Tempestuoso
21 Chocolate Branco
Notas iniciais
Minha cabeça parecia processar tudo em câmera lenta.
— Eu sou soropositiva. – Sam falou para mim de olhos fechados.
Suas palavras precisaram ecoar ao menos três vezes para eu conseguir entende-las.
— O que? – Lhe perguntei.
— Eu sou soropositiva. – Falou com a voz falha pelo choro, seus olhos pareciam duas cachoeiras.
Tais palavras voltaram a ecoar na minha cabeça. Por instinto, abracei Sam fortemente, pois ela estava descontrolada e não parava de chorar. Eu nunca pensei ou considerei a hipótese de Sam ser soropositiva, nunca. Pensei que poderia ser qualquer outra coisa, como uma gravidez ou um histórico ruim escolar, mas não algo tão grave como aquilo.
— Me desculpe. – Ela começou a dizer, voltando a se controlar. – Preciso lhe contar tudo direitinho para que não fique nenhuma dúvida ou confusão. Tudo bem? – Balancei a cabeça positivamente – Eu não contraí por transar sem camisinha, antes de mais nada, minha mãe que passou para minha.
— Sua mãe?! – Exclamei assustado.
— Sim, minha mãe. Ela era viciada em heroína e contraiu compartilhando agulhas por aí, isso é o que eu e minha avó acreditamos, mas ela também pode ter adquirido vírus no modo mais tradicional. Não tem como saber, ela não vivia, sobrevivia em função das drogas. Como previsível, quando ela engravidou de mim já estava contaminada...
O que ela dizia me atingia como uma bala de canhão em chamas nas minhas estruturas, as lagrimas simplesmente caiam conforme Sam prosseguia.
— Ela não fez qualquer método preventivo para me proteger, ela nem mesmo sabia que estava doente e muito menos, fez um pré-natal em um hospital durante a gravidez. Eu nasci na casa que ela morava com os outros usuários, por sorte, o parto não teve complicações.
— Isso é tão horrível. – Não pude evitar de dizer.
— Sim.
— Como está a sua mãe? – Lhe perguntei.
— Morta. – Respondeu incisiva. Por um momento eu tive a ilusão de acreditar na possibilidade de que ela estivesse viva, se tratando em algum lugar mais remoto ou qualquer outra coisa do tipo. – Morreu quando eu tinha três anos, seus amigos encontraram o telefone da minha vó nas coisas dela e ligaram para ela, o resto você já deve imaginar.
— Durante três anos você viveu em meio aos usuários?
— Vivi, mas não me lembro de nada. Por sorte, por muita sorte eu não me tornei uma criança viciada, eram grandes as chances de eu já nascer com dependência.
— Eu sint...
— Não sinta. – Ela limpou suas próprias lagrimas. – Já passou, foi a muito anos atrás e eu não me lembro de nada também, não precisamos chorar por algo assim. Quando minha avó me resgatou ela obviamente me levou ao hospital e descobriram que eu era soropositiva. Desde então eu tomo um coquetel de remédios todos os dias para manter a carga viral baixa e prolongar minha vida.
Fiquei calado, era muito para absorver.
— Você está bem? – Lhe perguntei.
— Vivendo um dia de cada vez, mas estou bem sim. Mais aliviada de estar agora sendo cem por cento sincero contigo.
Voltei a ficar calado, Sam me encarava analítica, parecia estar observando minhas reações para considerar o que eu estaria pensando.
— Tem vivido todos esses anos assim? – Lhe perguntei, pois o silencio estava se tornando constrangedor.
— Tenho, me desculpe demorar todo esse tempo para te dizer isso. Eu sei que você confia em mim, mas é muito difícil para mim, me abrir com qualquer outra pessoa, além da minha avó sobre isso.
— Não, não, não. – Balancei as mãos em negação, como se tentasse afugentar tais ideias da cabeça dela. – Jamais, cobraria um prazo de você para poder se abrir comigo sobre esse assunto. – Segurei em suas mãos.
— Obrigada. – As lágrimas insistiam em cair dos seus olhos.
Admito que fiquei com pena dela, eu como ninguém sabia como era perder a mãe cedo, crescer em sua ausência e sempre sentir sua falta em diversos momentos ao longo da vida. Porém, a situação da Sam era completamente diferente e complexa. Ela era órfã de mãe, não tinha a mínima ideia de quem seria o seu pai, herdara dela um vírus mortal que a mataria ao longo dos anos, crescera em escolas internatos quase sem contato com a avó e sofria por problemas adolescentes na escola.
