Tears
1 É escuro. Frio. Uma morte indolor.
Notas iniciais
Olhou para Sebastian como se aquela fosse a sua autorização para o próximo passo e fechou seus olhos numa prece silenciosa, para que aquilo pudesse ser o mais rápido possível antes que o arrependimento pendesse sob seus ombros.
O demônio se aproximou do jovem e aspirou o máximo de seu cheiro adocicado, antes de finalmente roçar os lábios delicadamente nos dele, para em seguida ouvir o coração do mesmo acelerar.
Ciel sabia que ali era o ponto sem retorno, o seu ponto sem retorno.
Lágrimas desceram dos olhos dele involuntariamente ao sentir os lábios gélidos do demônio aprisionarem os seus. Pensava que com a vingança, ficaria tranquilo e poderia finalmente morrer sem pesares, porém com ela apenas veio apenas um enorme vazio em vez da sensação de justiça.
Por mais que não tenha vivido muitos anos, os que viveu foram o suficiente para apegar-se a coisas banais e jamais admitiria... mas apegou-se a pessoas também.
Podia parecer que ele sempre fora imparcial a tudo, mas não é bem assim. Ele apenas sabia como encobrir muito bem suas emoções, mas jamais deixou de tê-las, afinal Ciel é um humano.
Sebastian ousou olhar para os olhos do menino pelo menos uma última vez antes de sua hora chegar... Tão azuis, tão cheios de vida e completamente marejados de receio. Sorriu carinhosamente e com a ponta dos dedos secou-as. Ciel desviou o olhar.
Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão por todos esses anos
[...]
—Não... hesite... Sebastian... — sussurrou com fraqueza.
—Certamente, minha criança. — A voz do homem foi serena o suficiente para fazer com que o coração impetuoso do jovem se acalmasse. Desta vez, Sebastian não hesitou, selou os lábios mais uma vez e sugou o fôlego do jovem para si com força.
Doía, uma dor agoniante.
Uma expressão de dor estampou o seu rosto enquanto todo o seu fôlego era tomado.
Mas estava satisfeito, apesar de tudo.
Ele havia feito como o prometido, nada mais justo.
Sentiu a força aos poucos deixar seu pequeno corpo, enquanto os olhos do outro estavam brilhando de êxtase, como se aquela fosse a sensação mais prazerosa que experimentava. Quando a dor finalmente se esvaiu, o os olhos de Ciel ficaram vazios e sem foco algum e seu corpo pendeu para frente, sendo delicadamente aparado pelo demônio. Sebastian fitou o corpo inerte em seus braços e foi como se nada daquela sensação de satisfação de outrora importasse.
Se deu conta da grande besteira que havia feito.
Sorriu amargamente e agarrou o corpo do menino ao seu, sentindo uma enorme angustia abalar seu coração e pela primeira vez na eternidade se permitiu chorar, chorar de verdade. As lágrimas pingavam no rosto do garoto que deixava a vida em seus braços, sentia o calor deixar o corpo do pequeno, e a pele esfriar, as batidas fracas do coração cada vez mais vagarosas... até por fim se darem por encerradas.
Ciel havia deixado o mundo.
Depois de algumas horas enterrou o corpinho inerte de seu mestre, num lindo lugar, onde havia um belo campo de rosas brancas e a noite era azul... como os seus olhos.
Século XXI
Ainda visitava aquele mesmo local...
Ainda passava pelas ruínas que um dia fora a bela mansão do conde Phantomhive...
Ainda preparava o delicioso bolo de chocolate, todo 14 de dezembro.
Sempre que se lembrava do menino, sentia como se uma parte de si houvesse morrido junto com ele naquele dia.
Jamais encontrara outra alma tão boa como a de Ciel, jamais se alimentara, desde aquele dia.
Estava fraco.
Morrendo.
Mas jamais permitiria que outra alma frívola desonrasse a alma cálida do pequeno conde.
Eu tentei tanto dizer a mim mesmo que você se foi
Mas embora você ainda esteja comigo
Eu tenho estado sozinho todo esse tempo
FIM
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