Notas iniciais
Heey! Tive essa ideia enquanto ouvia The Scientist do Coldplay.



– Desculpa, eu realmente peço desculpas. – murmurei para mim mesma, sabendo que somente desculpas não seriam o suficiente.

Caminhei até a quadra de basquete e esperei pelo garoto que saía do vestiário, eu queria odiá-lo, pois agora ele tinha o que antes me pertencia.

– O que você quer? – ele perguntou de forma ríspida, e me esforcei ao máximo para não perder a paciência.

– Não me agrada também vir falar com você. – murmurei – Mas isso é para o bem dela.

– O que você quer com Holly? O término de vocês já não foi o suficiente? – ele aumentou o tom de voz.

– Eu só vim para te pedir uma coisa.

Hunter, passou a mão pelos cabelos negros cacheados e suspirou.

– Cuide bem dela, quero que ela seja feliz. – murmurei

– Se você a ama, como consegue deixar que eu fique com ela assim tão facilmente?

– Por isso mesmo, porque eu a amo, e quero que ela seja feliz com alguém, mesmo que esse alguém não seja eu.

Isso o calou, Hunter me encarou com aqueles olhos castanhos enigmáticos e sustentei seu olhar firmemente.

– Suma da vida dela. – ele pediu.

Dito isso, virei as costas e deixei a quadra. Eu me odiava por ter desistido dela tão facilmente, mas se eu persistisse nisso só iria trazer mais sofrimento para nós duas.

Holly era uma garota linda, olhos castanhos e cabelo preto, pele branca, e tinha o sorriso mais lindo desse mundo. Ela era uma típica adolescente sonhadora, estava no terceiro ano ensino médio, era inteligente e dedicada. O oposto de mim, quando me mudei para o mesmo colégio que ela no ano passado eu me apaixonei por ela logo de cara. E mudei, mudei meu jeito desleixado e desinteressado por ela, pois sabia que ela jamais ficaria comigo.

Um semestre se passou e resolvi me declarar, era a festa de quinze anos de uma menina da nossa sala e a chamei para fora do salão de festa, sentamos em um dos bancos do jardim e me declarei. A partir dali começamos a ficar, ela evoluiu de minha paixão para ficante, namorada, e por fim, amor da minha vida.

Estávamos juntas até três meses atrás. Eu morava com meu pai, e ele sempre soube da minha opção, o problema eram os pais dela. Tradicionalistas ao extremo, e já tinham até um pretendente para ela.

Eles descobriram o nosso relacionamento e a proibiram de me ver, tiraram todos os nossos meios de comunicação, queimaram os presentes e cartas que dei a ela. Então, a forçaram a namorar o pretendente, que era Hunter.

Sem ela, eu não sou nada, ela era meu porto seguro, minha amiga, namorada, amante. Eu me vi sem chão, eu havia mudado por ela, me tornei alguém melhor e agora não tinha nada.

Na escola quando nossos olhares se cruzavam, via a saudade ali, e o amor que ela tinha por mim, e também a tristeza que ela sentia. Aquilo me corroia, era meu dever fazê-la feliz!

Quando eu a via com Hunter eu sentia raiva, ele sabia do nosso romance, e a exibia como se Holly fosse um troféu que ele ganhou, sentia nojo ao ver os dois juntos, principalmente quando ele a beijava.

Holly demonstrava para os outros que ela estava feliz, mas eles não a conheciam como eu a conhecia.

Coloquei o capuz de saí do colégio, fiquei vagando pela cidade, completamente sem rumo. Me sentei na escadaria de um parque, coloquei meus fones de ouvido e fiquei revivendo os momentos que vivi com ela.

Nossa primeira conversa, nossos olhares que se cruzavam durante as aulas, os trabalhos em dupla, nosso primeiro beijo, momentos românticos, nossa primeira vez, cada conversa, cada risada, cada sorriso que ela me proporcionou e que consegui arrancar dela.

Quando percebi, estava chorando, eu não iria suportar aquilo muito tempo, eu precisava dela.

Mas não conseguiria enfrentar a família dela, Holly era extremamente dependente deles. Então a ideia que já havia ocorrido a mim uma vez, voltou na minha mente, e decidi bota-la em ação.

– x-

Eram nove horas da noite, a luz da sala na casa dela estava acesa, os pais dela estavam ali. Ajeitei minha mochila nas minhas costas e pulei o muro da casa, já tinha feito aquilo milhares de vezes, então era fácil. Fui para os fundos da casa, onde ficava a piscina, que agora estava vazia e cheia de folhas. Dei graças a Deus pela luz do quarto dela estar acesa.

Peguei uma pedra pequena no chão, aquilo era muito clichê, mas sempre funcionava. Joguei a pedra na janela, ela bateu e retornou para o chão, Holly não apareceu na janela, então joguei a pedra novamente. Ela ricocheteou no vidro e voltou para o chão, quando ia jogar novamente, uma silhueta apareceu na janela, era ela.

