POV James

Não fiquei exatamente surpreso por estar chovendo (Minnesota é melancólico, sempre chove). Estava frio, afinal já estávamos no fim de novembro. Eu tinha esquecido como odiava dias frios e chuvosos.
O cheiro de comida recém feita tomava conta da pequena casa em que minha mãe morava. Com certeza ela ficou surpresa ao me ver chegando as 5h da manhã depois de dirigir a noite inteira, com um corte na sobrancelha e cara de poucos amigos, mas foi polida o bastante para não me encher de perguntas assim que cheguei, mas eu sabia que a hora do interrogatório chegaria.
— Hey. – falei com a voz falhando pela falta de uso quando cheguei à cozinha.
— Bom d... Tarde. – ela falou simpática. Eu chequei o relógio, já passava do meio dia. – Dormiu bem?
— Uhum. – resmunguei, sentando-me para vê-la cozinhando.
Ela cantarolava qualquer coisa, mexendo nas panelas. Eu conseguia ver que ela queria perguntar o que tinha me feito chegar em casa sem avisar assim, mas agradeci por ela não perguntar nada.
— Mais tarde vou ao supermercado, você quer ir junto? – ela perguntou, colocando um prato na minha frente e outro ao meu lado.
— Claro. – concordei. Começamos a comer, ficando algum tempo em silencio.
— Você vai ficar por aqui por quanto tempo? – Minha mãe perguntou.
— Por alguns dias... – dei ombros, tentando parecer indiferente. – Tem algum problema?
— Claro que não. – ela ficou contente com a minha resposta. – Mas James... Você está com algum problema? – me olhou preocupada.
— Nada que não se resolva. – falei, soando muito mais confiante do que realmente estava.
— Você não esta fugindo da policia não, né? – ela perguntou em tom de brincadeira.
— Não. – respondi rindo.
— E como você conseguiu esse corte? – ela assumiu sua voz de inquisição.

- Eu... — passei a mão pelo pequeno curativo, quase esquecendo que ele estava ali. – Bati em uma prateleira. – menti.
— Já falei que você tem que tomar mais cuidado com onde anda. – ela me repreendeu.
— É, eu estava distraído.
— Que tal me falar a verdade dessa vez? – sugeriu. Certo, mães têm esse sensor detector de mentiras, é isso?
— Ahn... – gemi, fazendo careta. Ela manteve o olhar impassível. – Certo. Kendall me bateu. – falei.
— Imagino que você tenha dado algum motivo. – comentou.
— É, eu... Ele descobriu que eu estava namorando a Katie. – falei de uma vez só.
Ela ficou em silencio por alguns segundos, digerindo a informação.
— Ta faltando garotas em LA? – brincou. Eu sabia que ela gostava de Katie, mas ela também entendia que a situação com ela era complicada.
— Nenhuma delas é como a Katie. – falei dando ombros. Eu não sei se foi impressão minha ou o que, mas ela pareceu me lançar um olhar quase orgulhoso.
— Deixa eu ver se eu entendi: Você estava namorando a irmã do seu melhor amigo e quando ele descobre, você foge e deixa a sua garota lá? – ela tinha um tom levemente indignado.
— Era isso ou Katie seria viúva antes que eu pudesse pedi-la em casamento. – me justifiquei. – Ela está bem, Logan e Carlos estão lá também. E eu volto logo, só estou esperando que a vontade de me esquartejar de Kendall passe.
— Vai passar. – ela garantiu.
— Eu espero que sim. – suspirei. – E espero que não demore, porque se eu continuar comendo sua comida por muito tempo, vou acabar gordo e sem conseguir dançar!

