Tempesta

1 Capítulo 1 - Garoa


Notas iniciais
Essa história é complementar as outras histórias do Lar Arsalein escritas pelo LuisF e a LuDruzik; O personagem principal (alguns outros também) e o universo onde essa história se passa já é conhecido para quem leu as outras histórias, mas quem não leu pode começar por essa aqui tranquilamente.
Bom, leiam, deixem seus reviews nem que seja pra xingar minha mãe (mentira, aí não precisa) e se puderem leiam as outras histórias no Wattpad. Espero que gostem e boa leitura!

São Paulo, 16 de abril de 1985

A sala de aula zunia com pequenas conversas paralelas dos alunos enquanto a professora de matemática, Cristiane — ou como os alunos carinhosamente a apelidaram, Cris — fazia a chamada para começar a aula. Os alunos, todos por volta de 7 ou 8 anos, esperavam seus nomes serem chamados enquanto conversavam.

— Natália.

Uma garota de pele escura e cabelos cacheados no fundo da sala levantou a mão. A professora tomou nota da presença da menina, ajeitou os óculos e continuou.

— Octávio.

O menino loiro sentado na primeira cadeira soltou um suspiro. Lá vamos nós, pensou o menino, ao mesmo tempo que levantou a mão para que a professora o visse. Ao mesmo tempo que a professora levantou os olhos da lista de chamada para verificar a presença do aluno, os barulhos começaram. Barulhos falsos de choro, soluços e resmungos; Octávio tinha certeza que se olhasse em volta veria seus colegas de classe coçando os olhos ou chupando o polegar, imitando um bebê.

Era assim todos os dias. Ser o aluno mais novo da segunda série já seria ruim o suficiente se ele tivesse 6 anos; por mais que ele tenha o tamanho e a capacidade intelectual de uma criança de 7 anos, Octávio nasceu dia 8 de janeiro de 1980.

5 anos atrás.

O garoto abaixou a mão e continuou olhando para frente. Os professores disseram que o melhor era ignorar. Eles não poderiam impedir crianças de serem crianças, apenas tentar proteger o alvo delas. A escola não podia simplesmente manter um garoto em perfeitas condições de cursar a segunda série atrasado dois anos; Octávio provara que era capaz de acompanhar a turma com tranquilidade diversas vezes e era um menino estudioso, muito por influência de sua mãe. Ela sempre insistia para que ele estudasse para "ser alguém na vida", mas o garoto sabia que essa era a maneira dela de dizer que não queria que ele acabasse como seu pai: desempregado, bêbado e, no presente momento, desaparecido. Octávio não podia dizer que sentia falta do pai... presenciara ele espancando sua mãe vezes demais para isso. Ele mesmo apanhou algumas vezes. Mas sua mãe sentia; sentia saudade do homem que ele era antes do álcool... antes de Octávio nascer.

Cristiane pediu silêncio e os choramingos pararam. Ela lançou um olhar de solidariedade para o menino, mas ambos sabiam que nada poderia ser feito. Cristiane era a única professora que parecia fazer algum real esforço para que Octávio se sentisse confortável no ambiente escolar, e sempre o tratou com o dobro de carinho, mas nunca com pena. Octávio detestava que sentissem pena dele.

Ela era sua professora favorita de longe.

A chamada terminou e a aula seguiu normalmente. Octávio gostava da matéria, as contas e problemas eram até divertidos, mas a experiência era estragada por alunos jogando bolinhas de chiclete e de papel nele, cutucando-o, cochichando. Ele fazia seu melhor para prestar atenção (em silêncio obviamente, pois se levantasse a mão para responder alguma coisa os choros debochados iriam recomeçar), mas hoje os seus colegas pareciam especialmente inspirados. Chegando no fim da aula, o humor do garoto já estava péssimo; ele tentou se preparar para o intervalo, mas, quando o sinal tocou, ele não se sentia pronto para a saraivada de zombarias que viriam. O garoto se encolheu na cadeira. A professora liberou a sala e ele nunca quis tanto ser invisível.

Octávio podia ver os colegas se aproximando da sua mesa, e ele se encolheu um pouco mais.

