Tempestade dos Dias
4 Animosidade
Notas iniciais
A tarde caiu muito clara, e o frio estava indo embora um pouco de cada vez. Já era quase março, mas naquele ano o inverno se despedia mais cedo do que de costume. Ainda havia um pouco de frio, então, aproveitando a solidão e o fim de suas tarefas diárias, acendeu um cigarro e andou pelos cômodos apertados do apartamento sem rumo. Gon já havia ido para casa — disse que voltaria no dia seguinte, pois precisava ver a tia e dormir em casa ao menos uma noite. E Killua concordou, mandando lembranças à mulher que em algumas noites cuidou dele também. O moreno se despediu dele com um beijo na testa e foi embora com toda a sua bagagem, quase não concordou em deixar Killua lhe pagar o táxi, mas no final foi convencido.
Pouco depois disso, recebera uma ligação da mãe, perguntando como ele estava. E ele disse em respostas objetivas que estava muito bem. Ela pareceu aliviada quando mentiu que não estava namorando mais ninguém. Quis saber se ele voltaria para casa um dia, e Killua respondeu que não queria e não precisava. Quando ele tossiu ao telefone, sua mãe quase se derreteu em preocupação do outro lado da linha, mas ele desconversou. No fim, tinha sido uma ligação ordinária, pois a mãe perguntava sempre as mesmas coisas.
Deviam ser seis da tarde ou algo parecido quando ele sentou-se ao chão, no mesmo lugar onde se deitara com Gon de manhã, e deixou a fumaça quente e amarga lhe fazer companhia. Ajudava a aliviar o frio e a mantê-lo ocupado, mas tinha que se controlar. Afinal, fumar era estúpido e não trazia nada de bom. Além de um relaxamento momentâneo.
Se alarmou quando ouviu batidas na porta — era incomum que recebesse visitas sem aviso. Não podia ser Gon, ele saíra a apenas uma hora, e pelo local onde morava, era impossível que já estivesse voltando. Não podia ser a mãe, pois ela telefonara há pouquíssimo tempo. Como o único jeito de saber era respondendo, foi o que fez. Apagou o meio cigarro e se livrou dele rapidamente antes de abrir a porta e ser surpreendido. Era a última pessoa que esperava receber naquele dia.
– Oi, Killua — ela disse com um sorriso desgostoso. — Eu só vim trazer algumas coisas que você esqueceu comigo. Achei arrumando o meu quarto. Tem problema?
April segurava algumas roupas dobradas cuidadosamente, abrigadas em uma bolsa transparente. Haviam ali também alguns pertences que ele nem lembrava mais de ter, como um colar com penas brancas de pingente. A moça que um dia namorou estava bastante diferente, com o cabelo longo e negro mais cheio e cortado de outro jeito, e os olhos azuis escuros um pouco mais serenos e apagados. Um grosso cachecol púrpura enlaçava seu pescoço e cobria quase até o seu nariz, o que Killua estranhou momentaneamente. Ela parecia ansiosa em não deixar a peça mostrar o que cobria.
– Não tem problema algum, April. Me dê — ele chegou mais perto para pegar o embrulho, e depois olhou um pouco envergonhado para ela. — Obrigado.
– Não precisa agradecer. E, Killua... senti que você andou fumando de novo. Não faça mais isso. Aquela pessoa de quem você me falou deve sentir exatamente a mesma coisa — ela advertiu, evitando seu olhar.
Pensou em como Gon reagiria ao saber que andou colocando cigarros na boca, e não teve alternativa senão reconhecer a razão de April. Ela dizia isso sem ao menos conhecer o outro, mas estava certa.
April lhe falou novamente, em um tom mais duro do que o de costume.
– Eu sei bem como você anda de saúde, Killua. Não faz tanto tempo assim pra eu ter esquecido, e se quer saber, me preocupo com você. Não minta para essa pessoa sobre isso e vá logo fazer alguma coisa para não piorar. Esconder coisas é... muitas vezes, ruim. — ela confabulou, olhando para o chão e dedilhando o cachecol.
