Tempestade
2 Sophia - Capítulo um: Granada
Notas iniciais
Cinco de Agosto de 2013 – Araxá, MG.
O vento investia impiedosamente contra as folhas, fazendo-as farfalharem e sacolejarem nos galhos das árvores. Era noite. Ou talvez fosse dia. Não dava pra decifrar. O céu era uma imensidão negra, sem luar ou estrelas. Apenas uma negritude infinita, que parecia refletir o que se passava no interior de Sophia.
Ela corria. Corria desesperadamente pela grama úmida, pouco se importando com o estrago que a lama e as folhas faziam em seu vestido. A barra do teu vestido perolado, rastejava de encontro ao chão à medida que ela corria, forçando caminho por entre as árvores e o mato alto que ela mal enxergava a sua frente. Por ora, ela suspendia o longo vestido, crendo na possibilidade, — quase infantil na verdade- de que isso lhe permitiria mais rapidez. Girava o pescoço sem parar, fazendo uma cascata de cabelos castanhos flamejarem de um lado para o outro, enquanto seus olhos negros como o céu que a cercava, tentavam enxergar o que se espreitava em seus flancos.
E ela correu. Correu em direção ao que pensou inocentemente ser a sua salvação. Mas não era. Eu podia sentir sua aproximação. Mesmo quando ainda não havia chegado tão perto de mim. Conseguia invadir a sua mente com facilidade, assim como podia partilhar todos os seus sentimentos. Como se fossemos a mesma pessoa.
Mas, quando a sua silhueta ainda escura aos meus olhos, brotou no meio das árvores, zarpando com dificuldade para o centro de uma clareira límpida, eu senti no fundo do meu âmago que algo estava extremamente incerto. Seu corpo coberto por um vestido perolado que agia como um ponto de luz na escuridão estacou ereto. Percebendo ao mesmo tempo em que eu, que alguma coisa estava errada.
Assim que nossos olhares se encontraram pela primeira vez, eu descobri com incredulidade. Os seus longos cabelos castanhos eram balanceados pelo vento, raspando pelo corpete justo do seu vestido e chicoteando em suas costas, cabelos longos e lisos como o meu, arranhando um vestido perolado como o que eu vestia. Teu rosto pequeno, em formato de coração estava paralisado como o meu, enquanto nossos olhos negros como a imensidão acima de nossas cabeças, se fitavam arregalados dizendo-nos tudo aquilo que nossas bocas não eram capazes de pronunciar. Aquele era o meu rosto. O meu corpo. Aquela era eu.
Nenhum ruído. Apenas nossos corações batendo a um só ritmo. Teu coração jovem como sua face, eu podia senti-lo batendo em meu peito, igualmente aos teus pensamentos que enchiam a minha mente com as mesmas perguntas que eu não era capaz de responder.
Como em um despertar, nosso momento foi retirado. Figuras se moviam em meus flancos, caminhando lentamente. Olhei para elas, mas elas me ignoravam como se eu não existisse. Prosseguiram a andar com uma postura ereta e severa, fixos em um único alvo do lado oposto a clareira. Eu percebi um pouco tarde demais, pra onde eles seguiam.
–-- Sophia, não. – Eu gritei. Mas ela havia repetido o mesmo ato que eu. Sua boca se abriu e se fechou e as palavras que jorraram dela, eram as mesmas que as minhas.
No começo, eu pensei que éramos um reflexo. Que um espelho nos separava. Porém percebi éons depois, que não se tratava disso. Eu estava presa em uma caixa de vidro, isso explicava o fato de eu não ter me mexido todo esse tempo. Estendi a palma da minha mão, tocando a superfície do vidro que nos separava.
Do outro lado, oposto a mim, a outra Sophia caiu de joelhos no meio da grama afundando em seu próprio vestido. O teu desespero encheu o meu peito como uma bofetada.
Quis gritar-lhe para que corresse, mas foi naquele instante que eu percebi. As figuras que se moviam em meus flancos, também caminhavam por trás dela. Como um espelho. Assim como nós duas.
