Te vejo amanhã
4 Capítulo IV
Notas iniciais
“Aprendi que perdoar exige muita prática. Que há muita gente que gosta de mim, mas não consegue expressar isso.”
Percy Jackson
Dois meses de namoro.
Se eu era o cara mais feliz do mundo? Pode se disser que sim. Se eu estava satisfeito com o meu primeiro namoro? Pode se disser que sim. Agora, a questão que realmente importa: Como está sendo namorar Annabeth Chase? Sei lá, mano, só acho que ir na Argélia, pichar uma mesquita mulçumana e depois ser caçado por extremistas islâmicos, era mais fácil que ser o namorado daquela mulher!
Eu não preciso ressaltar aqui todas as qualidades da minha loira. Eu já as citei várias e várias vezes. Mas os defeitos... São vários. Por exemplo: ela é perfeccionista demais e odeia decepções, então tudo o que ela faz tem que ser meticulosamente executado, se algo dá errado, ela me enche o saco o dia inteiro. Ela gosta de falar bastante também, acho que toda mulher gosta na verdade, mas ás vezes ela fala mais do que a minha capacidade de ouvir.
Ela reclama de tudo, de tudo mesmo. Diz que eu sou desorganizado, desajeitado e desleixado. Reclama que não arrumo a casa, e sempre acaba arrumando meu AP pra mim. Reclama que eu não penteado o cabelo, então ela pega um pente e tenta penteá-lo, quando vê que é impossível, desiste, e no dia seguinte reclama de novo. Annabeth odeia a minha falta de organização. Quando ela viu os meus horários de aula ela me olhou como se eu estivesse escrito o assassinato do presidente ali. Então, junto comigo, ela começou a refazer meus horários. O que ocasionou em eu dando muito mais aulas em alguns colégios e ganhando mais dinheiro.
Ela fala da minha alimentação também, nisso eu concordo com ela. Eu só como comida pronta, tipo lasanha, pizza, lanches no Subway ou em fast-foods comuns. Ela diz que eu tenho que dar o exemplo por ser professor de educação física e me alimentar bem. Ela até seria vegetariana se não gostasse tanto de frango. Annabeth também não bebe refrigerante por ter a glicose alta. Resultado: Tô’ sem beber refri há duas semanas. E outro resultado: ela começou a malhar comigo na minha pequena academia subterrânea no prédio. Eu mesmo havia comprado os aparelhos e depois de subornar o Sr D, aquele local era só meu. E pra descansar ela estava deitada nas minhas costas. Só que a infeliz estava dando uma de carrasca, porque eu estava fazendo flexões com ela ali em cima.
–Vamos, Percy, você é muito mole, sabia? –ela me provocou.
– 47. –contei o numero de flexões que já estava fazendo com ela servindo como peso. -Se você não ficar quietinha eu vou te jogar naquela lata de lixo ali.
–Você tem que queimar todas as calorias gordurosas que consome. –ela se remexeu colocando mais peso dela em cima de mim. Eu estava no alto, meus braços doíam e ardiam pelo esforço. E eu estou quase xingando a minha namorada. –E além do mais, você tem que me carregar. Depois dos exercícios que você passou, eu não consigo mexer minhas pernas. Estão muito doloridas.
–48. –disse com o rosto pingando em suor e provavelmente muito vermelho pelo esforço. –Então isso é uma vingança?
–Pode se dizer que sim. –ela respondeu. -49, vamos, só falta uma.
–50. –terminei a contagem e desabei no chão.
Eu estava ofegante, com os braços doidos, mesmo que depois fosse passar, pois já estava acostumado. Annabeth saiu de cima de mim e se deitou ao meu lado. Ela também estava suada, mas apenas um pouco. Ela sorria pra mim. Tirei uns fios de cabelos da franja dela que estavam colados em sua testa e os coloquei atrás da orelha.
Linda. Minha namorada é linda.
–Você é especial. –ela me disse.
–Por ser o único cara forte o suficiente pra te aguentar enquanto faz flexões?
