muitos defeitos. Você estudou o básico de história, então sabe como era na idade média. Como eu falei, mudou, mas melhorou? Não muito. Todas esses valores deturpados e machistas enraizaram e nossa sociedade e a moldou do jeito que ela é agora...
Beth passou mais um tempo me explicando o que era o patriarcado e o feminismo, chegando a falar sucintamente sobre o feminismo negro até que ouvimos o sinal do final da última aula.
— ... mas ressaltando, Blake. Isso não é uma luta sua, então, jamais tente se tornar o protagonista dela. – Finalizou.
— Certo, apoiar, dever. Protagonizar, jamais.
— Exatamente. – Ela sorriu.
— Gente. – Sam chamou nossa atenção. – Acho melhor voltarmos agora.
— Amém. – Falei.
— Se não queria ficar aqui, já poderia ter ido. – Ela me falou.
— Não é isso que quis dizer, eu quero ficar perto de você. – Lhe fiz uma caricia no rosto. – Mas aqui fora está frio.
— Vamos logo. – Ela me ignoro, se adiantando na neve.
— Fiz alguma coisa errada? – Perguntei para Beth.
— Mais ou menos, mas não se preocupe com isso, não tem a ver com você.
Segui com elas até a bifurcação, quando nos separamos indo para nossas respectivas alas. Os meninos estavam na maior barulheira, tinham acabado de voltar da última aula e estavam morrendo de fome. No caminho até meu quarto, notei a proporção que o vídeo alcançara ao ter me deparado com pelo menos seis grupos de garotos conversando sobre ou o vendo. Por dentro, eu queria gritar com eles e falar o quanto estavam errados por fazer aquilo, mas querem eu contra eles? Fiz o mais sensato e fui direto para o meu quarto.
— Como está a sua amiguinha? – Foi a primeira coisa que escutei ao abrir a porta.
Yerik estava sem uniforme, apenas com a roupa de baixo, a que ele costumava usar debaixo do uniforme, camiseta branca e calção azul clarinho. Infelizmente conviver com uma pessoa todos os dia te fazia conhecer os hábitos dela. Lendo um livro em búlgaro deitado na sua cama, com o seu uniforme jogado aos pés dela.
— Suas roupas. – Apontei para as suas roupas, enquanto ia para o armário tirar os agasalhos mais pesados.
— Deixe-as aí. – Falou quando fiz menção de pegá-las. — Estou lhe perguntando, como está a sua amiga, agora que ela é famosa na escola.
— Não estou entendendo. – Cerrei meu olhar.
— Está circulando um vídeo dela pela escola, não sabe? Você não passou o dia fora por que brigou para defendê-la no café? Claro que sabe, foi por isso, não foi? – Ele me confundiu.
— Minha amiga não está famosa, se trata esse adjetivo como algo bom de se ter. – Lhe falei sério. – Mas se quer saber se foi por isso que eu estive fora da aula, foi por isso mesmo.
— Não sei nem porque te perguntei isso se foi eu que te enviei o vídeo.
— Então foi você? Por que fez isso? Só ajudou a populariza-lo! – Aumentei meu tom de voz irritado.
— Hey, hey, calma aí, eu não fiz nada que um monte de gente não tenha feito e outra foi bem melhor o vídeo ter chegado até você por mim que sou o seu amigo, do que por qualquer outra pessoa. E também sei que foi imediatamente falar com a sua amiga, não foi você que contou para ela?
— Não deu tempo...
— Viu, ia fazer o mesmo. Não tem porquê me julgar.
— Você não entende o quanto isso a afetou...
— Claro que não entendo, não sou eu. Eu sou mais cuidadoso. – Me interrompeu.
— Você não entende a gravidade da situação?! Ela está se sentindo um lixo, não se importa com as outras garotas?! – Praticamente cuspi aquelas palavras
— Eu não fiz o vídeo e acho muito escroto quem o fez. Por que está gritando comigo?
— Porque você compartilhou o vídeo, é quase tão ruim quanto quem o fez. Não vê que isso incentiva esse tipo de coisa e passa a se tornar mais frequente porque sabem que vai repercutir.
— O que eu posso fazer? – A indiferença dele me irritava.
— NÃO COMPARTILHAR! – Gritei.
— Mas enfim, quem ganha com tudo isso é ela que ficou famosa. – Riu de deboche.
— Isso não é engraçado! – Gritei para ele, antes de voar em sua direção.
Acabei não me controlando, estava com uma raiva guardada dele que foi inflamada por aquilo que falara. Estava a um pulo da sua cama quando ele arremessou o livro contra mim, em um tentativa de defesa que acertou a minha testa e me derrubando no chão.
— BLEIKA! — Ele gritou, se levantando e indo me socorrer.
— Ai minha cabeça. – Me levantei pegando o livro com uma mão e massageando com a outra a região na testa que fora acertada.