— Octávio? Pode vir aqui um instante? — Cristiane chamou enquanto ajeitava o coque de fios grisalhos.

O menino levantou-se num salto e correu até a mesa da professora, suspirando de alívio.

— Sim professora?

— Porque não senta comigo um pouco? — ela sorriu, apoiada na mesa. Quando o garoto assentiu avidamente, ela fez um sinal apontando para a cadeira, e Octávio se sentou, sorrindo. — Coma seu lanche em paz... não posso ficar com você o recreio todo, é perigoso tanto para mim quanto para você. A situação já está melhorando muito, mas prefiro não arriscar a ter alunos falando para os pais que estou enchendo sua cabeça de coisas erradas durante o recreio e alguém do governo vir até aqui falar com a gente... Entende?

Octávio sabia que ela se referia aos homens do exército, mas não entendeu bem o motivo de ser perigoso; sua mãe disse que as pessoas não precisavam ter mais medo que nem tinham antes. Tudo está bem de novo, não está? Talvez Cristiane já estivesse tão acostumada a obedecer as ordens que não pretendia mudar de comportamento. O garoto apenas assentiu.

— Eu... eu não tenho lanche. — Ele olhou para as mãos vazias. — minha mãe disse que eu não preciso, porque eu já estou crescendo muito rápido. Vou comer só na hora do almoço. Mas sentar aqui com a senhora já é legal.

Cristiane fez uma careta. Se abaixando, ela pegou a própria bolsa, tirou uma pêra de dentro dela e entregou-a ao garoto.

— Aqui, come. Não importa o quão rápido você cresce, você está em fase de crescimento, precisa comer. — Octávio olhou para a fruta e para a professora e para a fruta de novo, parecendo confuso, mas logo deu de ombros e mordeu a pêra, feliz.

O menino devorou a fruta rapidamente — não queria admitir, mas estava com fome. Assim que ele acabou, jogou o esqueleto fino da fruta no lixo e sorriu para a professora. Ele já se sentia bem melhor agora; com Cristiane perto, ele se sentia seguro e tranquilo — sentimentos que nunca foram muito comuns para ele na escola. Incapaz de se conter, ele abraçou rapidamente a mulher.

— Obrigado Cris.

Quando o garoto se afastou, senhora sorriu de volta para ele.

— É o mínimo que eu posso fazer. Se sente melhor?

— Sim!

Cristiane ajeitou os óculos, que tinham escorregado em direção a ponta do nariz.

— Ótimo! Infelizmente, eu preciso ir agora... Você não tem nenhum amigo para ficar com você?

O sorriso de Octávio vacilou. Não queria que ela fosse embora. A insegurança voltou com uma força esmagadora e parecia que tinha tomado uma forma física, pressionando seus pulmões e tentando sufocá-lo por um momento. Ele olhou para baixo, evitando o olhar da professora.

— Não. Ninguém quer falar comigo. Eles têm medo de que começem a fazer as coisas que fazem comigo com eles se vierem falar comigo.

— Sinto muito querido... Não ligue para eles. Tente não se meter em confusão, tudo bem?

Não sou eu que me meto em confusão, são os outros que me colocam nas confusões.

— Tudo bem.

A professora juntou suas coisas e saiu pela porta, sem antes lançar um último olhar para Octávio, que tentava ao máximo não parecer assustado. Pela forma que seus colegas de classe foram insistentes em atormentá-lo durante a aula, o recreio seria muito pior. O menino voltou para sua mesa e começou a organizar os materiais da próxima aula, torcendo para que se esquecessem dele.

Mas ele provavelmente estava pedindo demais, já que Bruno, um dos garotos que se divertia em irritá-lo, entrou na sala. Bruno era um garoto magro, porém bem alto, mais alto que Octávio; ele gostava de usar sua altura para intimidar o mais novo.

— Olha só! — ele disse, alto o suficiente para que os amigos dele do lado de fora da sala ouvissem também. — O bebê está sozinho agora!

