Tempestade

1 Tempestade


Fazia tempo que não deitávamos nos campos ao redor do Santuário, como costumávamos fazer durante o treinamento. Fora Camus quem havia descoberto essa clareira, meio escondida pelas árvores. Nela sempre nos sentíamos com um pouco mais de privacidade; o Santuário e os vilarejos próximos podiam ser bem agitados... Não combinamos de nos encontrar lá, cada um apenas pensou em descansar; aliás, era assim que nos encontrávamos, na maioria das vezes.

Acabamos passando este dia inteiro deitados, sem dizer nada um ao outro. A brisa fresca que começou a soprar no início da tarde já estava se transformando num vento forte. Ao olhar pro céu se viam nuvens e mais nuvens, cinzas, grandes, pesadas. Em breve iria chover. Mas nem eu nem Camus fizemos menção de nos levantarmos e sairmos. Para falar a verdade, eu nem sabia se Camus havia notado as nuvens. Ele estava de olhos fechados. Não dormindo, mas bem concentrado, pensando no que deveria dizer. Eu também estava pensando no que deveria dizer. Na verdade o ar de tranquilidade que a clareira sempre teve para nós havia sumido naquela tarde. Ambos estávamos preocupados e receosos, tanto de nós mesmos quanto um do outro. Eu especialmente, já que eu, Milo, fui a pessoa que causou toda aquela situação.

Tudo tinha acontecido ontem. O dia tinha sido relativamente normal no Santuário, até que, descendo as escadas da Casa de Áries, vi um grupo de cavaleiros de ouro, entre eles Camus e Afrodite, conversando. Uma cena normal, até o momento em que Afrodite atirou-se nos braços de Camus, quase agarrando o meu amigo. Não apenas meu amigo, mas o homem que eu amava e amo. Sim, eu estava apaixonado por Camus, e já sabia disso fazia um longo período de tempo. Mas eu sabia bem do meu destino, sabia do quanto Camus se esforçava para não ter aquele tipo de sentimento. Estava condenado a ser "apenas" seu amigo. "Apenas", pois éramos (e somos, não somos...? Não saberia dizer agora) melhores amigos, sabíamos que podíamos confiar sempre um no outro. Há muitas histórias de pessoas que ao se declararem, acabam perdendo a amizade que têm e ficam completamente devastadas, não há? Minha vida não era infeliz por ter que manter meus sentimentos em segredo.

Não era, até ver Afrodite tentando se aproveitar do homem que eu amava e amo. Meu cérebro parou de raciocinar; fui tomado por um ciúme e possessividade que se alastraram por cada centímetro do meu corpo. Com um braço, afastei Afrodite, e com a outra mão, puxei Camus firmemente, até estarmos fora do alcance da visão de qualquer outro cavaleiro. Não me atrevi a olhar para Camus enquanto andávamos, mas quando paramos, olhei em seus olhos. Ele estava extremamente confuso. Senti mais uma vez aquele turbilhão de desejos se apossar dentro de mim, era agora ou nunca. Antes que Camus pudesse dizer alguma coisa, eu o beijei.

Logo depois de me entregar àquela minha vontade tão profunda, na verdade assim que encostei a boca de Camus (tão macia...) na minha, senti medo, um medo abissal que superava a minha breve coragem: senti medo de perder Camus. Não lhe dei chance de reagir e saí correndo. Sim, saí correndo. Não tinha coragem de olhar nos seus olhos, aqueles olhos que, pouco tempo atrás, demonstravam desprezo por Afrodite. Será que aqueles olhos demonstrariam agora o mesmo desprezo por mim? Será que perdi minha amizade mais preciosa, a amizade daquele que eu amava? Por Athena, o que eu tinha feito? Eu beijei Camus! Não consegui enfrentar a questão de frente e fiz a única coisa possível, corri; corri o mais rápido que pude, sem me atrever a olhar para trás, a olhar para Camus. Não consegui sair da Casa de Escorpião nem comer pelo resto do dia e, à noite, só consegui dormir um pouco antes do dia chegar. Ainda assim, só consegui ter pesadelos. Desnecessário dizer que acordei extremamente cansado e, por isso, fui até a clareira para pensar sobre tudo.

Dez minutos depois de ter chegado, ouvi os passos de alguém: era Camus. Ele levou um certo susto quando me viu ali, mas lentamente se deitou ao meu lado e fechou os olhos, se concentrando. Eu sabia que ele estava pensando nas palavras certas para dizer para mim. E eu fiquei ali, esperando, nervoso. Uma boa parte do dia se passou assim.

Até que, de repente, Camus sentou na grama, bruscamente. Engoli seco, tinha que estar preparado para qualquer tipo de coisa que ele falasse, mas ainda assim estava suando frio. Será que ele ia gritar, dizer que não éramos mais amigos? Será que ele ia dar um discurso sobre como eu o enganei, fazendo parecer que era amigo dele? Será que ele ia me lançar aquele olhar horrível de desgosto enquanto falava? Será que ele ia rir de mim? Será qu-

Ele me beijou. Ele me beijou ele me beijou ele me beijou. Reaja Milo, não fique aí parado com essa cara de espanto! O Camus está olhando para você, receoso agora. Consigo ver o pavor nos olhos dele! Mexa-se, homem!

-Então... Vou embora. — Disse Camus, numa voz baixa. Dava para perceber um tom de mágoa nela. Olhou para mim por um instante e começou a corr-

Não. Não não não. Corra atrás dele, Milo!

O tom de voz de Camus me tirou da paralisia de choque na qual eu me encontrava. Mas tudo foi tão rápido que só comecei a correr atrás dele quando ele estava já bastante à frente. Não, isso não podia terminar assim! Corri como nunca tinha corrido antes na minha vida, e estava chegando mais perto, mais perto...

-Camus, espere! — Pedi, ofegante. Consegui segurá-lo pela mão. Por um triz não me escapou, não saiu correndo. Seria justo ele sumir assim e deixar a minha mente rodopiando sozinha? Tinha ele que me fazer provar do meu próprio veneno? Agora eu percebo o quanto o acabara agoniando no dia anterior...

Mas não... O prendi bem forte pelo pulso; trouxe-o para perto. Agora não me importava mais com as consequências. Tomei-o em meus braços, beijei-o, um beijo forte, para demonstrar o quanto eu o queria, mas minhas pernas estavam bambas. E então ele me abraçou e correspondeu ao beijo. Foi como se uma corda que estava amarrando fortemente o meu pescoço tivesse sido cortada. Não, era como se ela nunca tivesse existido. Finalmente minhas pernas cederam de emoção. Caí no chão, com Camus em cima de mim, ainda nos beijando, ainda sentindo o calor do abraço um do outro, ainda sabendo que éramos os homens mais felizes do mundo. Quanto tempo rolamos pela grama não saberia dizer, mas sei que valeu por toda a nossa vida. Não sentimos a chuva quando começou a cair, mas mesmo que sentíssemos, não teríamos nos importado. Era aquele céu cinza que marcava um fim, o fim de uma época marcada de incertezas e dúvidas, tudo estava claro agora para nós, claro e aconchegante como o melhor azul que traz o nascer do sol.

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