— Você está bem? – Yerik agachou ao meu lado.
— Que livro é esse? Uma bíblia ortodoxa búlgara? – A região acertada latejava.
— Quase isso. – Ele fez menção de me tocar.
Peguei o livro e lhe dei dois tapas, um em cada lado do rosto.
— Não brinque com isso! – Gritei. — Jamais faça brincadeiras com essa situação. SEU IDIOTA! E NEM ME TOQUE.
Ele me encarava assustado com as mãos nos lugares que o livro acertara, sua expressão mudou até que se tornou raivosa e sombria.
— Quem é você para me bater? — Puxou o livro grosseiramente da minha mão. – Não me bata novamente, nunca mais. – Seu tom era ameaçador e eu consenti com a cabeça no automático. – Eu não concordo com toda a porcaria dessa situação, jamais faria esse tipo de brincadeira com qualquer uma das envolvidas e já fico avisado que se souber qualquer coisa do seu interesse não é para te falar. – Falou antes de recolher em sua cama.
Eu não falei nada, Yerik estava visivelmente chateado, isso por um lado me deixava com a consciência pesada, mas por outro deixava-me com uma leve satisfação no íntimo por tê-lo machucado de alguma forma e ter descontado algo que eu nem mesmo compreendia. Me enganei a mim mesmo, fazendo-me acreditar que essa quase total e completa falta de culpa era devido ao sentimento de proteção que tinha pela minha amiga.
Também me recolhi na minha cama dando uma última encarada no búlgaro que dera as costas para mim esperando o horário do jantar.
—x-
No outro dia, de costume me encontrei com as garotas e teve o seu início com o anterior, com o diferencial de termos ido tomar café no horário costumeiro. Sam não teve que carregar todos os olhares sozinha, pelo menos oito das onze envolvidas voltaram para o âmbito social, o que não era necessariamente uma coisa boa. Algumas ignoravam o assunto e se mantinham acima dele, como Sam e as gêmeas faziam; outras encaravam como uma piada, pelo menos aparentava isso, como Camille fez durante o almoço rindo com o seu grupo de garotas e minha irmã sobre a foto que escolheram sua; e ainda tinha as que estavam nitidamente devastadas como Maggie e Georgina, a segunda pelo menos tinha o seu grupo de amizade para lhe dar suporto emocional, porém a primeira estava sozinha.
Um resultado positivo surtiu da denúncia de Sam, no primeiro horário de aula todos os professores falaram sobre o caso, sua gravidade e como estava terminantemente proibido de se falar, compartilhar ou ver aqueles vídeos na escola. O restante do dia seguiu sem surpresas até o Coral.
Quando chegamos na sala, a Sra. Underwood estava de pé com uma expressão séria e raivosa, bem diferente da aérea costumeira. Atrás dela, em vermelho, reluzia os seguintes dizeres: Meninos, DIREITA & Meninas, ESQUERDA. O ambiente havia sido organizado para ser dividido em polos opostos.
Me separei das minhas amigas e fui me sentar junto de Zach, que era até então, o único garoto presente. Esperamos por mais alguns minutos até que todos chegassem, estranhassem a nova formação da sala e se acomodassem de acordo com a indicação.
A Sra. Underwood fulminou um por um antes de falar, isso durou cerca de dez minutos e quando falou sua voz trovejou, assustando a muitos:
— NOVA PALAVRA DE ORDEM: FEMINISMO! – Todos ficaram atônitos pelo grito. – Dado aos últimos acontecimentos, nenhuma palavra definiria melhor a situação. Feminismo. E também será o tema da nossa semana, podendo se estender também para as próximas.
Sem outras explicações, uma batida de música country misturada com uma guitarra começou a tocar e a Sra. Underwood começou a cantar, pegando todo mundo novamente de surpresa.
Let's go girls!
I'm going out tonight — I'm feelin' alright
Gonna let it all hang out
Wanna make some noise- really raise my voice
Yeah, I wanna scream and shout
Ela dançava provocante, deixando todos chocados, caminhou em direção as garotas e as atiçou para se juntarem a si na apresentação. Todas se mostraram dispostas, menos Camille:
No inhibitions — make no conditions
Get a little outta line
I ain't gonna act politically correct
I only wanna have a good time
The best thing about being a woman
Is the prerogative to have a little fun and
Todas as garotas, exceto Camille se levantaram, dançando em seus lugares e lhe fazendo coro:
Oh, oh, oh, go totally crazy — forget I'm a lady
Men's shirts — short skirts
Oh, oh, oh, really go wild — yeah, doin' it in style
Oh, oh, oh, get in the action — feel the attraction
Color my hair — do what I dare
Oh, oh, oh, I wanna be free — yeah, to feel the way I feel
Man! I feel like a woman!