— Por que o mundo tem que ser tão cruel? – Sussurrei em seu ouvido, ainda abraçados.
— Eu não faço a mínima ideia. – Senti um sorriso fraco brotar em seus lábios.
Nos separamos.
— Você também está chorando. – Ela falou limpando minha bochecha.
— O que?
As lágrimas tinham molhado meu rosto e nem percebera, com os punhos enxuguei-o.
— Podemos mudar de assunto? – Ela sugeriu.
— Sim.
— Agora que recebeu toda a minha carga emocional soropositiva, temos que falar sobre a sua performance de hoje? – Ria.
— Por favor, podemos mudar de assunto? – Fiz uma careta.
— Não senhor...
—x-
Admito que não lembro exatamente como retornei para o meu dormitório, mas a dor de cabeça no outro dia me lembraria do motivo da minha falta de memória, lembrava de relances de Sam me carregando até a porta da ala masculina e mais nada. Fora uma noite sem sonhos, despertada pela luz opaca do céu nublado refletida na neve e visível pela janela de persiana fechada, nem eu e nem meu colega de quarto lembrara de abri-la.
Yerik, concidentemente acordara comigo, olhamos um para cara e ficamos roborados. Ao contrário de mim que dormira com a roupa da noite anterior, ele dormia sem camisa. O inverno tinha levado o leve bronzeado que ele possuía antes, agora suas pintas se destacavam no torço branco.
— Bo-bom dia. – Fui o primeiro a quebrar o gelo.
— Bom dia. – Me respondeu no que pareceu mais um resmungo búlgaro do que uma cordialidade americana.
Ele se levantou rapidamente e correu para o banheiro. O modo que ela agiu, me deixou curioso, o que tinha feito para ficar com vergonha de mim. Com uma leve forçada na memória, recordei da cena que fiz com ele e Blake. Eu queria morrer.
Por impulso, sentei-me na cama, girando o meu corpo para me levantar dela e correr o mais rápido possível a capela para pedir perdão a deus pelo ocorrido, porem fui acometido também por outras lembranças, minha conversa com Vick e com Sam. Pela segunda, puxei os pés que quase tocavam o chão do quarto e os coloquei de volta a proteção dos cobertores.
“CHEGA DE SE LAMENTAR” – Gritei comigo mesmo mentalmente.
— Bleika? – Yerik me chamou.
— Oi.
Ele estava parado no portal do banheiro, coçando a cabeça.
— Bom... Eu não sei por onde começar... – Estava nitidamente nervoso, mordi internamente minha bochecha. – É sobre ontem, eu, você e Jessie...
— Ahh.. – Devo ter ficado vermelho como um tomate. – Não precisamos falar sobre isso. – Gesticulei. – Fingimos que nada aconteceu, pode ser?
Minha fala deve tê-lo pegado de surpresa porque demorou mais que o habitual para ele me responder.
— Cl-claro, claro, de acordo. – Disputávamos o título de o mais constrangido no quarto, eu estava ganhando, ele cruzara os braços sobre o tórax cobrindo o peitoral.
— Mas você...
— Vou falar isso também para Jessie, para não dar problema para ninguém. – Ele me interrompeu. – Opa, te interrompi. O que ia dizer?
— Isso mesmo que você falou.
— Então tudo certo.
— Sim, imagino, quero dizer, imagino que sim.
Ficamos um tempo nos encarando.
— O que foi? – Arquei uma sobrancelha. – Parece surpreso.
— Um pouco. – Ele admitiu. – Pensei que estaria correndo nesse momento para a capela e me evitando.
— Ainda estou pensando nessa possibilidade.
— Eu só queria deixar claro que eu não sou gay e não tenho nada além de amizade com o Jessie. – Falou rápido de supetão.
— Certo. Eu também não sou gay.
— Certo. – Ele balançou a cabeça em concordância.
Voltamos a ficar em silencio nos encarando, seus olhos azuis celestes me hipnotizavam como nenhum outro olhar fazia.
— Acho que vou me vestir para ir tomar café. – Ele falou atraindo minha atenção. – Quer ir comigo?
— Não pode ir. – Lhe respondi. – Acho que vou voltar a dormir.
— Vai acabar perdendo o almoço.
— Qualquer coisa eu corro no último minuto. – Falei antes de me deitar e fingir dormir.
