Tell You A Story
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Kate POV
Eu odiava ter que fazer aquilo. Odiava não estar em casa na hora, ou perder mais tempo do que o necessário com minha família. Mesmo tendo certeza de que eles entenderiam, ainda era difícil.
As garotas cresciam tão rápido! Era assustador pensar no quanto, e eu tinha certeza de que ficaria pior, portanto, cada minuto era importante. O caso não havia sido fechado – ainda -, mas, com as pistas principais sendo tiradas do caminho, o resto poderia esperar até amanhã.
A primeira coisa que notei quando entrei em casa, foi o silêncio. Por aqui, mesmo já tendo passado a hora das meninas dormirem, o silêncio era sempre suspeito. Deixei minha bolsa e casaco no sofá, caminhando em direção a escada ao mesmo tempo que me livrava dos saltos e fazendo uma nota mental de pegá-los mais tarde. Eu não precisava de outro sermão das minhas próprias filhas sobre objetos espalhados.
Subi a escada devagar, prestando atenção a cada barulho, parando por um segundo quando escutei as vozes baixas vindas de um dos quartos. Mas é claro. Mas é claro que elas ainda estavam acordadas, e eu só podia imaginar onde estava Castle. Enquanto me aproximava da porta, pude ter certeza de que ele estava ali também, claramente lidando com as duas criaturinhas. Se ele não estivesse, não estaria tão calmo.
As duas vozes infantis ficavam cada vez mais claras a medida que eu me aproximava. Decidida a ver o que estava acontecendo, mas sem aparecer e provocar um alvoroço, eu parei na porta, observando e continuando extremamente calada e imóvel.
Castle estava sentado entre as duas camas, o olhar distante, como se estivesse focado em outra coisa, em outro momento. As duas outras pessoinhas no quarto estavam deitadas lado a lado na mesma cama, trocando olhares e cochichos enquanto pareciam esperar algo importante acontecer.
Elas estavam muito próximas e concentradas, de modo que sequer notaram minha presença ali. O sorriso que se formava em meus lábios era inevitável toda vez que as observava. Elas eram lindas e surpreendentes, vencendo minhas maiores expectativas. Ainda me tirava o folego o quanto as amava, e o fato de eu ter as feito era absurdo.
Mas eu havia, junto com o homem sentado ali perto perdido em pensamentos.
—Eu acho que ele está congelado. – escutei Alice sussurrar para a irmã enquanto desviava o olhar do pai para olhá-la, os olhos passando pela porta por um segundo e então: -Mamãe!
Ela praticamente gritou, jogando a coberta para o lado e tropeçando nelas em sua pressa para chegar até mim, seus passos cambaleantes. Me adiantei, a segurando um segundo antes que caísse.
—Ei! – eu ri, a endireitando e tirando os cabelos dos seus olhos. –Devagar aí, garotinha.
Mal acabei de falar quando um segundo corpo magro se chocou contra o meu, me fazendo perder o equilíbrio por um segundo.
—Então vocês sentiram minha falta, hã? –sorri e me abaixei para ficar na altura delas, que logo se apertaram a mim, cada uma beijando um lado do meu rosto.
—Muita, mamãe. – Alice respondeu.
—É. – Charlie concordou balançando a cabeça ferozmente. Eu as abracei por um segundo, escondendo meu rosto naquele mar de cabelos.
—Bom, eu também senti a falta de vocês... O dia todo! – me afastei um pouco, mas sem me levantar. – E foi um longo dia, então o que as mocinhas estão fazendo acordadas?
Elas estavam paradas lado a lado na minha frente, seus rostinhos indo de animados para culpados em apenas um segundo. As duas se olharam, e como de costume pareciam conversar internamente, preparando uma resposta. Enquanto elas tinham aquela conversa silenciosa, meu olhar se desviou para o homem atrás delas que nos observava, uma expressão terna no rosto. Castle sempre observava nossas interações daquela maneira, e eu sabia que fazia o mesmo. Entretanto, sua expressão feliz e amorosa se desfez em puro choque – e talvez terror – ao som das palavras ditas em seguida:
— O papai deu sorvete para gente! – Charlie e Alice disseram juntas em uma sincronia perfeita. Aquela característica minha e de Castle tinha sido hereditária, ao que tudo indicava. Ou talvez fosse uma coisa de gêmeos.
Desviei meu olhar de volta para elas, que pareciam menos culpadas agora. Olhei para Castle, que ainda estava chocado com a traição. Foi necessária toda minha força para não rir de toda a cena.
