Tempesta
3 Capítulo 3 - Chuva
Notas iniciais
???, 16 de abril de 1985
Octávio teve um sonho esquisito. No sonho, homens estranhos o levavam embora de casa e ele conversava com um homem de olhos azuis brilhantes; de repente o sonho mudou e o menino se viu flutuando no meio de um vazio. Nada além de escuridão à sua volta; não tinha chão, teto ou ao menos um para cima ou para baixo. Era só... nada. Octávio se perguntou se ele deveria estar assustado, mas tudo que ele sentia era uma calma que parecia inabalável.
Ele não sabe quanto tempo ficou lá, existindo. Minutos? Horas? Dias? Nada disso parecia relevante.
Ele também não sabe ao certo quando começaram. As luzes. Uma vez que elas apareceram, foi como se elas sempre estivessem lá; fios prateados e brilhantes espalhados por toda a extensão do Nada, girando, enrolando-se uns nos outros ou movendo-se sozinhos sem direção, como se estivessem embaixo da água, todos vindos de um bloco disforme de luz prateada que brilhava ao longe. Um dos fios se aproximou do menino e Octávio levantou a mão para tocá-lo.
Antes que seus sentidos pudessem processar qual era a sensação de tocar aquele fio de luz, todo aquele Nada foi preenchido por diversas imagens da sua mãe. Ela sorrindo, brigando com ele, triste, e a maior de todas, sua mãe de joelhos chorando e pedindo perdão por algo que ele não conseguia de forma alguma lembrar o que era. Todas aquelas imagens de uma vez eram esmagadoras, eram demais, e o garoto puxou a mão para perto do corpo por instinto.
E fácil assim, ele estava de volta no Nada. Encarando aquele fio prateado.
Quê?
Os fios continuaram se movendo como antes, imperturbáveis. Menos um. Um deles se movia estranhamente rápido comparado com os outros, como se estivesse sendo puxado por uma mão invisível. Ele passou perto o suficiente para que o garoto pudesse tocá-lo, e assim que o Octávio o fez ele foi novamente arremessado naquele mundo de imagens, mas essas eram muito diferentes.
Bruno sendo arremessado contra a janela numa explosão de cacos de vidro; Seu pai sendo jogado contra a parede; Aquela vez no jardim de infância que Octávio empurrou um colega por causa de um brinquedo e o menino caiu e bateu a cabeça; Homens de preto sendo jogados em várias direções; Um raio caindo do céu e acertando um deles em cheio.
Octávio puxou a mão para trás como se tivesse sido queimado, mergulhando de novo na escuridão.
O fio começou a se contorcer estranhamente até que se rompeu em dois depois de um movimento especialmente bruto. Um dos lados seguiu fluindo até desaparecer de vista e o outro, ainda preso á luz ao longe, continuou perto do garoto, agora se movendo como os outros fios.
Isso não durou muito; o fio em seguida parou completamente de se mexer e começou a se reconstituir a partir da parte rompida, voltando ao seu comprimento normal. Mas algo estava diferente. A parte reconstruída não brilhava como o resto do fio e o tom prateado era diferente. Octávio hesitou, mas esticou a mão mais uma vez para tocar o fio.
Por um momento, nada aconteceu. Octávio sabia que estava tocando o fio porque podia ver sua mão se fechando em volta dele, mas não conseguia sentir nada entre seus dedos. Octávio soltou o fio e após um momento, agarrou-o novamente.
Subitamente uma dor violenta explodiu por todo o seu corpo; seus músculos se contraíam dolorosamente embaixo da pele, ele não conseguia abrir sua mão, não conseguia respirar-
Octávio abriu os olhos, puxando o ar que o sonho não tinha deixado ele respirar para dentro dos pulmões, se sentando bruscamente na sua cama.
Espera. — o garoto olhou em volta, ainda ofegante. Ao invés das paredes beges do seu pequeno quarto, Octávio se deparou com paredes brancas, prateleiras de livros e quadros nas paredes. Seu estômago pareceu afundar. - Não tô em casa. — O menino olhou para baixo. Ele estava no mesmo sofá que antes, com um jaleco branco cobrindo suas pernas como um cobertor improvisado. Sua cabeça doía. Ele se lembrava de ver os olhos de Ozzy brilhando e depois ele já estava acordando. O que aconteceu comig- pera onde ele tá?