Esperei escutar o bater da porta para começar a chorar, era involuntário, eu gostaria de ter conseguido lutar contra as lágrimas, mas elas saiam sem o meu controle junto com um choro reprimido. Era uma luta dentro de mim, um misto de desejo e culpa, na minha mente era sujo e errado, mas era tão bom e empolgante, ou melhor, excitante. Minhas duas experiências de perca de controle tinham me proporcionado estes momentos, eu não contaria para ninguém sobre esse choro, nem para Sam, Mick ou o meu diário.
A barulho da porta denunciou o retorno do meu companheiro de quarto, tentei limpar o mais rápido possível meu rosto para que ele não percebe o molhado, mas acabei sendo pego no ato.
— Bleika? Você está bem? — Balancei positivamente a cabeça. – Você estava chorando? – Perguntou sentando-se na minha cama.
— Estou sim. Só estou chorando por causa de uma alergia. – Tentei desconversar.
Demorou um pouco mais do que o habitual para me responder, como se estivesse analisando a minha resposta para saber se era verdadeira ou não e se não fosse, o quanto estaria disposto a ir a fundo para descobrir a verdade.
— Bom como eu disse, eu estava indo almoçar, mas estava pensando muito em uma coisa, então no meio do caminho eu resolvi voltar para poder te perguntar uma coisa.
— Pergunte.
— Estamos em paz, quero dizer somos amigos? – Seu olhar parecia misterioso e a pergunta parecia ser uma armadilha, fiquei receoso de responde-la. – Quero dizer, não me leve a mal. Mas, não temos o melhor dos históricos. – Ele se atrapalhou com as palavras, deixando transparecer nervosismo.
— Acho que somos amigos sim. – Fui simples na resposta.
— Sério? Pra valer?
— Espero que sim. – Uma leve lembrança dele me humilhando passou pela minha mente, fazendo-me torcer para não me arrepender posteriormente sobre essa amizade.
— Ótimo. – Ele falou balançando a cabeça sorrindo. – Eu vou indo então. – Ele apontou para porta, se levantou e saiu.
Esperei encontrar Mick online para conversar um pouco em busca de conselhos, mas ele não estava, na realidade ele não ficava online desde nossa última conversa. Fiquei lendo um livro e não percebi as horas passassem e Yerik retornasse.
— Hei! – Ele me chamou da porta.
— Oi.
— Vem jantar.
— Já? – Olhei para janela e o céu quase não possuía mais luz diurna. – Não estou com.... – Iria dizer antes do meu estomago roncar, denunciando-me.
Yerik soltou um risinho.
— Se troque estou te esperando aqui no corredor. – Falou antes de fechar a porta.
Rapidamente me aprontei para jantar e fomos juntos para o refeitório.
— Jessie está nos esperando lá. – Falou enquanto descíamos as escadarias da ala.
Levei um leve susto, a ideia de encontra-lo na companhia de Yerik não parecia boa, tínhamos reatado uma amizade adormecida após o incidente no palco durante os treinos de dança, durante nossos ensaios para o dueto da semana feminista, porem isso parecia ter acontecido a meses.
— Preocupado se eu tacarei suco em você dessa vez?
— Não brinque com isso. – Forcei um sorriso, essa ideia ainda me assustava.
— Olá. – Jessie nos cumprimentou ao nos acomodarmos em sua mesa.
O refeitório estava ligeiramente vazio, desejei que minhas amigas estivem ali para ter um bom motivo, além do meu desespero, para fugir naquela mesa, no entanto, elas não tinham nada mero sinal o dia inteiro. Imaginei que estivessem me dando um tempo para digerir o fato de Sam ser soro positiva. O foi o que eu fizera o dia todo, tentava me concentrar na leitura porem minha mente sempre voltava para o momento que ela me contava, apesar de estar bêbado na hora.
— Você parece distraído. – Yerik chamou minha atenção, trazendo-me de volta ao meu embaraço atual.
Foram exatos dez minutos de puro silencio constrangedor antes que alguém tomasse coragem de falar.
— Seu óculo está sujo. – Yerik falou para Jessie apontando para um óculo imaginário na própria face.
— Ahh, obrigado. – Jessie limpou seus óculos.
— Tenso. – O búlgaro deixou escapar.
— Se riscar um fosforo pode explodir a mesa de tão tenso. – O outro completou.
Fiquei totalmente constrangido, ambos pareciam lidar com a situação melhor do que eu. Por um milésimo de segundo pensei se Yerik estaria com vergonha de estar comigo, digo jantando comigo.
— Blake. – Jessie me chamou.
— Seguiremos como se nada tivesse acontecido, pode ser?
