Teen Banshee
3 Material Girl
Notas iniciais
Eu sou uma garota materialista
Porque nós vivemos num mundo materialista
[...]Se não me dão o crédito apropriado
Eu apenas vou embora
Podem implorar e podem contestar
Mas não podem ver a luz
— Material Girl, Madonna
Lydia encarou seu reflexo no espelho com um costumeiro sorriso metido. Estava deslumbrante, com os cabelos loiros acobreados soltos e os olhos verdes acastanhados magnificamente ressaltados. Nada que um pouco de sombra, delineador, loção, pó, batom vermelho rosado, lápis de olho, perfume, ''Material Girl'' da Madonna ao fundo, uma hora de banho na banheira com sais especiais e bons saltos para interromper os problemas sobrenaturais! Ah, e é claro que não podemos esquecer a comprinha na Tiffany's e o passeio nas lojas elegantes do shopping da cidade.
Era o mínimo que Lydia podia fazer depois daquele dia. Ainda tinha pesadelos com a figura das asas de morcego e com as sombras esvoaçantes. Mas, apesar de tudo, o que mais remexia em seu estômago era a culpa. A voz aflita da garota estranha (que esquecera o nome) ainda lhe vinha a mente de vez em quando, assim como o rosto impassível de Richard (o nome dele ela lembrava) e as vozes do passado dele.
Depois de ter enfrentado aquele impasse no 214, ela correra para o quarto e se enfiara na cama, nem se dando ao trabalho de fazer as higienes pessoais ou de pensar em tudo o que havia acontecido. A mãe, é claro, estava preocupada, então Lydia simplesmente mentiu que a fila estava grande. Quer dizer, era meia mentira, já que ela tinha falado num tom irônico. De qualquer jeito, a senhora Martin nunca foi de interrogar muito, então ficou tudo certo.
Ela não dormiu nada naquele dia. Toda vez que fechava os olhos, faces diferentes de monstros diferentes apareciam em sua mente, inclusive a de Peter em sua forma lupina e a de Jackson na de Kanima.
Ela despertou logo nas primeiras aparições do sol, se arrumou rapidamente e acordou a mãe. O motorista do carro de mudanças e seu ajudante já estavam acordados, então partiram imediatamente. Desde tal dia, Lydia não viu nem Richard, nem Hanna.
Demoraram para chegar em Mist Valley, e por todo o caminho os pensamentos se embolavam na cabeça da pequena Banshee como uma teia. Sacrifícios, monstros, salamandras estranhas com camisas idiotas surgindo do nada….
Quando chegaram, a garota agradeceu a Deus. A cidade ficava em uma altura considerável, entre alguns membros de uma cadeia montanhosa da Califórnia. Vista da entrada era linda, com casinhas vitorianas, alguns prédios e muitos pinheiros. Tinha um clima bem frio, e Lydia entendeu a explicação do nome da cidade: uma névoa fina deitava no chão do lugar como um lençol afável.
Felizmente, Mist Valley era bem maior que Beacon Hills. Muitos turistas visitavam a cidade por causa de seu fenômeno e das fontes termais, e migravam bastante em busca de emprego nas indústrias de papel e madeira da região.
A casa das Martin ficava num bairro rico, com outras casas praticamente idênticas. A mãe e os ajudantes da mudança arrumaram a casa em uma semana, um recorde pelo tamanho do âmbito (dois andares, quatro suítes, dois quartos, três salas e uma cozinha enorme).
Em todos os sete dias, Lydia se preocupou somente em ocupar a mente. No quinto ela já tinha visitado praticamente a cidade toda, desde idas aos pubs refinados de Mist Valley a um passeio com Prada no parque — que, diga-se de passagem, estava com síndrome de lugares fechados depois de passar a viagem inteira fechado, no banco de trás do carro.
Mas agora era segunda-feira, o primeiro dia de aula no novo colégio. É claro que Lydia não estava muito animada — apesar de ter decorado praticamente todas as fórmulas para a aula de química nas férias —, mas aquele era o seu último ano, e ela estava próxima de entrar (ou não) para Princeton.
— Lydia, amada, você vai chegar atrasada senão se apressar! — a senhora Martin gritou do andar de baixo.
