Teatrinhos
4 Descoberta
Notas iniciais
Acordei com o barulho do maldito despertador que Miguel me deu (porcaria, eu deveria ter devolvido) e o desliguei rapidamente. Virei para o outro lado e encarei a parede.
Queria que minha vida inteira fosse filmada, mesmo que os atores esqueçam as falas, mesmo que eles não sigam o roteiro, mesmo que tenha erros de gravação. Pelo menos assim, veria os melhores momentos sempre que eu quisesse
– Primeiro aniversário bom... — disse e sorri
Meu telefone começou a tocar, logo peguei e atendi.
– Alô? — perguntei com uma voz sonolenta e me levantando com cuidado para o fio do bocal não puxar o aparelho
– Oi minha velhinha! Minha menininha linda!
Vocês tem 5 segundos pra acertar quem é.
Se você respondeu minha mãe escandalosa Alma Rey, você acertou.
– Desculpa, eu não liguei ontem, perdão meu bebê!
– Ok, tudo bem mamãe – disse
– Happy Birthday minha filha! Feliz Aniversário!
– Obrigada mãezinha! — disse
– De nada, Roberta, meu presente vai chegar aí depois, ok? Ai, eu te amo tanto! Quantos anos tem agora mesmo? 20 aninhos! — minha mãe disse e afastei o bocal do ouvido
– É mãezinha eu sei. Eu estou atrasada pra aula, tchau!
– Tchau meu bebê!
Coloquei o telefone no gancho e suspirei.
Outra conversa comum de mãe e filha!
Logo, meus pensamentos sobre minha mãe foram afastados quando me lembrei de novo da noite passada.
– Ai, Diego... — disse
Em uma noite (na verdade, menos que isso) ele já tinha me feito suspirar. Lewis tinha demorado mais ou menos uns seis meses.
Opa opa opa. Pare de comparação.
É horrível quando você vê uma alguém comparando as pessoas não é? Todos são diferentes, por mais que tenham algumas coisas em comum, ninguém é idêntico. Por isso é idiota a comparação.
Saí do meu quarto e fui para o banheiro. A porta estava fechada.
– Quem está aqui? — perguntei batendo na porta
– É a Mia! — ouço gritar de lá de dentro
– Ok! Anda logo!!! — eu disse
– Já de pé a esta hora? — perguntou Lupita quando me viu – O despertador que Miguel te deu serviu em?
– Sem gracinhas Doutora Guadalupe!
Ela deu um sorriso
– Nem acredito que você ficou fora o resto da festa inteira! — ela disse
– Onde eu estava parecia mais interessante!
– Hmm. E onde a senhorita estava?
– Com o Diego! — eu disse
– Ah, gostou dele né? — Lupita perguntou com um sorriso
– Ele até que é legal. — disse tentando esconder o quanto eu tinha gostado – Bem comum, mas legal.
– Bem comum? Você ficou fora da sua própria festa de aniversário com alguém bem comum? — ela disse incrédula
– Difícil de acreditar? — perguntei arrumando meu café
– Muito! Você detesta pessoas comuns de mais! Ele deve ter feito alguma coisa ou ele tem alguma coisa especial!
– Ele me deu um colar dentro de um kinder ovo. — disse tentando esconder o enorme sorriso que queria dar
– Meu Deus! Tá vendo? Não fui só eu e a Mia que compramos presentes caros! Mas como era o colar?
– É esse aqui – eu disse apontando para o meu pescoço.
– Gostou tanto que resolveu dormir com ele?
– Ha ha ha, que engraçado – eu disse
– E então, como foi?
Comecei a contar da noite passada para Lupita, como ele chegou em mim, como ele foi legal, divertido e como nós começamos a nos conhecer. Enquanto eu dizia como ele era, por mais que eu tentasse, um sorriso brotou devagarzinho nos meus lábios e foi aumentando a cada palavra que eu dizia. De repente, eu já estava com um sorriso de orelha a orelha.
