Tempestuoso
42 Tristeza é uma Benção, Esperança um Castigo
Notas iniciais
— Me passa o marshmellow. – Pedi para Drew.
— Espera, aí. – Falou de boca cheia e pegando mais alguns antes de me passar o saco.
Tinha se passado pouco mais de um ano desde o dia que ela me encontrara largado e destruído na rua e me levara para sua casa. Era o nosso dia de lixo, o dia em que eu pegava uma folga, ela não atendia nenhum cliente, comíamos porcarias, escutávamos música enquanto conversávamos e talvez transávamos.
— Você come como uma porca. – Ri, pegando o saco.
— Cala boca. – Também riu roncando como um porco.
Gargalhamos ao som do Melodrama da Lorde, escolhida sabiamente por mim depois de inúmeros dias de lixo ouvindo apenas cantoras pop tradicionais, não que elas fossem ruins, eu tinha meu apresso por Mariah, JLo ou Celine, porém também tinha minha predileção pela neozelandesa.
— Ela parece o Quasimodo. – Ela falou aleatoriamente.
— O quê?
— A Lorde. – Falou como se estivesse lendo o que eu acabara de pensar. – Ela parecia muito com o corcunda de Notre Dame, no começo da carreira. – Zombou.
— Você é muito maldosa. – Lhe taquei meu travesseiro.
— Eu sei. – Conseguiu se proteger. – Só falei para te irritar.
Lhe fiz uma careta, depois de um ano dividindo o teto e o tempo um do outro, criamos intimidade o suficiente para termos algumas percepções sobre os gostos de cada e sobre o que sentíamos. Eu percebia que ela ficava mais inquieta e mordia mais os lábios quando estava insegura ou como ficava tagarela quando tentava disfarçar alguma coisa.
— Idiota.
— Canta.
— Agora? – Lhe olhei confuso com a mudança abrupta de assunto.
— Sim, mas essa música. – Pegou o seu celular, o qual estava tocando a música e colocou uma outra.
— Não conheço muito a letra. – Apesar de gostar bastante da música.
— Canta o que você sabe...
— Nem sabia que você gostava desse tipo de música...
— Cala boca e canta...
Levantei da cama e comecei a dançar ao som do instrumental, não era uma música agitada. No mínimo, deveria ter sido uma visão engraçada, me ver de cueca e camiseta larga tentar achar algum ritmo, culpo em parte ao dois shots de tequila que tomamos anteriormente pela performance desastrosa.
They're walking around
Head full of sound
Acting like
We don't exist
Drew tentou me acompanhar sendo uma segunda voz, mas seu talento vocal era quase tão bom quanto minha relação com os fantasmas do meu passado. Cada vez que ela abria a boca parecia bater em um galinheiro, eu tinha vontade de rir, porém como um bom artista deveria continuar com o meu show como se nada tivesse acontecendo.
They walk in the room
And stare right through you
Talking like
We don't exist
But we exist
Ela se levantou e começou a dançar ao meu lado, sua percepção do seu corpo era invejável. Já a tinha dito que a forma como fazia os mais simples dos movimentos eram sexys, me respondera que praticava devido a profissão, ou melhor, se especializara nisso. Tão graciosa e precisa que poderia ser uma bailarina, se tivesse a técnica e as oportunidades necessárias.
Daddy it's true
I'm different from you
But tell me, why they treat me like this?
If you turned away
What would I say?
Not the first betrayed by a kiss
Demos um rápido beijo e demos as mãos, dançando literalmente juntos.
Maybe it's true
They're staring at you
When you walk in the room
Tell 'em it's fine
Stare if you like
Just let us through
Just let us through
Eu era exagerado em minhas expressões e a casa se tornara parte do nosso show como um cenário ou um palco, olhávamos um para o outro rindo. Drew beirava a histeria a cada caricatura nova minha.
They're down on their knees
Begging us please
Praying that we don't exist
Daddy it's fine
I'm used to 'em now
But tell me, why they treat me like this?
It's cause we do it like this
Maybe it's true
They're staring at you
When you walk in the room
Tell 'em it's fine
Stare if you like
Just let us through
Just let us through
Let 'em stare! Let 'em stare!
If that's all they can do!
But I'd lose my heart
If I turn away from you
Começamos a girar feito perfeitos idiotas que éramos em um lugar que mal tinha espaço para ficarmos parados juntos normalmente, logo iriamos cair...
Oh, daddy don't turn away
You know that I'm so scared
But will you watch me drown?
You know we're going nowhere
Bêbados do jeito que estávamos, caímos cada um para um lado. Ela foi direto para cama, sendo recebida por uma confusão de doces que pularam do saco em seu rosto assim que aterrissou no colchão e eu caí seco e de bunda no tapete felpudo amarelo.
— Aí minha bunda. – Gritei rindo, ainda com a música rolando.
Drew estava em uma crise de riso, coberta de doces e açúcar cristalizado. Me levantei do chão, desajeitado e pulei em cima dela. Eu estava cada mais familiarizado e acostumado com a fluidez do seu gênero, na realidade, eu não me importava com a forma que ela ou ele se sentia, eu tinha aprendido a sempre perguntar qual pronome que ela ou ele gostaria de usar e mais nada importava além disso. Não fazia sentido eu interferir ou me intrometer em algo que eu absolutamente não tinha nada a ver e tão íntimo.
— Assim você me esmaga. – Reclamou.
Lhe encarei, seus olhos escuros e profundos eram tão gentis que mal pareciam pertencer a pessoa que levava a vida que levava. Nos encaramos enquanto ela tentava pegar um marshmellow perto do canto da boca e quando conseguiu voltamos a rir. Meu corpo em cima do seu me atraiu antes mesmo que minha percepção percebesse e senti que havia reciprocidade.