Lydia revirou os olhos, dando uma última verificada no vestido de poá preto e branco com alcinha que ela comprara na Abercrombie do shopping. Uma luz surgiu instantaneamente na cabeça dela.
Duas mortes no Glen Capri, e mais uma que ocorreria se ela não tivesse ajudado a impedir. ''Três vezes é um padrão'', Stiles lhe dissera. Mas qual era o padrão? Ela devia ter perguntado para a velha com o tubo de traqueostomia, devia ter procurado nos ''livrinhos de exorcismo'' que ficavam nas gavetas dos criados-mudos dos quartos, devia ter feito alguma coisa!
Lydia respirou fundo e engoliu a seco. Ela não fez nada porque sabia que não adiantava fazer qualquer coisa. Tudo aconteceria novamente se o fizesse.
— Com licença, vossa realeza, lamento por interromper seus momentos de auto-apreciação, mas precisamos ir agora! — a senhora Martin disse, abrindo a porta.
Lydia entortou os lábios, pegou a bolsa e saiu junto com a mãe.
— Então, como está se sentindo, amada? — Estavam paradas no semáforo. Lydia tentava prestar atenção na névoa fina que cobria o chão ou em qualquer coisa que não fosse seus pensamentos.
— Seu sotaque britânico falso me entristece — ela respondeu, mal-humorada.
— Sinto muito, pensava que só te irritasse. Vou parar de usá-lo. — Lydia nem precisava olhar para a mãe para saber que ela estava sorrindo.
Seguiram caladas por todo o caminho até o colégio. Quando chegaram em Mistiness High School, Lydia reparou que era um colégio incrivelmente parecido com o antigo em Beacon Hills.
— Previsível! — ela murmurou a si mesma. — Bem-vinda a Califórnia, baby!.
A menina deixou se encostar no banco do carro antes de ter que encarar sua nova vida de adolescente com N maiúsculo de Normal.
— Você não está bem, não é? — a senhora Martin perguntou, com a voz doce.
— Não é nada, só TPM. ''Aqueles dias'' nunca são fáceis para mim. — Ela suspirou. É claro que o sentido de ''aqueles dias'' eram outros para ela.
— Uau, realmente precisamos de um pé de coelho — brincou a mãe. A mulher se moveu e lhe deu um abraço. Lydia quase pulou de susto. A senhora Martin nunca foi de ter contato físico com ela. — Boa sorte, filha! Vai ficar tudo bem, certo?
— Obrigada — Lydia sorriu, com uma estranha e súbita sensação de tranquilidade.
— De nada. Agora vai! Sua TPM está me contagiando! — ela exclamou, em tom de brincadeira.
Lydia ficou vendo o carro da mãe até o limite de sua visão, por entre os pinheiros e a névoa fina. O céu tinha uma cor branca acinzentada, o que explicava aquele frio intenso. A garota praguejou por não ter ido com a jaqueta da Colcci.
Ela andou por entre os carros estacionados até chegar na escadaria que levava à entrada do colégio. Subiu rapidamente, com a bolsa sacolejando e os sapatos pipitu batucando o chão. Como sempre, Lydia não se surpreendeu com o que viu: um colégio cheio de pessoas sonolentas, cafonas e liberadoras excessivas de hormônios.
Ela tirou a folha com as usuais e chatas informações do colégio. Sua sala era a décima, carteira número catorze, blá, blá, blá. Coerção. Pura coerção.
Mas, então, Lydia parou de repente. Seu armário era o 201. A boa sensação que sentia foi sugada pelo medo como um espirador invisível, e ela sentiu frio. Frio de pavor.
Ficou parada por um momento, paralisada, até que lembrou onde estava: parada no meio do corredor de armários. Parada em frente ao 201.
Tudo dentro dela se remexeu no mesmo instante, impulsionando-a para trás sem permissão. Ela ficou por um tempo daquele jeito, até que voltou a si. Lydia olhou de um lado para o outro. Alguns adolescentes feios a encaravam.
Ela empinou o queixo e foi até seu armário, tentando respirar fundo enquanto via a folha. Mas foi em vão.
A senha de seu armário também era 201.
— Lydia!