Nós continuamos comendo e conversando. Minha mãe não tinha gostado nem um pouco quando eu liguei avisando que não viria para casa para o natal, então essa minha visita inesperada a deixou muito feliz. E aparentemente, ela tinha algum plano maléfico para me encher de comida e me tornar tão gordo que não entraria mais no carro para voltar par LA, porque assim que acabamos de almoçar, ela me deu torta e depois que acabei a torta, ela queria me dar mais comida, e sério, ela tinha que parar com aquilo ou eu teria sérios problemas quando voltasse para a academia.
Depois que ela finalmente parou de tentar me engordar (era apenas uma trégua, eu sabia que ela voltaria) e nós colocamos todas as noticias (que podem ser compartilhadas com sua mãe) em dia, eu disse que aproveitaria que tinha parado de chover um pouco para dar uma volta pela rua, o que era apenas uma desculpa para ligar para casa e ver como estavam as coisas.
Eu sabia que ligar para o apartamento não era uma boa idéia, já que estaria arriscando ser atendido por Kendall. Eu poderia ligar para Logan ou Carlos, mas também corria perigo de um deles estar com Kendall e ser uma situação desconfortável para ele. Eu não queria ligar pra Katie. Não sei por que, provavelmente nem tinha motivo, eu só não queria falar com ela ainda. Acho que é porque, se eu falasse com ela, eu iria querer voltar para casa o mais rápido possível, e ainda não tinha dado tempo suficiente para acalmar as coisas.
Decidi por discar para Logan. Esperei algum tempo até que ele atendesse.
— Eae, cara. – ele falou assim que atendeu.
— Ta sozinho? – perguntei antes de qualquer coisa.
— Tua namorada ta dormindo do meu lado. – contou. Eu precisei respirar fundo para poder continuar.
— Como ela está? – perguntei.

- Ela brigou com Kendall, a coisa foi feia. Eu só consegui ouvir gritos e ela não quis me contar o que realmente aconteceu, mas ela demorou um bom tempo para parar de chorar. – ele falava baixinho, provavelmente para não acordá-la. – Mas agora ela se acalmou e dormiu, eu não quero acordá-la porque provavelmente ela não dormiu nada a noite inteira.
— É, eu imagino... – falei triste, sentando na calçada para continuar a falar. – Você falou com Kendall? – perguntei.
— Tentei, mas ele ainda está muito bravo pra conseguir pensar com clareza.
-Hm. – resmunguei.
— Acho que é bom você não estar aqui, vocês ficariam brigando e isso só ai deixar as coisas ainda piores. – ele falou com calma. Eu não tenho certeza se ele só estava falando aquilo pra que eu me sentisse menos mal ou se ele realmente achava isso.
— Eu me sinto meio inútil... – falei. – Queria poder fazer alguma coisa pra melhorar isso logo.
— Não se preocupe, vocês vão resolver isso logo. – ele prometeu.
— É... Diz pra Katie que eu to bem, e que é pra ela ficar bem também, ta legal?
— Pode deixar. Sinta-se a vontade para trazer um pedaço da torta da sua mãe quando voltar... – ele comentou como se não fosse nada. Eu ri.
— Ela vai ficar contente com isso. – garanti.

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POV Katie

Quarta-feira. Era quarta-feira e nada de James. Ele disse “só por alguns dias”, não disse? Ele disse que voltaria, né? Ele não ia me deixar aqui pra sempre, ia?
A primeira coisa que eu fiz ao acordar foi checar se ele tinha ligado, assim como tinha feito ontem e no dia anterior. E assim como ontem e no dia anterior, nem um sinal de vida. Resmunguei e levantei, comecei a me arrumar pra escola. Era quarta. Qual o problema daquele garoto, como ele fica sem me dar noticias desde sexta? Ainda mais considerando a situação em que ele foi embora na sexta. Ta, eu sei, ele tem me dado noticias pelo Logan. Porque ele liga pro Logan e não liga pra mim?
Coloquei minha roupa, arrumei o cabelo da melhor forma que consegui e fui tomar café. É claro que com a minha sorte, Kendall estava lá. Kendall, definitivamente, não era minha pessoa favorita no mundo naquele momento. Decidi por fazer o que eu vinha fazendo nos últimos dias, ignorei totalmente a sua presença. Ele também não fez muito esforço para que eu o notasse, apenas permaneceu em silencio.
— Bom dia. – Logan falou fingindo-se de bem humorado quando entrou na cozinha. Ele e Carlos fingiam-se de bem humorados o tempo inteiro, achando que assim a situação melhoraria um pouco por ali. Não ajudava muito, mas também não piorava.
— Oi. – resmunguei. Kendall apenas acenou com a cabeça, permaneceu em silencio.
Assim que acabei de comer, desci para esperar Jesse. Quanto menos tempo ficasse em casa melhor pra mim.