Octávio permaneceu em silêncio, como sempre. Bruno se aproximou e bagunçou os cabelos loiros do menino sem nenhuma delicadeza, empurrando a cabeça de Octávio para trás e quase desequilibrando-o. Os amigos de Bruno entraram na sala também e começaram a parar ao lado do mais alto, que continuou falando. Seus olhos escuros cravaram-se nos azuis do garoto, forçando-o a olhar para baixo.

— Você ainda dorme no colinho da sua mãe em casa e quer colinho na escola também? A Cris já tem um filho, bebê, e não é você.

Octávio sentiu a familiar pontada de irritação que vinha praticamente todas as vezes que Bruno abria a boca perto dele, mas permaneceu com a cabeça baixa. Idiota.

— Eu não fico no colo de ninguém.

— Mas deve estar com vontade né? Agora que seu papai foi embora.

Outro fato sobre Bruno: ele morava na mesma rua que Octávio, algumas casas para baixo; quando algo (como o ocorrido de alguns dias antes, quando o pai de Octávio gritou como um louco depois de chegar em casa bêbado e poucos minutos depois sair correndo pela rua e nunca mais ser visto) acontecia na rua, todos os moradores vizinhos rapidamente ficavam sabendo. Octávio continuou quieto.

— Porque ele foi embora, bebê? Não queria mais ouvir você chorar? — Bruno cutucou Octávio no peito, empurrando-o levemente para trás. Os outros garotos riram da provocação. A irritação estava se transformando em raiva; lembrando que sua mãe implorara para que se mantivesse fora de problemas, Octávio decidiu que era hora de fugir. Ele se afastou rapidamente de Bruno e contornou o grupo de garotos, tentando chegar na porta da sala; infelizmente, um dos garotos foi mais rápido que ele e agarrou a sua camiseta e o empurrou de volta para a sala, se colocando na frente da porta com um sorriso cruel. Octávio se virou, agora na direção da enorme janela que ficava na outra parede da sala. Eles estavam no térreo, não seria problema abrir a janela e pular para o lado de fora. No entanto, Bruno e os outros estavam entre ele e a janela.

— Já quer fugir? Você é um bebezão medroso mesmo. Deve ser por isso que seu pai foi embora.

Octávio não queria falar do pai. Nem na razão de ele ter ido embora, que, considerando a situação, provavelmente era culpa do garoto de fato. Só não do jeito que seus colegas imaginam.

— Me deixa em paz. — Octávio murmurou. Ele queria ir pra casa. Ou para a sala dos professores, se sentar junto com a Cris e ter alguns momentos a mais de calma.

— Minha mãe me disse que seu pai foi embora porque não queria mais olhar pra você — Bruno ignorou o pedido de Octávio e continuou. — Ela disse que é porque você é estranho...

Não...

— Para de falar! — Octávio elevou o tom de voz. Lágrimas embaçaram sua visão, então ele fechou os olhos com força. Não veriam ele chorar. Tudo que o garoto queria era ir embora. Bruno continuou falando.

— ...E sua mãe só continua com você porque ela é burra e não tem coragem de fazer o que seu pai fez.

Chega.

A risada dos amigos de Bruno foi interrompida por um forte trovão. O céu, antes levemente nublado, estava fechado com nuvens cinzentas e escuras. A chuva começou a cair.

— Eu mandei parar de falar. — Octávio sibilou. Ele mantinha os olhos fechados e seus punhos estavam cerrados com tanta força que suas unhas estavam perfurando as palmas de suas mãos. Mais trovões.

— Olha só, o nenê ficou bravo porque eu falei da mamãe dele! — Bruno riu com gosto. — Aposto que ele ainda mama...

Octávio arregalou os olhos e olhou para o mais velho, e a expressão dele mudou de deboche para medo.

Os olhos de Octávio brilhavam, e um tom prateado tomou conta das íris previamente azuis.

— CHEGA! — O grito subiu a garganta de Octávio com tanta força que parecia arranhá-la. No mesmo instante, uma forte rajada de vento atirou Bruno para trás. O corpo do garoto colidiu com a janela; vidro explodiu para todos os lados e o menino aterrissou de costas na grama do lado de fora, desacordado e sangrando. Os outros garotos, que tinham se desequilibrado e caído por causa da força do vento que atingiu Bruno, olhavam para Octávio com um misto de choque e terror. Nenhum deles se mexeu, e o único som existente na sala era o da chuva batendo no telhado.