As garotas se organizaram e começaram uma coreografia improvisada:
The girls need a break — tonight we're gonna take
The chance to get out on the town
We don't need romance — we only wanna dance
We're gonna let our hair hang down
The best thing about being a woman
Is the prerogative to have a little fun and
Oh, oh, oh, go totally crazy — forget I'm a lady
Men's shirts — short skirts
Oh, oh, oh, really go wild — yeah, doin' it in style
Oh, oh, oh, get in the action — feel the attraction
Color my hair — do what I dare
Oh, oh, oh, I wanna be free — yeah, to feel the way I feel
Man! I feel like a woman!
Voltaram a dançar ao som da guitarra:
I get totally crazy
Can you feel it
Come, come, come on baby
I feel like a woman
Elas terminaram a apresentação e com nítido entusiasmo e animação esperaram a reação dos garotos que ainda estava abobados com a performance. Demorou alguns segundos e finalmente todos bateram palmas, alguns só por educação e outros como eu, fizeram uma verdadeira ovação.
— Feminismo? – Marc falou bem alto em tom de deboche e depreciação, assim que as palmas cessarão.
Beth o fulminou tão forte com o olhar que eu poderia jurar que a cabeça dele estava prestes a explodir, conhecia a sua capacidade canalizar energia e não duvidava muito das suas capacidades de usá-la.
— Exatamente, Sr. Cruz. Todos terão que cantar músicas com letras de empoderamento feminino.
— Não somos obrigados a sermos feministas. – Camille trovejou.
Senti Sam e Beth lhe olharem atravessadas. Imaginei que isso que ela afirmava deveria ser algo extremamente errado de se dizer e pelo o pouco que conhecia de feminismo por minhas amigas era.
— Mas são obrigados a fazer as tarefas que peço. – A Sra. Underwood rebateu.
— PARA DE PASSAR VERGONHA! – A voz grave da Charlotte ecoou na sala, ela encarava Camille. Todos lhe olharam abasbacados, não era comum ela falar, se não fosse de maneira bem discreta e seleta com a Abigail e com o Jesse. – VOCÊ PASSA POR TODA ESSA HUMILHAÇÃO NO VIDEO NOJENTO QUE ESTÁ CIRCULANDO PELA ESCOLA E VEM DIZER QUE NÃO PRECISA DE FEMINISMO?
— E O QUE QUE VOCÊ TEM HAVER COM ISSO? – Camille gritou de volta. – O QUE VOCÊ SABE DA MINHA VIDA, PARA QUERER FALAR ALGUMA COISA?
— Não me refiro a porcaria da sua vida, mas as merdas que está soltando pela sua boca. Dando aval para macho crescer, ainda mais do que já cresce, em cima da gente. Não reproduza machismo!
A Sra. Underwood estava sem reação.
— Não quero saber de nada de machismo ou feminismo, eu vou viver a minha vida do jeito que eu quero sem ter que me intitular como uma feminista.
— Faça isso e cuspa nos direitos que suas irmãs lutaram e lutam até hoje para conseguir dizer e fazer isso! Deixa eu te esclarecer, se você pode ter alguma opinião bosta foi porque o feminismo lhe proporcionou essa possibilidade.
Conversas paralelas começaram a explodir envolta da discussão principal atrapalhando o meu entendimento sobre ela.
— Charlotte gritando desse jeito não vai convencer ninguém de nada. – Escutei Sam falando para Beth conforme eu me aproximava delas, aproveitando-me da confusão para burlar a regra de assentos, se ela ainda existia depois de ambas as garotas e Marc levantarem dos seus lugares e discutirem no meio da sala.
— Meu amor, ninguém aqui é obrigado a aceitar ideologia de pensamento de ninguém. – Joanne se intrometeu para defender Camille, afinei minha audição para poder ouvir.
— Não é isso que a Charli está querendo fazer... – Abigail também se intrometeu.
— Eu sei qual é o problema de vocês feministas. – Foi a vez de Marc se intrometer. – São tudo um bando de mal amadas e de garotas feias. Olha as feministas daqui, uma gorda e uma sapatão quer um exemplo melhor de quem são esse grupo de vocês.
Todo mundo parou de conversar e voltou a prestar atenção na discussão, tinha sido um comentário humilhante e desnecessário.
— O que você disse? – Jesse o encarrou.
— É isso mesmo! Não vejo uma garota bonita falando que é feminista, só vejo as que são rejeitadas e ficam falando isso porque não arrumam ninguém e ficam com ódio dos outros garotos por não as quererem.
Uma parcela da sala começou a rir.
— Não precisa xingá-las. – Jessie o repreendeu.
— A gorda e a sapatão! – Camille gritou. – Aposto que adorariam ter aparecido naquele vídeo, só para aumentar um pouco a autoestima.
— Aquele vídeo não tinha nada que aumentasse a autoestima de ninguém. – Charlotte falou.
— Se sentir desejada, estou recebendo muitos elogios. – Camille tentou soar presunçosa.
