Tempestade

5 Capítulo quatro: Sedutor


O som era absurdamente alto.

Respirei fundo tentando ignorar o ruído constante. Em questão de segundos, parecia que meu cérebro tinha entrado no ritmo da música. Tudo começou a latejar no mesmo compasso.

Joguei os cabelos sobre o ombro, ajeitando meu vestido que tinha assumido um tamanho mais curto que o usual. Pelo canto do olho, eu captei o homem ao meu lado acompanhar a minha movimentação de pernas de uma forma nada discreta.

Apertei meus lábios, tornando a chamar o garçom.

Ele apareceu meio segundo depois, com os olhos coloridos pelo reflexo do jogo de luzes. Em seu rosto, ora aparecia um círculo vermelho, ora amarelo, ora azul ou verde. As cores dançavam em sua pele.

–-- Outro drinque. – Pedi, apontando para a taça vazia no balcão com a ponta do queixo.

O garoto sorriu acompanhando meu olhar, em seguida passou a mão pelos cabelos, ficando desconcertado.

–-- Eu não devia deixar você beber. – Sua voz era brincalhona, mas eu sabia que ele estava sendo sincero. – Você sabe, não pode beber até completar dezoito anos.

De novo essa história. Inspirei.

Abri o meu melhor sorriso pra ele, me inclinando em sua direção no balcão, apoiando-me nos cotovelos. Esperava que o meu movimento o distraísse, ou que eu não parecesse tão estúpida como eu me sentia naquele momento.

–-- Você não liga realmente pra isso, não é? – Analisei-o dos pés a cabeça, fingindo interesse em sua fisionomia. Estava me sentido uma idiota completa. Tinha certeza que estava tão sexy quanto uma lesma. Voltei a me recostar no assento do banco alto. Meus pés sacudiam frenéticos, procurando o chão. – E, se isso realmente implica alguma coisa, completarei dezoito dentre quatro meses.

Percebi que ele estava pronto para retrucar alguma coisa, mas rapidamente dissipei suas palavras com um aceno de mão. Então, sem contestar ele apanhou a taça sobre o balcão e me deu as costas para preparar o drinque.

Eu não estava bêbada. Ainda. E as aulas voltariam praticamente amanhã. Tudo bem se eu extrapolasse um pouco hoje.

Eu tinha que ser cuidadosa. Repetia essas palavras para mim, como se fossem um mantra. Não queria ficar muito à vontade assim com a bebida, ou começaria a falar demais, ou a me desequilibrar mais do que o habitual. Controlava todo o peso do meu corpo sobre o banco. E também não tinha certeza absoluta de que eu era capaz de andar normalmente.

Pestanejei algumas vezes. Maldita festa da escola.

Tinha vontade de passar por aquela porta, e ir embora logo dali. Mas eu sabia que caso fizesse isso, no outro dia, a minha melhor amiga se irritaria comigo. Annie não tocou em outro assunto a não ser esse, durante a semana toda. Eu tentei encontrar alguma brecha a semana inteira, para me esgueirar para longe da cidade, sem muito sucesso. Mesmo sabendo o motivo traumático de eu odiar festas de escola, ela tinha me obrigado a vir a essa.

Minha amiga, quase teve um ataque cardíaco quando eu disse que não iria.

Fui brutalmente forçada a vestir um vestido dela, e a ficar sentada durante meia hora, enquanto ela passava maquiagem em meu rosto. Ela ainda ficou um bom tempo me admirando, como se eu fosse sua obra prima.

O que eu vi no espelho do meu quarto: Uma garota de pele cor de creme, com uma expressão assustada. O vestido estava um pouco apertado. Marcava minha cintura fina, aumentava o tamanho dos meus seios, e os espremia no decote tomara que caia. Ele mal batia no meio das minhas coxas. Não era incomodo, contanto que eu não me sentasse ou abaixasse demais. Meus olhos estavam arregalados. Pela primeira vez, o fato de o meu cabelo ser completamente liso, não me atormentou. Meus cabelos castanhos estavam jogados completamente para a direita. Caíam em uma cascata lisa até a cintura, cobrindo parte do meu ombro direito e deixando exposta a pele do meu pescoço longo e o meu ombro esquerdo. Um batom vermelho sangue cobria meus lábios pequenos e em formato de coração. Minhas têmporas estavam com o tom avermelhado natural, e os meus olhos grandes e negros, cobertos com uma maquiagem escura e cílios negros mais longos que o normal.