Sua fala pegou de surpresa. Lhe respondei acenando em concordância com a cabeça não querendo falar sobre o assunto.
— Boa noite, rapazes. – Maggie apareceu na nossa mesa, sem esperar qualquer convite.
— Margaret?
— Maggie.
Era a vez deles serem pegos de surpresa.
— Blake você parece que ficou muito tempo na neve, está parecendo que está com queimadura de neve. – Sutileza com certeza não era a melhor palavra para descrevê-la.
Porém, ela poderia estar parcialmente correta, a noite que eu dormira me assombrava e me causava arrepios. Apesar de minha aproximação com Alex naquele dia, nossa relação parecia ter se morrido depois que fiz amizade com Maggie, ele parecia detestá-la e isso ficava claro no seu olhar de desprezo que lançava em nossa direção de sua mesa.
— Não se importe com o ódio dele, e todo voltado para mim, não para você. – Maggie falou quando percebeu que eu olhava para ele.
Eu queria acreditar no que ela dizia, mas sabia que ia além da nossa amizade e dos desafetos deles, sabia que o olhar dele deveria carregar o peso da nossa conversa na neve e dos segredos que compartilhávamos.
— Vocês agora são amigos? – Yerik falou arrastado traindo minha atenção.
— Não, estamos em fase de treinamento ainda. – Margaret respondeu.
O búlgaro não conseguiu disfarçar a cara de desgosto.
Maggie não era uma pessoa popular, tinha uma personalidade muito forte e uma alta confiança que beirava ao egocentrismo, porém no fundo, era uma pessoa extremamente solitária e vulnerável. Nossa amizade nascera quando a encontrei chorando perto do auditório em um canto escondida, ela sofria pela exposição na escola e pelo termino com Alex, eu a consolara e ela confiara em mim a partir de então.
— Não adianta fazer cara feia, minha amizade é com o Blake não com vocês.
Jessie imediatamente caiu na gargalhada e Yerik ficou pasmo.
O jantar prosseguiu sem maiores conflitos depois disso, apesar dos constantes olhares ruins dirigidos a nós. Seguimos como um quarteto até o dormitório, se tornando um trio depois da bifurcação das alas e uma dupla depois do desembarque do Jessie no andar do dormitório dele, ele era um ano mais velho que eu e Yerik.
— Você tem hidrofobia? – Yerik me perguntou assim que ele saiu.
— O que? – Me assustei com a pergunta.
— Lhe perguntei se tinha fobia de água. – Voltou a perguntar com unindo as sobrancelhas.
— Não sei por que você pergunta isso. – Tentei desconversar.
— Penso nisso desde o dia que te resgataram no bosque e todo o caso na enfermaria.
Outra lembrança recente que estava querendo evitar pensar.
— Não quero falar sobre isso ou sobre aquele dia, por favor. – Lhe pedi.
Yerik não pareceu satisfeito com a resposta, mas vendo meu nervosismo não quis insistir. Naquela noite passamos um bom tempo conversando antes de adormecermos, era legal conhece-lo finalmente, tinha se passado metade de um ano, dividíamos um quarto e quase nada sabia sobre ele. Sua família era católica ortodoxa, seu pai era falecido e búlgaro e sua mãe americana criada lá, esse fora uma das coisas que descobrira sobre ele, no entanto, ainda não conseguia confiar nele, a lembrança de todas as vezes que ele me decepcionara reviviam em minha memória.
Acordei no outro dia bem cedo, quase me arrependendo da noite de conversa. A cama parecia ainda mais acolhedora com a ultimas geadas da noite e da estação, mas eu era decidido no que ia fazer. Faltavam ainda algumas horas antes do início do horário de café-da-manhã, porem já existia vida no internato, as irmãs se caminhavam para capela, para a primeira missa do dia e eu as segui-a.
Prometera a mim mesmo ir a toda missa de manhã, todos os dias por um tempo indeterminado pagar pelos meus recentes pecados, que não eram poucos. Por seu horário tão cedo, pouquíssimos alunos frequentavam a missa, porém eu sabia que uma presença era canônica: Alex.
No meu primeiro dia retornando a missas constatei que a raiva dele não era para Maggie ou apenas para ela, me encarou de uma maneira que jamais pensei ser encarado em uma igreja. E assim prosseguiu por duas semanas, até que decidi falar com ele.
Alex não percebeu imediatamente minha aproximação, geralmente ele chegava mais cedo do que eu.
— Bom dia. – o cumprimentei apreensivo.