A Banshee soltou uma exclamação. Ao seu lado, com uma camisa grande com recorte torto que dizia ''I'm not a Princess, i'm a Khaleesi'', uma touca de lã cor de caca e tênis de corrida, estava a salamandra do Glen Capri que ela esquecera o nome, sorrindo bobamente.
Lydia nem se lembrava de que Hanna havia lhe informado que estudava na Mistiness. Se ela se lembrasse, com certeza arranjaria um jeito de convencer a mãe a não tê-la matriculado naquele recinto. Mas não era tarde. Talvez ela tivesse a sorte de aparecer em algum assassinato….
— É bom ver que você está bem! — Hanna falou, pegando as mãos de Lydia de repente. A ruiva encarou-a, ainda assustada, e puxou as mãos rapidamente.
— Não disse que estava bem — falou, com um tom de voz cortante. Ela se virou e abriu o armário, ignorando totalmente a esquisita.
Ignorar era a melhor solução. Talvez se ela ignorasse todos as salamandras, vidências e problemas sobrenaturais, tudo sumiria.
— Sabe, apesar de você ser uma vadia, ainda vejo um pouco de bondade em você.
Lydia fechou o armário com força.
— O que você disse, querida?! — ela perguntou, boquiaberta.
— Eu disse que apesar de você parecer uma vadia, você é do bem! É a mocinha! — Hanna terminou a frase mostrando os bíceps.
Aquilo tudo foi tão repentino e estranho que Lydia não conseguiu se segurar. Ela piscou rapidamente, crispando a boca.
— Preste bem atenção, querida. Apesar de você ser uma salamandra que não se veste bem e que tem Síndrome de Peter Pan, recomendo, realmente, que procure um psicólogo, faça um tratamento e depois coloque na sua cabeça: não existem mais mocinhos! — E dizendo isso ela saiu desfilando pelo corredor, sem nem olhar para a menina.
Lydia sentou-se na cadeira do meio, longe das janelas, onde não poderia se distrair olhando o céu insalubre lá fora. Aquela sensação ruim ainda girava em suas entranhas, cortava seu raciocínio e a escravizava. Ela estava tão presa que nem cogitou comentários maldosos para as paredes bege claras, ou para as carteiras de madeira marrom escuras lascadas, ou até mesmo para o nerd com óculos fundo de garrafa sentado à sua direita.
Ela tirou a apostila de Matemática e tentou se concentrar em álgebra. Até que parou subitamente. O número 201 estava em um dos exercícios.
Ela fechou o livro com força. Quando ergueu os olhos, todos a encaravam, inclusive o professor.
Quando aquele velho caquético que tinha cara de buldogue entrara na sala? Como ela não percebera? E o que aquela garota asiática passou no rosto? Pasta de Amendoim?!
— Quando eu desejei um bom dia a vocês, esperava uma resposta igualmente bem—vinda — o velho disse, colocando os óculos. Alguns alunos repreenderam risadinhas debochadas.
Lydia empinou o queixo, tentando recompor a pouca dignidade que perdera.
— Foi o vento — ela disse, e logo depois limpou a garganta para continuar. — Posso ir ao banheiro, professor?
— Vai perder o velho sermão de boas vindas, mas acredito que não esteja em boas condições para ouvi-lo. Pode ir — ele falou, seco, e a classe toda caiu em murmúrios quando ela saiu da sala.
Lydia quase correu entre os corredores vazios. Demorou quase cinco minutos para achar o banheiro feminino, e quando finalmente achou, trancou-se em um dos compartimentos.
— Mantenha a calma, Lydia, mantenha a calma! Pense em Prada, garotos de Los Angeles e sua futura entrada na Princeton! — ela murmurava a si mesma, tentando ignorar a sensação de apavoramento que lhe dominava e o cheiro ruim do vaso sanitário.
A Banshee estava tão desorientada que abriu a porta do compartimento de uma vez e foi direto ao lavatório. Aproveitando que não tinha ninguém no banheiro, ela se olhou delongadamente pelo espelho, tentando controlar os batimentos cardíacos, sua respiração acelerada e seus pensamentos ruins. Vendo a crosta que escondia seu interior, a capa externa que escondia toda a sua infelicidade, ela percebeu que devia ser o que queria ser. Lydia queria voltar a ser normal, e ela conseguiria!
— Oh, meu Deus, isso é Gucci?