— Eu achei que nós tínhamos um acordo! –disse, e as duas doces criaturas a minha frente apenas deram de ombros uma vez. Os olhos de Castle se estreitaram, e minha vontade de rir desapareceu por completo quando ele disse:
— Certo. Elas quebraram sua maquiagem! – jogou as mãos para o ar em uma indignação fingida, e eu pude sentir meu rosto desmoronar um pouco.
—O que?
Elas olhavam para o pai por cima do ombro, claramente o julgando.
—Vocês falaram antes... –ele murmurou enquanto eu recuperava a atenção das gêmeas, o libertando dos olhares.
—O que eu já falei sobre mexerem nas minhas coisas? – perguntei. Meu coração ainda doía pelo perfume, ou pelo batom que manchou tudo o que era visível no banheiro uma vez...
—“Só podem mexer se forem esconder quando a tia Lanie aparecer aqui” – elas murmuraram, revirando os olhos um pouco.
—Exato. –tentei não rir, lutando para parecer séria. – A tia Lanie estava aqui?
—Não.
—E então?
—Nós só queríamos ver! – Alice disse. –Foi sem querer.
Continuei esperando.
—Desculpa! – elas disseram juntas.
—E não vai acontecer de novo? – perguntei e elas balançaram a cabeça negativamente. –Certo, estão perdoadas. Mas o papai e eu vamos ter uma revisão da regra do sorvete...
Olhei para ele, que simplesmente fechou a cara. Mordi os lábios, evitando o sorriso. Eu senti tanta falta dele!
—Que tal voltarmos para a cama? – sugeri enquanto me levantava, as guiando até a cama.
Elas subiram cada uma em sua cama agora, e eu sorri, me aproximando de Castle que ainda estava sentado ali no meio.
—Bastou um olhar... – murmurei para ele antes de me abaixar, o beijando.
—Eu sei, foi seu olhar de detetive!
—Foi meu olhar de mãe, e sério, sorvete a noite? –devolvi, rindo de sua expressão. Me sentei no chão entre suas pernas, me virando para as meninas: — Qual a história de hoje?
—Papai estava nos contando nossa história! – Charlie contou, animada.
—Aí ele ficou todo quieto e pensativo, e parou! –Alice completou.
—A história delas? – perguntei e olhei para cima.
—Elas queriam saber como foi quando descobrimos sobre elas...
—É!
Oh. Aquilo explicava o olhar distante que ele tinha quando cheguei. Bastou apenas um olhar para ele para saber exatamente onde seus pensamentos estavam, e foi inevitável que os meus fossem para lá, também.
Não era uma época da qual nós falávamos muito. Era triste e dolorosa, nunca deixaria de ser. Mesmo que tenha nos trago até aqui.
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Depois de tudo o que havia acontecido nos últimos anos, aqui estávamos nós. Era de se imaginar que, após tudo o que havíamos passado, o mundo nos daria uma trégua, um tempo de descanso. Entretanto, considerando quem éramos, era de se imaginar também que uma trégua não passava de uma vã esperança.
O impacto do carro – o som, a dor, a fraqueza e a escuridão – ainda estavam vívidas demais em minha mente. O medo, a confusão e culpa também, mesmo após dias. Eu não havia quebrado um único osso com tudo aquilo. Um braço, uma perna, uma coluna. Nada. Ainda assim, eu trocaria qualquer coisa por um ferimento desses, ao invés do que acontecia agora.
Encarei a porta aberta, onde segundos atrás ele havia passado, arrasado com tudo o que eu disse. Ao constatar isso, me arrependo profundamente das minhas palavras. Rick não merecia ter escutado aquilo, principalmente vindo de mim. Apesar de tudo, eu sabia que ele sofria. Eu não era cega, e podia ver com uma clareza surpreendente através da minha própria dor. Ele sofria. Sofria por ele, sofria por nosso filho que nós jamais conheceríamos, sofria por mim. Por nós.
Eu devia estar com ele, mas algo dentro de mim me impedia de estar perto de qualquer pessoa no momento. Por mais que eu gostaria que ele me abraçasse, me segurasse e prometesse que tudo ficaria bem, eu precisava de um tempo para me colocar de pé. Era egoísta, mas era como me sentia.
Apenas sinto o gosto salgado de algumas lágrimas em minha boa quando meu rosto está completamente molhado. Passo as mãos trêmulas em uma tentativa de limpá-las do meu rosto, mas parece que naquele momento todo aquele esforço é inútil.
Ele queria mais filhos. Eu sabia que ele queria, mas não imaginava o quanto. Não o suficiente para propor tentarmos novamente dias após termos perdido nosso bebê. Nosso bebê. Droga, eu também queria filhos! Mas... Eu queria o nosso bebê. Nosso bebezinho que...
