Tempestade

6 Capítulo cinco: Monstruoso


Mesmo com o cérebro danificado por causa do álcool, eu consegui pensar racionalmente.

Ele era o irmão de Penélope Kyle. Phelipe sabia quem eu era, porque obviamente a irmã dele também sabia. A possibilidade de ela realmente me querer morta, tinha aumentado de nível tão rápido quanto o jogo da Annie.

E se Phelipe fosse um dos muitos vultos que sempre cercavam a garota ruiva? Havia uma probabilidade surpreendente. Mas eu não conseguia ter certeza porque estava bêbada demais para recordar dos sonhos com clareza. Maldição!

Corri para o centro do salão, o mais rápido que meus saltos agulha permitiam, estacando de frente a mesa de comida. Joguei tudo que minha mão conseguia alcançar, garganta abaixo, sem nem ver ao certo o que eu estava comendo. Eu precisava me recuperar o mais rápido possível.

–-- Sophia, você vai ter uma convulsão por comer tão depressa. – Annie me repreendeu.

Olhei para a minha amiga, parada ao meu lado com as mãos nos quadris. A abertura do seu vestido prateado mostrava toda a sua perna direita. Ela vincava a testa pra mim, com reprovação.

–-- Vou ficar bem. – Respondi sem muita certeza.

–-- Você viu o Izec com outra garota? Natália vai chegar a qualquer momento, e vai ficar furiosa... Ei o que está fazendo?- Perguntou assustada, enquanto eu a arrastava para um ponto mais afastado do salão. As pessoas protestavam à medida que eu avançava entre elas, sem o menor cuidado, arrastando a anfitriã pelo pulso.

Parei, girando Annie pelos ombros para que ela olhasse diretamente para o ponto importante.

–-- Está vendo aquele garoto? – Apontei por sobre as cabeças das pessoas, em direção ao bar. Phelipe nos estudava do outro lado do salão. Annie assentiu com a cabeça. – Quem é ele?

Ela comprimiu os lábios, com os olhos brilhando um pouco. O olhar que Phelipe nos lançava do outro lado, era totalmente calculista.

–-- Não sei, mas UAU! – Admirou-se a loura. Sua expressão era de choque total. – Você quer conhece-lo?

Revirei os olhos.

–-- Annie, é sério. – Pedi impaciente. — Ele é o irmão da Penélope.

A expressão de choque da minha amiga se intensificou.

–-- Ele paquerou você? – Annie me olhou com olhos arregalados por alguns segundos, antes de abrir um sorriso deslumbrantemente excitado. – Isso é um máximo Sophia. Ele é um gato.

Suspirei. Era em vão alertar Annie sobre um perigo mortal que só existia nos meus sonhos. Literalmente. Deixei que ela voltasse para Jimmy. Não havia nada que eu pudesse fazer.

O show da banda do Izec começou alguns minutos depois. Eu nunca me lembrava do nome da banda. Rolei os olhos pelo palco, vendo o meu amigo tocar guitarra, com outros quatros garotos ao seu lado. As pessoas saltitavam animadas, gritando á plenos pulmões, e eu permanecia como uma idiota, imóvel no meio daquele aglomerado de pessoas que dançavam e se mexiam sem parar.

Abri caminho entre a multidão. Foi mais difícil do que eu imaginara, uma vez que meus saltos escorregavam na pista de dança. Procurei um espaço menos agitado, onde eu pudesse me encostar. A primeira coisa que eu visualizei, foi uma chama de vestido amarelo canário berrante. Penélope estava paralisada, encostada na parede com os braços cruzados sobre o peito. Usava um vestido amarelo, que parecia ser de couro. Ele tinha um decote em V profundo, e uma saia cheia de camadas. Seus cabelos estavam soltos, completamente negros e cacheados até a cintura. Notei segundos depois, que ela me encarava com o seu sorriso maldoso típico nos lábios. Aquilo não era bom.

Recuei para o outro lado, evidentemente entrando em pânico. Dei dois passos pra trás antes de trombar em alguma coisa. Quando me virei, me deparei com outro Kyle. Phelipe.

–-- Oi. – Ele me cumprimentou com um sorriso. Um sorriso Kyle.

Eu estava cercada.

Notei pela primeira vez, que éramos do mesmo tamanho. Estaríamos da mesma altura, caso eu não estivesse de saltos altos, que me deixavam maior do que ele. Ainda que fosse uma montanha de músculos amedrontadora, ele não tinha mais do quê 1,70 de altura. O contato visual era favorecido pelo seu desprovimento de altitude.

Os olhos dele me estudavam. Aqueles olhos pequenos e ligeiramente puxados que mais pareciam caramelos derretidos, estavam com as pupilas dilatadas, brilhando contra os meus, meus olhos negros e semicerrados que pareciam sugar a cor daquele outro par de olhos, envolvendo-os na sua própria escuridão. Meus lábios entreabriram-se. Eu conhecia aquele olhar.

–-- Quer dançar? – Perguntou arqueando as sobrancelhas.

As cores das luzes giravam sobre a sua pele morena. A fumaça se tornava espessa e sufocante a nossa volta.

–-- Porque você sabe o meu nome? – Eu sabia que deveria correr pra longe. Uma parte minúscula do meu cérebro compreendia o risco iminente que era estar diante daquele garoto de cabelos negros. À medida que a fumaça subia sobre o meu corpo, eu via que a escuridão o envolvia. Ele tinha as trevas em seu submerso.

