Tempestades
1 Capítulo único
Notas iniciais
Minha rotina mudou de forma tão drástica. Corpo e alma ainda repercutem a intensidade desse choque, mas ao mesmo tempo em que sinto sua falta, me entendo como mulher e essa apropriação tão simbólica vai além. Um passo a mais e meus braços acolhem aquela criança encolhida num cantinho, temerosa em relação ao mundo, ao futuro, sobre qual caminho seguir. Agora eu abraço essa garota e lhe digo que as tempestades passam e nós temos condições de sobreviver.
Eu finalmente entendi que a pessoa para quem mais devo perdão é a mim mesma. Por ter me convencido a sufocar meus verdadeiros anseios. Por me maltratar tanto. Por colher migalhas, seja de amizades unilaterais ou por supostas oportunidades perdidas no amor porque eu acredito de todo o coração que passei mais da metade da minha vida semeando flores em calçadas de concreto. Tudo que perdi na vida foi tempo. E não o terei de volta.
Sonho com casas em construção, a explicação mais plausível se traduz: o subconsciente transcende derrama no cavalete da mente aquilo que os lábios ainda temem pronunciar em voz alta porque essa revolução que soa tão silenciosa a quem me vê de corpo presente faz um barulho dentro de mim e eu bem sei quantos anos eu travei uma luta inglória para sair perdedora.
O fato de eu ter escolhido ser a protagonista da minha história e não carregar o fardo dos traumas — nem ser tatuada como uma eterna vítima — não significa que eu não chore escondida a falta que você me faz porque não tem um dia em que não espere por (boas) notícias suas.
Tem sido uma época de muitas epifanias e às vezes são tantas as vontades que se sobrepõem à coragem, mas de um modo mais simples eu entendi que o melhor da minha vida nunca esteve no passado, ainda está por vir. Quando eu era mais menina e os mais sábios me diziam que as respostas que eu procurava estavam dentro de mim, eu nunca ia fundo nesse pensamento. Ou eu temia a verdade ou eu queria construir um novo conceito que se adequasse àquele meu eu de mentiras.
Aproprio-me de um clichê bem pertinente: não tenho controle sobre as pessoas e suas atitudes, mas posso escolher o que fazer com o que sobrou de mim. As feridas mais doloridas foram aquelas causadas por me colocar em situações as quais não havia necessidade de implorar nada a ninguém ou provar o que quer que fosse. Agora eu sei que viver com medo do que as pessoas vão pensar é uma corda que me prende a uma existência limitada, carente, vazia.
As palavras e atitudes devem ser correlatas, do contrário, anula-se mais da metade do discurso. Se eu prego algo e vivo o oposto, pode me chamar de hipócrita.
Por que sufocar algo que nunca pedi para sentir? Lutar contra a maré e me afogar tantas vezes que ainda nem sei como estou viva?
Deixo a conclusão a lápis, não calculei o número exato de linhas a serem escritas, nesta busca eu me encontro e percebo o quanto estive perdida, sinto tristeza por tudo que passei, mas é uma condição diferente do vitimismo, lamento por ter sido tão dura comigo mesma, tão intransigente, por ter permitido que muitas pessoas me tratassem como eu tratei a criança que eu era.
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