Não havia nada a ser feito. Nenhum lugar para correr. O fim tinha chegado. Precocemente demasiado. Afundei em silêncio no meu próprio desespero, à medida que uma mulher com uma onda de cabelos vermelhos como sangue, postou-se ao lado de Sophia, minusculamente encolhida no chão. Ao meu lado, a mesma mulher acenava pra mim. Seus olhos verdes como duas esmeraldas, deram uma leve piscadela pra mim, como se fôssemos antigas amigas. Lancei meu corpo inutilmente contra o vidro. Queria parti-lo em pedaços e fugir para longe, onde ninguém jamais ousasse me encontrar. Assim, eu salvaria Sophia. Me salvaria. Enquanto eu estivesse presa, ela jamais conseguiria se esconder. Ela era uma parte de mim, ou eu era uma parte dela. E feito um imã, uma sempre seria atraída para onde quer que a outra esteja. Juntas, éramos uma só.
E eu tinha percebido isso um pouco tarde demais. Eles tinham percebido antes de nós. Usaram-me como isca. Sabiam que se me prendessem aqui, ela seria atraída até mim, porque como éramos parte de um mesmo ser, parte dela estaria presa aqui comigo e ela seria obrigada a vir até aqui se juntar a mim. Somente assim, juntas, poderíamos finalmente ser destruídas. Nossa existência eternamente exilada.
Do lado oposto ao vidro que me prendia, a mulher de olhos verdes me olhava com olhos sorridentes. Enquanto, a outra parte dela dava gargalhadas ecoantes, vendo-me tentar forçar passagem inutilmente contra o vidro.
Então, eu soube que tudo cessaria, quando a mulher ergueu o braço no ar, pronta para atacar Sophia, afundada no chão.
Minha boca gritou, mas não foi o suficiente para fazer a mulher parar. Foi o suficiente para me fazer voltar à realidade.
Eu estava ficando louca.
Tinha noventa e nove por cento de certeza disso.
Pestanejei com força por alguns momentos, voltando a mim. A claridade do sol ofuscou meus olhos por alguns segundos, antes de eu me reacostumar com a luz. Deixei que minhas mãos deslizassem e caíssem na grama à minha volta.
–-- No que está pensando, Sophia? – A voz fina e rouca da minha amiga Annie, me surpreendeu.
Olhei a minha volta, lembrando-me de que estava no pátio escolar no meu primeiro dia de volta as aulas. Eu havia me perdido nas lembranças noturnas do meu sonho, que tinha me esquecido até mesmo de onde eu me encontrava. Estava com tanta ânsia de me lembrar de todos os momentos, que eu praticamente fui puxada pela minha mente. Como se eu estivesse tendo o mesmo pesadelo, acordada.
Isso não me impressionou. O que me assustou verdadeiramente foi o fato do rosto da mulher de cabelos ruivos me parecer estranhamente familiar no sonho, e agora, enquanto eu estava consciente, eu tinha certeza plena de nunca tê-lo visto nenhuma vez sequer. Não na vida real, apenas nos sonhos. O estranho é que não era a primeira vez que eu sonhava com ela. E nem a primeira vez em que eu tinha dupla personalidade em um sonho.
O que me trazia de volta a conclusão inicial: Eu estava ficando louca.
Olhei na direção de Annie, deparando-me com um par de olhos muito verdes me estudando com cautela.
Pisquei com força, afastando os pensamentos.
–-- Hã...Nada importante. – Dei de ombros. Eu não tinha razões para preocupar Annie. Eu sabia que se dissesse que talvez eu estivesse ficando louca, ela entraria em pânico.
Annie voltou seus olhos para a tela do celular. Ela estava sentada confortavelmente sobre a grama, com as costas repousadas em uma árvore de tronco robusto. A claridade do sol transpassava pelas folhas da árvore e entrava em contraste com a sua pele pálida e a sua cascata de cabelos louros ondulados. Annie parecia um anjo com toda aquela luminosidade dourada em volta do seu rosto.
