Teacher's Pet

3 Ressurreição


Notas iniciais
Oi, pessoal! A quem estiver lendo: espero que estejam curtindo e agradeço a participação. Boa leitura. ♡

A classe de literatura fedia ao humor cadavérico dos alunos abatidos pela manhã de Port Angeles. Diante do cenário preguiçoso de uma sala recém-chegada do recesso de inverno, prossegui o olhar às minhas pernas relaxadas sobre o assento da cadeira. Pernas semelhantes às faces dos pupilos: mórbidas. Pernas suplicantes por algum vigor. Sol, quem sabe. Mar, talvez. Alguma textura que entrasse pelos dedos dos pés e curvasse os dorsos de ambos, revitalizando, por conseguinte, o movimento saltitante das panturrilhas, combustível para a contração das coxas, realizador do arrepio que eriçasse os pelos; algo que ressuscitasse todos os meus acentos, dos agudos aos circunflexos. Era exaustante constatar que tudo que eu tinha, ao fim do devaneio, era aquela cadeira, fria e dura, marcando a pele das pernas sob o tecido da calça. Que poética imagem do maior medo humano: a derrota.

— Oi, professor.

— Olá — respondi à voz púbere que me lançou o primeiro cumprimento formal do dia. Levei meus olhos até o autor da saudação: um rapaz alto de cabelos bagunçados e rosto branco limpo, tipicamente adolescente. Um membro do clube de teatro, eu diria.

— A Sra. Young me pediu para entregar isso a você — ele deixou um envelope amarelo sobre a mesa.

— Obrigado.

— Meu nome é Alexey Montgomery, por sinal — sorri diante da nova informação. Sinalizei com o dedo indicador para que ele se aproximasse e, num sussurro, segredei-lhe:

— Matthew Burke. Não conte a ninguém, é um spoiler do início da aula.

— Tudo bem.

O desinteresse poderia entrar no compartimento da normalidade daquele grupo de jovens, visto que nem entre si pareciam conseguir manter um diálogo. Fosse ou não consequência das semanas de férias garantidas aos estudantes, eu decidi ignorar tal abatimento. Levantei-me da cadeira, antes minha maior acolhedora daquela manhã, pondo-me ao centro da classe, estrutura que outrora considerei essencial ao processo de maturação do indivíduo — àquela triste altura da vida, obtivera outra percepção nos momentos de angústia, talvez tão adolescente quanto todos ali, sentados às carteiras: considerava o ambiente escolar sinônimo de uma dura e cruel penitenciária de segurança máxima.

— Bom dia a todos — iniciei o período em um tom forçada e fracassadamente animado.

— Bom dia — o coro de vozes apáticas respondeu minha tentativa de primeiro contato.

— Meu nome é Matthew Burke e, como todos devem saber, ministrarei as aulas de literatura enquanto a Srta. Rodriguez estiver impossibilitada de realizar tal tarefa — afrouxei os dedos fortemente apegados ao pedaço de giz branco que eu apanhara assim que entrara na sala. Ao posicioná-lo entre as pontas do indicador e polegar, risquei o quadro-negro já gasto e esbranquiçado, dando forma às palavras que me introduziam como novo professor da turma: “Sr. Burke, literatura”.

O som perturbador de solas de sapato derrapando contra o piso epóxi do corredor chegou ao interior do amplo ambiente no qual eu iniciava minha apresentação. Meus lábios secos entreabertos receberam água da garrafa que eu acabara de pegar sobre minha mesa, enquanto aguardava o pedido desesperado de um aluno atrasado. Era óbvio que o barulho irritante cada vez mais próximo era derivado da pressa de um adolescente irresponsável, possivelmente aquele que sempre chegaria longos minutos após o horário. Eu já estava acostumado, depois de muitos anos de magistério, a episódios como aquele. O que eu não estava acostumado, porém, era com aquela imagem nada talhada defronte dos meus olhos cansados; Meredith Giordano, o anjo pálido do início da manhã, apareceu com a mesma força de seus cabelos dourados para arrancar o abatimento daquele cenário, noutro tempo, irreversivelmente ressequido. Entre as coxas finas, segurava os cadernos, assim poderia prender seus fios fracos de cabelo, ato que denunciava seu esforço em tentar disfarçar os sinais de que havia corrido para chegar até ali.

— Mer! — Alexey, o garoto que poderia participar do clube de teatro, sorriu abertamente ao pôr os olhos em Meredith.

— Alex — ela retribuiu o sorriso em igual espontaneidade, contudo, quando voltou sua atenção para mim, ajeitou a postura, posicionado os cadernos frente ao colo. — Desculpe pelo atraso, Sr. Burke.

— Sem problemas por enquanto — garanti e a mandei entrar. — Não repitamos o exemplo da Srta. Giordano. — eu pedi e fechei os olhos com arrependimento ao notar que havia exibido meu conhecimento acerca do sobrenome da garota que eu não deveria conhecer previamente.