Não... Não, não, não! Eu fiz de novo!, o menino se desesperou. Ele se virou para a porta e se deparou com várias outras crianças o encarando com o mesmo olhar dos garotos no chão. O pânico tomou conta e Octávio fez a única coisa que podia pensar: foi até a janela, saltou para o lado de fora e correu.

§

A chuva estava cada vez mais forte, e Octávio sabia que aquilo era culpa dele. Dos seus poderes. Os mesmos que o faziam crescer mais rápido e fazer com que o vento e a chuva o obedecessem.

Octávio continuou correndo. A chuva caía forte e gelada, encharcando seus cabelos loiros e suas roupas, e ele não sabia dizer se o que estava nos seus olhos era chuva ou lágrimas. Ele esfregou os olhos com as costas da mão e aumentou a velocidade; precisava chegar em casa. Sua mãe saberia o que fazer. Foi exatamente como alguns dias atrás, quando seu pai... O garoto sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos, mas diferentemente dos ventos, sua memória não tinha o menor interesse em obedecer suas ordens.

Já era noite quando seu pai chegou em casa. Octávio estava brincando com seus bonecos na sala e tomou um susto com a maneira brusca que seu pai abriu a porta. O homem não tinha nada a ver com o próprio filho: seu cabelo era escuro e cacheado e os olhos eram castanhos, enquanto seu filho puxou os cabelos loiros e lisos e os olhos azuis da mãe.

— Mulher, cadê minha janta? — Seu pai resmungou ao ver que a mesa não estava posta. Sua voz estava enrolada, seus olhos estavam vermelhos e ele fedia aquele cheiro ruim que Octávio sabia que era de bebida; ia ser uma daquelas noites. Octávio imediatamente se escondeu atrás do sofá; não queria que o pai batesse nele, e é o que geralmente acontecia se o garoto estivesse no caminho do pai quando ele está bêbado.

O homem mais caiu do que se sentou na cadeira enquanto a mãe de Octávio correu de dentro da cozinha e colocou um prato com comida e talheres na frente dele.

— Desculpa querido, é que você demorou e eu não queria que a comida esfriasse...

— Cala a boca mulher! Acha que manda em mim? Eu volto a hora que eu quiser! — ele deu uma colherada na comida e imediatamente cuspiu tudo no chão. — Que merda é essa?

— É só a comida que eu faço sempre...

— Se 'cê gosta tanto da sua comida, come você mesma! — Ele agarrou o prato e se pôs de pé, derrubando mais comida no chão, e bateu com ele no alto da cabeça da mãe de Octávio, quebrando-o. A mulher desabou no chão em meio aos cacos de vidro, agarrando a cabeça e chorando. Seu pai ainda tinha um caco grande de vidro na mão e estava se preparando para usá-lo na mulher. Octávio, sem pensar, correu de trás do sofá e se colocou entre o pai e a mãe.

— Para com isso pai, por favor. — O menino pediu.

— Sai da minha frente, moleque. — Seu pai o encarava. Seus olhos escuros faiscavam de raiva. Octávio estremeceu, mas não saiu do lugar. Começou a chover do lado de fora.

— Seu merdinha! Eu mandei não fazer essas coisas estranhas na minha frente! — ele agarrou Octávio pela gola da camisa e o levantou do chão.

— Não sou eu! Eu nem quis fazer nada! — o menino choramingou. Estava aterrorizado. Já podia sentir sua respiração acelerada e seus pensamentos perdendo o controle. Sua garganta doía com o choro que ele tentava segurar.

— Seus olhos 'tão brilhando de novo, moleque. Acha mesmo que tu pode mentir?

Ele soltou a camiseta e Octávio caiu no chão, por pouco não se desequilibrando e caindo em cima da mãe, que ainda chorava. Agora um filete de sangue escorria pela lateral do rosto dela. Quando virou-se novamente para o pai, tudo que viu foi uma mão vindo na direção do seu rosto. O tapa acertou a lateral da cabeça do menino, que imediatamente caiu no chão, atordoado.