–-- Porque eu perguntei pra minha irmã. – Foi uma resposta simples. Quase como um teste.

–-- E pra quê, você queria saber? – Minha voz soou ríspida.

Ele estreitou os olhos. O sorriso desapareceu do seu rosto. Sua expressão não era humana. Era monstruosa.

–-- É necessário que eu responda? – A rouquidão doce da sua voz, foi substituída por um rosnado.

–-- Não.

Mesmo diante do homem que provavelmente iria me matar, eu não conseguia deixar o medo me consumir. Eu senti o meu coração bater mais rápido, o sangue fluir depressa em minhas veias, zunindo os meus ouvidos, mas não era nada desesperador. Porque eu sabia que ele queria que eu o temesse. Que percebesse o quanto a sua beleza era traiçoeira, e que ele era propositalmente algo lindo de se ver, porque possivelmente ele seria a última coisa que você veria. Eu não me permitia sentir um medo mortal, porque eu precisava pensar racionalmente para conseguir sobreviver.

–-- Ótimo, tenho uma pergunta pra você. Qual o nome da sua amiga loura?

Meus olhos se arregalaram. O que ele queria com Annie? Não, eu não podia deixa-lo se aproximar dela.

A ira me atingiu em cheio, como uma luz avermelhada que possivelmente se extinguiu para além de mim. Fúria. Era melhor sentir raiva do quê medo.

–-- Não é da sua conta. – Rosnei cada sílaba bem devagar.

–-- É Annie Scouter não é?

A menção do nome da minha amiga, vindo dos lábios dele, fez minhas narinas inflarem de ódio. Eu não precisava de provas concretas para saber que os Kyle queriam me matar. Eu simplesmente sabia disso, pelo olhar de Phelipe. Guilherme prometeu que voltaria para me matar. Eu já havia me adaptado com uma jura de morte. Talvez fosse o próprio Guilherme que os contratara para fazer o serviço. Eu poderia lidar com isso. Eu. Mas ameaçar Annie era algo que eu não poderia lidar.

Umedeci os lábios. Algumas pessoas nos observavam. Não me observavam, exatamente. Olhavam pra Phelipe.

Passei os braços ao redor da cintura dele abraçando-o. Ele se surpreendeu com o meu gesto, mas não me afastou. Seu corpo era duro como pedra. Com o meu contato físico, ele havia ficado completamente tensionado. Repousei meu queixo no seu ombro. Entreabri meus lábios vermelhos devido ao batom, me aproximando da sua orelha.

–-- Eu sei o que vocês são e o que vocês querem. – Sussurrei em seu ouvido. Esperei que isso parecesse uma ameaça. – Então é melhor darem o fora e ficarem longe de mim e dos meus amigos.

Phelipe me afastou para olhar pro meu rosto. Semicerrei meus olhos negros, tentando mostrar a ele que eu não estava de brincadeira. Ele roçou a língua nos lábios, abrindo um sorriso claramente desdenhoso.

–-- O que eu sou? – Perguntou. Seu rosto estava a centímetros do meu. Nossos hálitos se misturavam. O sopro quente que baforou em minha face, fez os pelos da minha nuca se eriçarem.

Respirei fundo. Eu não conseguia desviar meus olhos dos deles.

–-- Um monstro. – Sussurrei.

Minha resposta pareceu afetá-lo. Seu sorriso vacilou, não se reestabelecendo em seguida. Ele se afastou automaticamente de mim, ficando completamente ereto. Sua expressão se tornou de ódio mortal. Eu sentia seus olhos faiscarem um veneno de fúria contra os meus. Se os seus olhos jorrassem toxina, eu estaria morta.

Fiz um movimento para frente com os pés, obviamente tentando caminhar para longe. Uma mão forte e quente segurou meu pulso, estacando-me no lugar. Sua mão me puxou novamente pra perto de si, me mantendo presa por seu aperto violento.

O ar desapareceu de mim, à medida que eu encarava aquele rosto sobre-humano carregado de ira. Meu coração batia tão rápido, que tinha quase se transformado em um relógio.

–-- Parece que você não tem muitas escolhas, Sophia. – Phelipe fez um gesto com a cabeça, para alguém do outro lado. Penélope. Meu coração martelou com mais força no meu peito. – Ou você se entrega, ou a gente te pega e de sobremesa acabamos com seus amigos. Você decide. Tique-taque.

Naquele instante, uma gritaria irrompeu do salão. Girei-me nos calcanhares apressadamente, me libertando do aperto de Phelipe sobre meu pulso. Meus olhos varreram o salão, procurando por um perigo que não existia. Não no salão, e sim no palco.

O show tinha sido brutalmente interrompido. Interrompido porque uma garota tinha subido no palco e se lançado contra o guitarrista. O vestido amarelo reluzia como ouro. A dona dele estava com os braços ao redor de um garoto, o beijando com uma intensidade avassaladora. Mas não era um garoto qualquer. Era Izec.

Quando me virei para encarar Phelipe, e lhe perguntar o que raios ele tinha em mente ao pedir que a irmã dele fizesse aquilo, percebi que ele não estava mais ao meu lado. Gastei segundos para conseguir identifica-lo. Estava escorado na mesa de bilhar, conversando alegremente com Annie e Jimmy.

Eu realmente não tinha muitas escolhas.

Notas finais
Comentem o que estão achando, por favor. ;D