– April, você está diferente — disse num surto de sinceridade, notando o semblante pesado da jovem.
A constatação causou uma faísca nos olhos dela, a única parte do rosto que o cachecol deixava à mostra.
– Estou mesmo? — ela pareceu sorrir. — é... eu devo estar. Andei aprendendo coisas. Não de um jeito bom. Mas você parece diferente também. Apesar da nossa conversa, você parece bastante feliz, Killua. Está até mais corado — ela brincou.
Killua deu um sorriso brincalhão também, pois April parecia muito precisar de um.
– Estou indo embora agora. Não fume. Vá tocar aquela flauta que você enterrou nas caixas de mudança, é uma coisa boa pra te ocupar — ela disse, apressadamente já se virando para a direção do elevador. — Se cuide.
– Eu nem lembro como se toca!
– Aprende de novo — ela disse acenando, já bem longe.
– Como se desse — ele desdenhou. — Tchau, April.
Ele ficou na entrada de seu apartamento estático, vendo April dobrar o corredor a passos pesados e apressados, notando como ela vestia um vestido novo que ele nunca vira nos meses de namoro, ou como ela parecia seriamente abalada e tentando esconder. Ficou ali, considerando como Gon agiria ao saber que ele estava seriamente doente. Estava escondendo isso de todos, mas um dia ele falhou em esconder de April, e ela viu como sangue respingou de sua boca enquanto tossia. Pensou também em como tocaria flauta com os pulmões problemáticos. A mãe lhe dera o instrumento quando tinha três anos para que aprendesse a tocar, e obrigado ele aprendeu, guardando a estranha habilidade por anos e anos. Ás vezes ainda tentava, mas só conseguia algumas músicas.
Mais tarde, quando já era bem noite, procurou por sua flauta e foi encontrá-la no fundo das caixas de mudança, que espreitavam num canto de seu quarto ao lado do aquecedor. Ali mesmo se sentou e soprou pedaços de músicas que conhecia; cantigas, uma melodia repetitiva, e uma música que aprendera a tocar peculiarmente bem. Fez o quarto se inundar daquela melodia e fechou os olhos enquanto soprava as velhas conhecidas notas. Killua não sentia nada em especial pelo som da flauta e tampouco se preocupou em aprender outras melodias que não aquela, mas continuou a tocar.
Gostaria de tocá-la para Gon um dia, mas estava bem certo que isso o deixaria envergonhado, então aceitou aquilo como uma pequena fantasia que talvez, apenas talvez, trouxesse ao plano de realidade. Ele fantasiava uma vastidão de coisas que envolviam Gon, mas desta vastidão, poucas faziam seu caminho ao real. Em primeiro lugar o queria por perto. Em segundo lugar, queria protegê-lo. Em terceiro lugar, queria-o para si. Ao querer protegê-lo, escondia coisas dele. E aquilo o deprimia, pensou enquanto segurava o instrumento calado nas duas mãos e perdia os olhos na janela fechada.
O som do telefone matou o silêncio. Era um dia atípico quando recebia mais de uma ligação e uma visita. Mas como era seu celular tocando, teve certeza de que era alguém próximo, então atendeu prontamente.
– Surpresa — chiou a voz do outro lado da linha.
– Eu estava quase dormindo...! — murmurou enquanto ria de uma maneira muito, muito boba, no invisível da conversa telefônica, levando uma das mãos ao rosto.
A voz de Gon fez um som de genuíno receio.
– Então desculpa... se quiser, pode voltar a dormir...
– Bobo. Não quero mais dormir, tô bem — retrucou, querendo espantar a decepção na voz de Gon.
– Eu... bem... como está aí, Killua?
– Com bastante frio — respondeu sem pensar. — Gon, você lembra que eu costumava tocar flauta?
A expressão de deleite que ele lhe deu ao telefone com a lembrança o fez sorrir mais ainda.
– Eu me lembro bem! Você se apresentou quando a gente se formou. Estava meio emburrado enquanto tocava, mas você tocou muito bem.