Minha mão estava na sua cintura e meu corpo praticamente no meio de suas pernas, me inclinei um pouco mais pra frente e esfreguei minha ereção na sua. Ela estava de calcinha e com uma camiseta rasgada, de modo que parecesse com um cropped, tão exposta quanto eu de cueca. Beijei sua boca grudenta enquanto sua mão me puxava para mais perto, suas pernas circularem o meu corpo e me forçarem a ficar ainda mais próximo, roçando-nos.
Nos beijávamos intensamente, não precisei tirar-lhe a camiseta para beijar os seus peitos, o corte facilitava a ação e eu sabia que ela gostava disso porque já havíamos feito tantas outras vezes que já estava familiarizado com o que a excitava. A facilidade das poucas roupas fez com que eu mal percebesse quando ficamos nus e quando ela começou a me penetrar, eu estava de bruços na cama com o quadril para cima e ela ajoelhada atrás de mim, metendo e arranhando minhas costas com as unhas grandes.
Não lembro exatamente quando voltei a transar conscientemente naquele último ano, mas todas as vezes fora com Andrew ou Drew. Só acabei colocando os incidentes anterior, em algum lugar na minha mente de forma que os não acessasse, bloqueando-os.
— Me come vai. – Ela pediu saindo de mim.
Trocamos os papéis, ela se deitou na cama e eu fiquei em pé, ergueu suas pernas de modo que ficasse completamente exposta a mim enquanto a penetrava de uma vez, sem muita gentileza como apreciava. Esse era o momento em que mais nos beijávamos e nossa troca de olhares intensificava-se. Gozou primeiro, nos sujando na barriga e eu não demorei muito e também gozei dentro dela. Tirei a camisinha, dei um nó, joguei no chão e me deitei ao seu lado exausto, apesar de transarmos com regularidade, não era algo tão recente e eu não estava tão familiarizado com a versatilidade.
— Você está cada vez melhor nisso. – Falou ofegante.
— Você acha?
— Sou uma puta, sei do que eu falo. – Riu. – E falo com propriedade.
— Praticar sempre é uma ótima forma de melhorar.
— Concordo.
Ficamos encarando o teto manchado por alguns minutos até anoitecer, o único som que vinha era das nossas respirações que com o tempo se normalizaram. O silêncio não era intimidador, na verdade, era acolhedor, como se selasse o nosso sexo e intimidade.
— O que somos? – Ela perguntou depois de mais de uma hora em silêncio.
— Amigos? Irmãos. – Falei a última parte rindo. – Quando você me montou de Drag, você era a minha mãe.
Ela riu.
— Não é isso do que eu falo. – Virou para mim e me encarou. – Só não quero que confunda as coisas... E é muito bizarro falar irmãos, parece até que fazemos incesto.
— Nada que você não tenha feito. – Me referi ao programa que ela teve que fazer com dois irmãos.
— Justo, mas eles não eram meus irmãos. Não fuja do assunto.
— Eu gosto de você, na real, eu te amo, mas não para irmos além nesse sentido.
Ela pareceu aliviada, eu sabia que por mais que transássemos e morássemos juntos não éramos de forma alguma um casal, o seu coração era de outro e o meu machucado demais para querer alguém. Por mais que ela não admitisse, eu via o quanto gostava do barman da Mama Julia, eles transavam sempre que podiam e onde podiam, mais do que comigo que morávamos juntos. O grande problema seria além da profissão, o fato dele ser inacessível a Drew ou melhor, a própria totalidade de AnDrew. Mas voltando ao nosso relacionamento, o sexo era apenas uma pequena parte de um todo que envolvia muito mais fraternidade, companheirismo e amizade, do que, qualquer sentimento romântico. Era uma amizade colorida, onde o sexo tinha um encaixe muito bom, decorrente de muita prática e do carinho que gostávamos de ter um com o outro.
Encontrei em AnDrew o carinho que Vick nunca tivera a capacidade de me proporcionar e tivera uma pequena amostra no curto período de tempo que eu tivera com Sam. Um dia eu falaria para ela sobre isso e toda nossa afetividade.
— Amanhã é o seu grande dia. – Falou cortando minha linha de pensamento.
— Pensei que tivéssemos comemorado hoje para fingir que o amanhã não existe. – Falei desgostoso.
— Eu sei, para de ser chato. – Colocou a mão no meu peito e fez carinho.
Tinha descoberto a data do meu aniversário quando, na semana anterior, resolvi refazer meus documentos, perdidos em algum momento antes de finalmente me estabelecer onde estava. Não é que me fazia exatamente tanta falta, na verdade, fazia, porém, tinha demorado todo aquele tempo para refazê-los devido ao meu receio de ser apreendido pelas autoridades. No entanto, prestes a completar a maioridade, não tinha medo de mais nada, além do fato de não os ter, fazia-me ter a sensação de ser ninguém ou de não existir.
— Podemos ficar para mais tarde na boate, o que acha?
— Pode ser. – Suspirei insatisfeito.
— Mas vou fazer um atendimento antes.
— Profissional?
— Sempre.
— Austin tem ainda se incomodado comigo? – Mudei abruptamente o assunto e o tom da conversa, a preocupação com a reação do cafetão do meu colega de quarto era sempre constante. Durante todo aquele ano, tinha visto o resultado de todas as suas reações estampados sempre no rosto de AnDrew.
— Já se acostumou. – Tentou minimizar, eu sabia que era mentira.
—x-
— Grande dia. – Papa Julio me esperava em frente a lanchonete para abrirmos para os clientes matutinos.
A manhã era quente, estávamos na metade do verão e o dia parecia que seria espetacularmente bonito e perfeito para se aproveitar, o que estava longe de ser minha expectativa naquele momento. Meu humor era especialmente antagônico a natureza.
— Até você! – Reclamei.