–Você está me chamando de gorda? –ela perguntou fingindo estar ofendida e se deitando em cima de mim. Eu sorria provocador com o rosto a centímetros do dela.
–Talvez só um pouquinho. –eu respondi e recebi um tapa estalado no braço.
A puxei pelos cabelos e a beijei. Tinha um gosto salgado devido ao suor. Annabeth correspondeu, mas depois se desgrudou de mim rapidamente.
–Eca, estamos suados e pegajosos. Como ousa me beijar? –ela fazia uma cara de nojo muito parecida com as das patricinhas que você nas escolas.
–Beijando. Agora nem comece a reclamar. Vamos tomar um banho que eu quero dar um passeio com você. –me levantei rapidamente e comecei a andar.
Olhei para trás e Annabeth estava olhando pro chão. Ela fazia uma careta engraça, que me dava vontade de rir. Ela começou a andar e quase chorou. Sério, ela quase chorou. Eu comecei a gargalhar, não pude evitar.
–Por que você fez isso? –ela gritou indignada. –Que droga, não consigo nem andar. Como eu vou trabalhar na segunda assim?
Andei até a ela e a peguei no colo. Ela ainda fazia cara feia e eu lhe dei um selinho pra ver se a carranca melhorava. Não adiantou, ela continuou brava comigo. Mulheres são estranhas, viu! Eu a carreguei até o elevador e fiquei com ela nos braços todo o trajeto. Ela não era tão pequena assim, não era alta também. Mas de qualquer forma, ela parecia sempre caber perfeitamente nos meus braços. E sempre parecia certo ela ali.
Os vizinhos — velhos e ranzinzas, como já citado – nos olhavam estranho quando passamos no corredor. Annabeth bufou e bateu no meu peito por causa disso. A coloquei no chão, em frente à porta do apartamento dela. Ela abriu a porta e me olhou suplicando, então eu a carreguei para dentro.
–Não repare a bagunça. –ela disse.
–Isso aqui nunca tá’ bagunçado. –eu lhe disse.
–Vou tomar banho. –ela disse parecendo um pouco envergonhada. Ela tinha dito pra mim que não tinha feito muito sexo na vida e ficava extremamente com vergonha dessas coisas. E anunciar que ia tomar banho a deixava com vergonha, pelo visto. Ainda mais porque nunca toquei nela daquele jeito e não tento forçar nada. –Volte aqui depois que tomar o seu também.
–Sim, senhora. –bati continência. Mesmo quando ela fazia um pedido parecia que ela estava mandando. Ela sorriu pra mim. –Não esquece que vamos sair depois. Já volto.
Fui pro meu AP e tomei um banho demorado. Até cheguei a cantar um pouco no chuveiro. E a praga do xampu entrou no meu olho, o que ocasionou em muitos palavrões. Saí do Box do chuveiro e enrolei uma toalha na cintura. Fiquei olhando para o espelho decidindo se fazia a barba ou não. Eu gostava tanto dela, tínhamos uma história tão bonita juntos. Mas decidi fazê-la, recebo beijos de Annabeth no rosto quando ela não está ali e isso vale o sacrifício. Um dia eu pergunto a ela se ela prefere com ou sem barba. Troquei de roupa rapidamente colocando minha jaqueta de couro e um pouco de perfume também.
Toquei a campanhia dela. E depois de alguns minutos ela abriu a porta com a mesma careta de antes. Só que agora seus cabelos loiros estavam penteados e presos em um coque e ela tinha um cheirinho muito bom de morango.
–Minhas pernas continuam doendo. –ela reclamou.
Eu a peguei no colo de novo. Caminhei com ela até o sofá e me sentei com ela no meu colo. Eu não tinha segundas intenções e esperava que ela não pensasse besteiras.
–Eu posso te fazer uma massagem pra relaxar os músculos. –disse enquanto fazia carinho na cabeça dela. Ela ficou corada e mordeu o lábio inferior. –Não estou tentando te levar pra cama, Annabeth. Só estou tentando fazer sua dor muscular passar. Tem algum creme de massagem aí?