Sem esboçar surpresa ou quaisquer outros sentimentos, consentiu com a cabeça me cumprimentando. Nossas interações se mantiveram resumidas a isso por mais outras semanas até que recebi meu primeiro bom dia de resposta, sua forma de me encarar também mudara nesse tempo, inexpressiva, não mais agressiva.
— Me desculpe. – Falei, logo após o seu bom dia. – Se te irritei de alguma forma.
— De forma alguma. – Soou frio.
— Como você está?
— Ótimo.
— Por que...
— O padre vai começar a missa. – Me interrompeu antes que prosseguisse.
—x-
— Não sei por que insiste em tentar falar com ele. – Margaret comentou na biblioteca.
Estávamos acompanhando e ajudando Sam em seus estudos para um teste importantíssimo de grande peso para admissão nas opções de universidade que ela queria, já era final de março, o teste seria em menos de um mês. E eu contava sobre minhas tentativas de aproximação com Alex.
— Não sei por que eu insisto em estudar, sendo que não vou conseguir pontuação mesmo. – Falou desanimada.
— Não desiste sem tentar. – Beth a consolou fazendo-lhe carinho no ombro.
Tentar era uma coisa que a Sam estava fazendo com vigor, começara a estudar todos os dias desde a festa até depois do horário na biblioteca e no seu dormitório. Mas era compreensível seu negativismo, os melhores alunos costumavam obter suas aprovações nas melhores faculdades no final do seu terceiro ano, os bons, no começo do quarto ano e os medianos no fim do quarto, como Sam. Além disso, ela dependia muito do desempenho no teste, pois seu desempenho escolar não era um dos melhores no olhar das faculdades.
— Só queria desistir de tudo.
— Nada disso, volte a estudar. – Maggie que falou agora.
Ela era mais agressiva que a Beth no modo de incentivar Sam, percebia que aos poucos iam se tornando amigas, apesar de a ver, às vezes, ter um estranhamento. Beth e Sam, a aceitaram no grupo torcendo um pouco o nariz, mas se adaptavam bem a personalidade forte da outra, porém sabia que não confiavam nela.
— Mas respondendo a sua pergunta sobre o Blake, ele é assim não desiste de ninguém, é assim com a irmã dele, com o búlgaro e com o Alex agora. – Sam falou, não pude esconder o rubor quando ela falara do Yerik, percebendo isso, me lançou um sorrisinho cínico.
— Você namorou ele, não foi? – Beth perguntou.
— Namorei, mas foi mais para não ficar sozinha, já que só vocês aqui não me odeiam.
— Isso ainda é contestável. – Sam sussurrou.
Maggie ouviu e sorriu.
— Você não gostava dele? – Perguntei.
— Eu gostava, mas ele sempre foi bem distante e frio. Não chegamos nem a ir para a preliminares, ficávamos apenas nos beijos que nem eram tão bons assim.
— Mas vocês namoraram por um tempo e não sabe nada sobre ele? – Beth perguntou.
— Sei que ele é órfão, gosta muito de escrever, não muito de falar, que a megera da diretora afasta é tia-avó dele, a única parente no caso e que ele é quase um fanático religioso, por isso de ser tão puro.
Fiquei tentado a falar mais sobre ele e como sofria da mesma forma que eu, de ter sentimentos tão corrosivos dentro de si e da luta interna todos os dias, mas nem sobre mim já tinha falado sobre isso para Maggie, quanto mais sobre Alex.
— Eu sinto que ele é uma boa pessoa e não gosto que as pessoas fiquem com raiva de mim.
— Acho ele escroto.
— Atenção nos estudos. – Beth lhe chamou a atenção.
— Concordo. – Maggie confirmou o que Sam dissera.
— Vou tentar falar com ele com mais avinco depois da missa da pascoa. – Falei.
— Você está frequentando muito a igreja. – Beth comentou preocupada.
Maggie caiu na gargalhada.
— Isso soa tão estranho, alguém preocupado com uma pessoa indo demais a igreja.
— Tudo em excesso é ruim. – Se justificou.
— Eu sei, mas ainda não parece normal.
— Eu estou bem, se é isso que quer saber. Estar na igreja é reconfortante para mim e estar perto de Deus. – Menti, não as contaria que estava indo como penitencia.
— Se você está bem, então fico tranquila. – Ela não pareceu convencida.