— Feliz aniversário. – Me puxou para um abraço apertado.
Tínhamos construído uma relação próxima, como se fosse um irmão ou tio mais velho para mim, apesar de preferir que falasse que fosse de irmão, como se isso fosse amenizar o fato da sua idade ser correspondente a de um pai ou tio avô para mim. O seu cheiro como Papa sempre era um misto de fritura e perfume feminino barato.
— Obrigado. – O abracei sem jeito.
— Só soube ontem...
— AnDrew. – O interrompi, revirando os olhos.
— Sim, se eu soubesse teria arrumado a escala da semana para sua folga ser hoje e não ontem.
— Não ia precisar, preferi ontem justamente por não ser hoje. – Sorri desconfortável. Encarou-me preocupado, uma ruga apareceu na sua testa e permaneceria o dia inteiro. — Vamos trabalhar. – O empurrei quando demorou muito na porta.
O resto do dia seguiu na normalidade que um dia comum na lanchonete teria, eu não cuidava mais apenas da limpeza, fazia um pouco de tudo quando era necessário, desde atender clientes, falar com fornecedor e caixa. Haviam dias que eram bem estressantes e difíceis, como quando os outros funcionários tentaram me sabotar logo nos primeiros dias ou quando um outro parente apareceu e exigiu o meu emprego, mas tudo eu conseguia contornar, mesmo que acabasse arranhado. Papa sempre intervinha por mim, o que sempre me surpreendia porque se comparando, eu deveria ser o último em escala de prioridade em sua vida.
— Feliz Cumpleaños. – Pablo falou ao se despedir no fim do expediente. Fiquei me perguntando a quantas pessoas essa informação já havia chegado, maldito AnDrew fofoqueiro.
— Obrigado. – Tentei não soar desanimado.
Acenou para mim e foi embora, parecia querer dizer mais alguma coisa e seu rosto também parecia esconder algo, mas não tive interesse em insistir em uma conversa para descobrir. Só fui descobrir o que realmente era, quando estava guardando o material de limpeza e saindo pela porta da frente, Papa havia ido embora mais cedo, quando um pequeno grupo de pessoas gritou, acedeu as luzes e estouraram confetes em cima de mim.
— SURPRESA.
— PUTA MERDA. – Gritei.
— FELIZ ANIVERSÁRIO.
— Inferno. – Suspirei.
Parecia quase uma parada LGBT de tantos adereços que haviam ali, um faixa enorme escrito: parabéns com as cores do arco íris, assim como vários balões e bexigas, o um e o oito infláveis em dourado, chapeis e óculos que cada um usava e placas com frases cafonas, típicas da Mama. Todos os “convidados” usavam um chapéu de aniversário.
— Quando que vocês entraram aqui e fizeram tudo isso? – Falei quando correram para me abraçar.
Estavam lá os funcionários da boate e lanchonete, incluindo até os que me sabotavam e Alexis, o barman caipira e o outro cara que AnDrew transava de graça, além de mim. Citando o meu amigo, ele era o único não presente, agradeci aos presentes um a um, até que...
— Demorei muito? – Escutei gritando atrás de mim antes de senti-lo pular também em mim.
— Como você chega depois de mim e por que organizou tudo isso?
— Achei que te faria feliz. – Lhe fiz uma careta.
— Assopra a vela e faz um desejo. – Papa, ou melhor, Mama pediu segurando um bolo com muito chantilly rosa na minha frente, ela estava vestida com seu vestido de festa de lantejoulas vermelhos e plumas rosas.
Com um único supro apaguei a pequena chama, mas sem fazer nenhum desejo, eu não estava pronto para esse tipo de coisa, pensar em algo no futuro quando o presente era tão inconstante seria como pedir que um cego descrevesse os detalhes do meu rosto. Sorri para todos e distribui o bolo para os presentes, eu gostaria de ficar feliz pelos presentes, mas só conseguia sentir um gosto amargo e azedo na minha boca, tinha feito de tudo para evitar este tipo de situação porque sabia que minha presença seria desagradável.
— Você detestou, não foi? – Andrew perguntou quando consegui escapar da comemoração e fumar um cigarro, coisa que estava fazendo cada vez com mais frequência.
Não lhe respondi, não sei o que seria ou foi mais cruel, eu não ter respondido ou o silêncio que serviu como uma resposta.
— Deveria ser mais agradecido. – Alexis soprou sua fumaça no meu rosto, infelizmente ele nos tinha acompanhado até os fundos e eu não sabia o porquê de se intrometia em nossa conversa.
— Eu sou, só não queria comemorar o meu aniversário.
— Desculpe. – Andrew ficou constrangido, estava com um visual mais masculino, apesar de negar, sempre acabava optando por uma personificação masculina se ia ver Alexis.
— Eu só queria tomar um ar, com você. – Fui categórico na última parte, porém que inutilmente surtiu o efeito desejado.
— Andrew te deu um teto...
— Cala boca, Alexis. – O interrompeu.
— Isso me trás memorias de um passado que quero esquecer. – Falei de uma vez para não prolongar a discussão.
Todo mundo deu uma tragada no seu cigarro e evitou se olhar.
— Menino rico que fugiu de casa... — Alexis falou com desgosto.
— Se você tem tanto ciúme de mim com o AnDrew, deveria tomar vergonha da cara e se declarar logo. – Cuspi as palavras quando joguei meu cigarro no chão e o apaguei. – Com licença.
Eu sabia que nada daquilo tinha a ver com o momento, mas eu me sentia tão contrariado naquele dia, tudo conspirava contra e Alexis estava sendo tão desagradável, não consegui evitar e magoei meu amigo no processo.
— BLAKE! – Meu amigo me censurou, o seu amante estava tão vermelho quanto as sardas no seu corpo.