Seus olhos verdes ergueram-se do visor do celular e novamente pousaram-se em mim. Olhar para os olhos de Annie, era como se aprofundar no mar. Eles eram quase hipnóticos. Te convidavam a olhar, e quanto mais você olhava, mais você afogava naquela torrente verde.
–-- Parecia importante. Você estava tão concentrada. – Ela sorriu, mostrando os dentes brancos alinhados. – Não me diga que conheceu algum carioca misterioso.
Revirei os olhos pra ela.
Olhei a nossa volta, vendo os grupos de alunos que se dispersavam pelo campus. Annie e eu permanecíamos sentadas sob a sombra da árvore robusta, enquanto nossos colegas de turma procuravam algum entretenimento para realizar com seu tempo livre.
Um grupo de garotas dava gargalhadas altas, descaradamente flertando com alguns garotos do time de futebol. A menor das garotas do grupo, lançava olhares furtivos pra mim e Annie, com curiosidade. Não me incomodei. Isso era uma coisa frequente.
Todos queriam Annie Scouter. Todas queriam ser como Annie. A herdeira bilionária da maior empresa de aparelhos eletrônicos do mundo. A filha de uma estilista. Uma it girl do mundo adolescente. A namorada do modelo – e garoto mais rico e bonito do colégio – Jimmy Steves Belmonte. Ninguém entendia o que Annie Scouter, fazia em uma cidade como Araxá, em outro país, oposto ao de sua nacionalidade, fugindo de todos os holofotes, e longe de todo o fervor que girava em torno da multimilionária do seu pai.
Eu sabia o que Annie estava fazendo aqui. Ela estava realmente fugindo de tudo isso.
Lembro-me da primeira vez que a vi, pequena e loura com seus sete anos, completamente desnorteada em uma escola desconhecida pra ela. Ela estava à beira das lágrimas, quando Izec Dias me disse quem ela era.
–-- O nome dela é Annie Scouter. – Ele abanou sua mão para me silenciar, antes que eu perguntasse se tinha ouvido direito. – É, é a filha do bilionário. Pelo menos é a que restou. Sua irmã gêmea Annabell, foi sequestrada aqui. Os Scouter estão de residência fixa enquanto estão fazendo as buscas.
–-- Mas o que eles estavam fazendo aqui, em Araxá? – A ideia parecia abominável pra mim.
Izec revirou os olhos pra mim, claramente sem paciência para todo o meu interrogatório, enquanto o próprio tentava desenhar um foguete sem muito sucesso.
–-- A mãe dela trabalha com a mãe do Jimmy. São amigas de infância. – Murmurou. – Quer que eu explique também, porque a mãe do Jimmy estava na cidade?
Obviamente porque o pai de Jimmy era brasileiro, tinha residência fixa, e era o proprietário do grande Hotel de Araxá. Certa vez, Izec me dissera que os pais de Jimmy eram divorciados, mas a mãe dele aparecia de vez em quando para trazer a filha, Hellen Steves, de apenas doze anos, que morava no exterior com a mãe. E claro Izec sabia dessas coisas, porque a mãe dele trabalhava na casa dos Steves Belmonte.
No decorrer desse dia, Annie apanhou meu lápis que sem querer eu havia deixado cair, e se aproximou de mim ávida em tentar fazer amigos. Mas seu português era tão horrível que ela não entendia quase nada do que eu lhe dizia.
–-- Meu nome é Sophia Mandson. – Disse a ela, dando-lhe um sorriso desdentado.
Annie ainda tinha todos os dentes de leite, e me sorriu de volta com alegria.
–-- Mandson? Você ser uma... Como falo? Estranheira? Hã...Americana? – Ela parecia desapontada com o seu português.
–--Não, não sou estrangeira. – Bom, eu também não entendia o porquê de meu sobrenome ser esse. Quando questionei meu pai, ele apenas me disse que minha avó paterna tinha alterado o próprio nome. Mas não soube a causa de ela ter se dado um sobrenome tão incomum.