Seu ouvido apitava; seu rosto ardia; a casa parecia girar.

Octávio só queria que aquilo acabasse.

— Isso é pra aprender a não me desobedecer. Você pode ser esse- essa-... coisa, mas eu sou seu pai e você faz o que eu mando, tá entendendo? Agora some daqui.

Octávio se levantou com dificuldade. Sua cabeça doía. Seu ouvido doía ainda mais. Seu pai chutou suas canelas e o garoto desabou novamente no chão, a pancada expelindo todo o ar dos seus pulmões.

— Fica no chão!

Em meio ao zumbido incômodo em seu ouvido Octávio podia ouvir sua mãe choramingando e pedindo para seu pai não machucá-lo.

— Não vou fazer nada se ele me obedecer. — seu pai o cutucou nas costelas com o pé. — Entendeu?

Octávio estava chorando. Estava com dor. A chuva fustigava a janela da sala. Ele só queria que seu pai fosse embora.Vai embora... Vai embora...

— O que 'cê falou moleque? — Octávio não percebeu, mas tinha falado em voz alta. Seu pai o segurou, dessa vez pelo pescoço, e o levantou do chão mais uma vez. O garoto imediatamente começou sufocar e se agarrou ao braço do pai, tentando desesperadamente içar o corpo para cima e respirar. — 'Cê tá me desafiando?

Sua mãe gritou algo que o menino não entendeu. Tudo que sua mente parecia compreender agora era pânico.

Eu não quero morrer eu não quero morrer eu não qu-

Subitamente Octávio sentiu um vento forte passando por ele e caiu no chão, respirando novamente. A pressão na sua garganta se fora. O menino tossiu descontroladamente e olhou em volta, procurando o pai. O homem estava do outro lado da sala, caído contra a parede.

— Desgraçado... — seu pai gemeu. — Maldito...

O homem se levantou, cambaleante, e saiu pela porta. Octávio desmaiou.

§

O garoto tropeçou em um desnível da calçada e caiu deitado no chão. Seus pulmões queimavam por causa da corrida, e ainda faltava muito até em casa. A chuva continuava caindo, trovões ressoavam ao longe. Octávio queria se levantar, mas ao mesmo tempo queria se encolher ali e nunca mais sair. Não conseguia respirar, não conseguia pensar, o medo comprimia seu estômago e ele se sentia enjoado. O que fariam com ele? O que sua mãe faria com ele?

Uma buzina interrompeu os pensamentos do menino. Ele olhou na direção do som, e um carro estava parado do seu lado.

Cristiane estava dirigindo.

— Entra no carro! — ela mandou pelo vidro aberto. Octávio não pensou duas vezes; se levantou e abriu a porta do carro.

— Onde você mora? — a professora perguntou. Octávio respondeu o endereço que sua mãe o obrigou a memorizar assim que ele começou a ir para a escola e Cristiane assentiu, mas o carro não se mexeu. A mulher continuava olhando para ele. Octávio se encolheu e olhou para baixo. Será que ela tentaria leva-lo para a polícia ou algo assim? Ele não tinha mais tanta certeza se deveria sentir alívio em vê-la.

Uma coisa seca e macia repousou nas suas costas e envolveu seus ombros. Um casaco. Cristiane tinha tirado o próprio casaco e colocado no garoto. Octávio se enroscou nele; tinha cheiro de perfume. Era reconfortante.

— Não quero que você fique doente. — Cris tocou o queixo dele delicadamente, virando o rosto dele na direção dela. — Posso ver? É que... seus olhos...

Octávio estava prestes a fechar os olhos para esconder as íris prateadas, mas a professora continuou falando:

— São idênticos aos da minha filha... Nunca achei que fosse ver isso outra vez.

— Filha? — Octávio perguntou, confuso. — Achei que a senhora tinha um filho.

— E tenho. Mas eu também tinha uma filha. Os olhos dela brilhavam exatamente como os seus quando ela... quando ela... — Ela adquiriu um olhar distante e parou de falar.

— Professora? — A voz de Octávio pareceu trazê-la de volta ao presente.