Ozzy não estava em lugar nenhum do escritório. Octávio se levantou do sofá lentamente, como se esperasse que o homem pulasse de trás de uma das portas para dar um susto nele. Quando nada aconteceu, o menino foi até a porta de entrada e tentou mexer a maçaneta. Trancada. Desistindo de uma fuga por enquanto, Octávio voltou para o meio da sala e decidiu ver o que tinha na estante. Gostava bastante de ler, embora seus pais não comprassem muitos livros; ao ler os títulos Octávio percebeu que a maioria dos livros estavam em inglês, que ele ainda não conseguia entender direito. O menino puxou da estante então uma das pastas transparentes que ele conseguia alcançar na ponta dos pés e se sentou no chão para mexer nela. Para o seu desgosto, a pasta estava lotada de folhas impressas também em inglês. Uma das palavras no título do texto, no entanto, o menino já tinha aprendido na escola: Moon. Lua.
Virando algumas páginas, Octávio encontrou várias imagens da lua, com anotações escritas em caneta nas laterais das imagens. Será que esse cara é um cientista espacial? — Antes que pudesse investigar mais, ele ouviu o barulho da tranca da porta e no instante seguinte Ozzy estava dentro da sala. Ele encarou Octávio no chão e em seguida a pasta ainda aberta no seu colo. Octávio prendeu a respiração e esperou a bronca.
— Finalmente você acordou. — Ozzy sorriu e balançou uma caixinha de isopor que Octávio não tinha reparado que estava em sua mão. — trouxe misto-quente.
§
Depois de diversas garantias de que ele não estava encrencado por mexer onde não devia, Octávio aceitou o misto-quente que Ozzy trouxe, olhando o homem sempre com cautela. Octávio não sabia o que tinha acontecido quando ele dormiu, mas ele viu os olhos de Ozzy brilharem exatamente como os dele quando fazia chover. O homem tinha usado seus poderes, Octávio só precisava descobrir o que ele fez.
— Tá bravo comigo? — Ozzy perguntou, com um olhar divertido, enquanto dava uma mordida no seu próprio misto quente. Ele estava sentado no sofá distante de Octávio, que ainda não tinha se movido do lugar que estava no chão desde que o homem chegou. O menino olhou feio para ele, mas isso só fez Ozzy sorrir ainda mais. — Não vou fazer esse negócio de novo, juro.
Octávio não sabia o que pensar. Ozzy era muito confuso. O garoto não conseguia determinar se ele era assustador ou agradável, bom ou mau, esquisito ou simpático. Suas atitudes ficavam se contradizendo o tempo todo. Ao menos ele era melhor que os homens lá fora. Eu acho...
O menino pensou um pouco e teve uma ideia.
— Mostra as mãos então. — Octávio desafiou. Ozzy encarou o menino com confusão, e Octávio não conseguiu conter uma sensação de satisfação por também ser capaz de confundir de volta a pessoa que vinha confundindo-o tanto nas últimas horas.
— Minhas mãos? O que tem elas? — Ozzy colocou o misto-quente mordido de volta no isopor em seu colo e levantou as mãos na altura do rosto para o garoto ver.
— É pra ver se você não cruzou o dedo. Se você cruzar, é mentira e a promessa não vale. Vi isso num filme. — se ele não cruzar os dedos é porque ele tá falando a verdade. Aí eu vou saber se ele vai me machucar ou não.
Ozzy pareceu desconcertado por um instante, como se não soubesse o que dizer, o que deixou Octávio um pouco inquieto. Será que ele estava pensando em um jeito de mentir? Após um momento no entanto, Ozzy balançou as mãos, ainda levantadas, e sorriu.
— Você é engraçado... Prometo.
Octávio semicerrou os olhos.
— O quê? Você consegue ver minhas mãos!
— Tira o sapato também.
— O sapato?!
— É! Pra eu saber que você não tá cruzando o dedo do pé.
— Quem cruza o dedo do pé?
— Eu! — Octávio começou a tirar o tênis para mostrar.
— Eca, para, eu acredito em você! — Ozzy fez uma careta.
Octávio então parou e se acomodou de novo contra a estante, esperando. Ozzy demorou um pouco para entender que o garoto estava falando sério. Octávio permaneceu em silêncio, encarando-o. Ozzy suspirou, dando-se por vencido e tirou os sapatos e as meias.
— Pronto. Prometo. — resmungou, levantando as mãos novamente. Ao contrário da sua expressão, sua voz parecia brincalhona.
O garoto se desencostou da estante, agora mais confiante, e arrastou seu corpo um pouco mais para frente, na direção do homem.