Desde então Annie e eu somos amigas. Ela me confessara, que na época, tentou ficar o mais longe possível de Jimmy, porque o garoto lhe dava medo. Ele supostamente tinha colocado uma aranha na mochila dela. Mal imaginando que o garoto seria seu namorado quando fizesse treze anos.
Ela deixou seus pais irem embora, e permaneceu morando praticamente sozinha – apenas com os empregados – porque era apaixonada com a vida tranquila que levava aqui. Longe de toda loucura frenética em Nova York. E claro, ela ainda alimentava esperanças de reencontrar sua irmã.
Mas todos queriam a amizade de Annie. Porque ela era linda, milionária e popular. Eu era alguém quase invisível, sempre a sombra de Annie, enquanto todo mundo lhe cumprimentava e parava para conversar com ela, como se ela fosse um membro da realeza. Annie era perfeita. Era carismática, adorada. Tudo que ela fazia era brilhante. Então os olhares se caíam sobre a nossa amizade. Porque alguém tão fantástica como Annie, anda com uma garota tão desprezível como Sophia? Eu não era nada comparada à perfeição de Annie Scouter. Sabia disso. Não era nem de longe simpática. Nem bonita, ou elegante. Eu era uma aberração que andava de jeans e moletom em meio a saltos altos e caros e bolsas de grife. Eu era no mínimo inteligente, por ter chegado ao último ano do melhor e mais caro colégio de elite do país. Sophia Mandson, um pequeno cérebro ambulante de jeans e moletom, filha de uma cabelereira e de um operário de uma fábrica de refrigerantes, andando em meio aos filhos de empresários, artistas e políticos. Um grande ícone do colégio, sem dúvida.
Além de tudo, eu era uma das únicas bolsistas do colégio. A maioria não sobrevivia um semestre.
O pai de Jimmy resolveu pagar pelos estudos de Izec Dias, uma vez que os dois se tornaram praticamente irmãos, e o pai de Jimmy resolveu tratar Izec como igual. Um Steves Belmonte. Isso ajudou e muito no ego já extremamente inflado de Izec. Ele passou de: o filho dos empregados dos Steves, para O Melhor Amigo De Jimmy Steves, e O Cara Que Mora Na Mansão Dos Steves. Se perguntarem a Izec, o nome dos seus pais, ele com certeza não dirá os verdadeiros. Ele é quase tão Steves Belmonte quanto Jimmy. Não que Jimmy se importasse, os dois eram realmente amigos, e até onde eu sabia, Jimmy chamava a mãe de Izec de mãe, porque ela praticamente criara o garoto. Uma história intrigante. Izec queria ter o que Jimmy possuía, e Jimmy queria ter a família que Izec tinha. E com isso, eu perdi um aliado bolsista.
Por mais que eu andasse com os populares, eu não era popular. Todos me conheciam, sim. Porém, eu era apenas a sombra dos Gigantes Do Colégio. Eu era uma espécie de granada. Eles me olhavam como se eu fosse explodir a qualquer momento. Desde meu trágico rompimento com Guilherme, eu tinha virado uma espécie de bomba relógio que devia ser evitada a qualquer custo. Ninguém suportava um contato visual comigo por mais de dez segundos. Ás vezes, eu ficava grata por isso.
O som de passos por perto, me trouxe de volta a realidade de novo.
Annie e eu nos viramos ao mesmo tempo pra ver quem se aproximava.
Um garoto pálido de cabelos louro escuro caminhava despreocupadamente com os braços balançando ao lado do corpo, um sorriso de canto de boca nos lábios e um andar cafajeste. Ele sustentava um olhar presunçoso com a garota pequena, meio chinesa, no meio da roda de amigas escandalosas. A garota parecia ter se esquecido completamente de mim e de Annie.
–-- Então, como vão garotas? – Izec parou de caminhar, e se sentou entre mim e Annie, dando uma piscadela para a chinesa, antes de se concentrar em nós duas. – Sophia, querida, senti sua falta. – Seus olhos cor de amêndoa se pousaram em mim por um breve segundo antes de se dirigirem a Annie. – E você cunhadinha, como vai?