—x-
Como dito durante a semana para as meninas, iria tentar no domingo de pascoa me aproximar de Alex. A igreja naquele dia estava exorbitantemente cheia, era a segunda missa do dia, a primeira tinha sido reservada exclusivamente para as freiras, muitos pais de alunos estavam presentes para passar o dia com seus filhos, isso não incluía meu pai. Tinha me sentado ao lado dele como de costume.
— Bem mais cheio que de costume. – Tentei puxar assunto após o fim da missa, enquanto esperávamos as pessoas ao nosso lado saírem.
— Sim. – Respondeu monossilábico.
— Foi uma missa muito boa hoje.
— Sempre são no geral.
Ele se levantou para ir embora quando segurei no seu braço.
— Queria conversar com você. – Falei, sentindo que poderia ser morto naquele momento, seu olhar emanava ódio, olhava diretamente para aonde eu o tocava nele. — Me desculpe. – O soltei.
Foram necessários alguns segundos para sua raiva passar.
— Já estamos conversando, mas se deseja falar em particular... – Soou metálico depois de suspirar.
Não pude deixar de sorrir, pensei que fosse ser morto depois de lhe ter tocado, no entanto, ele havia aceitado o meu pedido.
— Vamos por aqui, tenho um lugar perfeito para conversarmos. – Me adiantei.
O levei até meu baco favorito no bosque, era nítida a transição do inverno para a primavera, em poucos lugares permaneciam montantes de deve, enquanto a flora renascia. Ele me seguia um pouco distante.
— Te peço desculpas novamente por lhe ter feito mal de alguma forma. – Falei atropelado de uma vez, assim que ele sentou ao meu lado de maneira desleixada. – E por ter lhe tocado.
— Odeio que me toquem sem permissão. – Falou olhando para a mata.
Alex parecia ainda mais pálido sobre a luz embranquecida das nuvens peroladas daquela manhã, o cabelo parecia tão sem vida como nas partes com neve no bosque.
— Me desculpe.
— Você gosta de fazer muitos pedidos de desculpa.
— Já me falaram isso.
— Deveria parar é um pouco irritante. E como cristão sabe que eu não tenho o poder de perdoar ninguém, só Deus tem. – Me encarou pela primeira vez desde que chegamos ali.
Ele era defensivo em suas respostas, o que me quebrava as pernas, pois não era a pessoa mais comunicativa do mundo.
— Pode falar o que quer falar.
— Queria que você não me odiasse. – Fui sincero.
— Eu não te odeio.
— Certo. – Mordi internamente a bochecha.
Ficamos em silencio.
— Por que me olha com tanto desgosto.
— Eu olho assim para tudo mundo e não desprezo ninguém, o que te faz achar tão especial para eu te desprezar.
— Me desculpe, então, pela acusação.
Alex me confundia.
— Se desculpou de novo. – Ele sorriu.
Voltamos a ficar em silencio, pensei que ele iria embora pelo tempo que ficamos sem falar.
— Feliz Pascoa. – Lhe entreguei uma barra de chocolate branco que eu havia separado para lhe entregar, felizmente Maggie lembrara que ele gostava desse sabor.
Ele pegou o chocolate com cautela, me encarando por alguns instantes antes de abri-la.
— É bom? – Perguntei depois que mordeu.
— Por que você não prova? – Ele quebrou um pedaço da barra e me ofereceu com uma sobrancelha arqueada, esperando a minha reação.
Fui pegar com a mão, mas fui impedido. Alex levou o chocolate até minha boca e o comi de seus dedos, fiquei estranhamente desconfortável com a situação.
— Gostou? – Ele perguntou.
— Não muito, não sou muito fã de chocolate branco, prefiro os mais amargos.
— Bom saber que prefere os amargos, mas acho que deveria dar outra chance ao chocolate branco. – A forma como falava, me fazia duvidar se seria realmente de chocolates que falava.
— Eu posso tentar. – Sorri nervoso.
Ele se aproximou de mim colando nossos corpos, lado a lado.
— Pode provar o que está na minha boca ou outro desse. – Indicou na mão.
Com essa afirmação eu só queria procurar a toca de coelho mais próxima e me esconder. Fiquei todo tenso com medo de lhe dar uma resposta.
— Estou brincando. – Ele gargalhou. – Somos bons homens cristãos não fazemos esse tipo de coisa, não é.
— Sim, não fazemos.
O Chocolate branco pareceu revirar no meu estomago. Permanecemos novamente em silencio enquanto ele saboreava sua barra de chocolate, ele não insistiu que eu provasse.
— Acho melhor irmos para não ficarmos sem comida no almoço. – Brinquei, me levantando.