— Como se ser tratada como objeto sexual fosse algum tipo de elogio.
— Não... – Camille engoliu suas palavras ao ser interrompida.
— Quando o termo vadia for aplicado como elogio, me avise. – Sam se intrometeu.
— Samantha, ótimo agora que entrou na conversa. Nos diga como era feminista até dois anos atrás, porque eu lembro muito bem de você nas festinhas nos feriados no meu primeiro ano. – Mudou o seu alvo, pois sabia que não conseguiria discutir com Charlotte.
— E o que isso tem haver?
— Vejo você bancando a maior vítima por causa desse vídeo, quando todo mundo sabe que você foi a maior vadia que essa escola já teve até poucos meses atrás. – Mesmo que Sam não demonstrasse, eu sabia que tais palavras tinham lhe acertado como um tapa.
— E desde quando isso dá o direito de alguém a usar uma foto minha para montar algum vídeo doentio, expondo o meu corpo? Eu tenho dezessete anos, isso é pornografia infantil.
— E daí? Eu também tenho dezessete anos e não fico me vitimando, se alguém achou minhas fotos foi porque não fui cuidadosa com elas. Expondo o seu corpo? – Riu exageradamente. – Querida, não precisa se preocupar com a exposição do seu corpo, todo mundo já o conhecia antes.
— Como pode se culpar?! Você não as colocou em no vídeo. E minha vida sexual também não é fator a ser considerado, posso dormir com quantos caras eu quiser e isso não dá esse direito a ninguém.
A resposta não defensiva pegou Cami desprevenida.
— Mas dei aval para alguém fazer isso...
— Se enviou a foto para alguém é dever dessa pessoa manter isso só entre vocês dois! Isso não é dar aval, é dar confiança e assinar um contrato de cumplicidade e sigilo.
— Isso nunca foi uma regra de verdade, você sabe muito bem disso. Quando você envia uma foto, ela está no totalmente a disposição e vontade dessa pessoa.
Essas foram as últimas falas que consegui ouvir antes de milhares conversas e discussões paralelas explodirem pela sala.
— JÁ CHEGA! – A Sra. Underwood finalmente interviu. – A tarefa foi dada e é para ser cumprida. Quem não a fizer, não precisa nem vir, estará suspenso do Coral e sem previsão de volta. – Todos imediatamente ficaram calados. – Estão dispensados.
Todos encararam um ao outro antes de se moverem, mostrando nitidamente como a sala estava polarizada. Eu estava curioso em saber como seria na próxima reunião e se todos estariam realmente presentes. Percebi que Yerik me encarava, não tinha escutado o seu posicionamento na discussão e antes que eu pudesse trocar olhares com eles o nosso contato visual foi quebrado, ou melhor barrado pela movimentação dos alunos saindo.
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Apesar da proibição e a sistemática fiscalização das freiras para que os alunos não comentassem sobre o vídeo, comentários e olhares atravessados ao longo dos dias eram inevitáveis. A medida proibitória também tivera um lado negativo, quem ainda não vira ou soubera do vídeo acabou ficando curioso para ver e consequentemente a mídia se espalhou ainda mais pela escola.
Eu cheguei cedo para aula de escrita do Sr. Jackson, na quarta-feira pois não havia tido os dois períodos anteriores. Além de mim o único outro presente era o Alex, ele estava mais sozinho do que nunca agora que não falava mais com Maggie. Eu tentava ao máximo formar uma amizade com ele, mas sua personalidade combinada com a minha tornava a relação quase impossível, os dois eram muito introvertidos.
— Olá. – O cumprimentei ao entrar na sala. Obtive um aceno como resposta. – Posso me sentar perto de você?
— A vontade. – Ele falou.
Discretamente, acompanhei o seu olhar me acompanhando até a carteira ao seu lado, mesmo que tentando disfarçar. O encarei por um momento, antes de começar a falar. Os contornos dos seus olhos estavam avermelhados, o que descava sua íris acinzentada e lhe dava uma aparência levemente doentia, o cabelo pálido bem penteado parecia ainda mais sem vida do que o costume.
— Como está? – Fiz uma pergunta banal na tentativa de começar um diálogo.
Demorou cerca de dois minutos para ele me responder, tempo que ele passou me analisando meticulosamente com a boca levemente aberta.
— Bem. – Abruptamente falou, grunhindo a voz e cortando o contato visual ao endireitar sua postura na cadeira.
— Como tem passado? – Repeti a pergunta ingenuamente.
— Eu já não respondi essa pergunta? – Falou baixo.
— Verdade. – Sorri, ele se manteve inexpressivo. — Poderia sorrir mais. – Deixei escapar, me arrependendo imediatamente.
— Por que?
— Porque, sei lá, é bom e trabalha os músculos da face. – Consegui um meio sorriso.
— Se quer ser realmente meu amigo, não vai conseguir desse jeito. – Foi direto.