– Eu estava irritado porque minha mãe me obrigou a tocar — recordou-se — e eu só sei tocar essa música, na verdade.
– Está bom, porque era uma música bonita — ele disse calorosamente.
Killua fechou os olhos, e decidiu que usaria o invisível do telefone para tentar reparar o seu erro guardado como segredo.
– Você... vem aqui amanhã? Tem uma coisa que preciso... conversar — disse esparsamente, vacilante.
– Eu venho sim. E não precisa fazer almoço, eu vou trazer pra você. Minha tia vai separar um pouco pra você.
– Nesse frio? Como você vai trazer de tão longe?
– Não se preocupe com nada — Gon o garantiu, serenamente. — você estava precisando descansar, Killua. Eu vi que você estava. Então não se preocupe.
Killua não soube se Gon falava de suas olheiras, de sua tosse ou de seu emagrecimento quando dizia aquilo, então preferiu não perguntar.
– Vou esperar, então. É bom você vir.
– Se não quiser esperar está bom também. Ia fazer uma surpresa...
– Provavelmente você vai me surpreender. Você faz isso sempre.
– E eu não quero parar — ele riu do outro lado da linha, agraciando-lhe como sempre. — Killua, eu preciso ir. Está tarde. Boa noite. Durma cedo e durma bem.
– Não vai me mandar mais nada, é? — sussurrou no meio de um riso irônico.
– O que? O que eu mandaria, Killua?
– Um beijo — soprou — finja que te dei um, antes de dormir. Apareça amanhã aqui — e desligou o telefone de supetão, aquecido e acelerado com o pensamento que plantara naquela ligação.
Depois de se acalmar por alguns segundos, respirando, inspirando, adormeceu. Depois de pensar na tristeza de April; no sorriso de Gon; no medo que insistia em mordê-lo dia após dia. E segurando todas estas coisas, dormiu.
***
O cheiro da comida que Gon trouxera inundou o apartamento, bem guardada e bem quente como só as mães sabiam guardar. Killua conhecia isso pela tia de Gon e apenas, mas era suficiente. Comia o ensopado de pé olhando a janela, já que hoje o tempo estava levemente mais quente e se podia abrir as janelas. Da última vez que olhara para trás, Gon estava deitado no colchão que ficava na sala, com o nariz enterrado no cachecol, sem sapatos e com o cabelo já bagunçado, entre o cochilo e o alerta.
– Killua? — ouviu a voz veraneia de Gon lhe chamar.
– Diz — respondeu entre as mastigadas.
– Quem é "April"?
Killua sentiu a respiração perder o tempo e sentiu o peito pulsar. April. April, a minha antiga namorada. April. Que Gon nunca conheceu. Se virou repentinamente para Gon, para encontrá-lo com uma expressão tolamente curiosa sentado no chão, mostrando-lhe a tela de seu celular. É claro. Que estúpido.
– April... April é... a minha... Gon, lembra de que ontem eu disse que tinha sido beijado? É ela. Minha antiga... — o silêncio o sequestrou cruelmente por segundos e segundos. — ... namorada.
– Entendo — ele murmurou, felizmente, calmo e satisfeito com a resposta — ela mandou uma mensagem, Killua.
Instintivamente, ele pegou o celular, que Gon lhe entregou sem objeções, mas com um olhar curioso e pedinte. Passou os olhos pelo texto, lendo-o ansioso e preocupado. April não lhe comunicaria nada que não fosse importante.
"Preciso de um último favor seu. Me encontre amanhã naquele lugar onde você gostava de ir, nove da noite. Se não for um problema para você."
Maquinou por alguns minutos, respirando descompassado. Imaginando que favor April precisaria especificamente dele. O que afinal ele e só ele poderia fazer? O que tinha feito ela juntar coragem para pedir isso a ele e não a outra pessoa? Killua sabia que April tinha família e um irmão para lhe suportar quando precisasse. Mas se ele dissesse a história toda a Gon, havia o risco dele se intrometer profundamente e nunca mais sair. Então, novamente, escolheu o silêncio.
– Não era nada demais — desconversou, guardando o aparelho. — me deixe escovar os dentes e vamos ver alguma coisa pra fazer.