Meredith andou em passos largos até uma carteira próxima do Sr. Montgomery, claramente extasiado por vê-la. Projetei em Alexey o que desejei ser: um deslumbrado pela energia pandemônica de Giordano. Quando se sentou, direcionou-se a mim, esperando, assim como os outros alunos, que eu prosseguisse minha fala. Seus olhos claros poderiam ser feridos por sua própria luminosidade, assim como feriam a mim, mesmo que eu não pudesse manifestar a minha dor. Aquela menina… diabolicamente graciosa.

— Eu seguirei o cronograma da escola como previsto, mas gostaria de saber o que vocês estão dispostos a adicionar às aulas — prossegui os dizeres enquanto passeava pela sala. — O que estão lendo?

A sala permaneceu em silêncio. Um fio de esperança tomou-me quando Alexey, o amigo de Meredith, levantou a mão:

— Sr. Montgomery — permiti sua fala.

— Eu estou lendo Fedra, de Racine — ele respondeu e eu pude confirmar minhas suspeitas anteriores:

— É uma peça teatral, certo?

— Sim — Alexey confirmou meio ao som que sua caneta batendo contra a madeira da mesa fazia. — Eu gosto desse tipo de texto.

— Isso é ótimo. — eu caminhei até ele e, consequentemente, vi-me próximo de Meredith. — Alguém além do Sr. Montgomery gostaria de compartilhar sua atual leitura?

O maxilar de Meredith entortou-se diante da minha pergunta e, por isso, seus lábios se abriram, revelando a língua dobrada ao céu da boca — a língua flexível, a língua quase legível, a língua molhada das próximas palavras provavelmente ácidas que ela cuspiria.

— Eu sou Meredith Giordano e estou lendo La maison de la mémoire — a Srta. Giordano revelou não só sua leitura, mas também seu nome, mesmo sabendo que eu já a conhecia. Eu estava enganado ao avaliar seus elementos faciais de maneira tão comum, pois ela tinha algo sobre-humano, definitivamente: uma labareda substituindo a língua, não somente uma língua.

— Eu não reconheço — admiti e me apoiei na ponta de sua mesa.

— É de uma edição francesa de um livro brasileiro — Meredith exibiu seu conhecimento multicultural orgulhosamente. — Meu avô é louco por ela, mas nunca achou em inglês.

— Então você fala francês?

— Não.

— Como lê o livro?

— Eu gosto das palavras, Sr. Burke — ela abriu os dedos sobre a carteira; nos espaços que havia entre eles, espetava a ponta da caneta na superfície sólida que apoiava sua mão. — Então me esforço para entendê-las. As ferramentas tecnológicas são tão errôneas nesses casos… tenho me dedicado a criar minha própria versão de tradução, com um dicionário ao lado.

— Está me dizendo que traduz o livro por conta própria? — questionei-a com certa surpresa. Nem mesmo eu era um fã dos dicionários.

— Pode-se dizer que sim — Meredith piscou de maneira lenta. — É por isso que tenho olheiras tão profundas. — ela moveu os dedos indicadores aos olhos, mostrando as manchas roxas abaixo deles.

— Vamos todos tentar seguir o exemplo dedicado da Srta. Giordano — eu saí de perto dela e voltei ao centro da sala sem olhar para trás.

A resposta de Meredith causou certo burburinho na classe finalmente ressuscitada. Não demorou muito para que o sinal batesse e os alunos se levantassem em bando para seguir até a sala na qual a próxima aula seria ministrada. Apenas Meredith sobrou no local, o que me causou certo estranhamento, principalmente quando veio até mim, visivelmente envergonhada.

— Alexey está me esperando lá fora — ela disse, jogando conversa fora, e eu assenti, apressado para ir embora dali. — Ele está tão ansioso para que você leia o que está aí — Giordano apontou para o envelope presente em minhas mãos. — É uma proposta de interdisciplinariedade entre literatura e teatro. Foi ele quem a apresentou à diretora.

— Eu darei toda minha atenção à proposta assim que possível — dei início à minha saída da sala. Meredith acompanhou meu passo:

— Sim, faça isso, porque seria o máximo — roendo as unhas, ela assegurou. — E eu queria pedir desculpas por hoje de manhã. — quando parou de andar, virei-me para ela, curioso pelo que queria dizer.

— Por quê?

— Bem, eu chamei-o de big boy — Meredith revirou os olhos e vibrou os lábios rosados. — E isso foi estúpido.

— Está tudo bem. Você não sabia sobre meu cargo, Srta. Giordano — eu acenei para ela. — Tenha um bom dia.

Retirei-me da sala e bati de frente com Alexey, pedindo desculpas a ele logo após. Meredith havia me desconcertado com suas referências literárias aguçadas e tentativas frustradas de criar uma conversa totalmente desnecessária — talvez ela estivesse interessada no que havia por baixo da nova figura no corpo docente de Port Angeles High School, mas eu não podia evidenciar a curiosidade que sentia por ela; esta deveria permanecer inatingida das consequências da minha intromissão.

— Então quer dizer que você já é a favorita do novo professor? — eu ouvi a voz de Montgomery a importunar Meredith, que não o respondeu. Continuei a caminhar lentamente, temendo ter que, um dia, admitir para mim mesmo a verdade na afirmação daquele aluno.

Notas finais
Um beijo e até o próximo! Deixem suas impressões.