— Que maldade. – Me calei.
— Desculpe-me. – Ele falou depois de um minuto.
— Posso te fazer uma pergunta? – Lembrei de um pensamento que tinha me ocorrido recentemente.
— Faça outra.
— Ainda não está falando com a Maggie? – Eu já sabia qual era a resposta, mas não via outra maneira de iniciar esse assunto.
— Não. – Foi bem ríspido na resposta.
— Não acha que deveriam voltar?
— Você quer isso?
— O que?
— Que nós voltemos.
— Não necessariamente isso, mas que voltassem a se falar e serem amigos. Você viu como ela está? Não sei se sabe, mas está rodando pela escola um vídeo com fotos dela. – Esperei alguma reação dele. – Íntimas. – Completei ainda esperançoso.
— Sei. – Inabalável. – E merece esse sofrimento.
— Como pode pensar isso? – Uma ponta de desgosto cresceu em mim.
— Acredito que a lei divina e como ela é justa, só colhemos aquilo que plantamos. Ela tomou escolhas e atitudes que resultaram nisso, está agora pagando nessa forma.
— Isso é horrível. – Falei um pouco elevado, fazendo-o espreitar os olhos. – Acredito que a justiça divina é o amor e perdoar, também pagar, mas nunca dessa forma. Também acredito em testes divinos, situações que nos são impostas para julgar como será nosso comportamento e nossa solidariedade, amar ao próximo antes de a si mesmo.
— Você é um cristão mais evoluído do que eu.
— Não sou não. Você é uma pessoa boa, acredito na sua bondade e peço que ajude a sua ex-namorada. – Toquei na sua mão que estava apoiada em cima da sua carteira.
Sua mão era gelada e senti a menção da fuga assim que o toquei, porém a ação tinha sido refreada antes de ser realizada. Alex parou de me olhar e olhou para nossas mãos.
— Ela está sofrendo muito, algo que nem podemos imaginar... – Continuei.
— Blake, você sabe o que é sofrimento? – Sua pergunta me pegou de surpresa.
Desfiz o toque e me endireitei em minha cadeira, era uma pergunta bastante reflexiva. Pensei em tudo o que eu passara durante meus poucos anos de vida: uma curta infância feliz, acidente de barco, morte da minha mãe, ausência do meu pai, raiva da minha irmã, solidão, medo, o amor da minha pequena família, minhas amizades, Sam, Beth, Emma e Mick.
— Não posso dizer que conheço completamente, pois minha vida tem aspectos tão felizes que compensam todo sofrimento que já passei.
— Eu conheço sua historia e posso dizer que você conhece sim o sofrimento, mas só se esqueceu dele. Blake, eu conheço o sofrimento e o que ela está passando não é nada comparado com o sofrimento que outras pessoas passam.
— Tipo?
— Eu...- Senti que ele ia desabafar mas fomos interrompidos pela chegada do professor.
— Boa tarde, maricas.
O Sr. Jackson quebrou a nossa conversa que não foi retomada por muito tempo.
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Eu estavam voltando da biblioteca e indo para o meu dormitório, após ter ficado até depois do horário de recolher estudando, quando vi Charlotte andando na direção oposta, quando me viu se assustou como se tivesse visto um fantasma. Usava um sobretudo marrom escuro que cobria-lhe todo o corpo.
— Você aqui? Essa não é uma área restrita masculina?
— Você não me viu aqui! – Ordenou séria, correndo mais sorrateiramente que antes.
— Certo. – Falei desconfiado a observando ir para a Ala de funcionários, o que era ainda mais estranho.
O restante do trajeto até o dormitório foi deserto e tranquilo até que cheguei no salão masculino e o vi em uma completa destruição. As paredes estavam pinchadas com tinta spray preta como os dizeres: machistas e misóginos e símbolos feministas. Mesmo com a pouca iluminação, também pude ver que os troféus de tanto prestígio dos garotos estava destruídos no chão e alguns queimavam na lareira.
Impressionado com a cena, peguei o elevador o mais rápido possível para o meu dormitório, fingindo não ter visto nada do acontecido e esperaria as reações quando todos os garotos acordassem.
No outro dia acordei com a barulheira do corredor, já ciente do que se tratava, vi Yerik correr de pijama para o lado de fora enquanto eu ia tomar banho. Tive muita dificuldade de passar pelo salão devido a multidão que se formara. Durante o dia, a notícia da depredação da Ala masculina conseguiu abafar um pouco o escândalo do vídeo. Fiquei completamente desconfortável, pois provavelmente sabia quem era o responsável, ou melhor, a responsável por aquilo e eu não fazia absolutamente nada sobre esse assunto.
— Voltou para seu dormitório? – Sam me perguntou, a última vez que havíamos nos encontrado fora na hora do almoço.
— Não, por quê?
Caminhávamos em direção a sala do Coral.