Eu não queria ser rude, mas tinha aprendido a ser quando necessário. O mundo não era e não estava sendo fácil para mim, minha excessiva gentileza não havia me dado nada de bom, além de ser passado de trouxa por quem confiava. Fui ensinado a quando batesse na minha cara, oferecesse a outra face, naquele momento eu ofereceria um chute na cara do infeliz.
— Finalmente dezoito. – Mama falou comigo assim que retornei a lanchonete, tinha virado as costas para os outros dois.
— Sim. – Me esforcei para esboçar um sorriso.
— Ninguém da sua família tentou contato? – Como se o dia já não estivesse desagradável o suficiente, recebi um balde de merda na minha cabeça para finalizar como a cereja do bolo.
— Não e espero que nunca. – Fui ríspido.
Mama Julia era uma querida, porém o seu senso de paternidade ou maternidade quando de Mama, como a própria costumava dizer, era muito invasivo. Não que não fossemos íntimos, era a segunda pessoa que eu mais gostava naquele lugar, isso se não, a única outra, no entanto, eu tinha meus limites, falar sobre meu passado era um deles.
— Eu sei que não gosta de falar sobre isso...
— Então é melhor evitarmos o assunto. – Sorri.
Assentiu com a cabeça e foi conversar com Pablo. Olhando aos “convidados” da minha festa surpresa, era muito nítido que todos estavam ali em consideração aos organizadores do evento e não a mim, eram amigos de Andrew e Mama, não meus, pouco se importavam ou gostavam de mim.
— Você precisava ser tão direto? – AnDrew apareceu ao meu lado.
— Só falei a verdade, o mesmo serve para você.
— Isso não tem nada a ver com você! Cuida da sua vida. — Dei de ombros. – Se queria ficar sozinho no seu aniversário, conseguiu. – Falou se afastando.
Pelo canto do olho, o vi se aproximar de Alexis, que retornava do lado de fora. Meu intuito nunca fora ficar sozinho, acho que era o oposto, o que eu queria era que o dia passasse despercebido como qualquer outro comum, não era pedir muito. Revirei os olhos, peguei alguns balões, dei breves acenos de despedida e agradecimento e fui embora. Me sentia um pouco infantil carregando sete balões coloridos pelas ruas quentes e encardidas da cidade, internamente considerava-me um pouco cretino pela grosseria com meu amigo, porém tinha um pouco de direito, já que era o meu aniversário, usaria isso como retorica para quando nos acertássemos.
— A parada não foi mês passado? – Um estranho falou comigo enquanto abria a portão do prédio.
— Eu faço a minha parada um mês depois. – Lhe respondi ríspido.
— Andrew não tinha me falado que o seu companheiro de quarto era tão arisco, na verdade o contrário. Como em suas palavras: “Um doce e inocente gay do meio do nada”.
Citar tal nome foi motivo suficiente para chamar minha atenção.
— Quem é você? – Lhe encarei sério.
Era um homem alto, deveria ter perto dos quarenta anos, cabelos escuros e ralos, o rosto tinha algumas rugas e o nariz torto, provavelmente quebrado. Vestia com um casaco suspeito, pelo menos parecia para mim, como aqueles que detetives usam em filmes para investigar e ficarem na espreita, sobretudo. Sua presença era impositiva.
— Ninguém que você precise conhecer agora, mas conhecerá em breve. – Me deu um sorriso amarelo e se afastou.
No apartamento, ainda me sentia confuso com o estranho encontro, tinha um palpite sobre a sua identidade, porém, não queria pensar muito sobre isso, apesar de ainda estar todo arrepiado de medo.
Fui no automático, comecei a me arrumar para voltar ao La Perra, se tivesse que comemorar a porcaria da data, faria o possível para esquecer o resto da noite o mais entorpecido possível. Tive que esperar por algumas horas até ser uma boa para sair e curtir, a noite seria na temática disco, não poderia estar mais animado com meu macacão branco e largo e que deixava boa parte do meu torço e costas amostra. Tinha aprendido alguns truques de maquiagem com Andrew, ou melhor, aprendi a usar glitter e foi o que fiz, além de deixar meus cachos armados. Dei uma última checada no celular, o tinha comprado cinco meses após ter começado a trabalhar, e não havia nenhuma mensagem dele. Peguei um pino de pó, que tinha comprado de Alexis semanas atrás e me daria o ânimo que eu queria, o mais próximo de amigáveis que tínhamos era quando me vendia drogas e fui para a balada.
Usei o pó assim que cheguei no banheiro da boate, dei descarga para não deixar rastros, minha chefe não tinha problemas com o uso, apenas não queria nada no seu lixo caso fosse revirado por policias ou algo do tipo. O público da boate sempre fora mais predominante mais velho, percebi quando fui em outras que La Perra era meio antiquada, porém amava aquele lugar.
Fui para a pista de dança e me deixei levar pela música de baixo marcado, flertei com alguns caras e beijei outros, sempre nada demais. Homens mais velhos não era o meu tipo e alguns achavam que eu era garoto de programa. Felizmente, nenhum rosto conhecido apareceu até então, só Mama na entrada, mas com ela eu não tinha nenhum problema pois estava ocupada.
Devia ser metade da noite quando decidi tomar meu primeiro drink.
— Sei exatamente o gosto de um drink com cuspe, viu! – Falei para Alexis quando pedi um drink qualquer de morango que Andrew sempre escolhia para mim.
— Já provou muitas vezes para saber. – Riu da minha cara.
Ele estava certo, o tinha feito algumas vezes até ter sido pego por Andrew que quase deu em sua cara e o fez parar. Quando o me deu, virei de uma vez, surpreendendo-o.
— Vai com calma, AnDrew não está aqui para cuidar de você.
Revirei os olhos.