— Perdão querido. Me perdi nas memórias por uns instantes. Ela mexia com plantas. Era uma coisa impressionante... Ela conseguia fazer crescer qualquer planta, qualquer flor... Nosso jardim era tão lindo naquela época, tão colorido...

— O que aconteceu com ela?

A mulher olhou para frente e acelerou o carro de repente.

— Levaram ela embora. Não sei quem, nem o que queriam com ela. Simplesmente invadiram a casa uma noite, e quando fomos até o quarto dela, ela não estava mais lá. Fizeram diversos exames no meu filho para ter certeza de que ele não era como ela e foram embora. — Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto da mulher, e sua voz ficou embargada. — nunca mais vi minha menina...

Ela limpou os olhos e respirou fundo.

— Por isso vim atrás de você assim que eu soube. Eu sempre achei que tinha algo de especial em você, assim como tinha nela. Quando me falaram o que aconteceu, eu tive certeza.

— Eu não queria fazer-

— Eu sei querido, eu sei. Essas coisas são complicadas de controlar. Vou te ajudar como puder, está bem?

— Obrigado Cris... De verdade.

A mulher sorriu para ele e acelerou.

Ao chegar na frente de casa, Octávio saltou do carro e correu até a porta, batendo repetidamente na madeira.

— Mãe! Mãe! Mã-

Sua mãe abriu a porta rapidamente, surpresa.

— Octávio? O que você está fazendo aqui? Você deveria estar na esco... Porque está todo molhado? — Só então ela pareceu perceber a chuva que caía, agora mais fraca, e a cor dos olhos do filho. — Octávio... O que você fez?

Antes que o menino pudesse responder, Cris interrompeu a conversa.

— Bom dia, você é a mãe do Octávio, não é? Meu nome é Cristiane Duarte, sou a professora de matemática do seu filho. Posso entrar? É melhor não conversarmos no meio da rua.

— Eu... S-sim, claro. Octávio, vá colocar roupas secas. — a mãe do garoto assentiu, hesitante.

Em alguns minutos estavam todos acomodados na sala e Cristiane estava explicando toda a situação

— ... Seu filho só tentou se proteger. Minha filha também tinha dificuldade de se controlar quando estava muito emocionada, tanto pra bem quanto pra mal. Já está feito. Mas agora vocês precisam sair daqui. Por mais acidental que tenha sido a demonstração de poderes do Octávio, a notícia já deve ter se espalhado e virão atrás dele.

— Sair...? — a mãe de Octávio parecia mais relutante a cada instante. — Quem vai vir atrás dele?

— Sim. De preferência sair de São Paulo. Ir para alguma cidade pequena e isolada, onde não vai ser tão fácil encontrar vocês. Conheço alguns lugares bem aconchegantes no interior de Minas. Você dirige?

— Dirijo.

— Perfeito. Vocês precisam arrumar as malas e ir o mais rápido possível, e trocar de carro. Venda o seu durante a viagem ou troque por outro. Eles podem saber sua placa.

— C-certo. Vou... vou... arrumar tudo lá. — A mulher loira se levantou do sofá e foi até o quarto dela.

Cristiane se virou para Octávio, que até então assistia a conversa em silêncio.

— Você deveria ir ajudar sua mãe a fazer as malas. Precisam ir embora o mais rápido que puderem.

Octávio sabia disso, mas se sentia colado no sofá. Estava com medo, muito medo. Ele queria chorar de novo.

Pelo menos ele conseguiu se acalmar o suficiente para que parasse de chover.

— Se... se eles me pegarem... o que vão fazer comigo?

A professora abraçou Octávio, passando a mão levemente pelos cabelos molhados do menino.

— Não sei querido, não sei... mas com certeza não é bom.

Eles ficaram alguns minutos naquela posição, e Octávio já se sentia melhor. Ele estava em casa, ele iria embora com a sua mãe, tudo ia ficar bem. Cristiane soltou o menino, mas antes acariciou sua cabeça uma última vez.

— Você deveria ir ajudar sua mã-

Antes que a professora pudesse terminar a frase, a mãe de Octávio veio correndo do quarto, e se ajoelhou na frente do filho. Ela estava chorando.