— Ela queria saber se o Salão masculino ainda está completamente quebrado. – Beth me respondeu. – Ela não para de falar sobre isso o dia inteiro.
— Tenho a necessidade de estar muito feliz com os garotos sendo prejudicados de alguma forma. – Sam comentou, parecia animada.
— Não acho legal o que fizeram. – Fui sincero.
— Eu adorei. – Ela voltou a falar. – Miraram nos garotos e acertaram até a escola. – Riu.
— Ainda não acho legal ter destruído um patrimônio escolar.
— Amigo, é porque você nunca é prejudicado em nada. Vejo como uma punição pela passividade em relação ao machismo aqui dentro. Pelo amor de deus, é um colégio dirigido por mulheres e elas só sabem defender filhinho de papai...
— Eu gostaria era de saber quem foi a responsável. – Beth comentou entre a fala da amiga.
Imediatamente fiquei vermelho, esconder informações não era o meu forte. No entanto, para minha sorte, Sam estava distraída com o seu discurso e Beth era naturalmente distraída.
— ... e para o ego deles. – Sam finalizou.
— Concordo, por esse ponto de vista. – Quis desconversar.
— Chegamos, aposto que os machos devem estar soltando fogo. – Beth falou antes de entrarmos na sala.
Ela estava certa, a Sra. Underwood estava atrasada e a sala vibrava com a conversa, percebi que Marc não estava presente, provavelmente tinha decidido do clube por ser machista demais.
— Boa tarde a todos. – Ouvi a professora falando atrás de mim, tinha acabado de chegar e trazia consigo a natural e o fedido odor de cigarro.
Todos aprontaram em se sentar nas cadeiras que voltara para formação atual.
— Espero que fale do ataque aos garotos. – Escutei Steven falar quando fui me sentar.
— Daremos prosseguimento ao trabalho dado como lição na última aula. Quem será ou serão os primeiros?
— Eu e meu irmão, professora. – Joanne falou levantado a mão.
— Por favor. – A Sra. Underwood saiu pela tangente enquanto os irmãos se levantavam e tomavam o seu antigo lugar.
Joanne estava com o seu cabelo bem trançado até a raiz assim como o seu irmão, de um jeito bem ético negro.
— Fale também do porquê da escolha dessa música. – A professora falou antes que eles começassem a cantar.
— Bem, foi uma escolha mais minha, do que necessariamente em conjunto. – Joanne olhou para o seu irmão. – E eu acho que a letra por si só já explica o motivo de eu, ou melhor, nós a termos escolhido.
Joanne começou a cantar sozinha:
I remember being young and so brave
I knew what I needed
I was spending all my nights and days laid back day dreaming
Look at me I’m a big girl now, said I’m gon’ do something
Told the world I would paint this town
Now bitches I run this
Zach começou a fazer a segunda voz e começaram a dançar:
'Cause I put it down like that, down like that
And I'm making all these racks, all these racks
And I'm moving round like that, round like that
When I do it I don't look back, don't look back
I'm a grown woman (eh, eh)
I can do whatever I want (eh, eh)
I'm a grown woman (eh, eh)
I can do whatever I want (eh, eh)
Joanne voltou a ser a solista e andar pela sala:
They love the way I walk
'Cause I walk with a vengeance
And they listen to me when I talk
'Cause I ain't pretending
It took a while, now I understand
Just where I'm going
I know the world and I know who I am
It's 'bout time I show it
Zach voltou a lhe fazer coro e voltaram a dançar, não era um tipo de dança conhecida.
I'm a grown woman (eh, eh)
I can do whatever I want (eh, eh)
I'm a grown woman (eh, eh)
I can do whatever I want (eh, eh)
Zach começou a cantar sozinho:
I can be bad if I want
I can say what I want
I can live fast if I want
I can go slow all night long
Joanne desempenhou a função que antes pertencera ao seu irmão:
I'm a grown woman
I can do whatever I want (whatever it is)
Inverteram novamente a posição das vozes:
I'm a grown woman
And I know that I got it (got it got it)
I'm a grown woman
Ain't got no room in my pockets
I'm a grown woman
Look down, got you so excited
I really want to know if you got it like that
Cause I got a cute face and that booty so fat
Zach:
Go girl, she got that bomb, that bomb
That girl can get whatever she wants
That girl (hey girl)
She got that tight, that tight
Them boys they do whatever she like
Zach e Joanne:
(I'm a grown woman)
(I'm a grown)
I'm a grown woman
I can do whatever I want (I can do whatever I want)
I'm a grown woman
I can do whatever I want
I'm a grown
I'm a grown woman
I can do whatever I want
I'm a grown woman
I can do whatever I want (ever I want)
I'm a grown woman
I can do whatever I want (ever I want)
I'm a grown woman
I can do whatever I want (ever I want)
Ao terminarem todos imediatamente o aplaudiram entusiasmadamente, tinha sido um performance muito empolgante.
