Tempestade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Após o Clã do Vento ter sido expulso de seu próprio território pelos perversos guerreiros do Clã das Sombras, os gatos estavam desolados. Eles tiveram que fugir e foram obrigados a se abrigarem nas florestas dos arredores dos Duas-Pernas, por medo de que Estrela Partida viesse atrás deles.
Naquelas florestas haviam muitos camundongos, porém não havia tanta vegetação rasteira e era difícil se aproximar das presas sem ser notado. Também haviam os cães, que eram a pior coisa daquele lugar. Os Duas-Pernas os soltavam durante a noite para protejerem os ninhos e os cães atacavam os gatos quando eles não estavam alertas. Os gatos tinham que tomar muito cuidado por onde andavam porque poderiam encontrar uma toca de ratos acidentalmente e serem atacados pelos mesmos.
O fedor dos inúmeros Caminhos do Trovão fazia com que os gatos se sentissem nauseados o tempo todo. Um dos filhotes tossia muito devido à fumaça e o curandeiro Casca de Árvore não achava em lugar algum a erva que faria o pequenino melhorar.
A situação dos gatos do Clã do Vento era crítica e lamentável.
*
O Clã do Vento estava instalado num pequeno vão entre uma enorme rocha e a vegetação rasteira. As rainhas e os aprendizes haviam coletado musgo para forrar os ninhos. Os guerreiros patrulhavam os arredores para garantir a segurança do clã.
Mais cedo, Casca de Árvore informou ao clã que uma tempestade tenebrosa estava se aproximando. Era um sinal do Clã das Estrelas. Ele disse que a tempestade ainda demoraria alguns dias para chegar até o local em que eles estavam.
Mas o curandeiro estava errado. A tempestade chegou muito mais cedo do que eles esperavam.
*
A tempestade torrencial chegou e pegou os gatos de surpresa. Mal havia começado a chover e as rainhas, desesperadas, colocavam os filhotes dentro do abrigo. Se eles ficassem resfriados, certamente morreriam. A pobre Flor da Manhã estava prestes a dar à luz, mas seus filhotes recém-nascidos teriam pouquíssimas chances de sobreviverem, devido às péssimas condições climáticas e à fraqueza que estava cada dia mais evidente na mãe.
Então, começou a chover mais forte. Os aprendizes Pata de Teia e Pata Veloz ajudaram os fracos anciãos a entrarem no abrigo.
― Pé Morto – chamou Estrela Alta – Certifique-se de que todo o clã esteja dentro do abrigo.
― Farei isso, Estrela Alta – o representante se virou e foi cumprir a ordem.
A chuva fazia muito barulho ao atingir a vegetação, as pedras e a terra. Os filhotes choravam, assustados.
Estrela Alta estava tão perdido em pensamentos que todos os ruídos lhe pareciam ecos distantes. O líder estava preocupado com o clã. Ele não tinha certeza de nada. Não sabia se ficavam naquele lugar ou continuavam andando. Os anciãos não agüentariam andar muito mais. Todos os gatos estavam fracos e famintos, pois não havia presas para todos.
Mais algumas luas e a estação sem folhas chegaria. Se agora não conseguiam pegar presas suficientes, imagine quando o chão estiver coberto de neve e as presas escondidas em suas tocas. O clã não iria sobreviver por muito mais tempo. Estava condenado.
Mas então, Pé Morto e o jovem guerreiro Bigode Ralo interromperam os pensamentos do gato.
― Estrela Alta! – chamou o representante — Trago péssimas notícias.
O líder olhou para o velho amigo com cara de quem diz “Como poderia ficar pior?”. Ele estava prestes a perguntar o que tinha acontecido o que tinha acontecido quando Bigode Ralo disse:
― O meu aprendiz, Pata Alva não está em lugar algum! Deve ter se perdido na floresta. Ah, ele é tão pequeno! Com essa chuva, ele nunca conseguirá voltar até aqui sozinho!
Bigode Ralo tem razão, pensou Estrela Alta. Pata Alva é jovem, inexperiente e está em território desconhecido. Preciso mandar uma equipe de busca atrás dele.
― Bigode Ralo, Orelha Rasgada e Pata Veloz – o líder chamou – Quero que vocês procurem por Pata Alva. – Os gatos se aproximaram para ouvir melhor – Mas, se vocês tiverem ido até o último Caminho do Trovão que atravessamos e não tiverem o encontrado ainda, devem encerrar a busca e retornar o mais rápido possível. Pata Alva será dado como morto.