Jesse me deixou na escola e eu corri para a sala, mesmo que tivesse tempo até a próxima aula. Enquanto andava rápido, ouvi alguém me chamando. Parei assustada, mas era só Liz. Ela estava com Josh e Alex na frente da biblioteca. Pensei em apenas acenar e encontrá-la na sala mais tarde, mas decidi por ir até lá mesmo.
— Bom dia. – falei quando me aproximei. Liz me abraçou, Josh me cumprimentou, Alex apenas sorriu e acenou. Nós tínhamos nos tratado assim desde o baile. Era um pouco desconfortável. Tenho certeza que ele preferia fingir que eu não existia mais, mas era difícil me ignorar completamente quando o melhor amigo dele estava praticamente namorando a minha amiga. (Sim, Josh finalmente tinha conseguido ficar com Liz! Palmas pra ele, só levou alguns meses... ).
— Nada de James ainda? – Liz perguntou quando notou que eu estava desanimada.
— Nada. – respondi dando ombros.
— Esquece ele, você arranja alguém melhor. – Josh brincou, empurrando o meu ombro enquanto voltávamos a andar. Eu ri, olhando de relance para Alex, que corou discretamente.
— Eu acho que não. – falei rindo, levando na brincadeira.
Nós sentamos nos lugares de sempre e esperamos as aulas se arrastarem até o intervalo. Depois nós nos separávamos, Liz e eu tínhamos Matemática e os garotos iam para Física. A aula de matemática também demorou a passar, mas finalmente acabou e eu finalmente poderia ir pra casa. Eu queria minha casa, minha cama, queria ficar lá encarando meu telefone e esperando James me ligar. Eu sou uma fracassada, não sou?
Liz e eu caminhamos até nossos armários, ela olhava para todos os lados esperando – provavelmente – por Josh. E como sempre, ele não demorou a nos encontrar, com Alex ao seu lado. Dificil evitar esse menino.
Nós saímos do prédio conversando amenidades de sempre, sem dar muita importância para nada. Eu ia diretamente para a vaga em que Jess costumava me esperar, mas perdi o foco pelo caminho.

Sem prestar mais atenção em nada, eu abandonei a conversa e me segurei para não gritar. James estava lá, com seus óculos de sol e o cabelo jogado no rosto, apoiado em seu carro na vaga de Jess.
Assim que eu o vi, sai correndo para abraçá-lo, deixando Liz para trás. Ele me levantou momentaneamente, me abraçando.
— MEU DEUS, VOCÊ VOLTOU. – eu falei ainda em seus braços.
— Eu disse que voltaria logo. – ele falou. Eu me afastei para olhar seu rosto. Do corte na sobrancelha restava apenas um pequeno arranhão cor-de-rosa e ele me parecia bem.
— O que te deu na cabeça de sumir por tantos dias? – dei um tapa em seu ombro. Ele se encolheu surpreso.
— Ai.
— Por que você não me ligou nenhuma vez? – bati de novo. — Você não pensou que eu estaria aqui perdida sem notícias e morrendo de... – fui interrompida pelos lábios de James beijando os meus. — ... saudades. – completei, deixando um sorriso bobo escapar.
— Eu também estava com saudades. – ele falou, me dando mais um beijo rápido.
Liz, Josh e Alex se aproximaram de nós.
— Oi James. – Liz falou simpática.
— Oi Liz. – ele respondeu, dando um beijo em seu rosto. – Katie se comportou direitinho? – falou, passando um braço pelo meu ombro. Alex olhou para o outro lado, fingindo que prestava atenção na rua e eu fingi que não notei.
— Se você não voltasse logo ela ia é ficar louca. – ela contou. Eu dei ombros, meio que era verdade. – Vamos indo, a gente conversa amanhã, Katie. – ela falou, me abraçando. – Boa sorte. – falou baixinho só para que eu ouvisse. – Tchau James.
— Tchau Liz. – ele falou, se despedindo dela. – Tchau você também. – ele brincou, estendendo a mão para Josh, que estranhou momentaneamente, mas a apertou. – Alex. – ele estendeu a mão de novo. Alex foi completamente diferente com James do que era comigo. Foi quase simpático naqueles três segundos em que eles interagiram.
Assim que eles se afastaram, eu voltei a virar pra ele.
— Você está bem? – perguntei, dando um beijinho no pescoço dele, fazendo voz de manhosa.

- Estou melhor agora. – ele respondeu, trazendo meu rosto para o dele. Eu notei que as pessoas em volta olhavam, estranhando um pouco um pessoa famosa ali, se agarrando com uma das estudantes.
— Eu tenho esse efeito nas pessoas. – brinquei. Ele riu.
— Em mim, com certeza tem. – respondeu. Tem como não amar um cara desses? – Vamos sair daqui, vamos?
— Por favor. – falei.
Nós ficamos algum tempo vagando sem rumo pela cidade, apenas evitando a hora de voltar pra casa. Estava quase anoitecendo quando, sem ter mais nenhuma desculpa, resolvemos voltar.