— Claro, apesar de eu não ter mais muito apetite depois dessa barra.
— Culpado. – Sorri.
Nós levantamos juntos, mas por algum motivo eu acabei me desequilibrando de batendo minha cabeça na dele.
— Ai. – Reclamei da dor.
Percebi que ele segurava meus braços e nossos rostos estavam bem próximos. Analisei os detalhes do seu rosto, as olheiras rosadas embaixo dos olhos acinzentados e sua boca fina pálida suja de chocolate branco. Eu senti vontade de beijá-lo e em menos de um segundo um mês penitencia foi para o espaço. Colei nossos lábios em um movimento rápido, pensei na possibilidade de ser rejeitado, porem sentia que ele queria fazer tanto quanto eu, o que eu fiz.
Apesar de eu ter tomado a atitude, a maior parte da ação seguinte foi por conta dele, assim que nossos lábios se tocaram, ele me invadiu com a língua. Senti suas mãos passearem por meu corpo, até uma parar em minha nuca, guiando-me e pressionando-me mais contra ele. Senti o seu corpo pressionando o meu, fazendo andar para tras conforme andava para frente, sem separarmos, pensei que iria cair, mas um tronco de arvore me deu apoio.
Seu beijo era intenso e desesperado, quase selvagem, sua pegada era firme, meu corpo se arrepiava.
E da mesma forma que incêndio se iniciou, ele apagou. Alex se afastou de mim abruptamente, deixando-me com uma estranha sensação de vontade. Percebi que estava com os lábios entreaberto como se estivesse esperando um beijo quando o vi mais afasto de mim, eu estava ofegante, parecia que tinha sugado todo o ar dos meus pulmões. Ele estava impecável, inexpressível, nem a respiração parecia alterado, se não fosse os lábios avermelhados não pareceria que tínhamos acabado de nos beijar.
Ficamos nos encarando no tempo em que eu recuperava minha respiração.
— Isso não aconteceu. – Ele falou sério antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, se afastando.
Pensei em segui-lo, porem acabei travado no lugar que estava, minha mente começou a trabalhar freneticamente, refletindo sobre o que tinha acabado de fazer e com quem tinha feito. Um culpa de proporções gigantescas caiu sobre mim.
— Seu segredo está seguro comigo. – Alguém falou atrás de mim.
Se eu fosse um gato, estaria no ultimo galho da arvore que me apoiava pelo susto.
— O que? – Me virei de supetão para ver quem era.
Charli estava parada atrás de mim, sem a cara emburrada habitual.
— Eu vi você e Alex se beijando, foi intenso. – Me respondeu.
— Eu... eu... eu não sei do que você está falando. – Gaguejei nervoso, mais uma pessoa descobrira de mim.
— Sabe sim. – Ela riu. – Mas vamos combinar assim, eu nunca vi isso, assim como você nunca me viu na ala masculina no dia do vandalismo.
— O que? — Fiquei atordoado com que ela dizia.
— Sei que você me viu no dia que teve o vandalismo, não sei porque não me delatou, mas agora também não poderá contar porque também sei dos seus segredinhos.
— Eu não contei para ninguém sobre aquela noite! – Falei alto nervoso.
Charli estava me ameaçando. Tudo estava acontecendo tão rápido, em meia hora atrás eu estava rezando, agora depois de beijar Alex estava sendo ameaçado por ela.
— Não precisa gritar, estamos todos calmos. Então, temos um acordo?
Era muita coisa para processar.
— Não vou contar para ninguém. – Falei baixo
— Ótimo e como já disse, suas mentiras estão seguras comigo.
A palavra “mentiras” ecoou em minha mente, eu odiava mentir, mas era o que eu mais estava fazendo, mentindo para mim mesmo, para as pessoas e o pior de tudo, para Deus. Comecei a entrar em desespero, meus olhos se encheram de lagrimas, isso pareceu quebrar a pose de Charli.
— Ei. – Ela chamou minha atenção quando iniciei um choro baixo olhando para o chão. – Não é pessoal, só alta preservação.
Balancei a cabeça para ela em concordância.
Não percebi quando foi embora ou quanto tempo demorei para me recuperar, só sei que o sol estava em pico quando retornei para as edificações do colégio.
— Esteve chorando? – Foi a primeira coisa que Emily me perguntou quando me viu.
Ela estava parada perto da porta de acesso a ala dos dormitórios quando quase esbarei nela.
— Emma! – Gritei, correndo para os braços já estendidos dela.