–-- Sabe Izec, estou surpresa. – Comecei. – Você se sentou na grama, sem se preocupar se iria sujar a roupa. Meu Deus, isso pode ser alguma doença crônica.
Annie deu uma gargalhada alta, abandonando de vez o celular. Izec me mostrou sua língua com os olhos estreitos, um leve traço de humor cruzando seu rosto.
–-- Veja só, quem acordou humorista hoje. – Ele se inclinou na minha direção, de um modo que pude ver seu rosto com clareza, muito perto de mim. Ele era bonito. Sim, era. Tinha cabelo louro escuro, que usava completamente despenteados. Sua pele era pálida, em um corpo pouco musculoso. O seu maxilar era quadrado, o que lhe dava um ar de poder. Uma boca de lábios cheios e rosados, os olhos eram amendoados com cílios longos e pretos. Mas ele emanava um ar de cafajeste, aquele homem que cheira a mulher. Izec era aquele tipo de homem que te olha no fundo dos olhos, e faz você esquecer o que ia dizer e umedecer os lábios. Faz você querer flertar com ele. – Se você quiser eu tiro minhas roupas, Soph.
Mas Izec não usava seu charme conquistador comigo ou com Annie. Ele era apenas o Izec. Era apenas um garoto piadista. Entretanto havia momentos em que eu não sabia se ele estava brincando ou flertando, como naquele instante.
–-- Uou. – Annie gritou sorridente, jogando as mãos para o alto em um gesto de rendição. – Me deixem sair do recinto antes da nudez, por favor.
–-- Você é tão difícil Izec. – Zombei, dando-lhe um soco de brincadeira no braço. Ele sorriu tornando a se sentar confortavelmente, sacando óculos escuros do bolso da jaqueta de couro. – Relaxa Annie, eu não deixaria que você se traumatizasse com algo tão bizarro assim.
Nós três rimos. Izec apoiou o peso do corpo, nos braços. Observei que todas as garotas olhavam pra ele. Não que ele fosse o cara mais bonito do colégio, mas era o que todas queriam, sem dúvida. Bom, na verdade ele queria todas também.
–-- Onde está Jimmy? – Annie perguntou. Ela rastejou no chão, indo posicionar sua cabeça no ombro de Izec. Ele envolveu-a em um abraço, como um irmão faria.
–-- Futebol. – Respondeu Izec com desdém. Ao contrário dos garotos, ele odiava futebol. Ele dizia que não era inteligente entrar em campo, uma vez que todas as garotas estavam na arquibancada. –E como foram suas férias na casa do seu pai, Soph ?
–-- Péssimas. – Respondi de prontidão. Desde que chegara aquela casa, coisas estranhas haviam acontecido. Primeiro eu tinha ido ao cemitério, deixar uma flor no túmulo da minha avó paterna Sofia, e tinha me deparado com uma estranha garota de manto negro, que eu tive quase certeza de que me seguira. E os sonhos com a mulher de cabelos vermelhos haviam começado no período em que eu estava lá. Era aquela casa que me enlouquecia. A maldita casa do meu pai.
–-- Não devem ter sido tão péssimas. – Annie discordou. – Sophia não para de pensar em um carioca misterioso que conheceu.
Izec fingiu perplexidade.
–-- Fui brutalmente arrancado do seu coração, Sophia? – Seu rosto se emoldurou em uma expressão de tristeza, fingida.
Annie riu descontroladamente. Revirei os olhos para os dois.
–-- Eu não conheci ninguém, acredite. – Resmunguei. – E como foram as suas férias com Jimmy em Fernando de Noronha?
Pelo olhar que ela me lançou em seguida, arrependi-me de ter feito a pergunta. Seu sorriso quase chegou às orelhas, como o de um gato que acabou de engolir um canário.
–-- Perfeito chega perto. – Observou – Nós adotamos um cachorro.
Meu queixo quase tocou o chão.
–-- Cachorro? – Surpreendi-me. – Que anormal. Você não gosta muito de cães.