— Parabéns. – A Sra. Underwoodo os elogiou.
— Não vai falar nada sobre o ataque ao Salão? – Falou diretamente para ela.
— Acredito que as devidas providências sobre o assunto já estejam sendo tomadas. – Lhe respondeu com um olhar penetrante.
— Mas não vai falar nada? – Steve se intrometeu. – Deu uma tarefa só porque criaram um vídeo que atacava uma dúzia de menina e não fala absolutamente nada a um ataque a todos os garotos da escola? Só pode estar de brincadeira.
— Ai meu deus, não acredito que ouvi isso. – Charlotte falou bem alto. – Sério? – Lhe perguntou debochada. – O orgulhinho tá feridinho? Nos poupe desse choro de macho sofrido porque isso não comove ninguém. – Ela estava sentada atrás de mim e por isso conseguia sentir as suas palavras em meus ombros como uma espécie de pressão psicológica particular.
— Sr. Gonzáles, espero que não esteja querendo me orientar sobre a forma que devo guiar e seguir com as minhas aulas, está? – A professora foi bem direta, mantendo o mesmo olhar de antes.
— Não, não mesmo. – Steve retraiu-se.
— Quem são os próximos? – A Sra. Underwood deu prosseguimento a aula.
— Nós. – Abigail falou atrás de mim, puxando Charlotte do seu lugar.
— Já sabem o que fazer.
— Tivemos que optar pelo pop, pois infelizmente não é tão fácil como pensávamos encontrar músicas feministas. Nós escolhemos essa música, porque ela enaltece a independência feminina, algo que lutamos e temos conseguido aos pouco. E sobre o caso da Ala masculina, eu quero é que se foda, essa é uma grande bobagem e nem preciso dizer que é ridícula se comparada com o vídeo. – Charlotte falou, inevitavelmente ficava me encarando na expectativa de que eu falasse alguma coisa.
Desviei o olhar era muita pressão. Abigail começou a cantar:
Question: Tell me what you think about me
I buy my own diamonds and I buy my own rings
Only ring your cell-y when I'm feelin lonely
When it's all over please get up and leave
Question: Tell me how you feel about this
Try to control me boy you get dismissed
Pay my own fun, oh and I pay my own bills
Always 50/50 in relationships
Abi e Charlotte:
The shoes on my feet
I've bought it
The clothes I'm wearing
I've bought it
The rock I'm rockin'
'Cause I depend on me
If I wanted the watch you're wearin'
I'll buy it
The house I live in
I've bought it
The car I'm driving
I've bought it
I depend on me
(I depend on me)
All the women who are independent
Throw your hands up at me
All the honeys who makin' money
Throw your hands up at me
All the mommas who profit dollas
Throw your hands up at me
All the ladies who truly feel me
Throw your hands up at me
Girl I didn't know you could get down like that
Charlie, how your Angels get down like that
Girl I didn't know you could get down like that
Charlie, how your Angels get down like that
Charlotte:
Tell me how you feel about this
Who would I want if I would wanna live
I worked hard and sacrificed to get what I get
Ladies, it ain't easy bein' independent
Question: How'd you like this knowledge that I brought
Braggin' on that cash that he gave you is to front
If you're gonna brag make sure it's your money you flaunt
Depend on noone else to give you what you want
Abi e Charli:
The shoes on my feet
I've bought it
The clothes I'm wearing
I've bought it
The rock I'm rockin'
'Cause I depend on me
If I wanted the watch you're wearin'
I'll buy it
The house I live in
I've bought it
The car I'm driving
I've bought it
I depend on me
(I depend on me)
All the women who are independent
Throw your hands up at me
All the honeys who makin' money
Throw your hands up at me
All the mommas who profit dollas
Throw your hands up at me
All the ladies who truly feel me
Throw your hands up at me
Girl I didn't know you could get down like that
Charlie, how your Angels get down like that
Girl I didn't know you could get down like that
Charlie, how your Angels get down like that
Charlotte:
Destiny's Child
Wassup?
You in the house?
Sure 'nuff
We'll break these people off Angel style
Abi e Charli:
Child of Destiny
Independent beauty
Noone else can scare me
Charlie's Angels
Woah
All the women who are independent
Throw your hands up at me
All the honeys who makin' money
Throw your hands up at me
All the mommas who profit dollas
Throw your hands up at me
All the ladies who truly feel me
Throw your hands up at me
Girl I didn't know you could get down like that
Charlie, how your Angels get down like that
Dessa vez as palmas forma muito mais mornas, se comparadas com a última apresentação. As opiniões de Charlotte causavam antipatia em muitos do clube e inevitavelmente acabam causando para Abigail o mesmo sentimento.
— Excelente apresentação. – A professora as elogiou.
— Poderia ter sido melhor. – Notei Cami pela primeira vez, não perdeu a oportunidade de alfinetar.