— E promete que não vai mentir pra mim? — Octávio acrescentou. É agora.
Se Octávio achava que tinha deixado o adulto desconcertado antes, não se comparava ao olhar dele agora. O rosto de Ozzy permaneceu inexpressivo, mas seus olhos transbordavam choque. Ele começou a fechar as mãos mas abriu-as novamente, e ficou em silêncio. Foi um gesto simples, mas acertou o garoto como um balde de água fria.
Ele não vai prometer ele vai mentir ele vai mentir ele é um dos malvados
Octávio começou a se encolher de volta na direção da estante, se sentindo ainda mais sozinho do que antes. O choro começou a pressionar sua garganta de novo.
— Espera! Calma. É só... — Ozzy passou a mão nos cabelos e suspirou. — É uma promessa complicada, ok? E eu cumpro minhas promessas. Preciso pensar um pouco antes de responder.
— Por quê? — Octávio perguntou com a voz fraca.
— Porque as coisas não são tão simples assim. O mundo não funciona só com mentiras e verdades. Quando você for mais velho vai entender.
O menino se encolheu mais, abraçando os joelhos. Esse era um discurso que ele ouvia desde que nasceu. "Porque você não pode mostrar seus poderes? um dia você vai entender"; "as crianças caçoam de você porque é assim que as coisas funcionam, quando você crescer vai entender"; "quando você for mais velho, vai entender melhor porque seu pai faz essas coisas"...
"Espero que um dia... quando você estiver... mais velho e... entender... você me perdoe."
Octávio fechou os olhos e apoiou a testa nos joelhos.
— Vocês adultos vivem não explicando nada e só dizendo que eu vou entender um dia. As vezes eu acho que nem vocês entendem. Vocês só dizem isso pra fingir que as coisas que vocês falam tão certas.
Silêncio. O menino se encolheu ainda mais. Lembrar das palavras da sua mãe doía no fundo do peito. Alguma coisa nele parecia vazia e ele se sentia desprotegido e fraco. E sozinho.
— Não é possível que você só tem cinco anos. — Ozzy retrucou. O tom dele lembrava o que ele usou com o guarda fora do prédio. Quase bravo. Talvez frustrado? Octávio não levantou a cabeça e continuou em silêncio. Estava cansado de falar.
Octávio ouviu um som abafado, mas continuou de olhos fechados; ele sabia que Ozzy estava se movendo pela sala, mas não queria abrir os olhos por medo de começar a chorar.
— Ei. — a voz de Ozzy soava muito próxima, e Octávio ergueu a cabeça com um susto. O homem estava sentado no chão diretamente na frente do garoto, e levantou as mãos na altura do rosto novamente. Sua expressão e olhar agora eram sérios, mas não do jeito assustador de antes. Na verdade, seus olhos pareciam mais acolhedores do que nunca. — Eu prometo.
O menino sentiu aquele vazio incômodo no peito diminuir, e a vontade de chorar também.
— Melhor? — o adulto perguntou, abaixando as mãos.
Octávio soltou suas mãos das suas pernas, cruzando-as sob o corpo, e levantou a mão direita, colocando-a entre eles, esperando que Ozzy a apertasse. A expressão dele voltou ao seu estado ilegível quando levantou sua própria mão para apertar a do menino.
— Oi. — Octávio sacudiu a mão do adulto para cima e para baixo. — Meu nome é Octávio Accers. Eu faço chover.
§
Os dois estavam se entendendo bem melhor agora. Ozzy tinha feito Octávio comer o resto do misto-quente e mandou o garoto dormir mais um pouco, dizendo que ele teve um dia cansativo até então e precisava de descanso que não fosse forçado pelo poder de alguém. Octávio perguntou o que ele tinha feito quando o colocou pra dormir, e ele disse que explicaria quando o garoto acordasse.
Octávio se sentia cansado e concordou. Deitou de volta no sofá, se cobrindo de novo com o jaleco que ainda estava lá, e dormiu um sono sem sonhos.
Ele não sabia por quanto tempo dormiu, mas acordou com a sala escura, exceto por uma lâmpada acesa na mesa perto da estante, e um filete de luz vindo da porta encostada. Alguém estava conversando baixinho do lado de fora, e o garoto reconheceu a voz de Ozzy. Levantou e se apoiou no braço macio do sofá que antes era seu travesseiro para encarar a fresta aberta da porta.
— Você tem ideia — a voz do homem soava áspera, ele não estava feliz. — do estado que esse menino tava quando chegou aqui?