–No meu guarda roupa, só abrir a primeira porta. –ela gritava porque eu já tinha levantado e ido até lá. – Do lado do espelho!
Entrei no quarto dela. Até que era bonito. Era branco com apenas uma parede vermelha. A Cama de solteiro ficava no meio do quarto, e no canto uma estante com vários livros. Fui ao guarda roupa dela e peguei o creme, era o mesmo que eu usava pra dor muscular. E antes que a minha mente pervertida começasse a procurar calcinhas, eu saí do quarto dela indo em direção a sala.
Ela se deitou no sofá. Eu tirei a minha jaqueta e deixei em um canto. Sentei-me no sofá também, com as pernas dela no meu colo. Passei um pouco do creme nas mãos, era um daqueles refrescantes e minhas mãos ficaram geladas. Ela usava um short bem curto, o que me deu a visão das suas coxas brancas e macias.
–Vai doer. –eu avisei e comecei a massagem.
–Aí. –ela gemeu. –Vai devagar aí.
–Se quiser que a dor passe, a massagem tem que ser assim. –Apertava as coxas dela as deixando vermelhas. Eu me lembrei das aulas de anatomia na faculdade e me concentrei nas áreas em que os músculos estivessem mais doloridos. Ela parou de reclamar depois de um tempo e uma expressão de alivio tomou conta do seu rosto.
–Você é bom nisso. –ela murmurou.
–Nem tanto. –eu fui para a panturrilha dela. –Está melhor?
–Sim. –ela confirmou.
Parei a massagem e ela me olhou como se estivesse se sentindo culpada. Quando nossos olhos se encontraram, ela desviou o olhar do meu.
–O que foi? –perguntei tocando de leve a coxa dela.
–É que eu queria ser aquele tipo de garota pra você. –ela disse baixinho. –Queria poder satisfazer você como uma namorada normal faz. Mas eu não consigo confiar em homens.
–Você está dizendo que se sente mal por não me dar sexo? –perguntei e ela assentiu. –Isso não importa. Se eu estive com você só por causa de sexo já teria tentado antes. E eu não quero que você seja outro tipo de garota. –a puxei para mim fazendo com que ela ficasse no meu colo novamente. Eu a beijei delicadamente. –Quero que você seja você. Chata, que gosta de reclamar, perfeccionista e de temperamento forte. Eu me apaixonei pela Annabeth assim.
Ela suspirou e sorriu de lado pra mim. Ela me beijou de novo, tentando transmitir algo que não sei o que era através do beijo.
–Você é especial. –ela disse a mesma frase que tinha dito algumas horas antes.
–Quer me contar o porquê você é tão receosa assim? –sussurrei a pergunta e a abracei mais um pouco.
–Quero.
Ela sussurrou de volta e tomou fôlego. Ela começou a tentar arrumar meu cabelo como sempre.
–Eu tinha um namorado em São Francisco, o nome dele era Craig Jones. –ela começou a contar. –Ele era incrível. Namorávamos desde o final do colegial. Craig sempre dizia que me amava e sempre me pressionava pra ir pra cama com ele. Ele fazia do jeito certo para me convencer. Dizia que era para demonstrar o amor que sentíamos um pelo o outro. Então eu perdi minha virgindade com ele. E era maravilhoso tudo o que fazíamos. Namoramos por três anos até que descobri que ele me traia todo esse tempo. Fiquei com nojo dele por ter feito isso com as vadias qualquer e depois querer algo comigo. E juntando com os problemas que tive com o meu pai, eu perdi a confiança em homens.
–Você tem o endereço desse Craig? Vou quebrar a cara dele!
–A questão não é essa, Percy. –ela suspirou e escondeu o rosto no meu pescoço. –eu sempre achei que sexo era algo especial, pra se compartilhar com alguém especial. E ele me decepcionou quando se mostrou não ser o cara especial. E eu não sinto necessidade de dar o meu corpo pra qualquer um.
–Você disse que eu era especial. –lembrei.