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POV James

Eu não esperava uma recepção calorosa do Kendall, longe disso. Eu já me daria por satisfeito se ele não resolvesse terminar de quebrar minha cara assim que eu entrasse no apartamento.
Assim que a porta abriu, a conversa parou e todos os olhares se voltaram para nós dois. Eu senti Kendall me fuzilando e evitei sustentar seu olhar.
— Oi. – Katie sussurrou, fechando a porta atrás de mim.
— Oi Katie. – Carlos falou baixinho. – James. – ele me cumprimentou também. Eu apertei sua mão com um sorriso fraco. Logan acenou de longe, os olhos fixos em Kendall para tentar impedir qualquer reação exagerada. Mas Kendall não se mexeu. Não falou nada. Seus olhos foram de mim para a TV como se não tivéssemos interrompido nada.
— Gustavo quer você no estúdio assim que você voltasse. – Logan falou. Eu concordei. Agora já estava muito tarde, mas iria lá assim que amanhecesse.
— Eu to com fome, você tá com fome? – Katie perguntou, pegando carinhosamente no meu braço. Era estranho ela fazer isso assim, na frente dos outros. Meus olhos foram imediatamente para Kendall, que ainda focava a TV, apesar de sua expressão estar completamente vazia.
— Na verdade não. – respondi sinceramente.

- Tem pizza. – Logan informou, apontando para a cozinha. – Eu vou lá com você.
Ele levantou e deu um pontapé nada discreto em Carlos, que captou a idéia e também levantou. Eles obviamente queriam me deixar conversar com Kendall, mas antes que eles sequer saíssem da sala, Kendall também levantou.
— Não precisa se dar o trabalho de disfarçar, eu não quero ficar sozinho com esse cara. – resmungou, passando por nós com violência a caminho do quarto.
— Kendall, por favor, vamos conversar. – tentei chamar, mas ele me ignorou, batendo a porta. Suspirei. Alguns segundos de silencio se seguiram a isso.
— Ta, eu realmente to com fome. – Katie reclamou, nos trazendo de volta. – E to cansada do Kendall fazendo cena o tempo inteiro.
— Tudo bem. – eu falei. – Uma hora ele vai parar com isso. – garanti. Eu queria conversar com ele, mas não queria forçar nenhuma situação.

Sentei-me com Katie na cozinha, conversando com ela, Carlos e Logan enquanto ela comia. Logan me contou que quando Gustavo descobriu que eu tinha viajado sem avisar ficou furioso, o que não me deixou muito animado para a conversa que eu teria com ele no dia seguinte.
Katie contou que ela e Kendall andavam ignorando a presença um do outro e evitando ficarem nos mesmos lugares por muito tempo. Aquilo me deixou triste, Kendall e Katie tinham uma relação muito bonita, eu não queria que eles brigassem, muito menos por minha culpa.
Tentando amenizar a tensão da conversa, Carlos lembrou que o aniversário de Katie seria em poucos dias, no próximo fim de semana. Obviamente eu não tinha esquecido, mas com toda essa confusão, nós nem tínhamos pensado no que faríamos.
— Nós podíamos fazer uma festa. – Logan sugeriu.
— Sim, eu acho uma boa idéia. – Carlos concordou.
Katie deu ombros.
— Eu não ando muito no clima para festas, garotos... – falou, meio desanimada.
— Hey, é a primeira vez que você faz 17 anos, não podemos deixar passar sem fazer nada. – falei. – Você pode chamar seus amigos, nós podemos fazer uma festa na piscina.
— Estamos em novembro, James. É quase inverno. – ela riu.
— Detalhes. Uma festa no telhado, então.
— Sim. Podemos fazer uma festa no telhado! – Os olhos de Carlos brilharam. – Por favor, Katie.
— Eu nem tenho tantos amigos assim. – ela falou. – Quer dizer, eu tenho a Liz.
— E o namorado dela. E o Alex. – listei. – Já são três.
Katie e Logan trocaram olhares rapidamente e ele fez um movimento encorajando-a. Ela suspirou.
— Certo. Vamos fazer uma festa então. – concordou. Carlos comemorou.
— Legal.