Holly estava com uma camiseta de uma banda alternativa que ela gostava, eu conhecia aquela camiseta, fui eu quem deu a ela. De uma forma, o fato de ela ter conseguido resgatar um presente meu me deixou feliz. Holly arregalou os olhos e sumiu da janela. Aguardei ali.

Ela saiu pela porta dos fundos e caminhou na minha direção.

– Lindi? – ela perguntou e sorri – Você é doida.

– Você sempre soube disso, Holly.

– O que você está fazendo aqui? – ela perguntou e o sorriso sumiu do meu rosto.

– Eu vim pedir desculpas. – murmurei.

Ela parou há alguns centímetros de mim e fez uma expressão confusa.

– Eu vim pedir desculpas por ter entrado em sua vida, com isso, trouxe sofrimento pra você.

Ela abriu a boca para dizer algo, mas a calei com um dedo.

– Se não tivéssemos juntas, sua vida ainda estaria normal, seus pais não te pressionariam tanto, e eu continuaria sendo aquela idiota que eu era. – ri sem humor algum – Eu não me culparia por ter mudado tanto.

– Você se arrepende? – ela perguntou – Se arrepende de ter mudado? Se arrepende de nós?

– Não. – respondi – Seu eu pudesse, eu voltaria ao início para poder viver tudo mais uma vez.

Pode ver seus olhos lacrimejarem, quebrei o contato visual, não queria que ela chorasse, pois choraria junto.

– Você veio aqui só pra me fazer sentir mais falta do que nós éramos? Só pra me mostrar ainda mais que não sou feliz ao lado do Hunter?

– Você vai ser feliz, fiz ele prometer isso. – murmurei – Mas pra isso, eu preciso estar longe de você, não vai conseguir se focar em nada enquanto estivermos juntas. Talvez um dia, eu não passe de uma lembrança em sua mente. Isso é um adeus, Holly.

Ela ficou sem reação, nem sei como consegui dizer aquilo sem desabar em choro, precisava passar aquela segurança para ela, então precisava me manter firme.

– Lindsey... – ela começou, mas novamente a calei com o dedo indicador, senti a suavidade daqueles lábios com o dedo, como sentia falta do beijo dela.

Tirei minha mochila, assim pude tirar a minha camisa de flanela com estampa xadrez que eu usava, e coloquei sobre os ombros dela. Por último, tirei a minha touca azul, minha favorita, e coloquei na cabeça dela, ajeitando seus cabelos pretos. Arrumei a franja para o lado e deslizei minha mão por sua bochecha.

– Sabe que esses são meus favoritos, cuide bem deles, isso é para quando você sentir minha falta, assim pode matar a saudade. Mas se um dia você pensar em mim e isso não doer tanto aqui... – coloquei minha mão um pouco acima de seu peito, sentindo as batidas do coração ela, que estava acelerado — ... é para você se livrar disso, pois vai significar que você consegue ficar bem sem mim.

– Lindsey... – sua voz falhou e me controlei ao máximo para não chorar junto – Para onde você vai? Vai fugir? Você ainda nem é maior de idade... O que vai ser de você?

– Faço aniversário daqui três meses, até lá, consigo me virar. Então, serei livre pra tomar qualquer decisão. – respondi, tentando deixar minha voz o mais fria possível.

– Lindi...

– Não quero prolongar isso ainda mais, pois vou fazer você sofrer mais ainda se continuar aqui. – dei um sorriso torto, o sorriso que ela mais amava – Não se preocupe comigo, vou ficar bem.

– Eu te amo. – ela sussurrou baixinho, e uma lágrima escorreu pelo rosto dela.

Enxuguei a lágrima, e me aproximei mais dela, apesar de termos a mesma idade, Holly era mais baixa que eu. Encostei meus lábios em sua testa e me afastei, antes que eu acabasse cedendo e que eu a fizesse sofrer mais.

– Eu também te amo. Adeus Holly, meu coração sempre vai estar com você. – disse e me afastei

Caminhei sem olhar para trás, meu coração estava dilacerado, tudo tinha acabado de vez. Pulei o muro da casa dela novamente e caminhei pelas ruas da cidade, lágrimas escorriam do meu rosto sem parar, a pior dor é a dor que você causa em alguém que ama. Vez ou outra sentia alguém me seguindo, esbarrava nas pessoas no meu caminho e continuava, sem olha para trás uma única vez.

Cheguei ao meu destino, o apartamento em que morava com meu pai. Ele estava dormindo no sofá, a gravata estava frouxa e o paletó que ele usava no escritório estava jogado no chão. Meu coração se apertou, eu teria que deixa-lo também.

