Temos Medo
1 A Grande Mão
Notas iniciais
Vivemos em uma sociedade repressora.
Não posso fazer nada que quero, nem falar o que quero. Vejo meus amigos sendo levados embora e não posso abrir o bico. Temos medo. A qualquer hora podemos ser levados também. Não somos nós quem decide isso. Essa deve ser a pior parte.
Meu povo é constantemente vigiado e vivemos com medo. A morte é algo inevitável, óbvio, só que o jeito que ela nos é imposta chega a ser brutal. O que mais mata é a dúvida. Quando será nossa vez?
Muitas coisas acontecem lá fora, e foram poucos que conseguiram voltar depois de serem escolhidos. Eles disseram que lá nossos amigos são postos em água escaldante e que agonizam até a morte. Alguns são mutilados, feitos em pedaços minúsculos. Não sei o que temo mais: a morte ou a espera.
Tudo é regido pela Grande Mão. É ela quem escolhe alguns de nós. Dia sim, dia não, somos obrigados a ouvir os gritos de horror e agonia. Alguns não suportam e acabam com a própria vida antes que a Grande Mão faça isso por eles. Perdi as contas de quantos já vi morrer bem na minha frente. O número é assustadoramente grande. Não gosto de pensar sobre isso.
Somos um nada. Somos insignificantes. A Grande Mão nos vigia e nos pune como se fosse um deus em fúria. O que fizemos para merecer isso? Onde erramos, Senhor? Estamos somente nesse saco escuro, esperando a morte certa. Não tem como feijões terem pecado.
A coisa que mais tenho medo é virar feijoada.
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