Lembrei-me da implicância que ela insistia em manter com os cachorros. Annie sempre gostou de gatos. Tinha um angorá, de nome Argos.
–-- Bom, o Orni meio que nos adotou. Ele não podia me ver que logo me seguia. – O sorriso dela se multiplicou. – É um filhote. Estava perdido.
–-- Orni? – Arqueei as sobrancelhas. Izec riu.
–-- Ornitorrinco. – Ela bufou. – Jimmy o batizou assim. Ele não atende por outro nome. Tentei pelo menos apelida-lo.
–-- Ah. – Claro que seria ideia do Jimmy. Quem mais daria um nome tão exótico a um filhote? – E você Izec?
–-- Eu não gosto de cachorros, obrigado. – Zombou.
–-- Você é sempre tão idiota, ou se aprimorou com o tempo? – Perguntei com um longo suspiro.
Levei a mão ao meu pescoço, brincando com o meu colar de prata.
–-- É o excesso de namoradas que o tem deixado assim. – Annie respondeu com um sorriso travesso.
–-- Ele ainda tem muitas? – Perguntei intrigada.
–-- Tem. – Ela assentiu.
–-- Quantas? – Perguntei com as sobrancelhas erguidas, espantada com a ousadia de continuar namorando várias garotas ao mesmo tempo, e me perguntando como nenhuma delas descobria.
–-- Quatro. – Dessa vez foi o próprio Izec que respondeu, com um tom de orgulho na voz. – E antes que você pergunte, elas não sabem umas das outras.
–-- Você não se envergonha? – Perguntei incrédula.
O sol criava uma aura dourada sobre o seu rosto.
–-- De ser incrível? – Ele ajeitou os óculos escuros jogando a cabeça para trás – Não.
Ajeitei meus longos cabelos castanhos atrás da orelha, ainda perplexa.
Annie soltou um gritinho de excitação, e eu sabia que isso significava que Jimmy estava por perto. Virei-me, vendo o grandalhão se aproximar de nós passando as mãos pelo cabelo preto arrepiado. Ele era enorme. Annie era provavelmente do tamanho do seu braço. Jimmy era uma montanha de músculos de 1,95m de altura e olhos azuis elétricos. Os olhos de Annie brilhavam à medida que ele se aproximava.
O amor de Jimmy e Annie era algo quase palpável. Os dois tinham dado o primeiro beijo juntos, e continuavam juntos desde então. Pra Jimmy só existiu Annie, e vice-versa. E mesmo depois de cinco anos de namoro, eles ainda se olhavam como se fosse a primeira vez.
Jimmy se sentou, passando os braços ao redor da sua namorada e a beijando. Quando se virou, parecia estar vendo Izec e eu pela primeira vez. O que de fato poderia ser possível. Acenei com a cabeça pra ele, quando seus olhos se pousaram em mim.
–-- Sophia! Foram longas férias sem você. – Ironizou com sua voz grave e estrondosa ecoando a nossa volta. – Tive que adotar um cachorro para suprir sua ausência.
–-- Não lamento por isso. – Ajeitei a minha jaqueta jeans nos ombros.
Annie me lançou um olhar significativo que me dizia o quanto ela desaprovava a minha escolha de roupas. Olhei pra mim mesma, me perguntando como alguém poderia não gostar de jeans e camiseta.
–-- Ei Jimmy, fiquei sabendo que você precisou comprar uma boia do Bambi, é verdade? – Izec importunou, dando socos no braço do melhor amigo. Fiquei pensando que se Jimmy resolvesse dar um soco em Izec, ele provavelmente afundaria no chão.
–-- É! Eu precisei mandar fazer uma sunga gigante também. – Jimmy rebateu. – Não existe nenhuma pro meu tamanho. Palhaço!
Os dois caíram na gargalhada. Annie e eu reviramos os olhos ao mesmo tempo diante de tamanha infantilidade.
–-- Você é um desprovido de cérebro, Jimmy. – murmurei
–-- Puxa, que legal. – Pelo sorriso largo que ele deu, eu tive certeza de que ele não sabia o que era isso.