Sorri ao me lembrar dessa cena. No meu intimo, eu tinha ficado contente com o trabalho de Annie. Só não seria idiota o suficiente para lhe dizer isso, ou ela arquitetaria isso praticamente todos os dias.

Um par de mãos tocou meu ombro nu, me fazendo estremecer de surpresa.

Minha melhor amiga Annie deslizou sorridente para o banco livre ao meu lado.

–-- Então é assim que tem curtido a festa? – Ela arqueou uma sobrancelha na direção do garçom, que escorregava a taça na minha direção.

Peguei a taça com os dedos, e a levei até a boca. O líquido rosa, desceu quente pela minha garganta, levando consigo um leve sabor de morango. Voltei o copo para o balcão, e empurrei uma bandeja de petiscos na direção de Annie.

–-- Tenho curtido assim também. – Brinquei.

Ela revirou os olhos verdes pra mim, estendendo a mão e pegando uma azeitona na bandeja de prata. Jogou-a na boca e a mordiscou por alguns minutos, antes de devolver o caroço para o canto da bandeja e voltar os olhos pra mim.

–-- Eu me refiro a curtir de verdade. Parar de beber e vir dançar comigo. – Annie disse, olhando-me estreitamente. – Você tem que relaxar. Estamos na minha casa, e não vai acontecer nada aqui. Eu não vou deixar.

Dei de ombros, pegando um pedaço de queijo derretido.

–-- Sem chance. Só saio daqui carregada.

O pedaço do queijo desceu escorregadio e fundido na minha garganta. Rapidamente descartei a ideia de tornar a comer outro pedaço.

–-- Caramba Sophia, é o último ano. Vamos lá. – Ela jogou os cabelos louros pra trás.

Sorri. Ela tinha razão, finalmente era o último ano. Na verdade, o último semestre de aulas. E eu ainda nem tinha uma ideia em mente, sobre o que faria após a formatura. Provavelmente estaria sentada em algum canto do baile de formandos, com Annie ao meu lado me infernizando para que saísse e fosse me divertir com ela.

Annie era terrivelmente protetora em relação á mim. E claro, conseguia ficar deslumbrantemente sexy com uma máscara preta tapando metade do seu rosto.

Subi o meu vestido preto justo, que escorregava junto com o decote tomara que caia.

–-- Sem chance Annie. Eu vou ficar aqui e me embebedar, pra esquecer completamente que tenho um semestre inteiro de aula de cálculos pela frente. – Voltei a beber outro gole do meu drinque. – A propósito, onde está seu namorado? Porque não convida ele pra dançar um pouco com você?

Ela percorreu os olhos pelo salão, e em seguida voltou eles pra mim com uma expressão cansada.

–-- Não tenho a mínima ideia de onde ele esteja. – Ela bufou. Recostou o rosto na mão. – Isso é preocupante.

Abri minha boca em um O, fingindo incredulidade.

–-- Meu Deus, o capitão do time de futebol sozinho na festa do colégio? Com certeza eu publicarei sobre isso no jornal da escola. – Zombei, ironizando com a cara esbofeteada de Ana Catarina.

Nós duas rimos por alguns minutos. Voltei meus dedos sagazes para a taça com a bebida. Annie estremeceu teatralmente com pavor.

–-- Melhor eu ir procura-lo antes que nossas fotos apareçam no jornal. – Seu sorriso se contraiu um pouco. – Já vi que não terei nenhum avanço por aqui. Não posso competir com uma bebida alcóolica.

Revirei os olhos.

–-- É melhor ir embora antes que eu resolva publicar sobre a sua mania de perseguição.

–-- Que pessoa ardilosa.

–-- Me lembrarei disso ao publicar sobre o término do namoro de vocês. – Ameacei, fingindo a melhor cara de vingativa que eu conseguia.

Annie se levantou do banco sorrindo.

–-- Publique sobre alcoolismo na adolescência. – Rebateu pra mim. Ela deu uma piscadela com seus olhos verdes, nas fendas da mascara preta, e em seguida se levantou e caminhou até a pista.

Fiquei no mesmo lugar, revirando os olhos pra ela, mas é claro, ela não viu.