E Gon felizmente anuiu, mas Killua pôde sentir a faísca de interesse nos olhos dele quando espantou o assunto. Que essa faísca nunca iniciasse fogo.
***
Não existia tempo. Não existia relógio, nem sol e lua, nem o céu se movia. Só escurecia e clareava. Só se respirava e inspirava. Só existiam quatro paredes, colchão, aquecedor, janela, teto, quadros na parede, e o calor que tinha o corpo de Gon sendo sua casa por aquele momento, que era todo o dia e todos os anos, dali até onde ele fosse viver. Não tinha começado e nem terminaria. Gon sentava encostado na parede, e ele descansava entre as pernas do outro, envolvido e protegido de tudo, deitado sobre seu abdômen, a boca roçando quase involuntariamente onde quer que alcançasse. Era sempre ele que pedia os beijos, que pedia que tirasse o suéter, o primeiro a ir além. Já Gon pedia os carinhos, pedia que Killua dissesse seu nome, pedia que ele o abraçasse. Lentamente, ia descobrindo sobre o moreno as coisas que gostava, e também, as coisas que lhe davam prazer.
– Gon — chamou, numa voz que saiu rouca. — você vai voltar a estudar fora?
Pôde sentir ele suspirando, porém seu coração se engrandeceu quando sentiu também a mão dele segurar uma das suas, e brincar com os dedos, acariciar descontraidamente.
– Não, não. Foi só pra aprender um pouco. O resto é bem aqui — ele respondeu, sorrindo.
– Entendi — murmurou. Ele queria mesmo que ficasse.
– Killua — com o chamar, olhou nos olhos de Gon, um pouco dificeis de serem vistos na penumbra do quarto — você disse que tinha alguma coisa para me contar. O que é?
Dessa vez, foi Killua quem suspirou profundamente, sentindo aquele velho medo puxar seus pés e atar suas mãos.
Tomou a mão de Gon que segurava antes e levou ao próprio peito, e o moreno esperou pacientemente por sua resposta.
– Eu... eu fiz algo ruim, Gon. E isso está me atrapalhando um pouco... eu só estou um pouco fraco. Vou me cuidar e ficar bem — respondeu vagamente, ele sabia, mas esperou a resposta de Gon.
Killua foi tirado de seu chão com um piparote de Gon em seu queixo, que o fez rir em parte, e em outra se alarmar.
– Ei! — chiou para ele, massageando o queixo golpeado. — Não me assuste assim, idiota! Eu estava falando uma coisa séria...
– É bom que se cuide mesmo, ou vou dar outros desses!
– Vai, é? — viu naquela brincadeira sua rota de escape. Era sempre assim, estava ficando versado naquilo. Virou-se de frente para Gon, ainda engaiolado em seus braços e pernas. — Eu revido.
– Revida? — ele desdenhou, já rindo abertamente. Killua queria aquele sorriso para sempre, sabia disso e tinha aquela vontade enraizada em seu coração. Detestaria ser aquele a tirar de Gon o sorrir. O mataria ter de fazer isso, e o pior, sabia que tinha o poder de fazer.
– Na verdade eu não quero agora, mas se quisesse, revidaria. Tem outra coisa que eu quero — disse arrastando a fala, enquanto se colocava na direção dele, apoiado nos joelhos e enlaçando-o com os braços.
Gon instintivamente o segurou pela cintura, naquele corte do tempo onde se olharam com todas as malícias que guardavam nos olhos, que foram se elevando e queimando como uma brasa. Killua novamente teve pressa de tê-lo, mas se controlou. Sentiu o moreno aventurar as mãos por debaixo de sua enorme blusa de frio, e então decidiu que ela era desnecessária, despindo-se da peça de uma vez só. Sem dizer coisa alguma, fez a mesma coisa com a blusa de Gon, e ele aceitou cada movimento. Ele era receptivo a tudo que Killua fazia. Imaginava que ele o via como experiente. Bobagem — toda a experiência que tinha se resumia a April, e ela era quem fazia tudo. Um sorriso travesso se esgueirou por sua face, deleitando-se na sensação de controle. Não soube naqueles momentos o que queria dar ao outro, esteve indeciso, com o poder nas mãos.