— Como se eu precisasse dele sempre cuidando de mi, você que precisa dele para se sentir bem. – Brinquei com o gelo do copo com a língua.
— Vai querer outro? – Perguntou ignorando minha fala, lhe ofereci o copo como resposta.
— Acho que cansei de dançar, vou só beber até isso daqui fechar e vou direto trabalhar. – Falei com a boca cheia pela pedra de gelo.
— E você tem dinheiro para tantos drinks? – Me perguntou enquanto fazia novamente.
— Sou funcionário e aniversariante, ganho vip e bebida de graça.
— Aposto que Mama vai rever esses privilégios quando ver a quantidade que você vai beber e eu duvido que consiga trabalhar direto daqui e muito menos que aguente beber tanto.
— Isso é um desafio?
— Não, um fato e acho interessante falar do seu aniversário quando só faltou comer seus convidados vivos, hoje mais cedo. – Bateu o copo no balcão na minha frente e foi atender outros clientes.
— Acho que preciso beber mais pra conseguir te suportar. – Resmunguei, agora bebendo pelo canudo plástico e com calma.
Eu estava certo sobre o álcool e gostar de Alexis, após o quarto drink conseguia rir até dos seus tiques que tinha ao fazer cada drink especifico.
— Do que ri, idiota? – Me perguntou bravo, o que era engraçado.
— Quando você faz esse drink, você enruga a testa e no outro morde a boca. – Falei com o canudo na boca.
— E você está olhando para minha boca? – Perguntou malicioso, ou melhor, julguei malicioso porque era um olhar novo que recebia.
— Sim, você seria bonitinho se não fosse detestável.
— Algo de bom devo ter. – Novamente foi malicioso.
Fiquei pensando, ele deveria ser bom de cada, AnDrew sempre transava com ele, mesmo fodendo pra caralho durante toda semana comigo e com os clientes.
— Pensando se fodo bem?
— Exatamente. – O respondi abruptamente.
— Só tem uma forma de descobrir...
— Está querendo me comer?
— Você está querendo que eu te foda?
Fiquei pensativo, olhei todo o seu corpo e fiquei excitado, com absoluta certeza em qualquer outro momento essa situação jamais aconteceria, mas por que não? O que eu tinha a perder?
Lhe dei um sorriso.
— Estou te esperando lá fora.
Ele sorriu e tirou o avental da cintura.
—x-
Não sei como ou qual desculpa usar para conseguir sair no meio do expediente em um dia tão especial com a Mama, mas conseguiu. Quando chegamos em casa, ele ficou pelado sem que eu percebesse e tirou minha roupa na rapidez que provavelmente tirou a minha.
— Sempre soube que queria foder comigo. – Sorriu presunçoso.
— Na verdade não... – Me abaixei e comecei a chupá-lo, forçava-me contra si com violência. – Você só é a mosca na merda do meu dia.
— Você é melhor quando está com o meu pau na boca te calando. – Me forçou contra si e me impediu de voltar.
Acho que estava com câimbra na boca quando subiu meu rosto e me beijou, não sentia nada além de tesão e urgência. Fomos para a cama e sentei eu seu colo, beijando-o sem ser penetrado, tinha o perfume barato misturado também com nicotina barata. Quando finalmente me penetrou, devidamente protegido entendi a fama que o prosseguia.
Sua mão era áspera e nem era gentil, acho que isso me excitava mais. Seu quadril batia com força e ruidosamente contra a minha bunda, um gemido contido escapava dos meus lábios. Conforme chegava mais fundo, mais urgente se tornava a minha necessidade de gozar.
— Você é uma putinha. – Gritou ao segurar meu ombro e fazer menção de me enforcar.
— Cala a boca. – Lhe dei o tapa no rosto e depois lambi seus lábios finos.
— Eu vou gozar. – Ele gritou me apertando.
O senti estocar mais forte batendo na minha próstata, quando vibrou dentro de mim, gozando, a porta do apartamento se abriu e eu voltei ao mundo real, ou parcialmente a ele.
— Merda. – Falei saindo de cima dele, AnDrew nos mataria.
Ao acender a luz, nos encarou por alguns instantes e entrou no banheiro, sem meus óculos que perdi em algum momento durante o oral, não pude ver sua reação. Se eu pudesse apostar, estaria furioso, eu sabia que era apaixonado por Alexis. Me perguntei em que momento na minha desgraçada vida tinha decidido que foder com o ficante do meu amigo seria uma boa ideia.
— Que merda de amigo você é. – Alexis falou tirando a camisinha e se levantando da cama.
— Como se só eu tivesse feito isso. – Revirei os olhos. – Merda...
Me senti automaticamente culpado.
— Pelo menos terá valido a pena.
— Você nem fode bem. – Menti.
— Boa sorte com o Andrew.
— Cretino. – Lhe dei um chute, enquanto se vestia. – Não vai encarar ele, não?
— Não sou namorado ou colega de quarto dele, no máximo, um sexo casual...
— Quase diário no caso. – O interrompi.
— Que seja. – Se sentou ao meu lado enquanto colocava o sapato.
Revirei os olhos novamente e comecei a procurar minhas roupas, minha cabeça se desdobrava em arrumar uma desculpa descente, para o indesculpável ou justificável. Era horrível se sentir culpado por ter magoado alguém que eu me importava, principalmente por algo que não valeria a pena quando pensasse nisso sóbrio.
Não era minha intenção instigá-lo quando me inclinei sobre seu colo para pegar minha cueca, mas tive o desejo de um segundo round quando ele mordeu minha bunda.
— O que você está fazendo? – Briguei.
Me virou no seu colo, de forma que eu ficasse em seus braços.
— O que que tem? Ele já viu mesmo. — Me deu um beijo que retribui.
— Melhor você ir embora. – Mordi seus lábios para encerrar o gracejo.