Girei-me na cadeira. Eu não era alcoólatra, pelo amor de Deus. Só tinha resolvido experimentar algumas bebidas e sair um pouco fora da rotina, hoje. Afinal as aulas tinham voltado, e eu não podia pensar em um motivo melhor para beber.

Na verdade, eu conseguia pensar em vários, mas preferi ignorá-los. Não é fácil ter dezessete anos. Por exemplo, eu me sentia éons mais velha, mas a minha identidade afirmava e me relembrava todos os dias a minha verdadeira idade. Talvez eu tenha amadurecido antes do tempo, ou o mundo a minha volta tenha regredido à medida que eu cresci. E tudo isso parecia tão chato quanto à escola. Meio segundo que eu tinha parado para pensar foi o suficiente para me dar tédio e me fazer querer beber um drinque diferente. De novo.

O salão de festas era imenso. Annie tinha uma boate subterrânea na mansão. Eu sempre me perguntava, porque raios alguém faria isso, mas naquele dia eu estava obtendo a minha resposta. Mesmo com todos aqueles estudantes se movimentando à minha frente, eu ainda conseguia ter uma visão ampla do local. As paredes brancas de gesso estavam enfeitadas com balões fluorescentes em círculos e objetos com pisca-pisca no centro. No meio, uma faixa atravessava o salão de ambos os lados da parede, com os dizeres: Bem-vinda. Notei que a faixa estava parcialmente rasgada e que alguém tinha rabiscado insultos contra a escola no canto inferior do pano. E as palavras nem eram tão equivocadas assim.

Reconheci meu amigo Izec Dias, no canto oposto da parede, sentando em um sofá cor de mogno com uma garota em seu colo. Seus olhos cor de amêndoa me fitavam. Ele passou a mão pelo cabelo cor de bronze e acenou na minha direção.

Abri um sorriso pra ele, apontando na direção da garota de cabelos pretos e curtos no seu colo. Ela olhava distraidamente para a mesa de bilhar onde um aglomerado de garotos se empoleirava ao redor, passando a mão distraidamente pela coxa dele. Izec simplesmente sorriu e deu de ombros.

Ele era uma figura. Já tinha quatro namoradas, e ainda saia com outras. Um dia ele ainda iria se enrolar com todas essas garotas. Mas Izec Dias era o tipo de garoto que nunca estava sozinho. Honestamente, elas deviam fazer vista grossa em relação a todos os furos que ele dava, com medo de perdê-lo. Ele era uma espécie de troféu para as garotas.

Rolei os olhos até a mesa de bilhar, vendo Annie com sua cascata de cabelos louros caindo pelas suas costas, de braços dados com o seu namorado, enquanto riam-se de algo que acontecia no jogo. Parecia alheia ao fato de que um bando de garotos se reunia as suas costas, olhando-a como se fosse uma obra prima. E de fato, ela era.

Parecia que todos os alunos estavam reunidos hoje. Nem durante o período de aula, eu os vira em nível tão cheio assim. Havia rostos que eu não conseguia identificar, alguns rostos novos vez ou outra apareciam, rostos antigos, pessoas que eu nem sequer me lembrava, e algumas que eu jurava já terem se formado há séculos.

O que importava, era que estavam todos reunidos. E se isso era bom ou ruim, eu não sabia, mas era de fato impressionante. Será que eu sentiria falta disso algum dia depois que eu me formasse? Difícil responder a essa pergunta.

O pior período da minha vida tinha sido nessa escola Todo mundo conhecia a minha história, sabia o que tinha se passado comigo, das partes boas até mesmo às partes horripilantes, que eu me obriguei a esquecer. Claro, que as coisas tinham mudado muito. Mas há dois anos, as coisas eram muito diferentes pra mim. Estar na festa da escola hoje era quase uma hipocrisia para alguém como eu. Alguém que tinha o passado marcado, por um fator que quase destruíra a minha vida. Quase.

Não consegui achar Penélope no salão de festas. A garota que não devia existir. Talvez ainda não tivesse chegado. Ou talvez tivesse ido embora. Eu torcia pela segunda opção.

Comprimi os lábios, preparando-me para tomar outro gole – e talvez o último – da minha taça.

–-- Garotas bonitas que ficam sozinhas em festas. Porque fazem isso? – Uma voz me surpreendeu vinda do meu lado, e me trazendo de volta a superfície. Era rouca; doce, e sussurrava as palavras bem perto de mim. Podia sentir o baforar do seu hálito na minha nuca.

