Telma na Luta

13 Missão dada, missão cumprida


Telma saltou do ônibus e olhou as ruas ao redor. Pareciam tranquilas, e não divisou nenhum bairro perigoso nos arredores, isso era bom. Olhou de novo o papel com o endereço que trazia na bolsa e caminhou até a casa no final no final de uma rua banhada pelo sol A casa era grande e tinha um quintal espaçoso. Tocou a campainha e foi recebida por uma mulher entre os 30 e os 40.

— Você é a Telma, do Conselho Tutelar, certo?

— E a senhora é a dona Mariângela, né?

Telma sentiu a responsabilidade no olhar atento que a mulher lhe dirigia, e experimentou um orgulho por merecer a deferência de alguém tão mais velha do que ela. Estava um pouco nervosa, e procurou disfarçar fazendo alguns comentários antes de ir direto ao assunto. Tinha que dar conta da missão. Sentadas cada uma de um lado do sofá, Telma explicou:

— A primeira coisa a ser feita é apartar ela do ambiente ruim que ela frequentava e das más companhias. Isso já foi feito quando ela veio para cá. A segunda coisa a ser feita é impedir que ela volte a frequentar ambientes ruins com más companhias. Para isso, é preciso vigiar onde ela vai e com quem ela fala. É preciso que ela tenha uma rotina com hora marcada para todas as obrigações, seja na escola, seja nos serviços que ela tem que fazer em casa.

A mulher escutava com atenção, mas não dizia nada. Parecia bem compenetrada, mas um tanto jovem e sem experiência. Telma procurou deixar tudo bem explicado.

— O melhor é a senhora ter a guarda do celular dela. Entrega para ela quando ela for sair, e na volta confere a troca de mensagens. Não receber visitas quando estiver sozinha em casa. Horário para tudo, e prestar contas de onde esteve.

A mulher deu a entender que já estava procedendo daquela maneira. Telma sentiu mais firmeza, e fez uma pausa. Sabia por experiência própria que para aquele projeto ter sucesso, alguns detalhes eram fundamentais, e por isso deixou-os para o fim.

— O X da questão é que ela não pode se sentir como se fosse só uma hospede aqui, senão a tendência vai ser ela retomar o mesmo ritmo de vida que tinha lá na cidade dela. Então é essencial marcar umas diferenças entre ela e o pessoal da casa. Ela precisa pedir licença antes de usar qualquer coisa ou fazer qualquer coisa, viu? O mais importante é o vestuário. As roupas que ela trouxe ficam sob a guarda da senhora, e a senhora libera conforme a necessidade.

Foram até o armário onde estavam guardadas as roupas de Carol, e Telma fez uma triagem.

— Essas aqui, bem simplesinhas, são para a faxina do dia. Essas daqui a senhora libera quando for deixar ela sair. E essas outras daqui estão vetadas até segunda ordem!

A mulher concordou, e pareceu bem impressionada com a segurança de Telma. A conversa ficou mais descontraída, e Telma perguntou sobre a escola para onde Carol fora transferida. Era uma escola boa, e ficava longe de bairros difíceis. Satisfeita, pediu para ter uma conversa a sós com Carol. A mulher a conduziu até um pátio nos fundos, onde Carol estava ocupada passando uma pilha de roupas. Ela sorriu acanhada. Telma fitou bem a adolescente em seu vestidinho batido e descalça, e aprovou. Otimista, iniciou a conversa.

— Como é que está se sentindo na casa nova?

A menina sacudiu a cabeça. Não parecia estar com muita vontade de conversar. Telma comentou:

— Bom, mas você dizia que não aguentava mais ficar com a sua mãe, então mudou de ares, não foi?

Carol destravou a língua, abriu um sorriso e respondeu:

— É... no colégio eu estou conhecendo gente legal... mas é ruim da tia deixar eu sair!

— Eu posso conversar com a sua tia. Se você obedecer e voltar sempre no horário, ela vai te soltar mais. Que tal?

Carol pareceu mais animada. Telma conversou mais um pouco com ela, conferiu as tarefas de casa que ela ficara encarregada de fazer, e aprovou. Antes de sair pediu para falar com os filhos da casa.

— Eu quero que vocês saibam que a Carol não está aqui de férias, não! Ela está aqui por um motivo muito sério. Vocês precisam ajudar a botar um olho nela, ver se ela está fazendo direitinho as serviços que têm que fazer, e qualquer coisa falar com a sua mãe!

No ônibus de volta, Telma repassou mentalmente o relatório que tinha que apresentar à supervisora. Estava satisfeita consigo mesma: missão dada, missão cumprida. Mas sabia que tinha outra missão a cumprir naquele dia. Pensava se devia mesmo fazer, mas sabia que se não fizesse, não teriam paz. Conferiu mais uma vez o endereço anotado no outro papel que tinha na bolsa.

O barzinho ficava no final de uma rua com vários botecos. De longe já viu Ronaldo sentado ao lado de Soninha. Sentiu até certo alívio, finalmente as dúvidas acabaram. Mas logo foi invadida por emoções contraditórias: queria ir embora, mas ao mesmo tempo queria conferir mais o que estava observando. Eles estavam se beijando? Não. Pareciam estar tendo uma conversa bem séria. Ronaldo estava feliz? Não parecia. Quando finalmente conseguiu ir embora, Telma só queria cair na cama e esquecer aquilo tudo.

No dia seguinte, no estágio, Telma ainda pensava no que deveria fazer, quando foi interrompida pela supervisora.

— Você sabe da Renata? Ela não veio hoje, nem mandou mensagem.

Telma achou aquilo estranho, pois estivera com Renata aquela manhã na faculdade. Quando à tarde cruzou novamente coma colega, aproximou-se para falar, mas de longe já percebeu que havia alguma coisa séria. Renata estava quase chorando.

— Telma, tô ferrada, vou ter que sumir daqui!

Lembrando das coisas perigosas em que a colega andava metida, Telma convidou-a a sentar em um banco.