— Duvido que você não gostou. – Me jogou no chão e ali mesmo coloquei minha cueca.
— Eu não gozei, gozei? – Falei me sentando, o pude ver caminhando para a porta.
— Nem sempre precisa gozar para ter uma boa foda. – Isso era verdade, mas nunca lhe falaria isso.
— Vaza! – Gritei lhe mostrando o dedo do meio.
Saiu levantando os ombros e com um sorriso presunçoso. Com a cara mais deslavada possível, esperei por AnDrew atrás da porta do banheiro, demorou mais do que esperado, isso que costumava ter longos banhos. Quando saiu, já estava vestido e de cabeça baixa, provavelmente não iria querer falar comigo ou me suportar.
— Eu não sei nem o que dizer. – Lhe falei aflito, porém não estava arrependido para falar que estava, não era tão ardiloso ou falso a esse ponto com ele.
— Não precisa. – Falou calmo.
— Eu gosto do Alexis e de você, mas não me importo com sexo.
Minha ideia era ficar na sua frente, caso tentasse fugir da conversa, porém pego desprevenido com essa resposta, foi a oportunidade perfeita para ele esgueirar pela tangente.
— Como assim? – Perguntei confuso, pois segundos atrás estava pronto para ficar-me de joelhos pedindo desculpas.
— Sabia que vocês tinham uma tensão sexual, só esperava conseguir canalizar isso para um ménage. – Riu, indo para área da cozinha, evitava me encarar. – Não era raiva, só tesão.
— Você está bem? – O segui como uma sombra.
Me senti aliviado, mas por dentro não conseguia acreditar que estivesse lidando de maneira tão compassiva, ou simplória. Sua expressão corporal, já que não me deixava olhá-lo nos olhos, lhe entregava que tinha alguma coisa a mais.
— Estou.
— Por que não olha para mim, então? – Fui direto.
Quando o fiz, percebei o estado do seu rosto, inchado e com vários hematomas de vários tons. Mais atento, percebi outras escoriações também pelo seu corpo, o tom acobreado da sua pele disfarçava algumas aos olhos menos atentos como os meus. Mas com atenção, era óbvio que ele havia levado uma surra.
— Você não é muito observador. – Falou rindo, vi lacrimejar.
— O que aconteceu? – Me aproximei.
— O que já estávamos esperando a um tempo, finalmente aconteceu.
Com a cabeça ainda embriagada de álcool e pó, não consegui raciocinar direito.
— Você está bêbado e cheirado. – Ele tocou no meu rosto e fez um carinho. – Amanhã falamos sobre isso.
— Você não se importa mesmo de eu ter fodido com ele?
— Não. – Fez uma careta. – Tenta ir dormir, amanhã vai se sentir horrível.
— Sinto muito pelo o seu rosto. – Fiz menção de lhe tocar, porém desviou.
— Está doendo muito. – Se justificou. – Não acho que agora é o melhor momento...
— Por favor, vamos conversar amanhã. – Implorei.
— Sim.
Caminhei para a cama e me deitei sem sono, o fiz porque AnDrew havia pedido e eu me sentia culpado com a possibilidade de tê-lo feito sofrer, na minha cabeça o flagra era o antagonista daquela cena e não a surra. O escutei mexer em algumas coisas na cozinha.
— O desgraçado fode bem. – Falei aleatoriamente, lhe gerando uma espécie de risada acompanhada de suspiros de dor.
Seu riso embalou meus pensamentos para um lugar distantes como os sinos da Sta. Agnes costumavam me levar em finais de semana preguiçosos. Naquela noite, sonhei com a escola e com o meu passado, era algo bonito e imaculado, desprevenido ou preparado para o abismo e tempestade que viriam ainda naquele lugar. Eu deveria ter encarado aquele sonho como um presságio.
Me acordei assustando com minha própria baba, AnDrew dormia pesadamente ao meu lado, com a mão no meu cabelo e encolhido, pela janela uma tempestade caía no começo da manhã.
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Com sucessões de desgraças, você se acostuma com acontecimentos ruins e estranha momentos de felicidade. Uma semana após a surra de AnDrew, descobri que o inevitável, um dia viria acontecer, por mais que já no fundo eu já soubesse no momento que o conheci e conheci mais sobre ele.
Quando acordei naquela manhã, estava de um grande humor surpreendente, seria capaz de cantar com os ratos que passeavam nos lixos próximos do prédio do apartamento se possível, quase um verdadeiro conto de fadas moderno e gay. Ao chegar na lanchonete, percebi que algo de estranho tinha acontecido, Papa Julio não havia chegado, o que nunca acontecia devido sua restrita pontualidade.
— Sabe se aconteceu algo com Papa? – Perguntei a Pablo algumas horas mais tarde, deu de ombros, também não sabia.
Só parei de pensar por um instante no meu padrão quando o meu cliente favorito apareceu, ele sempre vinha diariamente almoçar na lanchonete, o que me surpreendia, pois pelo corpo que tinha, a ultima coisa que pensaria que comesse todos os dias fosse do cardápio de lá.
— Bonjour. – Sempre me cumprimentava em francês, devo admitir que tinha um fraco para caras com sotaque estrangeiro.
Eu não costumava a atender clientes, essa era a função de Tonya e Gigi, só o fazia quando estava muito cheia ou era folga de alguma delas. Porém, com este cliente em especifico, gostava de ser atendido apenas por mim, já havíamos feito o teste e com as outras garçonetes, as dispensava gentilmente sem pedir nada, o que não acontecia comigo.
— Bom dia. – Lhe respondi sorrindo.