Um momento de desajeito se instalou. Os olhos sempre ávidos de Gon analisaram cada centímetro do abdômen agora à mostra de Killua, e ele se sentiu exposto, vulnerável. Ele via tudo, esquadrinhava com um misto de curiosidade, dúvida e uma medida de desejo. Sem perceber, Killua estava fazendo exatamente o mesmo com ele, tendo os olhos roubados por tudo que ele não vira. As marcas que ele não conheceu, o molde rígido que ele nunca pôs os olhos. Gon crescera, ele mesmo talvez não percebesse, mas estava tão mudado.
– O que você tanto olha? — Killua quis saber, ainda sorrindo.
– Tá fazendo a mesma coisa — o moreno queimado de sol lhe retrucou. — e ficando corado.
– Como você sabe? Está escuro!
– Sei porque sei — ele brincou, trazendo gentilmente Killua para si, ficando dele o mais perto que conseguia.
Parou os seus minutos para sentir o calor da proximidade de Gon, que o acomodara como uma criança sobre si. Sentiu com os lábios os cantos do pescoço do outro, a pele quente e pulsante, os arrepios que respondiam aos seus toques. Lembrou-o de que estava ali com beijos, leves, outros profundos que arrancavam suspiros do outro, e em uma vez usou a língua. Aquilo fez Gon rir de leve. Sentiu o pulsar de sua vida, as batidas de seu coração, o viver da pessoa que mais lhe importava, pulso por pulso... e ali, naquela veia que saltava tempo por tempo, plantou um beijo mais profundo, à sua maneira de dizer o quanto o queria ali. Aquilo arrancou de Gon um gemido grave, e apenas aquele som mandou por seu corpo um queimar. E aquela sensação era boa demais para deixar morrer. Sugou uma outra vez, até ouví-lo responder novamente em outro gemido, cheio de pedir, cheio de pedir por mais dele. Aquilo o enlouqueceria se bebesse mais daquela fonte. Enlouqueceria, sabia disso, e teve certeza quando Gon chamou seu nome, quando viu que deixara uma marca no pescoço do outro com seu beijo desesperado. E gostou disso. Assim era real. Assim era provado.
– Killua... — foi tudo que ouviu dele antes de ir invadir seus lábios, sua boca inteira, e se pudesse faria ainda mais. Ele era um homem silencioso, e o silêncio era sua língua mãe. Era como ele diria a Gon tudo o que precisava dizer.
O moreno aceitava. O puxava mais para perto, até sentiu dele um puxão em seus cabelos, o que o excitou mais ainda. Ele dava todas as passagens que pedia. As mãos do peito para baixo, a língua em cada parte de sua boca, as mãos nas coxas rígidas onde só pusera os olhos. Quase se sentia pecador, muito pecador, por invadí-lo daquela maneira. Tudo por medo, mas esse era um pensamento que preferia matar. Invadiu um pouco mais, ponteando os dedos mais adentro. Sentiu que ele também pulsava, o via inocente, mas sabia que o desejo era uma coisa que não tinha regras. Se sua boca pudesse, sorriria. Estava lhe dando prazer. Se o doce de April o agradava antigamente, o de Gon parecia fazê-lo explodir.
– Você nem vigia onde vão suas mãos — murmurou desconexamente, numa de suas pausas. Gon não era toda a inocência do mundo como pensava, assim denunciava uma de suas mãos bem abaixo de seu umbigo.
– Você não gosta? — Gon quis saber.
– Eu não sei... — disse travesso, mordendo sem força o lábio inferior do outro. — faça mais um pouco, e eu vou saber.