No final, Lupi me disse:
– Você gostou mesmo dele em? Sorriso sincero é aquele que por mais que a gente tente, não dá pra segurar
Então, Mia finalmente saiu do banheiro
– Vai, eu já tomei banho – Lupita disse
– Que horas você acorda? — eu disse me levantando
Ela riu
Entrei no banheiro e tomei meu banho, um banho rápido, pela primeira vez na minha vida.
Eu queria chegar rápido na minha aula de edição, uma das aulas mais chatas do curso. Acho que é a única aula chata do curso, o resto até que dá pra aguentar. Não é como aquele monstro de 7 cabeças que aprendemos na oitava série chamado matemática.
A aula, por incrível que pareça, passou rápido. E logo eu fui para minha aula de produção.
– Hoje é o dia da entrega dos roteiros, todos aqui? — ele perguntou em inglês
Como sempre, a entrega foi em ordem de chamada, então, eu fui uma das últimas. É incrível a quantidade de nomes com A e com C que se pode encontrar.
– Roberta Reverte Rey – o professor chamou meu nome
– É a RRR! — disse em inglês um menino chamado Jeff
– Cala a boca idiota – eu disse
– Sem brigas na aula – o professor disse
– Foi mal – eu me desculpei
– Que não se repita. Escutou Jeff?
– Sim – ele disse
Me levantei e entreguei o roteiro que tinha feito.
Agora, só faltava esperar o resto da aula passar, e eu iria para minha aula de teatro, onde eu encontraria Diego.
Eu estava incrivelmente alegre.
A aula passou rapidamente e fui para a aula de teatro antes mesmo dela ter realmente começado.
– E aí? — ouvi um menino falando com Diego – Como foi?
– Como foi o que? — Diego perguntou
– Como foi com a Roberta?
Eu sorri e ouvi mais atentamente.
– Ah, foi normal. Fico com ela fácil. Ela vai ser como todas as outras. — Diego disse
O que?
Ela vai ser fácil?
Vai ser como todas as outras?
Foi normal?
Aquele estúpido...
– Eu duvido – disse o menino
Isso, duvide mesmo! Porque agora que eu não olho mais pra cara desse tonto
– Quer apostar? — Diego perguntou – Eu aposto duzentos dólares que consigo em menos de um mês
– Apostado – o menino disse
Você vai perder dinheiro e tempo meu querido Dieguinho!
Entrei na sala e apoiei a mão na parede
– Sério mesmo? — perguntei – Uma coisa que eu não sou, é igual. Não acredito que depois de me conhecer você ainda acha que eu vou ser como todas as outras piranhas com as que você fica
– Roberta, não é nada disso que você está pensando – disse Diego
– O quanto você ouviu? — o menino perguntou
– Desde a parte "Como foi?"
– Não é nada do que você está pensando! — repetiu Diego
– Então o que é Diego? Eu ouvi! Você ia apostar pra ficar comigo em menos de um mês! Você é um doente!
– Você não está entendendo! Me... deixa... explicar – ele disse com as mãos na cabeça
– Deu minha hora galerinha – o menino disse e foi embora
– É só um minutinho de silêncio que eu estou pedindo pra você – ele disse – acho que um minuto de seu tempo não seria demais, né?
– Então, vai. Eu quero ouvir sua explicação. Só quero que saiba, que tem 99% de chances que eu não acredite em nenhuma palavra que você disser
– Olha, eu...
– Entrem alunos! — disse o professor Smith entrando na sala, nosso professor de teatro.
– Foi salvo pelo gongo. Mas você ainda vai ter que explicar bem explicadinho isso que eu ouvi.
– Podemos nos encontrar amanhã em algum lugar já que é sábado. Aí eu te explico
– Só não pense que isso é um encontro. Peça meu número para Miguel ou para Giovanni.
– Ok
Aquele estúpido, idiota e tonto! Como ele pode ter me feito suspirar? Como? Eu sou uma burra! Uma cega! Claro que era bom de mais pra ser verdade! Fiz as pazes com meu ex, ganhei presentes, e conheci um cara incrível tudo na mesma noite?
Com certeza, bom de mais pra ser verdade.
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