Coloquei o copo quase vazio sobre o balcão, e me virei para encará-lo.

Fiquei paralisada por mais de um minuto, tentando absorver sua fisionomia. Enquanto ele me fitava de sobrancelhas erguidas e um olhar sugestivo e intrigante.

A sua pele, era de um bronzeado natural da cor de um índio. Os cabelos negros estavam desgrenhados e lisos. Era gigantescamente forte, os músculos altamente definidos, aparentes na camisa social preta que ele usava. Aquele rosto de magnitude exuberante, fez com que meu coração parasse de bater por alguns segundos. Não por medo. Na verdade, eu mal conseguia respirar, enquanto a minha mente tentava absorver a fisionomia dele. Ele não podia ser real, podia? Porém pra mim, o mais atraente não era o seu físico ou a sua boca vermelha e carnuda, eram apenas os seus lindos olhos cor de mel. Seus olhos agiam como imãs que te forçavam a ter que encará-los.

Tive certeza de que as minhas têmporas estavam mais vermelhas que o habitual, e minha boca se escancarara. Tentei fechá-la, porém, ela parecia ter uma vida própria.

Desci os olhos pela pele do seu pescoço, me concentrando na sua camisa preta com três botões desabotoados e uma calça justa escura. Parecia ter um visual mais individual e desleixado, embora a marca cara da calça contradissesse.

Subi os olhos novamente, encontrando os seus olhos cor de mel, me encarando com uma expressão familiar, e um aconchego que eu não entendi de onde vinha. Sua beleza tinha me deixado sem palavras. Sem sobra de dúvida, ele era, com certeza, a coisa mais linda que meus olhos já tinham visto.

Ele se aproximou de onde eu me encontrava, e recostou-se no balcão, ficando totalmente de frente para mim.

Meu corpo se estremeceu, sentindo uma onda de energia forte.

Respirei fundo.

–-- Homens desconhecidos que se aproximam de mim e tentam puxar conversa. Até quando? – Murmurei, e imitando o seu movimento, arqueei minha sobrancelha.

Ele sorriu, o que me deixou desestabilizada.

Ele era desconhecido pra mim. Parecia velho demais para ser um aluno.

Cruzei as pernas, percebendo pelo canto do olho que ele tinha acompanhado o movimento com o olhar. Encarei-me, desejando que o meu vestido não tivesse subido o suficiente para mostrar além do que devia.

–-- Se eu me apresentar, deixarei de ser um homem desconhecido? – Ele perguntou, afastando-se do balcão e se inclinando para mim.

Dei de ombros, decidida a ignorá-lo. Mesmo ele sendo incrivelmente forte, lindo, moreno, com olhos cor de mel, cabelos pretos, e sorriso assustadoramente sensual.

Bebi o resto da minha bebida, e fiz sinal para que o garçom se aproximasse.

Vi de relance, que o garoto tinha puxado a mesma cadeira que Annie se sentara, para ele.

–-- Está ocupada. – Murmurei, sem realmente olhá-lo.

Tamborilei os dedos longos e pintados de rosa – por uma Annie neurótica -, impacientemente para o garçom.

O garoto fingiu não ter escutado, e se divertiu com o que eu dissera.

Bufei.

–-- Parece-me que seu namorado acaba de perder o lugar. – Ironizou, passando os dedos esguios e morenos no cabelo preto.

Comprimi os lábios. Aprendi que toda vez que algum garoto insinua algo a respeito do seu “namorado”, na verdade ele quer ouvir você dizer que não tem um. Permaneci em silêncio, ainda sem encará-lo.

O garçom se aproximou e eu apenas empurrei meu copo na sua direção. O mesmo garçom anterior me olhou com um olhar crítico, mas nada disse dessa vez.

–-- Você tem pernas bonitas – Comentou o garoto. – Bom, pelo menos eu e o cara ao lado partilhamos esse pensamento.

Acompanhei com os olhos o lugar que ele indicava com o queixo, tornando a ver o mesmo garoto que sempre encarava as minhas pernas. Ele parecia alheio ao fato de que nos referíamos a ele.

–-- Gentil da sua parte. – Murmurei céptica. Soou com mais sarcasmo que o necessário, mas não me incomodei.

–-- Uma cortesia vinda de você? – Ele sorriu espantado. – Pensei que só era capaz de dizer coisas escarnias, porém você acaba de me surpreender. De novo.