Nós ficamos conversando e combinando coisas por mais algum tempo, até que – contra a minha vontade – Katie foi dormir.
Passei pelo quarto de Kendall a caminho do meu quarto. Até pensei em tentar falar com ele de novo, mas a julgar pelo volume do som, acho que ele não estava interessado.

Acordei bem cedo no dia seguinte e sai antes mesmo de tomar café.
Desde quando minha vida tinha se tornado essa bagunça? De duas coisas eu sempre tivera certeza na vida: a primeira era que, não importa a situação, eu sempre poderia contar com meus amigos. Kendall sempre esteve ali pra mim, mesmo nos momentos mais complicados, e agora eu estava receoso de ficar no mesmo ambiente que ele. Meu melhor amigo me odeia, não sei se existe sensação pior do que essa.
A outra coisa que eu tinha certeza na vida é que... Ok, sem risos: eu sempre tive certeza de que nunca me apaixonaria. Borboletas no estomago, joelhos fracos, essas coisas nunca foram pra mim. E agora, quem diria? Eu estava perdidamente apaixonado, do tipo de fala coisas como “perdidamente apaixonado” e nem se sente piegas por isso. Eu tinha achado a melhor garota do mundo pra mim, e ironicamente, ela estava ali durante a minha vida inteira.
Entende o meu drama? Não há melhor coisa no mundo do que a sensação de estar apaixonado, mas ao mesmo tempo, eu não consigo me sentir completamente feliz porque meu melhor amigo me odeia. “Você não pode ter tudo”, não é o que dizem?

Eu dirigi até meu lugar favorito na cidade. Lá em cima, onde eu tinha levado Katie na primeira vez que eu a levei para sair “como um encontro”. O vento frio cortava um pouco meu rosto enquanto eu sorria debilmente lembrando daquela noite, quando eu pedi para que ela não saísse correndo, logo antes de beijá-la. Eu estava apavorado. Eu nunca me sentira daquela forma com nenhuma outra. Eu nunca levei outra garota lá, aquele era meu local secreto, nem os garotos conheciam, mas eu o mostrei á Katie sem problemas. Eu não tinha problemas em deixar Katie entrar no meu mundo, eu sabia que ela me entenderia.
Eu queria que Kendall pudesse entender isso. Entender que o que eu sinto pela Katie é de verdade. Eu entendo que ele tenha medo por ela, eu sei muito bem como eu tratava as garotas, mas nenhuma daquelas garotas era Katie. Nenhuma daquelas garotas jamais fez com que eu sentisse as coisas que eu sinto com a Katie.

Se eu achasse que tinha alguma forma de escapar da bronca que eu levaria de Gustavo teria ficado por ali pelo resto do dia, mas eu sabia que quanto mais eu demorasse, pior seria, então assim que o horário já era mais apropriado, voltei para o carro e dirigi até a gravadora. Logo antes de chegar, senti meu celular vibrando. Era um sms da Katie: “Achei que ia te ver antes de ir pra escola. Você realmente voltou ou eu estava sonhando?” . Eu sorri com isso. Aquela garota era realmente muito fofa. Respondi com um pequeno pedido de desculpas e me virei para entrar.
— JAMES. – Ouvi a voz de Kelly gritando assim que cheguei. Droga.
— Oi, Kelly. Sempre bom te ver. – fingi animação vendo-a se aproximar de mim em passos rápidos no seu salto alto.
— Sem gracinhas. – ela falou, me segurando pela camisa e me levando para o elevador.
— Eu deveria ter pegado o capacete do Carlos emprestado. – falei.
— Tem razão. – ela concordou com a cara séria, mas logo depois deu um sorriso quase imperceptível. – É bom te ver também. – Eu sorri pra ela, agradecendo. – Foi bom te conhecer. — Falou em tom solene como se eu estivesse indo para a guerra, assim que a porta do elevador voltou a abrir na porta do escritório de Gustavo.
Respirei fundo e abri.
— Bom dia chefinho, queria me ver? – falei com a voz mais alegre que consegui. Eu quase senti o olhar dele me cortando em pedacinhos e colocando fogo.
— Senta. – mandou, desviando o olhar de mim para a cadeira em sua frente, onde eu me sentei imediatamente.
Ele virou a tela do seu computador para que eu pudesse ver o que ela mostrava. Meu coração parou momentaneamente. “GAROTA BIG TIME”, era a manchete. E várias – pelo menos cinco – fotos minhas com Katie – dessa vez facilmente reconhecível – provavelmente tiradas ontem.
— E-eu... – tentei começar, mas ele fez sinal para que eu esperasse.