― Não! Mas e se... — Bigode Ralo começou a protestar.
― Sem mas, Bigode Ralo! – Berrou Estrela Alta, exaltado.- Vocês não vão ficar procurando até amanhã! Vão ter que voltar em algum momento, com ou sem Pata Alva! É possível que já tenhamos perdido ele e eu não posso arriscar perder vocês também!
Bigode Ralo se calou. Tudo que podia se ouvir era o barulho da tempestade e o choramingo dos filhotes. Os gatos do clã nunca tinham visto seu líder neste estado.
Mas, surpreendentemente, Orelha Rasgada tomou coragem e quebrou o silêncio.
― Compreendo, senhor, mas não temos muito tempo. É melhor irmos.
― Sim, sim, é melhor vocês irem. – Concordou Estrela Alta, tentando se acalmar.
― Boa sorte – Disse Cara Marrom, a mãe do aprendiz desaparecido, uma gata de pelo longo de cor bege e características marcas marrons no rosto e nas patas. Os gatos do grupo de busca se viraram e partiram.
*
Alguns minutos depois, a chuva se intensificou. A água começou a invadir o abrigo. Os gatos não tinham o que fazer: Aquele era o lugar mais seco que conseguiriam achar. Eles nem se davam mais o trabalho de se lamber porque sabiam que não adiantaria nada.
Neste momento, Estrela Alta sentiu inveja dos outros clãs pela primeira vez na vida. Se tudo isso tivesse acontecido com o Clã do Rio, os gatos não se molhariam tanto porque tinham um pêlo praticamente impermeável. Se tudo isso tivesse acontecido com o Clã do Trovão, os gatos não teriam tido tanta dificuldade para atravessar os Caminhos do Trovão. O líder apostava que um gato do Clã do Trovão conseguia atravessar um Caminho do Trovão de olhos fechados!
Ele tentava nem pensar no Clã das Sombras pois isso só lhe traria uma tempestade de sentimentos: raiva, ressentimento, angústia...
Então, um raio iluminou o céu por um instante, tornando todas as sombras e formas macabras. Em seguida um trovão rugiu tão alto que alguns gatos deram um pulo.
―Ah, Pata Alva! – Choramingou Cara Marrom.- Que o Clã das Estrelas esteja com você! – A mãe não suportava a idéia de perder o filho.
Depois de muita chuva, lamentos e gatos encharcados, algo se mexeu do lado de fora do abrigo. Todos os gatos olharam naquela direção e ouviram o barulho de um galho se quebrando e de repente, apareceram quatro gatos: Orelha Rasgada, Pata Veloz, Bigode Ralo e... Pata Alva!
Todos os gatos se alegraram. Cara Marrom correu até o filho e lambeu sua cabeça.
Os gatos que tinham chegado estavam ainda mais molhados e frios do que os que estavam no abrigo, mas logo foram acolhidos pelo tumulto felino. Era impressionante como os gatos conseguiam se animar mesmo estando encharcados até os ossos.
Estrela Alta se dirigiu até Bigode Ralo e falou:
―Me desculpe por ter sido grosseiro. Eu apenas não queria que vocês se machucassem. Estou muito feliz por vocês terem achado Pata Alva.
O guerreiro olhou fixamente para seu líder.
―Está tudo bem, Estrela Alta. Eu entendo.-Disse o guerreiro malhado.
Estrela Alta se sentiu aliviado por fazer as pazes com Bigode Ralo, mas ainda se sentia exausto. Ele procurou pelo pedaço de chão menos molhado livre e se deitou.
Mesmo assim, o líder não conseguia relaxar. Nunca na história dos clãs havia acontecido alguma coisa parecida. Era impossível comparecer a próxima Assembléia porque teriam que atravessar o território do Clã das Sombras ou o território que até pouco tempo atrás era deles. O Clã do Vento não podia se arriscar a encontrar uma patrulha inimiga. Os guerreiros estavam fracos e morreriam se houvesse um combate.
Estrela Alta não conseguia dormir devido ao barulho da tempestade e a grande quantidade de pensamentos passando por sua cabeça.
O futuro era um grande borrão, mas de uma coisa o líder do Clã do Vento tinha certeza: O líder do Clã das Sombras, Estrela Partida, que havia liderado o ataque, não sairia impune. Haveria vingança.
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