Se eu já estava emocionalmente instável antes de vê-la, quase desabei quando a abracei. Fazia muito tempo que eu a não via, nem sabia que ela tinha melhorado de saúde, as confusões do colégio, me fizeram esquece-la de certa forma, imediatamente me sentir culpado por esse abandono.
— Hey hey hey. – Ela afagou meu cabelo. – Meninos crescidos não choram. – Riu rouca.
— Você está bem? – Sam me perguntou, notei que ela também estava um pouco rouca.
— Só emocionado por te ver Emily. – A abracei ainda mais forte.
— Muito bem. – Ela riu, inalei o seu aroma de canela, quase me pude ver de volta em casa, sem nenhum problema para me preocupar.
— Não sabia que estava melhor. – Sussurrei.
— Tambem não liga mais para casa. – Ela me repreendeu.
— Me desculpe.
— Nem se preocupe, sei que deve ficar ocupado com a escola, nem cheguei a avisar a Sam, apareci surpresa hoje para vocês.
— Sinto sua falta todos os dias. – Falei, finalmente a soltando.
Ela sorriu doce para mim, agora a analisando melhor pude perceber os efeitos do tratamento nela: parecia mais envelhecida que o normal, além de ter perdido uns bons 10 quilos, o tratamento contra o câncer era brutal.
— Estava chorando? – Sam me perguntou.
— Não. – Respondi limpando o rosto. – Quero dizer, só agora que vi a Emily, acho que só estou ficando resfriado.
— Então acho melhor se alimentar bem para não ficar de verdade resfriado. – Emily falou.
— Claro. – Sorri para ela.
Passamos o restante do dia juntos, estar juntos dela fez com que meus dramas internos não me atormentassem. Aquela tarde foi uma das poucas vezes que as pude ver tendo uma interação mais amorosa como neta e avó, era lindo. Também notei que quem estava ficando doente eram as duas, que hora ou outra soltavam uma tossida.
A despedida foi triste e assim que vi minha babá partir de uber meus problemas automaticamente voltaram.
— Você realmente estava chorando, hoje mais cedo. – Sam afirmou enquanto voltamos para os dormitórios.
— Não...
— Blake eu já te contei muita coisa sobre mim, coisas intimas, se está acontecendo algum problema você pode contar comigo. – Ela segurou na minha mão.
— Obrigado, Sam. Mas não está acontecendo nada, estou bem. – Menti.
Toda a parte da manhã passou voam pela minha mente, Charli e Alex, eu queria lhe contar tudo, buscar seu ombro amigo, mas eram segredos que eu não podia contar, não envolviam só a mim.
As semanas foram passando, minha convivência pacifica com Yerik ia perfeitamente bem, não brigávamos, mas quase não nos víamos fora do horário de aula e do clube do coral, ele estava em temporada de futebol americano. Alex nunca tocara no assunto do beijo e nem era distante, de alguma forma o nosso papo do bosque surgira efeito e poderia se dizer que éramos quase amigos. Pensei em evita-lo inicialmente, mas logo no outro dia do beijo ele falara comigo durante a aula de redação e desde então conversávamos com regularidade.
Faltava exatamente uma semana para o teste quando tudo pareceu desmoronar na vida de Sam.
— Eu estou fedendo? – Perguntou assim que chegou na biblioteca, eu, Beth e Maggie já a esperávamos.
— Não. – Respondemos juntos.
— Por que todo mundo parece estar me evitando.
— Acho que pode ser impressão. – Sugeri.
— Acho que você pode estar estressada com o teste e imaginando coisas. – Maggie falou.
— É talvez... – Não pareceu convencida.
— Você realmente está amiguinho do Alex. – Maggie começou, ela fora a pessoa que mais detestara a nossa aproximação.
— Pode se dizer que sim. – Falei enquanto fazia o dever de álgebra.
— Nojo.
— Eu adoro ele.
— Uhun.
— Não entendi.
— Nada, Blake. Apenas reprovo.
— Eu também. – Sam concordou.
Beth era a única que não tinha nada contra o Alex, na verdade, ela nunca tinha nada contra ninguém, era uma pessoa passiva até com quem a irritava.
Passado um tempo os quatro celulares presentes vibraram ao mesmo, automaticamente os pegamos para verificar o seu conteúdo. Os poucos grupos que eu participava ferviam de mensagens freneticamente sendo difícil de acompanhar.
— Você é soropositiva, Sam? – Maggie foi a primeira a perguntar.
Naquele momento eu pude entender tudo o que estava acontecendo.
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