Tears of sea
6 Capítulo 6 - Último aperto
Notas iniciais
Estar no calor daqueles braços, no aperto do último abraço. Envolta naquele perfume delicado. Não tenho vontade de respirar outro ar que não seja aquele, tão delicioso, que me acolhe sempre. O tempo parece desmedido agora, mas eu sei que não vai durar para sempre. Toda aquela mistura de lembranças, de carinhos. Pensar que um dia irão acabar para sempre, deixa-me perturbada. Por isso tento não concentrar os meus pensamentos nessa realidade. Recordo-me dos bracinhos pequeninos e mãozinhas ainda de garota que tinha, rindo às gargalhadas pelas cócegas que recebia, pelo aperto daquele amor, pelo peso daqueles braços que me envolviam, e que continuam a envolver-me. Ainda me atacam com cócegas de vez em quando, mas elas já não têm o mesmo efeito, nem a mesma gargalhada de menina. Torna-se estranho agora, porque nesses tempos não tinha medo de perder aquele abraço. Agora é o que mais receio. Receio pelos cabelos grisalhos, pela pele mais descaída do tempo, pelas mãos já com as pegadas da idade. Receio por tanto. Até por mim mesma. É um receio tão grande que se torna insuportável. Simplesmente quero que dure para sempre. Consumo o máximo daquele terno aperto, os últimos segundos. Mas acabou. Agora o vento passa novamente entre nós. Tenho de ir. Entro no carro frio da noite. A lua está bonita hoje. Olho pelo vidro e aceno com todas as minhas forças sorrindo genuinamente, até a perder de vista. Quero chorar um pouquinho. É que já sinto saudades… Poderá ser aquela a minha última visão dela? Dos seus cabelos ao vento acenando, com uma mão enrolando o casaco em si? Daquele amor que mais ninguém me conseguirá transmitir como ela? Espero que não. O rádio canta músicas tristes que aumentam a minha vontade de chorar. Vejo os traços da estrada a passarem pelo vidro de trás e as luzes cada vez mais pequenas. A cada segundo fico mais distante e sinto-me triste por isso. Encosto-me e fecho os olhos. Adormeço e sonho com aquelas mãos que me fazem cócegas. É como se tivesse de novo 5 anos. E agora sinto-me tão feliz. Tão pequenina naquele colinho de amor.
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