–-- Jimmy, — me virei em sua direção para encará-lo. – Você por um acaso sabe o que é um desprovido de cérebro?
Ele colocou a imensa mão no peito, orgulhoso.
–-- Claro! – Falou se sentindo ofendido. – É algum Pokémon novo não é? Droga! Uma semana que eu deixo de assistir, e já aparecem novos bichinhos.
O pior é que ele não fazia isso de propósito para estourar a minha paciência, ele realmente era assim. Fiz um sinal de ok pra ele, deixando-o a entender de que era realmente isso. Annie me mostrou a língua de brincadeira.
–-- Jimmy e eu, sentávamos todo dia fora do hotel, para vermos as estrelas. – Annie contou, com aquele olhar de admiração que só se via no rosto dela, quando ela estava com Jimmy.
–-- Ah claro. Vimos cada estrela...Hm.
–-- Jimmy! – Annie repreendeu-o, enrubescendo as bochechas.
–-- Quê? – ele fingiu inocência. – Não contou pra eles que nós causamos um abalo sísmico naquela ilha?
Izec riu. Annie revirou os olhos.
–-- Hm, que idiotice a minha pensar que o terremoto foi causado por problema com placas tectônicas. – brincou Izec.
–-- Foram as placas da Annie mesmo.
–-- Jimmy!
Nós três rimos. Depois de algum tempo, Annie também sorriu com a brincadeira do namorado.
–-- Vocês viram a aluna nova? – Jimmy perguntou de repente.
Uni as sobrancelhas. Estávamos no segundo semestre, era estranho termos alunos novos. A mesma expressão de confusão transpassou o rosto de Izec e Annie.
–-- Opa. – Izec interviu animado. – Você disse nova?
Annie e eu bufamos ao mesmo tempo.
Jimmy assentiu, afagando os cabelos louros da namorada.
–-- O nome dela é Penélope. – Explicou Jimmy. – Ela é do primeiro ano.
–-- E o que há de errado com ela? – Annie perguntou. Seus olhos eram carinhosos quando dirigidos para o namorado.
–-- O sobrenome dela é Kyle. – Jimmy franziu a testa.
–-- Kyle? – Perguntei absorta. Eu estava habituada a sobrenomes diferentes, no nosso colégio era algo banal alguém ter sobrenome estrangeiro. Mas Kyle era muito incomum.
–-- Quem é o pai dela? – Interessou-se Izec.
–-- Eu não sei. – Jimmy respondeu honestamente. – Mas, não é essa a questão. No vestiário, os garotos a apelidaram como garota-problema...Bem, olhem pra ela.
Jimmy apontou com sua mão enorme para um ponto acima da minha cabeça. Me virei para ver, rapidamente.
Não havia nada de ameaçador na garota a principio. Ela tinha a aparência de uma menina de em média uns dezesseis anos. Era alta e magra, com uma pele pouco bronzeada. Seus cabelos eram pretos, cheios de cachos até a cintura. A garota usava uma camiseta preta de uma banda de rock antiga, e short jeans desfiado.
Mas assim que olhei em diretamente no seu rosto, eu encontrei algo que não procurava. Eu a conhecia. Ela era terrivelmente familiar. O formato oval de seu rosto, o seu nariz achatado, a boca vermelha e carnuda, os olhos estreitos... Ela olhava diretamente pra mim. Caminhava graciosamente. Um pé na frente do outro.
Seu olhar era ameaçador. Um olhar de congelar a espinha.
Meus cabelos castanhos sacudiam contra o vento, varrendo meus ombros.
A garota ainda me olhava.
Annie, Jimmy e Izec iniciaram uma conversa na qual eu não estava prestando atenção.
Dos seus lábios surgiu um sorriso. Não um sorriso amigável. Aquele era um sorriso assassino. Psicótico. Como a garota de cabelos vermelhos.
O seu sorriso homicida foi o suficiente para me lembrar de onde eu a conhecia.
–-- A escola começou a ficar muito interessante. – murmurou Izec.
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