Temperatura
2 2. Receio
Notas iniciais
A maioria das pessoas comuns tinham uma ideia errada de como funcionava o dom das três famílias. Havia uma falsa lenda de que os criadores de gelo precisavam ter sentimentos frios para isso, assim como eram precisos sentimentos quentes para fazer fogo. Havia uma ponta de acerto na impressão popular, mas não era bem assim.
A verdade é que para um Prenoar usar seu dom, ele precisava deixar sua mente e coração mais vazios possíveis. Focando nisso, nem mesmo existiam sentimentos frios.
Alegria era quente.
Tristeza era quente.
Afeto era quente.
Solidão também era.
Mesmo o medo, era quente.
E mesmo que Marvin soubesse disso na teoria, ele podia sentir na pele pela primeira vez. Tudo, tudo que ele experimentava sentir tinha origem no mesmo ponto caloroso em seu coração. Como se o mundo estivesse colorido com aquele rosa caloroso, o tom exato dos fios de cabelo que passava o dia observando. Não havia para onde fugir.
Mesmo treinando sozinho, na quadra mais isolada do colégio, Marvin Prenoar encontrava dificuldade em se concentrar.
Parado, de olhos fechados, ele se forçava a focar no que havia ao redor. Era natural a ele que sentisse a umidade do ar. Sabia exatamente quantos metros de distância estava de sua garrafa d’água, qual parede tinha um infiltração e quantas pequenas gotas de suor escorriam por sua pele cansada. Atrair a umidade para sua mão estendida foi fácil, mas a temperatura para condensá-la lhe escapava.
“Não pense nela agora.”, ele dizia para si mesmo, antes de perceber que já estava pensando.
Era irritante, inquietante. E significava uma coisa óbvia.
— Eu estou apaixonado. – Ele admitiu, olhando para o pequeno cubo de gelo em sua mão, o máximo que tinha produzido naquela manhã. Então fechou os dedos sobre a pedrinha, deixando que voltasse a ser algumas gotas de água. – Oh, minha deusa.
Marvin não pensou seriamente em chamar Yazze para sair, apesar disso.
Ele gostava dela, sim. Os dois se davam bem. Como parceiros de batalha, tinham a sincronia necessária para lutar lado a lado. Eram até amigos, bons amigos, uma combinação de piadinhas e provocações um com o outro, sem quebrar os limites do respeito. Então talvez fosse besteira tentar alguma coisa mais. Talvez perturbasse o equilíbrio.
O rapaz decidiu não abrir a boca sobre seus sentimentos.
Uma das coisas que Marvin mais amava na Academia Chroge era como cada detalhe era bonito. A construção dos prédios foi planejada detalhadamente, de forma espaçosa, com jardins em cada parte. Na área de descanso central havia uma pequena fonte de pedra, ao redor trepadeiras floridas cresciam pelos pilares que cercavam o pátio. Ali era exatamente o centro de tudo, um local onde os alunos, professores e funcionários circulavam nos períodos de folga.
Durante a primavera, como era naquela ocasião, os casais gostavam de passear de mãos dadas por ali. Marvin nunca tinha se incomodado com a presença de um monte de abobados apaixonados no pátio, mas agora era ligeiramente incômodo que estivessem tão felizes e melosos, enquanto tudo que o rapaz queria era estudar.
Ele pensou em fechar seu livro e ir para outro lugar, talvez ao redor dos campos de treinamento. Quem sabe suor e gritos permitissem uma melhor concentração na matéria. Mas, antes que tivesse tempo de levantar, ela entrou em seu campo de visão.
As irmãs Brajzen eram lindas. Agnes tinha o cabelo cor de fogo e uma beleza digna da capa de qualquer revista, olhar doce, movimentos afiados e uma inteligência invejável. Mas Yazze, era ela quem tirava o sono de Marvin. Era tão parecida e, ao mesmo tempo, tão diferente da irmã. Seu cabelo rosa queimado estava sempre solto, ela sorria como uma louca e dava risada mais alto que qualquer um. Mas era tão absurdamente gentil e amável, ao mesmo tempo que não perdia uma única chance de entrar numa disputa seja pelo que quer que fosse.
Marvin suspirou. Ele devia mesmo ir para outro lugar.
No entanto, a garota levantou a mão e acenou para ele.
O rapaz perdeu o fôlego por um momento. E quando menos imaginou, ela tinha saído de perto da irmã e se aproximava.
— Ei, nerd. – Ela sentou ao lado dele. Marvin esqueceu de como se mexer naturalmente e ficou travado feito um robô. Era sempre assim quando ela se aproximava e levavam vários minutos para que ele recuperasse a habilidade de se mexer normalmente.
— Ei, bruxa. – Ele respondeu, evitando olhar para a garota.
— Espero que você não tenha esquecido que amanhã temos simulação no campo cinco. – Ela falou, olhando para o livro de ciências que ele lia.
— Como eu vou esquecer se você fica me lembrando? Medo de ir no banheiro a noite e te encontrar na janela, dizendo “não se esqueça do treino”. – Marvin falou, depressa demais.
