Tempestade

2 Flamenco


Notas iniciais
Quentinho do word '3' Espero que gostem.... ou que algum ser vivo ao menos passe o olho aqui.

Mozart... doce Mozart... Tão complacente sua obra, uma das minhas favoritas. Concerto de oboé em C maior. É Divertido, como um passo de balé muito rápido e animado e que depois passa pra um deslize suave, mas logo volta à brincadeira. Sinto como se comece um biscoito em forma de boneco e estranhamente minha saliva se encontra doce, como Mozart. Meus momentos de respiro parecem não ser suficientes para meus pulmões, ainda assim anseio mais e mais pelo prazer do biscoito; sou uma criança insaciável.

Balanço minha cabeça no ritmo e fecho os olhos a da partitura.

Ah.... Posso ver claramente. Que deliciosa sensação, um pouco de creme e manteiga em meu biscoito. E, pra um gran finale, nada melhor que perder o fôlego num agudo que se segue num divertido zigue-zague até ir e voltar, pra logo outros instrumentos me acompanharem.

– Muito bem, já chega!!

A peça acabou, por que arruinar o leve silencio de adeus a uma obra tão divertida com tal amargura na voz?

– Meu caro maestro – senti o descaso no mal-educado que interrompeu meu adeus. – ela é insuportável, divaga e quando volta parece que não sabe tocar! Como pode continuar na orquestra? Ou melhor, como continua nessa faculdade?!

– Se acalme Joshua. – o professor/maetro tinah o tom cansado, não era a primeira reclamação do dia e nem passavam das nove e meia.

– ME acalmar? Ha ha. – forçada – Pois bem, me retiro!

E ele saiu da sala, minúscula pra tantos instrumentos e pessoas, seria melhor se fosse apenas instrumentos aqui dentro.

Era a quarta vez nesse mês que ele sai, volta em dois dias e reclama de novo.

– Lluve! – a voz do professor saiu ainda mais cansada, meu olhar parecia transmitir a mesma coisa quando ele me chamou. – Já não posso mais... Você sabe por que está na Primeira Orquestra desta faculdade, não sabe? – não em preocupei em responder – Temos os melhores e você sabe que toca tão bem quanto qualquer um aqui. Não te agradava Beethoven, escolhi a peça de Mozart e ainda um dos seus concertos favoritos. Fiz sua vontade em te deixar como primeiro oboé e é assim que agradece, prejudicando ensaios?

Em parte gostaria de falar desculpa, em outra, até maior, queria que ele falasse a verdade. Professor Leonard pensa como eu. Cada aluno aqui, inclusive Joshua, tocam perfeitamente, se perfeitamente for como um robô que toca por tocar, que não pensa no que uma obra pode representar. Sinto certa misantropia neste momento.

– Retire-se! – foi forte como uma tuba trovejando, ele não queria, mas tinha que me tirar.

Momentaneamente arregalo meus olhos, encaro o olhar exausto castanho de Prf. Leonard com meus levemente magoados olhos cinzentos. Converto meu rosto numa inexpressividade de armadura, recolho meu oboé e desajeitadamente derrubo meu suporte de partitura e minha cadeira arranha na madeira. Que silêncio desconfortável para minha triunfal saída. Precisava de cornetas e vuvuzelas.

O caminho é curto até a porta e já me encontro nos corredores. Joshua está encostado nas janelas e me olha espantado, acho que nem ele esperava que seu esforço fosse dar em algo, afinal, apesar dos pesares ele me reconhece e por isso parece nutrir tanto ódio por mim. Só presumo isso porque quando me vê ele dedilhava Blade com impaciência.

*Blade – Third eye blind

– Vo-você saiu porque quis, não é?

Apenas olhei e sorri torto, ele entendeu que não foi bem assim.

Hm... Falta pouco pras dez horas.... vou matar tempo na escola primária ao lado. Mas antes! Pausa para por os fones, nesse momento ouvir Canon em D maior seria uma boa. Play.

Rápida instrução, repassando o mapa da faculdade pra pegar o caminho mais curto. Descer os dois lances de escada até o térreo e cortar caminho pelo gramado, pular o muro e pronto, cheguei. Ou será que passo pelo refeitório? Nah....

Mudo a música, um remix qualquer de música eletrônica, são todas tão parecidas que nem decoro o nome.

Chego no objetivo e já não preciso de fones. Ouvir crianças tão animadas nessa hora da manhã bate no coração o soco do envelhecimento, nem sei como ainda tenho fôlego pra chegar aqui enquanto esses pequeninos correm em círculos com o motor a vapor.

– Lluvee!! É a Lluve! – Marco gritou pro quarteirão ouvir, só podia rir desse menino enérgico.

Minha saia longa e lisa antes só com uns salpicos de sujeira de chão, estava agora rodeada com pequenos corpinhos que mal chegavam a passar meus joelhos. Anne estava faltando nessa roda, mas logo aparece com o violão na mão e o normalmente nariz esfolado de tanto cair, logo acima de seu sorriso de anjo.

