Telma na Luta
7 Tomando as rédeas
Quando Telma chegou no conselho aquela manhã, foi recebida com sorrisos pelos colegas.
— Parabéns! Aquele cara desistiu de tomar o filho graças às informações que você levantou!
Telma sentiu-se orgulhosa. Passou o resto da manhã curtindo os olhares de aprovação do pessoal, e depois foram todos comemorar em uma lanchonete boa.
— A Telma sabe tomar as rédeas na mão!
Sim, ela sabia. Mas também estava ciente de que havia se arriscado bastante pela forma como obtivera aquelas informações, e não estava certa de que a supervisora aprovaria, se soubesse. Podia confiar em Júlio, ele guardara o segredo. Mas os olhares de uma ou outra ali fazia-a desconfiar. Será que elas sabiam? Não, era impressão, aquelas garotas sempre olharam ela torto desde o começo. Na faculdade também havia algumas que a olhavam torto, pelo menos assim mostravam que não gostavam dela, piores são as falsas. O clima andava estranho. Passando na secretaria, cruzara com uma especialmente antipática.
— Ó Telma, toma cuidado com umas coisas que você anda fazendo!
— Que coisas são essas?
— Ah esquece!
Telma não gostava de indiretas, e fingiu não dar atenção. Mas ficou pensando no que ela queria dizer. Achava que sempre ia ter atrito com aquele pessoal ali, pois entre fazer o que o povo aprovava ou ficar em paz com sua consciência, preferia a segunda escolha.
Chegando em casa, procurou afastar aqueles pensamentos concentrando-se na rotina. Queria ter a certeza confortante de que tudo estava nos conformes. Vitinho já havia chegado do colégio e Carla estava arrumando o quarto dele. A tia não gostava que Vitinho fizesse serviço de mulher, e a presença de Carla ali era oportuna. A casa andava mesmo mais arrumada, restava saber se Carla estava mesmo sendo enquadrada. Parecia que sim, tia Vitoria estava seguindo à risca a receita da família. Carla não podia sentir que estava ali de férias, por isso era importante marcar a diferença em detalhes. Telma conferiu bem a cena, de um lado Vitinho sentado no computador, do outro Carla ocupada na arrumação, vestidinho simples e descalça. Relembrando seus tempos na casa de tia Justina, Telma sabia que a sensação de ter os pés descalços servia para lembra-la a toda hora de sua posição ali. Sim, tudo parecia nos conformes, mas Telma não confiava no jeito sonso de Carla.
Naquele domingo haveria um churrasco comemorativo das bodas de prata de uma parenta, e Carla foi convocada para ajudar a servir, assim como Késia, a outra prima que tinha mudado de casa para ser punida. Telma suspeitava que aquelas duas juntas não ia dar boa coisa, e aborrecia-se com a incumbência que tinha de manter um olho em Carla. Tentava conversar com ela, sem muito sucesso, ela era muito sonsa. Mas Telma não fugia de suas obrigações, e da memória veio a frase dita pelo colega de estágio:
— A Telma sabe tomar as rédeas na mão!
Ficou revendo um pessoal que fazia tempo não via, e de tanto em tanto seus olhos iam vigiar o vai-vem de Carla e Késia servindo os convidados. Acabou relaxando. Lá pelas tantas, com o churrasco já servido, não viu mais as duas e saiu para procura-las. Um rumor de funk atraiu sua atenção, e foi encontra-las dançando sob o olhar de uns rapazes da vizinhança. Parecia que haviam bebido, pois a receberam com sorrisos irônicos.
— Oi Telma, vem dançar, a Telma é mó funkeira também!
Mais uma vez Carla estava dando indireta a respeito do passado dela. Telma não se abalou, cruzou os braços e fez sinal para as duas virem de volta.
— Tem serviço para fazer!
Agora as duas pareceram ter caído na real, e olharam preocupadas.
— Ai Telma, você não vai caguetar para a tia não, vai? Legal...
— Não, mas só se vocês me obedecerem! Estão vendo a quadra ali? Vão passar uma vassoura!
Telma apontou para um pátio cimentado onde o pessoal havia praticado esportes. As duas puseram-se a varrer, mas logo sentiram nos pés o calor do cimento sob o sol a pino.
— Ai Telma, dá outro serviço para fazer, deixa esse para depois que o sol baixar...
— Na-na-ni! Tem que ser agora! Senão a tia vai saber!
Carla e Késia davam pulinhos enquanto tentavam varrer, sentindo os pés queimar. Telma ria delas.
— Não é para dançar funk, é para varrer! Funk já dançaram bastante!
— Ai ui ai ai está bom?
— Não! Varre mais ali!
Telma deixou-as ali o tempo que achou apropriado para o castigo antes de ordenar:
— Agora vão lavar a louça!
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