— Felizmente teremos que estender a tarefa para a próxima semana devido ao pouco tempo que temos hoje, terão que sair mais cedo para um pronunciamento no auditório, acabei de receber a mensagem. – A Sra. Underwood falou com o celular em mãos. – Temos tempo só para mais uma.
Antes que a professora solicita-se por alguém, Sam se levantou do meu lado e se postou no centro da sala.
— Ótimo. – A professora sorriu da atitude inesperada.
Sam ficou parada por um tempo fitando a todos, seu olhar não era inexpressivo, porém não necessariamente frio. Ela tentava se conectar a todos os presentes.
— Nos últimos dias, eu tenho sido motivo de piada ou deboche pelos corredores dessa escola por um vídeo criado por um propósito diabólico desconhecido. Ele pode ter sido feito por qualquer um dessa sala, é claro, menos pelas expostas. – Percebi que todos prestavam atenção em silêncio. – Não quero atingir a ninguém, eu só queria que soubessem que me atingiram em cheio. Me senti completamente envergonhada e exposta, doeu e ainda dói. Vocês, garotos, não sabem ou talvez até saibam, mas pegar exatamente no ponto que esse vídeo pegou realmente mexe com uma garota e não tem nada que possam fazer para concertar isso, porque vocês não sabem o que é isso. Não sabem como é ser mulher. – Ficou calada, o silêncio possibilitava até se ouvir o barulho fora da sala. — Eu gostaria de cantar essa canção a todas as garotas do mundo, algumas mais em especial, porém hoje com ênfase para Maggie, Camille e para mim também. – Sam começou a discursar, seus olhos estavam úmidos, era um discurso bem pessoal. — Sei que não nos damos bem e que temos nossas diferenças, mas temos algo que nos uni acima de tudo. Somos mulheres, e simplesmente sofremos só por causa disso. – Ela começou a chorar. – Espero que com essa música a mensagem seja bem passada.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Começou a cantar:
You tell me it gets better, it gets better in time
You say I'll pull myself together
Pull it together, you'll be fine
Tell me, what the hell do you know? What do you know?
Tell me how the hell could you know? How could you know?
'Til It happens to you
You don't know how it feels, how it feels
'Til it happens to you, you won't know, it won't be real
No, it won't real, won't know how it feels
You tell me hold your head up
Hold your head up and be strong
Cause when you fall you gotta get up
You gotta get up and move on
Tell me how the hell could you talk, how could you talk?
'Cause until you walk where I walk
This is no joke
'Til it happens to you
You don't know how it feels, how it feels
'Til it happens to you
You won't know, it won't be real
(How could you know?)
No it won't be real
(How could you know?)
Won't know how I feel
'Til your world burns and crashes
'Til you're at the end, the end of your rope
'Til you're standing in my shoes
I don't wanna hear a thing from you, from you, from you
'Cause you don't know
'Til it happens to you
You don't know how I feel, how I feel
'Til it happens to you
You won't know, it won't be real
(How could you know?)
No it won't be real
(How could you know?)
Won't know how it feels
Til it happens to you
Happens to you
Happens to you
Happens to you
Happens to you
Happens to you
(How could you know?)
Til it happens to you
You won't know how I feel
Dessa vez foi unanime, todas as garotas se levantaram e a abraçaram. Me surpreendi com a atitude de Cami e Joanne. Foi um abraço bonito e reconfortante de se olhar, a letra da música dizia tudo. Eu jamais sofreria ou sofri o que uma mulher sofreu e sofre, eu não poderia fazer parte daquilo. Sam tinha desmoronado conforme cantava, senti que descarregava tudo o que estava sofrendo nos últimos dias na canção.
— Eu só gostaria que todos garotos soubesse que se quiserem participar desse abraço, seria muito reconfortante. – Sam voltou a falar, no meio do montinho feminino.
Eu fui o primeiro a me levantar e abraçá-las, fui seguido pelos outros garotos. Foi uma união no clube que eu jamais presenciara, guardei como um dos momentos mais felizes da minha vida. Olhei para direita e vi que Yerik estava ao meu lado, a minha movimentação atraiu a sua atenção, nos encaramos por um tempo até que esbocei um sorriso e recebi um outro muito mais animado que o meu dele.
Aos poucos as pessoas foram se dispersando, mas ainda mantendo a união do grupo ao ficarem a uma distância próxima.
— Esse momento foi especial. – Beth falou. – A aura de vocês estão reluzindo, principalmente a sua Yerik.
— Eu? – Ele pareceu confuso.
O sinal tocou mais cedo e o laço foi quebrado, cada um pegou suas coisas e começou a sair da sala.
— Um aviso a todos, antecipando o que será dito no auditório. – A Sra. Underwood falou quando estávamos prestes a sair da sala. – O baile da primavera será Sadie Hawkins, então garotos, boa sorte.
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