Fui para meu quarto, arranquei uma folha do meu caderno e em meio as lágrimas escrevi uma carta para ele. Peguei um dos meus cobertores e voltei para a sala, deixando a carta na mesa de centro e o cobri com o cobertor.

– Adeus pai. – murmurei

Saí do apartamento antes que eu me arrependesse da minha decisão. Subi as escadas correndo, até o terraço, meu local favorito.

O prédio tinha quinze andares, dali, tinha uma visão perfeita da cidade e das estrelas, eu amava ir ali com Holly. Caminhei lentamente até o muro dali e passei uma perna por ele, e depois outra, sentando ali. Já tinha feito aquilo várias vezes, as minhas pernas balançavam no ar, e a rua me atraía.

Senti o vento contra o meu corpo, despenteando o meu cabelo. Fechei os olhos e respirei fundo.

Holly podia ser feliz sem eu, ela tinha alguém que iria se esforçar para fazê-la feliz, mesmo que ela não me esquecesse. Mas eu, não conseguiria amar outra pessoa, ou simplesmente ficar com outra pessoa, pois eu pertencia a ela, somente a ela.

Tomei a coragem que precisava, as lágrimas quentes molhavam o meu rosto.

– Eu te amo, Holly.

A brisa bateu mais forte contra o meu corpo, e desejei que a morte fosse rápida.

– x-

– Lindi. Lindsey, acorda! – alguém chamou e tocou o meu rosto – Lindi...

Abri os meus olhos e dei de cara com ela.

Holly.

Estremeci ao lembrar com que eu sonhei.

– Você está bem? – ela perguntou e não respondi.

Encarei o teto do quarto, era o quarto de um hotel, estávamos hospedadas ali há duas semanas. Fazia exatamente um mês desde minha tentativa se suicídio, que obviamente falhou.

Naquele dia, Holly me seguiu após eu sair da casa dela. Era ela quem eu sentia me perseguindo, ela não havia entrado em casa quando fui embora, ela seguiu todo o caminho até o apartamento meu.

Depois eu que eu saí do meu apartamento, ela entrou lá e viu a carta que escrevi para o meu pai, ela o acordou e os dois correram até o terraço.

Meu pai foi mais rápido e me puxou do muro antes que eu pudesse pular, nós dois caímos sobre o piso de cimento do terraço quando Holly nos alcançou todos chorávamos. Eu pedia desculpas e eles apenas me abraçavam. As lembranças que tenho daquela noite são um pouco confusas.

Só lembro que meu pai nos ajudou a encontrarmos uma solução, ele sabia que se eu não tivesse Holly eu não seguiria em frente, então ele teve uma ideia.

Nós duas já tínhamos sido aprovadas em vestibulares de faculdade, então passaríamos três meses viajando. Isso seria tempo o suficiente para Holly e eu fazermos dezoito anos, teoricamente ela seria responsável por si mesma e poderia tomar as decisões sozinhas, não importa o que os pais dela achassem.

Holly e eu tínhamos economias e usamos isso para viajar. Teoricamente ela tinha fugido de casa, só avisou os pais uma semana depois, eles queriam que ela voltasse, mas já tínhamos outros planos, só voltaríamos no início do semestre da faculdade.

– Estou melhor agora. – respondi e ela deslizou a mão pelo meu rosto.

Holly estava sendo mais carinhosa do que ela era antes, como uma forma de pedir desculpas pelo tempo separadas, e também como forma de garantir que eu não tentasse outra loucura.

– Esses pesadelos um dia vão acabar. – ela sussurrou.

Toda noite, eu sonhava com aquele dia, em que eu quase tirei minha própria vida. Às vezes penso no que podia ter acontecido caso ela não tivesse me seguido.

– Obrigada por não ter desistido de mim. – murmurei como resposta.

Ela sorriu e me puxou para um beijo, deslizei minha língua por seus lábios e ela os entreabriu, me dando passagem. A virei na cama, mas como já estávamos na beirada, derrubei nós duas da cama.

– Você é doida! – ela exclamou quando nos separamos.

– Você sabia disso quando me conheceu. – sorri – Mas sou doida sim, por você, completamente louca por ti.

– Isso é um pouco psicótico. – ela riu, o som mais lindo que já ouvi.

– Se arrepende de viajar pelo país com uma “psicótica” enquanto seus pais te deserdam bem no período de provas finais no colégio?

– Não. Desde que essa “psicótica” seja você.

Me inclinei mais uma vez e a beijei.

Ás vezes, não é necessário voltar no tempo para vivermos os melhores momentos de nossas vidas, só não podemos deixar que o presente nos tente impedir de ter um futuro feliz.

E às vezes esse futuro, pode ser melhor que o passado.

Notas finais
Algumas histórias e alguns personagens, merecem ter um final feliz. Estava ansiosa para postar, então não revisei, desculpem qualquer erro. Comentem o que acharam.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!