— Você se esqueceu daquele…
— Eu sei, eu sei. — Ele riu e finalmente conseguiu relaxar os ombros. Porque nem sempre Yazze era perfeita, às vezes ela era uma chata, maluca, que não dava sossego, e saber que ela tinha falhas lhe dava um certo alívio. Então um detalhe passou em sua cabeça. – Espera, vamos passar o dia dos namorados treinando? – Perguntou, antes que pudesse se conter.
Yazze olhou para ele, os olhos violeta brilhando estranhamente.
— Bem, se você tiver algum compromisso, podemos desmarcar. – Ela disse.
— Desmarcar? Você tem estado animada com isso há dias e agora sugere facilmente desmarcar? – O rapaz questionou, estreitando os olhos de desconfiança.
— Ora, se você tiver uma namorada com quem queira passar o dia dos namorados, obviamente não vou te obrigar a passar o dia comigo! – Ela parecia aborrecida. Talvez aborrecida demais. Ela até mesmo estalou os dedos, porque eles estavam literalmente pegando fogo.
O rosto de Marvin esquentou tanto que ele se questionou se ele também não poderia espontaneamente pegar fogo.
— Eu não tenho namorada nenhuma, Yazze.
— Sim, porque você é tão lento. – A moça apagou o fogo das mãos e se virou para sentar diretamente de frente para ele. – Dizem que os rapazes do leste tem iniciativa, mas eu já não acredito nisso.
— Que?
— Marvin, se você gosta de alguém, não é melhor que você conte, mesmo que leve um fora?
Ela estava muito séria. Não era comum, então o rapaz se sentia ligeiramente em pânico.
— Não acho que… Seja fácil. – Ele gaguejou.
— Não é. Claro que não é. Precisa de coragem, pode ser que te machuque, pode ser que mude as coisas além do que você quer e te tire da sua zona de conforto. Mas não é assim, a vida? Mudança constante? No dia que fomos selecionados juntos, eu fiquei incomodada, vir falar com você foi assustador. Mas não foi ruim, foi? Poderia ter sido em desastre também, mas a vida seguiria em frente, não é?
O rapaz não tinha certeza se entendia o que Yazze queria dizer. Tinha medo de interpretar da forma errada, então não disse nada. A moça pareceu desapontada.
— Não se atrase pro treino. – Ela disse, levantando e batendo a grama da roupa.
Yazze se virou para ir embora. Um aperto atingiu o peito do rapaz ao vê-la virando as costas e se afastando. Estava perdendo a chance que ele nem sabia que tinha.
— Você vai me perdoar… – Ele disse, sem pensar. – Se eu entendi tudo errado?
A Brajzen parou e olhou para ele, por cima do ombro.
— O que?
— Eu não vou no treino amanhã.
Yazze hesitou. Então colocou as mãos nos bolsos da calça e virou, mais uma vez de frente para ele.
— Vai fazer o que, então? – Ela perguntou.
A voz de Marvin não parecia disposta a sair, por isso foi apenas um sussurro.
— Chamar uma garota para um encontro.
— Oh. – Ela levantou o polegar, em aprovação. – Então chame.
— Ah…
Os dois ficaram parados por um longo tempo, sem falar nada. Quando Yazze começou a mostrar impaciência, ele finalmente disse.
— Você quer sair comigo, Yazze?
A garota sorriu.
Marvin tinha certeza que, em todos seus anos de vida, nunca tinha visto nada tão lindo quanto aquele sorriso.
— Desde que você não se atrase para nosso encontro.
— Eu não vou. – Marvin desviou o olhar. Estava feliz de ainda estar sentado na grama, ou teria caído de cara, porque suas pernas de repente eram gelatina.
— Até lá, então. – Ela acenou e se virou para voltar correndo para a irmã. – Seu nerd! – Gritou, antes de sair do pátio.
— Bruxa! – Marvin gritou de volta.
Quando o dia seguinte chegou, Marvin não tinha mais certeza se estava na vida real ou se tudo era uma fantasia. Enquanto esperava Yazze, com as mãos nos bolsos do casaco, cada segundo era eternidade.
E tudo só ficou mais maluco quando ela chegou.
Ela estava tão linda, tão linda, que Marvin quis chorar.
Ele não entendia como ela podia ao menos olhar para ele.
Mas ali estava Yazze, parada em sua frente, com um vestido azul bebê, os olhos grandes como se tivesse visto algo muito bom.
— Você não está vestido como um nerd hoje. – Ela falou baixinho.
— Isso é um elogio?
— Você é muito bonito, Marvin. – Yazze sorriu e arrumou um botão do casaco dele. As mãos da moça tremiam ligeiramente. Ela cheirava a menta e algo adocicado. O rapaz se apoiou na parede, se perguntando se o seu coração aguentaria até o fim do encontro. – Vamos, eu vou pagar um sorvete pra você.
Yazze passou o braço pelo de Marvin e ele percebeu que, felizmente, podia andar. E que tinha sido um erro pensar em não chamar Yazze para sair.
Fale com o autor