Tears of sea
3 Cpítulo 3 - Sr. Gilberto
Notas iniciais
Gostava de não ser assim, porque é algo a que não me consigo habituar. As minhas manhãs são horríveis, é complicado de explicar. Sinto pânico todos os dias porque não me lembro de me ter deitado naquela cama. Vejo pessoas que julgo nunca ter visto na vida. Olho-me ao espelho e mesmo assim não consigo ver quem sou. Observo apenas um velho com costas encurvadas, cabelos brancos, bengala na mão, o rosto com rugas e aquele medo estampado nos olhos. Aquele medo é mesmo o pior de tudo, porque tenho a sensação de já o ter visto nalgum lado antes. Torna os meus olhos mais negros e sem brilho, postos duma forma estranha e involuntária que não consigo alterar. Segundo o que me dizem acontece todos os dias. Todos os dias acordo com a mesma cara, com o mesmo pânico. Não sei onde estou, quem eu sou e quem são aquelas pessoas à minha volta. Demora ainda algum tempo para que fique como estou agora. Inicialmente só consigo fazer perguntas porque acordo sem saber nada. Todos aqui são muito pacientes comigo, dão-me comida, lavam-me, passeiam comigo, cuidam bem de mim e são boas pessoas. No final de responderem às minhas perguntas fico mais calmo por saber ao certo o que se passa comigo. Aproveito cada dia como se fosse mais uma vida. A verdade é que não tenho grande coisa para fazer aqui, nem a idade me permite muitas aventuras, já as tive em tempos, apesar de não me lembrar delas. Porém rapidamente consigo fazer amigos: uns senhores que estão no canto da sala a jogar damas e xadrez. Há umas senhoras a ver televisão calmamente, e outros senhores a ler o jornal. Sei que a cada segundo que passa estou mais próximo do fim daquele dia, por assim dizer, daquela vida. Amanhã acordarei de novo com aquela sensação e vou olhar-me ao espelho vendo alguém. Hoje sou um lutador (é o que me chamam as cozinheiras), sei que amanhã serei um pessoa diferente, e no outro dia também, e no a seguir, e sempre até ao fim. Até ao último dia da minha existência. Só espero todos os dias acordar pelo menos continuando lutador e nunca perdendo a vontade de viver o resto da minha velhice. Amanhã quero acordar e ler o que acabei de escrever, pois deve ser exaustivo todos os dias me explicarem o mesmo. Gostei de quem fui hoje e espero gostar de quem serei amanhã. Afinal, a vida não me parece ser um labirinto complexo mas sim uma estrada com várias direções.
Sr. Gilberto
Um dos dias da minha vida, 1997
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