Tempestades Cruzadas
1 The Beginning
Notas iniciais
O dia estava quente, como em todos os outros dias naquele verão abafado, mas, apesar disso, o auditório do Hospital São Rafael estava lotado em euforia com os novos residentes. Jovens médicos e enfermeiros recém-chegados, todos ainda com aquele brilho nos olhos – exceto Samuel Castro.
Sentado na terceira fileira, ele mantinha os braços cruzados, o olhar distante. Os discursos sobre vocação, empatia e paixão passavam por ele como vento frio, deixando-o quase irritado. Samuel observou os colegas na fileira da frente, lembrando que outrora era tão animado com a vida quanto eles. Ele nunca foi tão falante quanto aquele grupo, mas sempre teve uma certa facilidade em fazer amigos, facilidade essa que ele fez questão de abafar há quatro anos, afastando todos ao seu redor.
Entre aquele grupo observado por Samuel, sem querer, um deles chamou sua atenção. Não pelo barulho, na verdade, ela era até silenciosa. Mas o olhar... Carregava algo a mais. Ele não sabia como explicar, mas tinha algo naqueles olhos que o prendeu.
Samuel a encarou tanto que nem se deu conta quando ela virou a cabeça e olhou diretamente de volta para ele. Ela não pareceu estranhar aquela atenção dele, então, ao passo que Samuel desviou o olhar rapidamente, fechando a expressão, ela sorriu discretamente, um sorriso de quem sabe demais e fala de menos.
Aquela interação estranha só deixou Samuel ainda mais irritado, assim, quando o diretor finalmente deu por encerrada a cerimônia e os grupos começaram a se formar, em uma bagunça animada e barulhenta, Sam ficou feliz em se preparar para sair. Ele estava quase na porta quando uma voz conhecida e estridente o chamou:
— Ei, Sam! Vem cá. — Era Letícia, uma residente de clínica médica que tinha feito faculdade com ele, extrovertida e curiosa demais, se alguém lhe perguntasse o que achava dela. — Qual tal um café com os outros residentes para nos conhecermos melhor? Aliás, essa é minha amiga, Catarina, a nova residente da pediatria.
Samuel arqueou uma sobrancelha quando se viu frente a frente com a garota do olhar intenso de mais cedo. Catarina se aproximou, braços cruzados, um leve sorriso desconfiado nos lábios.
Daquela distância, Samuel conseguiu perceber alguns detalhes que não percebeu mais cedo: ela era baixinha e bem magra, tinha um rosto que facilmente seria confundido com uma adolescente de dezenove anos. Ele piscou rápido, mais uma vez irritado por prestar atenção em detalhes tão desnecessários em uma desconhecida pela segunda vez no mesmo dia.
— Samuel Castro. Cirurgia. — Ele disse, direto.
— Catarina Amorim. Pediatria. — Ela respondeu no mesmo tom, sem perder o contato visual.
Um silêncio tenso se formou entre os dois. Foi breve, mas denso o suficiente para que Letícia com seu olhar atento para as fofocas, até as inexistentes, notasse.
— Nossa, que química estranha! — brincou ela, rindo.
Catarina também riu, o sorriso chegando até os olhos e repuxando-os, quase os fechando.
— Relaxa, não precisa se esforçar pra conversar. Eu também não sou fã de socializar. — ela disse, se virando para sair.
— Que bom. Eu detesto forçar conexões. — Sam respondeu com frieza, já se afastando.
— Ei, Sam! E o café? — gritou Letícia, mas Samuel ignorou e seguiu seu caminho.
Movida pelo senso de cupido e faminta por uma boa história, Letícia tentou várias vezes “juntar” Samuel e Catarina, afirmando que os dois tinha uma química ótima. Mas eles nunca deram corda. Assim, inevitavelmente, as brincadeiras junto com as tentativas morreram como morrem as piadas que não encontram combustível.
O primeiro ano de residência passou como uma maratona silenciosa. Samuel e Catarina sempre se topavam pelos corredores, afinal, o hospital não era tão grande assim. Não faziam mais do que trocar “bom dia” educados ou um leve aceno de cabeça. Como duas tempestades circulando no mesmo céu, conscientes uma da outra, mas mantendo distância segura.
Até que o acaso – ou talvez algo além dele – decidisse aproximá-los de novo.
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Os plantões noturnos sempre eram arrastados, como se os ponteiros arrastados se negassem a andar, postergando o cansaço dos profissionais que corriam pelo hospital mesmo quando todos dormiam.
Naquela madrugada, Samuel atravessava o corredor a passos lentos, segurando uma ficha em mãos. Tinha acabado de sair de uma cirurgia delicada que, por um triz, não tinha tido um final ruim. O suor ainda escorria da testa, mas por dentro, ele estava gelado.
Ao dobrar a esquina do refeitório, avistou alguém sentado com uma postura jogada em uma das cadeiras desconfortáveis do lugar. Não demorou muito para ele perceber que os cabelos ondulados pertenciam a Catarina. Ela estava com o jaleco aberto, apoiada sobre a mesa com um copo de café intocado e o olhar perdido na janela, como se enxergasse algo muito além da escuridão da madrugada.
Por um instante, Sam hesitou. Poderia simplesmente seguir, como sempre fizeram, afinal, eles não eram próximos o suficiente para que ele parasse. Mas algo na postura dela – talvez o tremor sutil das mãos, talvez o modo como os ombros desabavam – o fez parar.
Ele se aproximou sem dizer nada, puxou uma cadeira e se sentou à frente dela.
Catarina piscou, como se só então percebesse sua presença, mas curiosamente não parecia surpresa com a intromissão.
— Samuel?... — disse num tom neutro.
— Está tudo bem? — Ele perguntou, direto e seco, como se estivesse perguntando somente por educação, sem se importar com a resposta que receberia.
— Plantão puxado. — Ela respondeu, evasiva.
— Isso não explica as mãos tremendo. — Ele disse, encarando-a.
Catarina sorriu, foi um sorriso cansado, Samuel percebeu, mas também desafiador.
— E você? Cirurgia difícil ou só carrega o mundo nas costas de graça?
— Não é da sua conta.
— Então estamos quites.
O silêncio entre eles se prolongou. Samuel se remexeu na cadeira, pela primeira vez parecendo inquieto e confuso com aquela interação. Ele levantou e disse, mantendo o tom sério de sempre:
— Cuide das mãos. Tremores constantes podem ser um sinal de... algo mais sério.
— Você sempre dá diagnósticos sem ser chamado? — Catarina provocou, com um fio de ironia e com um tom de que não estava realmente chateada, apenas testando limites.
— Velhos hábitos. — Ele murmurou, já se afastando.
Ela observou enquanto ele sumia no corredor. Por algum motivo, o café naquela madrugada pareceu um pouco menos amargo.
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