Mordi o lábio. Fiquei olhando para um ponto fixo na parede, onde o jogo de luzes rodava com mais intensidade, dando cores ao gesso branco. Proporei por alguns segundos.

Meu eu interior, queria sair correndo, ou apenas me esconder debaixo do banco. Primeiro, porque eu me sentia estranhamente insegura com a presença dele. Qualquer simples movimento que ele fazia me desestabilizava mental e fisicamente. Segundo, eu nem sabia quem ele era, embora ele parecesse total e confiantemente familiarizado comigo. Como se estivéssemos em um reencontro. E terceiro: isso era uma festa, em homenagem a uma garota que presenciara minha morte incontestáveis vezes, e sim, eu podia entrar em pânico.

Então, caso eu quisesse prosseguir uma conversa com ele, eu tinha que pensar antes de dizer.

–-- O que quer dizer com “de novo”? – Não estava o olhando diretamente, entretanto eu sabia que ele estava sorrindo.

Seu sorriso deslumbrantemente fatal se alargou em sua face em formato oval. Os olhos cor de mel brilhavam de excitação, devorando cada parte do meu corpo.

Ele estava jogando comigo.

–-- Garota sozinha em festa. Sentada no bar. – Seus dedos voaram para o meu copo. Recuei com o seu quase contato na pele do meu braço. Ele me olhou por alguns segundos, passando os dedos pela borda da taça. – Isso não é muito comum.

Fiquei em silêncio. Meus olhos faiscavam. O garoto estava passando dos limites com o flerte. Isso me intrigava. Sua sutileza, e o jeito como pronunciava as palavras lenta e sedutoramente, e ao mesmo tempo elas chegavam até mim com uma eletricidade que me deixava de pernas bambas e pelos eriçados.

A excitação me motivava a entrar no seu jogo. Vi-o afundar o dedo dentro da minha bebida, sem tirar os olhos dos meus, e leva-lo a boca no exato momento em que eu a contemplava.

Ele indicou o copo me convidando a beber.

–-- Parece que minha solidão te incomoda. – Recostei-me no assento do banco. – Estou à vontade com isso.

Sua expressão se suavizou, e seu sorriso apontou no canto da boca. Apoiou o cotovelo no balcão.

–-- Na verdade nem um pouco. – Deslizou a mão pela gola da camisa preta. – Você se parece com alguém que eu conheço.

Revirei os olhos, já disposta a cortar o assunto.

–-- Por favor, se me disser que é com Nina Dobrev... – Nem me permiti terminar a frase. Eu ouvia piadinhas a respeito da “nossa semelhança” o tempo todo. Principalmente de Jimmy, que dizia que seríamos idênticas depois que um tanque de guerra passasse sobre o rosto da Nina.

–-- Com ela também. – Ele riu, deleitando-se com a minha irritação. – Mas infelizmente ela não me conhece. Você tem uma vantagem sobre ela. – Zombou. Bufei. – Me referia á outra pessoa.

Bebi um gole da minha bebida. O álcool estava começando a me dar coragem.

–-- Vamos direto ao ponto. – Suspirei, rodando o copo na minha mão. – Você sabe, podemos ficar assim a noite toda. O que você quer?

Por um instante, eu pensei que estava estragando o seu jogo. Mas, a deduzir pela sua risada, e o modo como lançou a cabeça pra trás, eu tinha acabado de fazer justamente o que ele esperava.

–-- Garotas diretas. Que sexy.

Revirei os olhos, cruzando os braços sobre o decote do meu vestido.

–-- Muito gentil da sua parte.

–-- Está se repetindo...

–-- Você ainda não me disse o que está fazendo aqui. – Lembrei-o.

Ele voltou a rir.

–-- Sexy e persistente. – Sacolejou a cabeça como se não acreditasse. – Onde esteve a minha vida toda?

Pensei ter ouvido um tom de sarcasmo em sua pergunta. Mas não fazia sentido a sua ironia, então ignorei.

O seu jogo já estava começando a me chatear. Embora eu ainda sentisse uma descarga de adrenalina percorrendo nas minhas veias.

“Garoto estranho,” pensei.

–-- Não sei aonde você quer chegar. – Disse eu, voltando a beber o resto da minha bebida.

Ele umedeceu os lábios.