— Mãe? — O menino olhou para ela, confuso. Ele tocou delicadamente o rosto da mãe, limpando uma lágrima. — Eu sei que você tá com medo, eu também... mas vai ficar tudo bem...

A mãe abraçou o filho com força, e chorou mais.

— Espero que um dia você me perdoe. — ela sussurrou em meio aos soluços.

Quê?

— Mãe? — Octávio perguntou de novo, mas sua mãe só chorava e o segurava com mais força. Cristiane pareceu entender o que estava acontecendo, porque deu um pulo do sofá e se pôs de pé.

— Desgraçada! — ela gritou, enfurecida. — É seu próprio filho!

Sua mãe não respondeu nada. Octávio ouviu o som de carros estacionando do lado de fora. Então ele entendeu.

Ela tinha chamado alguém. Tinha dito onde ele estava. Provavelmente ligou pra alguém enquanto fingia que estava arrumando as malas.

E agora estavam vindo para levar ele embora.

Octávio não sabia o que pensar. Apenas encarou a mãe, um misto de confusão e dor tomando conta dos olhos azuis. Cristiane pegou o braço do menino e o puxou para longe da mãe, que olhava para o filho como se esperasse que ele entendesse o lado dela.

— Vai ser melhor pra você, Octávio... V-vão saber cuidar de você, e... e vão saber lidar com e-essas coisas que você faz... eu nunca soube... eu...

O garoto continuava em choque. Minha mãe não me quer ela vai me mandar embora o que vão fazer comigo minha mãe vai me mandar embora não não não não...

Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, houve um estrondo e a porta da frente se soltou das dobradiças e caiu no chão, inútil. Vários homens armados entraram correndo na casa. Cristiane se colocou entre Octávio e os homens e gritou:

— Foge Octávio! Corre! — e abriu os braços como um escudo humano.

Em pânico, Octávio correu. Ele foi para a cozinha, onde tinha uma janela por onde ele poderia sair para a rua e fugir. Mas antes que ele pudesse subir no parapeito, ele ouviu um barulho alto — um tiro. Ele olhou para trás e viu Cris caída no chão, segurando o próprio ombro enquanto sangue jorrava por entre seus dedos. Uma raiva que ele nunca sentiu antes tomou conta dele.

Com um grito, o garoto correu na direção do homem que estava na frente da professora... o que tinha disparado a arma. Octávio se atirou contra ele; uma forte rajada de vento acompanhou os movimentos do menino e o homem foi arremessado contra a parede, acertando outro no caminho. Octávio não sabe bem o que fez, mas quando se deu conta estava flutuando — não, voando — a uns três metros de altura. O susto fez com que ele caísse de volta no chão; o homem mais próximo dele não perdeu tempo e passou o braço em volta do pescoço de Octávio, tentando contê-lo, e começou a andar devagar até a saída. O menino se debatia e gritava, mas não conseguia se soltar. Do lado de fora da casa a chuva recomeçara, mais forte do que nunca, e raios riscavam o céu aos montes. Um deles atingiu um homem próximo a eles, que morreu antes de seu corpo alcançar o chão.

Octávio foi jogado dentro do porta malas de um dos carros numa espécie de gaiola improvisada, semelhante às dos carros de polícia. Fecharam o garoto ali e ele olhou pela janela, socando o vidro blindado em vão. Gritou pela mãe, mas nem sabia porque o fazia. O carro começou a andar e ele gritou mais. A última coisa que ele viu antes do carro virar a esquina foi Cristiane saindo da casa, ainda agarrando o próprio ombro. Ela estava chorando, e gritou alguma coisa que ele não podia ouvir. Depois, o carro virou a esquina, e Octávio sabia que ele nunca mais veria aquela mulher.

Ele se deitou, encolhido no pequeno espaço que o porta-malas oferecia, e chorou.

Era tudo o que ele podia fazer agora.

Notas finais
Continua... shahsahs
Espero que tenham gostado e não se esqueçam de dar uma olhada nas outras histórias do Lar Arsalein no wattpad, e se você se interessar e quiser contribuir para esse mundo escrevendo suas histórias também, me manda uma MP e a gente conversa!