Ela me entrega o violão e meu “trabalho” começa.

Pra animar, nada melhor que começar com um Mi e seguir num dedilhado rápido pra depois ficar no sol alternando o ritmo nessa nota tão diversa em cordas de náilon. Bato o pé no meu ritmo recém-criado.

Esse é pros meus pequeninos, um som como eles. Anjinhos saltitantes que sem seus gêneros brincam. Nessa melodia deixo um pouco da minha inveja, mas orgulho de ainda poder ver essa etapa da vida. Gostoso como gargalhadas. A melhor parte deste “trabalho” é que ouço a mesma coisa de formas diferentes. Uma pequena alegria da vida e momentaneamente esqueço a misantropia.

Dulce ri estridentemente, enquanto Marco alarga seu sorriso de orelha a orelha, abafando um riso que sairia agudo de mais pra um menino. Leena ri timidamente, Anne exibe o sorriso banguela e, somo seu rosto, angelicalmente emite sons que poderiam ser risos e choros. Mais dois garotos, os gêmeos Jorge e Joseph riem como um, perfeita sintonia.

– Venham! Hora de brincar aqui dentro. – Chamou uma voz gentil que não conseguia ultrapassar nosso som, mas ao mesmo tempo todas as crianças e eu sentíamos esse som, sabíamos por saber que alguém chamava.

Irmã Amélia, nem tão velha nem tão nova, ela cuidava do primário. Ela tem aquela aura acolhedora, mas tenho o sentimento que ela carrega alguma tristeza. De vez em quando, de tardinha, ela toca a Marcha fúnebre com os dedos tremendo. Ela me deu vontade de reescrever o incrível trabalho de Chopin.

As crianças entraram ao mesmo tempo que se despediram de mim.

Está na hora de voltar pra faculdade. Ao som de um pequeno pombo machucado na rua. Seu choro é até bem alto, e como não há muitos carros, até possui um eco. De repente veio uma tristeza estranha... ah! Não. É só a solidão, bem típica. Isso me lembrou um trecho de um livro impressionante.

“Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo.”

Pode não ser domingo, mas diz uma grande verdade: A solidão é um luxo.

***

Fora da orquestra agora só tenho aula de prática e teoria musical. Entediante como Beethoven.

Mas até que é gostoso apreciar um dia assim, pacato e cheio de hábitos. É como repetir a mesma música sem enjoar. Aquela que acabou de ser baixada e não se sabe ela de cór, mas ainda sim ouvi-la é como experimentar algo novo quando na verdade não é e sim uma repetição. É um looping de montanha-russa que nunca tem vontade de vomitar no final dela.

Só que quando tudo é pacato, um imprevisto dos grandes acontece.

Não passava das três da tarde, estava sem fome e uma fina chuva silenciosa me acompanhava ao subir os lances de escada de emergência para meu pequeno flat. Um balanceado flamenco eu imaginava pra essa tarde nublada e apaixonante. Dias assim são meus favoritos, nem quentes nem frios, com tudo em calmaria, onde o som de obras e gritarias não atrapalhavam, eram apenas ignorados, e como se Morfeu acompanhasse esses dias, parecia que seu perfume do sono estava no ar. Sem sono, mas não recusando deitar na cama e ficar imóvel, como se estivesse numa linha tênue de realidade.

Dias assim é que o pensamento parece escapar e o devaneio fica em seu lugar. Pro bem ou mal estar, ah, um flamenco...

Já dentro de casa, tudo iluminado, mas com aquela linha esfumaçada e onde tinha janelas, as gotas projetavam suas sombras numa arte abstrata. Podia ver as teclas do meu piano de armário parecerem sujas e limpas ao mesmo tempo com essas sombras inconstantes. Minha janela chorava por querer iluminar mais.

Estou um pouco molhada, nada preocupante, uma mancha ou outro no chão não arruinariam o imóvel. Direto, indo pro meu desejado flamenco, começo a toca-lo.

Sensual e tímidos, meus dedos imitavam os movimentos que vi na TV de dançarinas habilidosas ao mesmo tempo em que batia em teclas amareladas e pretas. ''Vas diciendole a la gente'' — Barrio del Carmen, compositor, desconheço, mas seria um prazer conhece-lo. Ao fundo sentia as palmas animadas, devia ser meu salto baixo batendo.

Minha janela quase ilumina meu rosto, mas para pouco antes do meu ombro desnudo de camiseta. Parecia que eu era uma vela derretendo. Imaginei como seria uma vela dançando enquanto acesa e derretendo lentamente. Círculos e círculos formando aros de fogo e nem a morte eu temo, pois sei que é nela que vai acabar esta música. Um pouco de desamparo deixo escapar, com se ainda tivesse o que dizer, o que mostrar, mas não me arrependo. Belo fogo que me carboniza, lamba-me e não deixe um resquício pra trás.

Finale no grave.