- Tem mais. – ele mostrou uma pilha de revistas. – Eu posso ver você beijando a irmã menor de idade do seu companheiro de banda de vários ângulos, se eu quiser.
Eu me encolhi um pouco na cadeira.
— Você não tem a menor noção da confusão que isso está causando, tem? – ele começou a falar mais alto e eu me encolhi mais um pouco.
— Pode acreditar que eu tenho. – tentei argumentar.
— Katie é menor de idade. As mães das suas fãs não querem ver vocês se agarrando com garotas da idade das filhas delas. – ele começou a listar. – Katie mora com vocês. As mães das suas fãs não querem imaginar o que vocês fazem durante as noites.
— A gente não faz nad... – comecei automaticamente, mas ele em cortou.
— Eu também não quero saber o que vocês fazem nas suas noites. – falou. Eu voltei a me encolher. – KATIE? James, de todas as garotas desse mundo, Katie? VOCÊ TEM COELHINHAS DA PLAYBOY NA SUA LISTA DE CONTATOS DO TELEFONE, PORQUE NÃO LIGA PRA UMA DELAS?
— Tudo bem para as mães das minhas fãs se eu namorar uma atriz pornô? – estranhei e ele voltou a me fuzilar com o olhar.
— Se você namorasse uma atriz pornô você não seria notícia. – ele explicou.
Eu ia tentar dizer alguma coisa, mas ele voltou a me interromper.
— James, você sabe por que vocês fazem sucesso? – ele perguntou, se levantando e andando em volta de sua mesa.
— Porque nós cantamos e dançamos bem? – tentei.
— Não, isso qualquer um aprende. – ele respondeu.
— Porque nós somos bonitos? – tentei de novo. Gustavo riu como se eu tivesse contado uma grande piada.
— Não.
Eu fiquei sem respostas, fazendo Gustavo rolar os olhos como quem diz “tenho que explicar tudo aqui?”

- Vocês fazem sucesso porque vocês são quatro amigos que fazem o que gostam. Entendeu? AMIGOS. Agora, se eu não me engano, esse corte no seu rosto foi feito pelo Kendall. E pelo que o Logan me informou, você saiu da cidade porque vocês dois não conseguiriam ficar no mesmo apartamento por um dia. VOCÊ ESTÁ ME ENTENDENDO? Você conseguiu arruinar a imagem de bom moço que eu tenho tão cuidadosamente pintado para vocês se agarrando com a irmã – menor de idade e colega de quarto — do seu amigo, e agora, nem mais “melhores amigos” eu posso dizer que vocês são. Bandas de quatro garotos bonitinhos que cantam e dançam existem em cada esquina, James.
Eu ia perguntar o que ele estava querendo dizer com aquilo quando ouvimos uma batida na porta.
— Você chamou, Gustav... Ah. – Kendall chegou, fechando a cara ao me ver ali.
— Senta. – Gustavo falou no mesmo tom que falou pra mim. Ele sentou-se na cadeira ao meu lado. – Eu consigo lidar com as revistas de fofoca e mães de adolescentes, mas vocês dois precisam se resolver de uma vez. – ele informou.
Eu e Kendall começamos a falar na mesma hora.
— Ele ta pegando a minha irmã. – Kendall reclamou.
— Ele me bateu. – reclamei de volta.
— Eu não ligo. Eu não me importo. Vocês dois precisam voltar parecer amigos.
— Se ele parasse de ser retardado e convers... – falei.
— Se ele parasse de ser idiota e procurasse alguém da idade dele pra...
— Ela é muito mais madura que você. – garanti.
Antes que Kendall pudesse responder, Gustavo interrompeu.
— CHEGA! Enquanto vocês dois estiverem sendo crianças patéticas, a banda não vai ensaiar, gravar, se apresentar ou fazer qualquer aparição publica. — Nós dois ficamos em silencio, esperando que ele falasse que era brincadeira. — E torçam para que eu não encontre outros garotos melhores que vocês nesse meio tempo. – Gustavo ameaçou.
Era isso então? Ele estava dizendo que a banda podia acabar?
— Agora sumam da minha frente. Os dois!

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