A outra pessoa começou a responder, mas foi imediatamente interrompida.
— Eu respondo. Ele tava aterrorizado. Um dos infelizes da equipe de extração tava apontando um M16 pra cabeça dele. Ele tem cinco anos. Vocês sempre fazem essa merda? É por isso que vocês sempre trazem eles já desacordados pra eu travar? Pra me fazer de idiota e eu não saber?
— É claro que não doutor! — uma voz feminina sibilou. — as extrações geralmente são mais planejadas, mas ele apareceu no nosso radar de surpresa e já exposto pra outras pessoas. A escola dele ligou pra polícia e em seguida a mãe dele também, e se a gente não agisse rápido esse menino ia desaparecer e você sabe. A gente não conseguiu arranjar um influenciador de última hora pra auxiliar na extração, e tivemos que ir despreparados. Pelos relatos o menino parecia um C3, mas na verdade ele era um C1 e pegou todo mundo de surpresa e precisava ser travado o mais rápido possível.
— C1? — o tom de voz de Ozzy mudou de ríspido para surpreso. — aquela criança dormindo tranquilamente no meu escritório agora é um classe um?
Travado? C3? C1? Quê?
— Sim, o poder dele é um tipo de atmocinese, bem poderoso. Enquanto tentava fugir fritou um da equipe de extração com um raio e temos outros três com ossos quebrados por terem sido arremessados contra paredes e muros por rajadas violentas de vento.
Octávio quase se engasgou com a própria saliva. Eu fiz isso?!
— Ele não se comporta como um C1, não esperava essa... Mas continuo não achando certo o que vocês fizeram. De qualquer forma, o menino não é mais um problema. Ele já tá travado. — Ozzy respondeu após um momento em silêncio.
— Certo. Vou levar ele para os alojamentos então e amanhã o supervisor dele vai apresentar o lugar.
— Quem vai ser o supervisor dele?
— O Manuel.
— Ávila?
— Ele mesmo.
— De jeito nenhum. — Ozzy retrucou, novamente com o tom ríspido na voz. — Você sabe bem o estrago que seria botar mais um C1 na mão dele. Aquele imbecil trata essas crianças como cães de briga! O único C1 dele já é muito mais do que ele deveria ter!
— Doutor, nós não estamos com outros supervisores com tempo suficiente pra incorporar um C1 no grupo deles agora, então a não ser que contratem mais gente, coisa que não tá nas minhas mãos, o Ávila é a única alternativa.
— Ok então. Eu vou ser o supervisor do garoto. — Ozzy respondeu num tom contente. Octávio conseguia ver perfeitamente o sorrisinho que ele provavelmente estava dando para a moça na sua mente. — E melhor de tudo, faço isso de graça.
— Doutor, o senhor não pode-
— Não? Pois sente e assista.
— Alguém da sua posição-
— Minha posição? Bem lembrado doutora. A senhorita está dispensada, eu mesmo vou levar ele pros alojamentos mais tarde. — Octávio ouviu um som de protesto vindo da mulher e de folhas de papel roçando umas nas outras. — Essa é a ficha dele, certo? Vou ficar com ela. Obrigado.
— Doutor-
A porta se abriu novamente e Ozzy passou por ela rápido; Octávio se jogou de volta no sofá fingindo estar dormindo. A porta se fechou na cara da mulher que ainda estava tentando continuar a conversa. O garoto ouviu Ozzy respirar fundo, e arriscou uma espiada: o homem ainda estava virado pra porta, quase de costas para Octávio.
— Você acordou faz quanto tempo? — Ozzy se virou, encarando o garoto desprevenido nos olhos. Octávio se encolheu diante daqueles olhos azuis tão focados nele de repente. Como ele sabia?
— Foi sem querer. — o menino murmurou, ainda deitado.
— Eu sei. — Ozzy desviou o olhar para ler os papéis em sua mão, mas pareceu desistir no meio do caminho e foi até sua mesa e largou os papéis em cima dela. Octávio tinha várias perguntas, mas não sabia como fazê-las. Ele se sentou no sofá em silêncio enquanto Ozzy mexia em algumas coisas na mesa.
— Você quer perguntar alguma coisa. — O homem disse, sem levantar os olhos da mesa.
— Como você sabe? — o garoto perguntou, perplexo. — Você disse que não lia mentes!
— E não leio. — Ozzy levantou os olhos para o garoto. — mas você está me encarando sem parar já faz uns bons dois minutos. Imaginei que era porque você quer perguntar alguma coisa.