O soluço sai sem que eu perceba, e antes mesmo que eu pudesse me segurar, as lagrimas furiosas saem de meus olhos, sem controle e sem previsão de quando irão cessar. Caio na cama e abraço o travesseiro dele, sentindo seu cheiro enquanto sentia meu coração cada vez mais apertado, a dor parecendo infinitamente maior agora. O vazio que eu senti no momento em que ouvi as palavras da médica havia se instalado, e as vezes era difícil respirar. Era como se eu nunca mais fosse conseguir preencher aquele pedacinho do meu coração novamente, nunca fosse respirar da maneira correta, profundamente.
Estava difícil com ele, e aquele foi o momento que percebi que seria impossível sem ele.
Enterro o rosto no travesseiro com o intuito de abafar o som do meu choro compulsivo. Com os olhos fechados, penso no quanto eu queria que isso fosse apenas um pesadelo, onde eu iria acordar em seus braços e constatar que tudo isso não passou de um pesadelo, que estamos bem, que essa dor não existe.
O fato é que existiam passos para lidar com o luto, e eu sabia que aquilo acontecia com muita frequência, e que as pessoas realmente se recuperavam. Mas eu sabia que a dor não desapareceria, assim como com minha mãe. Ela só se tornaria suportável.
Entretanto, nesse exato momento, eu só queria dormir. Dormir e esquecer.
Pude sentir a escuridão tomar conta de mim, e, de repente estava tudo bem. Estávamos deitados na areia fofa da praia, eu entre as pernas de Rick, apoiando minhas costas em seu peito. Suas mãos estavam em minha barriga, perfeitamente arredondada. Minhas mãos cobrem a sua, e então sentimos o bebê chutar. É tão natural e real, mesmo o calor no meu peito. Sinto-o depositar um beijo em meu rosto enquanto algumas lágrimas caem.
A cena muda e o garotinho com os meus cabelos e os olhos de Castle sorri o maior sorriso do mundo, dando os primeiros passos vacilantes em direção a nós. Ele se joga em meus braços assim que chega perto, e então o envolvo enquanto Castle nos acolhe em um abraço apertado. O vazio constante no meu peito não existia ali. Não havia sido curado, simplesmente não existia.
O sorriso em seu rosto me faz sorrir ainda mais. Toco o rosto dele, sentindo a pele ali. Os cabelos grisalhos denunciam que o tempo passou, mas ainda assim, cada vez que vejo seus olhos brilhantes e azuis como um céu de verão, parece que é a primeira vez. Somos felizes, muito felizes, e vejo que tudo aquilo era tudo o que poderia querer, e muito mais. Eu podia respirar livremente ali, sem peso.
Somente ali.
Abro os olhos rapidamente, vendo o quarto já tomado pela escuridão e meus braços apertando com força o travesseiro dele. O silencio no quarto e a pequena dor que sinto na testa me levam a realidade mais uma vez. Era apenas um sonho. Um sonho maravilhoso, onde tudo estava bem. Respiro fundo, vacilante, e sinto os olhos arderem, a sensação tão conhecida nos últimos dias. Respiro fundo mais uma vez, passando as costas de uma de minhas mãos sobre o rosto, me livrando de qualquer vestígio de lágrimas que existisse ali. Precisava aceitar que agora essa era a minha realidade, a que esse filho não existe, nós não estamos bem e eu não estou plenamente feliz.
Uma batida leve na porta me sobressalta, e eu me sento rapidamente na cama, notando que eu não fazia ideia de quanto tempo havia dormido.
— Kate? – a voz baixa de Rick chamou, me deixando surpresa.
— Dormindo, Castle. – eu respondi, a voz estranha devido ao choro e sono.
— Você precisa comer. – disse de volta, a voz já aceitando uma derrota.
Droga, aquele homem tão doce! Mesmo depois de tudo, ele ainda estava ali, preocupando-se se eu estava comendo? Era assustador o quanto eu não merecia Richard Castle.
— Eu... não estou com fome agora.
— Certo. – parou por um tempo longo o suficiente para eu me perguntar se ele havia ido embora. Mas então: — Eu vou deixar separado para quando estiver com fome, só... Não se esqueça. – eu sabia que ele estava falando sobre mais do que apenas a comida.
Não respondi, sem confiar o suficiente na minha voz. Quase pude sentir quando ele se afastou, voltando para onde quer que estivesse antes.
Arranquei minhas roupas com uma força desnecessária a caminho do banheiro, lutando novamente com as lágrimas. A voz dele parecia tão triste, tão quebrada! Era doloroso apenas escutá-lo.
Ambos estávamos machucados, e precisando um do outro. Eu o havia magoado, ele havia me magoado. Era como o passado se repetindo, de certa maneira. Eu só podia esperar que ficássemos bem no final. Que encontrássemos nosso caminho de volta.
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