Falar que ele era bonito seria muito pouco, antes de descobrirmos sua predileção, as garotas quase brigavam para atendê-lo. Sua pele era quase tão escura quanto as roupas que costumava usar, porém com um brilho natural invejável e sempre usava ternos de alguma grife que eu não conhecia e perfeitamente ajustado no seu corpo de atleta. Como se precisasse de um vestuário para demonstrar a sua riqueza, ele transpiraria isso nu se possível, sua postura e sua forma de expressar... Quase tão imponente que sua pele, era os seus cabelos naturalmente alaranjados e crespos, eu nunca tinha visto alguém assim, cortados meticulosamente para nunca parecerem fora do corte, quadradinho. Admito que tinha curiosidade em saber se embaixo também seria.
— Acho que você já sabe o que quero... – Sua fala sempre era calma, apesar do olhar intenso e escuro.
Com a quantidade de dinheiro que parecia ter, ficava me perguntando sobre a razão de comer em um lugar tão popular, a comida nem era lá aquelas coisas e que Deus tenha piedade de mim, se Papa ouvisse os meus pensamentos. Seria algum tipo de fetiche que os ricos tivessem?
— Cheddar com fritas. – Afirmei, mais do que perguntei, era o que quase sempre pedia.
Sua resposta foi um sorriso de iluminar estádio e uma piscadela, que faria minhas companheiras de trabalho caírem para trás.
— Já estão a caminho. – Me afastei.
— Papa não virá hoje. – Pablo falou assim que lhe passei o pedido do cliente, nem seu nome eu sabia mesmo depois de todo aquele tempo.
— O quê?
— O michê que ele costuma sustentar acabou de me mandar mensagem, falando que ele está doente.
A surpresa não foi saber do michê, já que era algo bem previsível para o Papa, mas o fato dele realmente faltar. O visitaria se soubesse aonde morava, porém mesmo que seus parentes me contasse, provavelmente não me deixariam visita-lo. Existia uma vida muito bem marcada na relação de Papa/Mama nos seus negócios e vida pessoal.
Fiquei em alerta sobre novas atualizações sobre o caso do Papa por mais dois dias, até que finalmente surgiu algo. Quando estávamos prestes a fechar o estabelecimento ele finalmente apareceu.
— Você está bem? – Perguntei assim que o vi passar pela porta.
Balançou a cabeça positivamente, apesar de estar com uma aparência pálida e cansada.
— Trago más notícias, pessoal. — Como se precisasse falar, podíamos ver na sua cara.
Todos haviam lhe cercado, ninguém parecia tão curioso como eu, cria que o que iria nos contar não fosse novidade na roda da família, que obviamente eu era o único na lanchonete que não fazia parte.
— Vou ter que fechar a lanchonete e La Perra por um tempo. – Foi direto. As reações novamente confirmaram o que eu pensava, todo mundo já sabia e o circo era novidade apenas para mim. – Sinto muito. – Soou sincero, o vi chorar.
Pablo o abraçou primeiro do que eu, fiquei lhe dando tapinhas nas costas até finalmente soltar o outro e quase me quebrar inteiro com a intensidade do seu abraço.
— Sinto muito, Mama.— Falei.
— Eu que sinto. – Se afastou de mim e foi falar com Gigi.
Sentei em uma das mesas e tentei em pensar em uma estratégia para os rumos que levaria da minha vida a partir daquela notícia. Por mais pequeno que fosse o meu salário, ainda era o que me mantinha e ajudava em casa, sem isso eu voltaria a não ter nada.
— Tem alguma previsão de volta? – Lhe perguntei.
Ainda conversando com Gigi, balançou a cabeça negativamente.
— Ele está com câncer, mas não quer falar pra você. – Pablo sentou ao meu lado e falou. – Não conte que eu te contei, mas talvez alugue aqui para conseguir pagar o tratamento, isso se não vender.
Isso mudou drasticamente minha perspectiva que já não era muito otimista.
Dei um breve aceno para os presentes e saí da lanchonete, era muito para absorver e parado ali, não me ajudaria em nada. O mesmo homem que eu tinha quase certeza que era o cafetão de AnDrew e tinha me abordado no dia do meu aniversário, estava parado do lado de fora da lanchonete quando saí dela, começou a me seguir quando me distanciei uns cinquenta metros.
— Pensei que me assustaria como da última vez – Falei para Austin assim que o vi começar seguir-me pela rua.
— Não sou muito chegado a sustos, gosto de resolver meus negócios pessoalmente e de uma vez mais definitiva. – Sua fala parecia carregar uma ameaça disfarçada. – Pelo visto sabe quem eu sou.
— E sei do que gosta de fazer, não foi bonito o que fez com AnDrew... – Me arrisquei.
— No meu mundo, você precisa ser um cara que impõe ordem e respeito. – Se aproximou de mim e começou a andar ao meu lado, como se eu o tivesse convidado.
— Claro. – Soei irônico.
— Vocês precisam me pagar o aluguel e a taxa dos clientes prejudicados da última semana.
— O quê? – Parei de andar para encará-lo.
Riu.
— O prazo é até amanhã ou serão uma dupla de quebrados e nenhum dos dois poderá trabalhar.
— Eu tenho um trabalho. – Menti.
— Tinha... Eu sei que Papa Julio vai fechar as portas, ele é um dos meus clientes e sócios.
A palavras sócios me acometeu como uma doença venérea, como o Papa poderia estar envolvido com esse tipo de coisa, era a última pessoa que pensaria estar envolvido em um esquema de prostituição, no máximo, o via contratando michês.
— Você bateu no AnDrew por causa de mim?
— Também, ele andava muito ingrato e sua permanência no apartamento quebrava uma das regras, nada de namorados...
— Não somos namorados. – O corrigi.
— Eu sei, e isso tornou a situação ainda mais divertida. De alguma forma, ele gosta de você e quer protege-lo de mim, como se pudesse.
— O que quer de mim? – Lhe perguntei quando nos aproximamos do meu prédio.