Lydia se sobressaltou, levantando a cabeça. Ao seu lado, uma menina loira passava batom, olhando fixamente para seu reflexo. Ela tinha olhos tão castanhos e brilhantes quanto âmbares, uma pele tão sedosa quando veludo e os cabelos caíam em seus ombros como ondas brilhantes.
— É raro achar uma pessoa que saiba combinar Gucci com um ambiente escolar — a garota continuou dizendo, depois de passar o batom. Ela crispou os lábios para espalhar o batom e virou-se para Lydia. — É nova aqui, não é?
— Sim — Lydia respondeu, olhando o vestido evasê num tom palha que marcava bem as voltas curvilíneas da moça. — Esse vestido é da nova estação da Forever 21?!
— Magnífico, não? Meus pais são donos da filial aqui em Mist Valley, e eu consigo um acesso extra às novas roupas. — A menina empinou o queixo e os cabelos se moveram quase como uma coisa viva.
— Alguém que entende de Gucci e que tem uma loja de roupas maravilhosa está no paraíso — Lydia disse.
A garota sorriu e inclinou um pouco a cabeça.
— Você é do exterior? Inglaterra, Holanda, talvez Irlanda?...
Lydia crispou levemente a testa, forçando sua memória. Por que ela nunca se fizera tal pergunta? Talvez isso explicasse o fato de ela ser Banshee, ou algo assim...
Não, espera! Ela não queria saber disso! Não queria! Ela queria ser normal, e ponto final.
— Não.
— Isso é tão inacreditável.... É um feito raro ter alguém que se vista bem em Mist Valley! — a loira disse, virando-se novamente para o espelho. Ela virou sua cabeça suavemente de um lado para o outro, procurando cada imperfeição na maquiagem. Lydia não achou nenhum defeito ali, embora a menina tivesse pegado novamente o rímel e passado nos cílios.
Mais que rapidamente, ela girou nos calcanhares e fechou o objeto, encarando Lydia.
— Pessoas raras como nós merecem privilégios especiais — ela disse. Sua voz era aveludada e calma, e Lydia percebeu que sua voz era encrustada de malignidade. — Hoje chegará a nova coleção de inverno na loja. Se quiser vê-la, pode ir na loja dos meus pais. Eu estarei lá.
— Isso soa muito abusivo e repentino. Além do mais você me parece ser um daqueles demônios do Sobrenatural escondidos em uma jovem popular do segundo ano — a Banshee respondeu sorrindo.
O ato poderia parecer extremamente agressivo e mal-educado, mas Lydia sabia perfeitamente as intenções da garota com aquela afirmação: se devolvesse com uma resposta totalmente venenosa, era uma adversária; se a menina saísse embasbacada dali, era uma boa pessoa que não merecia aquilo; se respondesse alguma coisa rebuscadamente pervertida, provavelmente gostava de mulheres.
Mas para a surpresa de Lydia, ela sorriu e disse:
— Em todas as pessoas há demônios. Algumas conseguem prendê-los, outras não.
Lydia ficou meio embasbacada por um momento, tentando analisar aquilo, enquanto a loira mexia na bolsa pendurada no ombro alvo.
— Este é o cartão super brega da loja dos meus pais. Não se preocupe. Eu carrego um na minha bolsa caso eu precise pegar um táxi. Nunca decoro endereços.
A garota entregou um cartão a Lydia.
— Te espero lá... ahn...
— Lydia.
— Então, te espero lá, Lydia. Tenho que voltar para a aula agora. A sra. Minggles costuma distribuir advertências para quem fica fora da classe por mais de cinco minutos! — ela disse, desfilando para a porta do banheiro logo em seguida.
A Banshee ficou parada por um momento, virou-se para o espelho, deu uma arrumada no cabelo e respirou fundo, tentando controlar os maus presságios que sentia. Talvez devesse ir à tal loja...
Ela pegou o cartão e virou-o. O telefone do estabelecimento começava com 201.
A sensação que estava em seu peito aumentou instantaneamente. As serpentes de medo ficaram atiçadas e ela sentiu tudo girar. Seu corpo foi tomado por algo frio e gelatinoso, e dessa vez ela não conseguiu controlar.
Por toda a escola, por todos os cantos, em cada fresta, foi ouvido o grito de Lydia.
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