–-- Não quero chegar a lugar algum. Aqui está bom. – Voltou a erguer as sobrancelhas, e me encarar sugestivamente dentro dos olhos.

–-- Pare de fazer isso. – Murmurei tão rápido, que mal senti as palavras saírem da minha boca.

–-- Fazer o quê? – Ele pareceu desconcertado.

–-- Pare de jogar comigo. – Eu não iria dizer isso. Iria pedir para que parasse de olhar daquela forma pra mim. Mas me atrapalhei com as palavras, e preferi reformular a frase e ficar em silêncio.

–-- Acredite, não estou nem perto de começar a jogar com você. – Sorriu.

O que ele realmente queria comigo? Eu mal o conhecia. Nem sequer sabia seu nome. Era um total estranho pra mim. E algo me dizia que ele queria mais do que apenas flertar e fazer jogos de sedução comigo. Tinha uma ligeira impressão de que estava deixando passar algo. Uma semelhança. Entretanto o álcool não me deixava pensar direito.

–-- Então, você é novo no colégio, ou algo do tipo? – Tentei iniciar uma conversa normal.

Passei as mãos pelos meus cabelos, distraidamente, acompanhando o seu tamanho até a minha cintura. Estava evitando olhá-lo. De novo.

–-- Na verdade, — Ele ficou ereto, assumindo uma postura mais normalizada. Seus olhos rodaram pelo balcão, e depois se pousaram em suas mãos entrelaçadas. – só estou acompanhando a minha irmã.

–-- Acompanha a sua irmã, cortejando outras garotas? – Novamente, as palavras escapuliram do meu controle.

O que havia de errado comigo? Ele riu, sacolejando a cabeça. Sua risada era doce, e rouca como a sua voz.

–-- Não percebi que estava cortejando garotas, desculpe-me. – Seu sorriso se voltou pra mim. – E você, não tinha que estar aproveitando a festa com seus amigos?

Bati o punho no balcão.

–-- Eu amo essas festas. – Revirei os olhos.

Ele voltou a rir, e mordeu o lábio, deixando os olhos me percorrem. Automaticamente corei, e virei meu rosto na outra direção. Fitei meus pés, que se encontravam a trinta centímetros do chão.

–-- Vai ficar na cidade? – Hesitei. Não queria parecer que estava paquerando-o. Nem eu ao certo, sabia se estava paquerando-o. Ele estava me causando um distúrbio psicológico.

Apertou os lábios, olhando pensativamente para as mãos.

–-- Pretendo. – Assentiu. – Araxá é um bom lugar pra se morar.

Sorri. Eu também gostava de morar ali. Então percebi algo que não tinha notado antes. O sotaque dele era carioca. Isso deveria me lembrar alguma coisa. Vinquei minha testa.

–-- Você veio de onde? – Perguntei de repente curiosa.

–-- Rio de Janeiro. – Sua expressão ficou dura. Decidi que era melhor não perguntar mais que isso. – Vim conhecer as garotas mineiras. No Rio, vocês são muito bem comentadas.

Ri.

Levantei-me da cadeira, para o espanto dele. A primeira sensação que tive foi à tonteira. Fiquei bamba e mole, e hesitei que desabasse ali mesmo. Ajeitei meu vestido justo, torcendo para que os meus seios não estivessem tão grandes e apertados, quanto eu sentia estarem. Fiquei ciente dos olhares dele, sobre meu corpo, e fingi que isso não me incomodava.

–-- Já está indo embora? – Perguntou assombrado. – Seu encanto acaba a meia noite, Cinderela?

Sorri. Joguei meus cabelos pra trás, e dei dois passos pra frente, testando meu equilíbrio com os saltos agulhas.

–-- Na verdade, o meu encanto começa a meia noite. – Ri, e pisquei pra ele.

Rapidamente, dei-o as costas disposta a procurar minha amiga Annie. O flerte estava incitando a minha impaciência.

Tudo girava e piscava.

–-- Não se vá, Sophia. – Ouvi-o chamar-me.

Estaquei a dez passos da pista de dança. Ele dissera meu nome?

Olhei-o por cima do ombro.

–-- Como sabe o meu nome? – Minha voz sobressaiu mais alta que o volume da música. Algumas pessoas me olhavam, mas eu as ignorei.

Seu sorriso se iluminou branco e de primor em seu rosto perfeito.

–-- Meu nome é Phelipe. Phelipe Kyle.