— Para ser honesto, queria que fosse um dos meus garotinhos...
— Putos?
— Exatamente, quando te vi desde a primeira vez sabia que combinaria com o perfil que os clientes sentem falta desde que o último morreu...
— Morreu? – Não segurei minha língua.
— Queria fugir para o Canada, não foi bonito. – Fez o sinal de decapitação rindo. — Admito que fiquei realmente assustado. – Estou brincando, no máximo que faço com meus meninos é lhe dar uma surra como um bom pai faz de vez em quando. – Engoli em seco. – Podem sair se quiserem, só me avisando antes e pagando o que devem, não impeço ninguém.
Fiquei em dúvida sobre a veracidade da última parte, Austin tinha uma presença opressora, mas quando olhava na sua cara não via uma figura de criminoso que se pensa no nosso imaginário, poderia ser até um pai de família de uma típica família de subúrbio, poderia ter um filho que estudasse na Sta. Agnes por exemplo.
— Considere isso como uma opção, todos os seus problemas acabariam.
— Claro que sim. – Abri a porta do prédio.
— Talvez você possa se sentir amado, sei que garotos como vocês tem um complexo de abandono que talvez os clientes mais velhos possam ajudar... – Zombou.
— NÃO VOU! – Gritei.
Ele segurou o meu braço e colocou o dedo na minha boca pedindo silencio.
— Calma aí, que faz escândalo aqui sou eu. – Aperto mais, com certeza ficaria com um hematoma, ficava por coisa menor. – Tem até amanhã para me pagar o que devem ou você se tornar um dos meus garotinhos. — Balancei a cabeça negativamente. – Não precisa me responder agora, pode me ligar amanhã ou me falar pessoalmente.
Me livrei do seu aperto.
— Você está fazendo essa merda toda só pra eu ser mais de um dos seus putos.
— Não se sinta tão importante assim. – Voltou a rir, pegou um cartão do bolso e colocou no bolso da minha calça. – Ficarei esperando sua ligação, hoje ainda terá algumas novidades.
Entrei no prédio e corri para o meu apartamento, não conseguia parar de pensar no quão fodidos AnDrew e eu estávamos, assim que ele aparecesse, lhe contaria tudo. Juntos, talvez pudéssemos pensar em algo, fugir talvez, mesmo sabendo que não seria uma coisa fácil. Austin deveria ser um homem de muitos contatos ou talvez, Alexis tivesse algum dinheiro, já que era um aviãozinho.
Ouvi meu colega entrar como um rompante pela a porta de casa e ir direto para o minúsculo banheiro, não falei nada e não falaria mesmo se tivesse tido tempo para após vê-lo. O esperei sair, não era muito discreto em esconder o rosto, seu corpo marcado da surra de Austin causava me arrepios ainda maiores depois de tê-lo deixado na porta de casa.
Andrew deitou-se nu ao meu lado, porém com o corpo virado para o outro lado, podia sentir que estava chorando. Toquei em sua pele dourada, molhada e cheia de hematomas com delicadeza, dei um beijo no seu ombro e me encaixei atrás dele, o abraçando.
— Estou doente. – Sussurrou, sua voz oscilava.
Poderia jurar que o meu coração parou e meus pensamento voaram para Sam, não queria repetir a mesma história.
— É muito grave? – Sussurrei de volta.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Você vai ficar bem, vou cuidar de você igual você cuidou de mim.
— Não é esse o problema. – Começou a chorar. – Se virou para mim, eu estou com clamídia, eu sei que consigo me tratar.
Não foi difícil juntar os pontos.
— Não vai poder trabalhar.
— Estou querendo me controlar. – Abaixou a cabeça no meu peito. – Mas estou ficando descontrolado, eu posso só ficar assim, por enquanto? Depois eu posso achar uma solução, você vai ver, sou muito bom nisso. Não cheguei até aqui, atoa. – Falou tão desesperado as últimas palavras que o abracei.
— Vamos ficar bem. – Tentei acalmá-lo, apesar de estar ficando tão desesperado quanto ele.
— Só quero ficar calmo, mas minha cabeça e coração não deixam, nós dois desempregados... — Ele já sabia.
— Tenta dormir um pouco. – Falei. – Depois bolamos uma estratégia...
— Tudo bem. – Para minha surpresa, concordou.
Peguei seus remédios para a dor no corpo, que felizmente também tinha um efeito de calmante e o ajudaria a dormir.
Esperei ele adormecer, torci para os remédios o confortasse melhor do que eu, mas eu sabia por experiencia própria que ele tinha o seu limite, e subi para a laje da cobertura do nosso prédio, não era tão alto, apenas de cinco andares. O dia estava amanhecendo em tons alaranjados passando uma vã e cruel sensação de esperança, talvez de um novo recomeço.
Depois de passar por situações que me colocavam no limite do desespero, quase mais nada poderia me assustar, Austin era uma das coisas que poderiam, mas não por mim, mas por Andrew. Por mais que tivesse se passado mais de um ano desde que fui resgatado do meu breve período da rua, o estupor que vivi naqueles momentos, nunca me deixaram, na verdade, estava dentro de mim desde o momento que caí na piscina. Esse estupor eu chamava de tristeza, eu deveria fazer o possível para elimina-la, no entanto, preferia tê-la como uma companheira que me receberia sempre de braços abertos quando tudo voltasse a ficar ruim. Uma benção.
Olhei para a tela do celular inúmeras vezes na cega justificativa de ver as horas, que tentava me convencer como o motivo para o que eu fazia. Desviei o olhar para os prédios e a cidade tão decadente com suas pessoas, novamente os raios solares serviam como uma premissa mentirosa de um futuro bonito e promissor. Eu sabia o que eu deveria fazer, o número já estava salvo, dei um toque e esperei ser atendido.
— Eu topo.
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