– Essa eu não conhecia. – Leo! Não o tinha reparado, mas também, ele tem a presença tão sutil que mesmo se o visse de relance, só depois notaria que não era um fantasma e sim meu irmão. – Mas dá pra saber que não é sua. – prendeu uma gargalhada, provocando.

Ha! Pensa que não posso criar algo assim. Irmãos....

– Como foi na facul? – decidi por ignorar essa pergunta – ei, eu ‘tô com fome... cozinha pra miiiim.... – criança.

O encarei como se dissesse: Sério? Num dia como esse quer me dar trabalho?

– Arg! Por que tinha que chover hoje? Não comi desde o café. – intensificou seu olhar pidão. Ele me conhecia e sabia que ia fazer o almoço, mas sofreria meu mal humor.

Uma bufada a cada passo, não foram muitos, a cozinha não era longe (nada era longe naquele flat). Comida... comida... Vai comer ovo frito com salsicha e se reclamar não dou suco! Decidido o punimento, eu faria um pra mim também, mas botaria num pão com queijo, alface e azeitonas e o refrigerante só pra mim.

Feito, nos sentamos aos pés do piano e comemos no chão. Ele me rouba metade do sanduiche e eu pego a clara do ovo dele. Terminou numa singela gargalhada pra depois nos retirarmos.

Dias assim são abençoados. Fazem parecer que não tem amanha e que o simples hoje é o suficiente com suas pequenas felicidades.

Meu irmão e eu estamos juntos desde que mama morreu. Ao que parece antes de nascermos ela tinha se divorciado e quando nascemos (mesmo dia, mesma hora, minutos diferentes) Leo ficou com meu pai e eu com ela. Tinha quatro anos quando ela faleceu e no enterro vi meu pai pela primeira vez. Desde que me levou pra sua casa tenho estado grudada com Leo e nunca nos separamos, nem uma vez, nunca.

***

Hoje não é um dia de tragédia ou magoar alguém, não é dia de preocupação nem de pensar no passado, não é. Não é. Não era...

Deu sete da noite; em dias assim eu ia por volta desse horário ficar abraçada com Leo enquanto tentávamos ler nossas mentes ou dividíamos nossa lista musical, isso até adormecer e no dia seguinte acordaria de bom humor, sem sono no meio do dia e agradável sensação de que a vida não é tão ruim.

Era pra terminar assim este dia. Devia terminar assim.

Estava me deitando ao seu lado no colchão mal forrado quando ele veio com o que não devia.

– Lluvia, por que você ainda vive?

Tão simples pergunta que só crianças sabem responder, adolescentes só idealizam e adultos não sabem a solução. Era algo que pensava em tudo que este dia deveria estar livre, mas lá veio ele. Algo estava muito errado com meu querido irmão.

Deixei que continuasse, ainda não me deitei ao seu lado.

– Nós, sempre juntos, em tudo. Eu... Quem sou eu? Quem é você? Por que tinha que ser com você e não comigo? Por que você ainda vive?

Em minha cabeça, ouvia ele gritando, mas as palavras saiam tão calmas e com uma curiosidade ingênua – ou é o oposto –, já não me preocupei em distinguir. Apenas o encarei de cima. Eu não tinha uma resposta. E mesmo se tivesse isso não seria algo a se falar em voz alta.

Não era como um segredo entre eu e eu mesma, porque se fosse um segredo, só ele sendo partilhado aso cochichos para receber tal rótulo, e nem em minha mente eu confessaria. Hm... provavelmente não.

– Faz tanto tempo... Por que vive? Por que não.. não vai embora e me deixa?! – era tão desamparado quanto eu, como poderia deixa-lo.

Por que eu vivo? Deveria segredar isso entre meus sentimentos, mas se nem sei a resposta, como pode então eu ainda viver?

Fiz um leve carinho na cabeça de Leo e olhei no fundo de olhos tão profundos quanto os meus, só que maiores, mantendo um ar infantil que eu sempre amei nele. Não lhe sorri, se o fizesse não estaria sendo eu e ele perceberia. Então puxei sua manga, um gesto para que afagasse meus cabelos ondulados, de igual a igual, nos reconfortamos sem nem saber o que era conforto.

Não deitei com ele naquela noite.

Sai de seu quarto e peguei o violão. Me recostei na porta de entrada e dedilhei AC e DC, mas o ritmo era tão melancólico que nem a lembrança de uma banda que gosto pôde ocultar.

Essa música era dele, só dele, só seu alento e que eu sou seu refugio, que pertenço a ele. Uma música que parece ter algo mais, mas é tão simples, esse era o som de sua dúvida e uma pequena promessa de que lhe daria a resposta que me convinha pra acalma-lo. Pois é assim que tem que ser.

Talvez pareça que a nossa vida é uma miséria, que a desgraça nos abraça, mas nem chega perto disso. Só aconteceu de sermos humanos.

Em uma das minhas amadas noites, eu derramei lágrimas em cordas de aço e adormeci abraçada ao violão. Respirando em suas tão apertadas cordas, uma prova de que viva, mesmo sem um por que.

Notas finais
Bostinha que saiu do meu coração, fazer o q.