Killua não contava com aquilo, mas ele o fez. Bobagem, ele contava, afinal Gon era tudo menos indiferente aos seus pedidos. Ele o fez, com suas mãos quentes, e ele não se controlou, tinha até mesmo ido além do zíper de sua calça, e o que sentiu o deixou com os pensamentos afogados, a voz afogada, apenas ao toque. Um gemido agudo pulou de sua boca, e ele ainda tinha os lábios de Gon nos alcance dos seus. Deu-lhe um beijo lento. Não pare, murmurou do fundo da garganta ao afastar-se. Sentiu seu nome escapulir da boca de Gon, soprado, afável, doce. E ele continuou, a excitação lhe enchendo tanto que estava quase dormente aos toques em seu membro.
– E agora... você sabe? — Gon lhe soprou, quase dentro de sua boca.
– Dá pra sentir que eu sei, Gon.
– E você sente a mesma coisa em mim?
Ele apenas anuiu com a cabeça, sem se afastar os lábios dele dos seus. Sentia, é claro que sentia a pulsação dele contra a sua. Estavam tão perto, sentia cada movimento que o corpo de Gon fazia, voluntária ou involuntariamente. Quase se perguntava se era real. Se acordaria mais tarde com ele ainda ali, no mesmo colchão desarrumado, no mesmo quarto minúsculo, com a mesma conversa fácil e o mesmo aceitar. Tinha medo se não acordaria sozinho no inverno infinito, de que algo ou alguém lhe tirasse daquilo. Medo de afastar Gon. Eram tantos medos que ele não conseguia pegá-los no mar de seus pensamentos, onde derivava vivo, alerta. Sentiu os dentes rangerem, e os dedos que antes acariciavam Gon tornaram a agarrar o lençol. Não podia se afogar. Não poderia ficar sem ar. Sentiu um gosto de sangue queimar sua boca, o misto metálico lhe bebendo a sanidade. Ele não era estranho ao sangue, mas... sentiu-se mergulhar na escuridão da qual nunca achou que fosse sair. Havia sangue e ele não sabia o que sangrava.
Respirou desesperado novamente, bebendo do precioso oxigênio que delirou estar sem. Delirou, genuinamente. Nada havia mudado. Gon ainda estava bem ali – no entanto, também estava o gosto de sangue. Gon, em vez de tocá-lo, estava puramente o abraçando com um dos braços e com a outra mão em seu quadril, passeando com os dedos aqui e ali. Estava-o puxando com tanto ardor para perto que não havia uma parte de Killua que não o sentisse. Gon o abraçou como quem quer proteger.
– O que foi, Killua? — ele murmurou, olhando-o no fundo dos olhos. — você mordeu o próprio lábio, eu tentei fazer alguma coisa, mas foi muito rápido...
– Não foi nada... passou. Eu me assustei um pouco – ele respondeu num sopro, tentando apaziguar com um sorriso. Viu no lençol branco as flores vermelhas de seu próprio sangue, uma gota nos lábios e queixo de Gon, e algumas em si próprio.
– O que te assustou? — Gon questionou confuso, mas aberto.
Aquela era uma pergunta traiçoeira — o questionador não sabia, mas ela o era.
– Foi um medo idiota. Eu fui um idiota, Gon. Tive medo de... medo de fazer alguma coisa que te fizesse ir embora... medo de machucar você. Eu sei, isso foi estúpido. — cuspiu as palavras desajeitado e envergonhado, tentando esconder um choro que insistia em lhe roubar.
Gon nada respondeu por um tempo, o que lhe causou estranhamento. Não era próprio dele escolher se manter calado. Mas naquela hora, foi assim. O moreno tirou dos bolsos um lenço, e mostrou a Killua um sorriso compreensivo, desarmado. Com o lenço, limpou gentilmente cada gota de sangue e saliva que seu machucado espalhou — de seu queixo, de seus lábios trêmulos que agora também estavam doloridos, de seu peito que subia e descia descompassado e pesado; e depois, limpou com os próprios dedos uma lágrima que pintava suas bochechas.
– Foi realmente estúpido — ele concordou, mas falando com o calor que lhe era próprio. — se você fizesse isso, eu acabaria voltando pra perto de você. Não é? Eu ia voltar, Killua... não ia conseguir ficar longe de você. Ia ter que fazer um esforço grande pra conseguir se livrar de mim.