Octávio podia sentir seu rosto ficando quente de vergonha. Ozzy no entanto parecia achar aquilo divertido.
— Eu quero perguntar sim...
— Pergunta então. — Ozzy se sentou na cadeira atrás da mesa e virou-a na direção do menino; ainda era um pouco desconcertante para Octávio ter toda a atenção daqueles olhos azuis nele em alguns momentos, mas ele piscou os próprios olhos azuis com força para se concentrar e começou a falar antes que mudasse de ideia, contando as perguntas nos dedos das mãos:
— Como você sabia que eu tava acordado? O que é trava? E C1? E supervisor? Esse Ávila que vocês falaram é do mal? O que é alojamentos? O que-
— Calma! Uma coisa de cada vez! — Ozzy levantou as mãos na frente do corpo como se tentasse segurar a enxurrada de perguntas e deu uma risada. — Eu sabia que você tava acordado porque meus poderes conseguem distinguir uma mente acordada de uma adormecida, e o Ávila não é mau, acho, mas admito que não gosto dele. Não fala isso pra ele.
O homem piscou pra ele e Octávio assentiu com um sorrisinho.
— Sobre a trava, era o que eu ia conversar com você depois que você acordasse, lembra? — Octávio balançou a cabeça mais uma vez. — Ok. A primeira dormida que você deu foi porque eu usei meus poderes pra colocar o que nós aqui chamamos de trava psíquica em você.
— O que é uma-
— Calma, vou explicar. Uma trava psíquica é como se fosse um freio de segurança dentro da sua cabeça. Quando um carro está indo muito rápido na rua e vai bater, o motorista pisa no freio, certo? A sua trava funciona de um jeito parecido. Se os seus poderes forem machucar alguém, mais especificamente um humano normal, a trava vai freiar eles pra você. Assim ninguém fica em perigo.
— Freia meus poderes como? E porque só humanos normais?
— Bom... O pessoal por aqui chama de "o parecer da morte", mas eu não gosto desse nome. É como uma câimbra. Já teve? — Octávio negou com a cabeça. — é... é como uma dor bem chata em algumas partes do corpo. Quando ela vem, ela desativa seus poderes porque seu cérebro presta mais atenção na dor e também porque fica meio difícil de se mexer. Quanto mais violento você for, maior é a dor. Então, se você tentasse atacar alguém querendo muito machucar, a dor é super forte e pode te machucar de verdade. Se você fizer sem querer, a dor é fraca. E isso só vale pra humanos normais porque as regras são assim. Aqui no Hospital são os humanos que não tem poderes e não podem se defender. Se todo mundo pudesse usar os poderes em quem quisesse sem regras nem proteções, muita gente se machucaria.
— Mas a fraquinha dói muito também? — Octávio perguntou, apreensivo. Ele não gostava de sentir dor, mesmo que fosse pequena.
— Eu não sei bem, eu não tenho uma trava. — Ozzy respondeu. — eu só coloco elas nos alunos.
Octávio franziu as sobrancelhas. Por que eu tenho que ter uma trava e você não?
— Eu já cheguei aqui adulto e sabendo controlar meus poderes. Não preciso de trava nenhuma.
Como você sempre sabe o que eu tô pensando se você não lê pensamento?, pensou o garoto exasperado.
— Fica tranquilo. Se você for comportado e não tentar machucar nenhum humano, você vai ficar bem. — A expressão de Ozzy tomou seu tom reconfortante de novo. Ele levantou o braço e olhou para o relógio prateado em seu pulso. — Já são sete e quinze, que tal irmos jantar alguma coisa? Algumas das suas perguntas podem esperar até amanhã.
Ah não. Octávio cruzou os braços e fechou a cara.
— Mas eu quero saber agora! Por que que eu tenho que esperar até amanhã se você tá aqui agora?
Ozzy riu.
— Algumas coisas é mais fácil mostrar do que explicar. Você não queria saber o que é um alojamento? Depois de comer eu te mostro.
Aquilo sim conquistou a boa vontade do menino. Ele pegou seus tênis que ele tinha tirado para dormir no chão e começou a calça-los em silêncio e Ozzy deu mais uma risada, levantando-se também para pegar alguma coisa na sua mesa; quando Octávio terminou de amarrar os cadarços Ozzy já estava abrindo a porta.
— Pronto?
Octávio assentiu e os dois saíram pelo corredor.
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