Tinha certeza que em dezessete anos de vida nunca tinha sorrido tão sinceramente e sem manchas, sem tortuosidades, sem nada a esconder, como sorria agora. Talvez algumas vezes com a irmã mais nova. Mas Killua se esquecera um pouco da sensação, e Gon fazia questão de lembrá-lo. Tinha sido inútil limpar suas lágrimas; mais e mais delas caíram em sequência, seus olhos se debulharam e ele não podia fazer nada. O sorriso foi largo, molhado, deleitoso. Sua risada soou por todo o espaço do quarto, seu coração se encheu de luz do sol. Tentou esconder enterrando a cara no travesseiro, mas foi inútil. Gon o acompanhou em todo aquele rir e sorrir, não era difícil pra ele.
– Gon, você... você é louco. De verdade. É sério? Mesmo se eu te machucasse de verdade? — perguntou sem pretensões. Dentro de si, ele queria apenas beijá-lo novamente para dizer o quanto se sentia feliz com aquelas palavras, mas se controlou.
– Não sou tão fácil assim de machucar. — ele brincou lhe mostrando a língua, e brincou na nuvem albina de seus cabelos.
– Uma vez no fundamental, nós brigamos, lembra?
– Hun... ah, sim. Não lembro nem o motivo.
– Acho que foi por causa de um jogo. A gente não conseguia desempatar as vitórias. E uma vez não conseguíamos decidir quem tinha ganhado.
– Ah, é verdade! — Gon pegou o cobertor enquanto falava, cobrindo Killua com a grossa roupa de cama. — e acabamos nos batendo...
– É. E eu saí bem mais machucado. Você quebrou um dente meu e eu só consegui... bem, não precisamos lembrar disso agora — desconversou, não querendo lembrar de que perdera para Gon.
– É... foi realmente sem querer...
– Deixa disso — riu desdenhoso — você passou um ano inteiro me pedindo desculpas por esse dente quebrado. Já perdoei. Foi um bom soco.
– Mas por que você lembrou disso agora?
– Não sei — Killua fechou um pouco os olhos, voltando para o calor do abraço de Gon. Ele o recebeu prontamente, encaixando sua cabeça em seu peito. — você é realmente mais durão que eu. Eu sou realmente estúpido às vezes... sou um idiota, Gon.
– Não vejo um idiota em você. Você só é um pouco diferente de mim, mas eu gosto de você assim. Não fique mais com medo, é só isso — Killua sorriu, no secreto do cobertor, quando encaixou as pernas nas dele, os braços à volta de seu pescoço, de um jeito sem defeitos nem dores, nem desencontros. Se sentiu exatamente em seu lugar no mundo, sentiu-se em casa, sentiu-se vivo e feliz.
– Vai dormir? — soprou para o moreno.
– Não sei. Se quiser ficar acordado, eu fico.
– Eu acho que já vou dormir, Gon. Esse machucado... foi estúpido e está me incomodando.
Vindo do nada, Gon se curvou para ficar face a face com ele. E lentamente, encontrando Killua com a guarda completamente desarmada, plantou em sua boca um beijo gentil e vagaroso, como se fosse um primeiro, como se nunca tivesse tocado seus lábios antes e quisesse sentir cada canto pela primeira vez. Killua inclinou a cabeça para encaixar seu beijo no dele. O machucado já não sangrava nem ardia; havia uma certa dor, mas não quando Gon o tocava. Ele se afastou do beijo com o rosto plácido, um pouco cansado e sonolento, mas sorridente à sua maneira.
– Não faça isso de novo com você mesmo, Killua. Boa noite — ele soprou de volta, tomando-o de novo nos braços.
– Boa noite também. Não se mexa muito de noite, se não vai acabar me sufocando...
Tudo o que ouviu de Gon foi uma afirmativa arrastada, provavelmente, porque ele já ia com um pé no sono. Satisfez-se com aquilo e adormeceu no calor incessante do corpo do outro, puxando-o ainda mais para perto, onde queria que ele ficasse.
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