–E você é. Por que eu confio em você como nunca confiei em ninguém. –ela olhou nos meus olhos arrancando qualquer sanidade deles. –Só não estou pronta para nada agora.
–E eu não vejo necessidade de te apressar.
–Mas você é um cara legal, merece toda a atenção da namorada possível. Você me faz feliz, Percy. –ela parecia querer chorar enquanto falava. –E eu só queria te fazer feliz também.
–Você já me faz feliz. –disse para ela. Eu sorri e fiz cócegas nela para que ela sorrisse também –Não precisa transar comigo pra me proporcionar isso.
Ela me beijou e ficamos trocando beijos por um bom tempo. Claro que eu queria transar com ela até perder as forças. Mas queria que fosse feito do jeito certo. Ela parecia o tipo de pessoa que já passou por problemas demais e eu não quero acrescentar mais um. Fiquei sentindo aquele cheiro de morango enquanto nossas línguas brigavam. Se ela me achava especial, ela não tinha noção do que era pra mim.
Era o tesouro mais valioso que eu encontraria. Era a complicação mais perfeita que eu precisava na minha vida. Era o coração que eu queria que me pertencesse e a pessoa que eu queria que cuidasse no meu. Era o corpo que eu queria que fosse meu.
–Pra mim você não é especial, Annabeth. –eu disse interrompendo nosso beijo. Ela estava ofegante por causa do beijo e seu olhar tinha um pouco de decepção por conta das palavras. Eu logo completei a fala: — Pra mim você é muito mais do que isso.
°°°°°
–Não vou subir nesse treco! –Annabeth bateu o pé no chão, teimosa.
–Você vai sim. –eu disse batendo o pé também. Parecíamos duas crianças raivosas discutindo. –E vai agora!
Depois que tivemos o nosso momento fofo no sofá, a minha linda e irritante namorada (ela dizia que a pessoa irritante era eu, mas isso é mentira, não é, gente?), decidiu estragar todo o clima se negando a ir a Montauk comigo. Tudo bem,vou simplificar para ela não ficar parecendo muito má. O problema de Annabeth não era ir a Montauk comigo, era ir de moto a Montauk comigo.
Eu suspirei, se continuássemos a discutir ela iria acabar ganhando a discussão. Ela sempre ganha a discussão. Que é? Não me julgue por sempre perder, você não sabe o que o beijo daquela mulher faz.
–Annabeth, por favor. –eu segurei as mãos delas e colei nossas testas. –Vamos, é importante pra mim que você suba no BlackJack.
–No Black quem? –ela perguntou e então olhou para a minha moto preta ao nosso lado. Ela sorriu e olhou pra mim com a sua melhor cara de incredulidade. –Você deu um nome para a sua moto?
–É, dei sim. –respondi.
–E a sua moto não é ela, é ele?
–Isso aí.
–Você sabe que isso é violação de gênero, não é? Já que você deu um nome masculino para uma moto e...
–Você vai ou não? –perguntei a interrompendo.
Ela olhou para BlackJack e depois para mim. Ela percebeu que aquilo era realmente importante para mim. Então ela ficou nas pontas dos pés e me deu um beijo rápido.
–Namorar você é um desafio diferente todos os dias. –ela disse e caminhou até a moto.
Eu lhe dei um capacete e a ajudei a colocar. Coloquei o meu também e dei partida na moto para irmos. Pegamos as ruas movimentas de NY, saímos do Brooklyn indo em direção ao centro de Manhattan, infelizmente tínhamos que passar por aquela zona para pegar a estrada para Long Island. Eu sentia Annabeth apertar a minha cintura toda vez que eu cortava um carro. Se ela estava nervosa por achar moto um transporte inseguro, ela estava escondendo bem (percebam a ironia).
Quando estávamos no começo da estrada de Long Island eu disse para ela se levar um instante da moto. Tive que ajudá-la já que ela ainda estava reclamando das pernas doloridas. Abri o banco e coloquei os capacetes no compartimento dali. Annabeth ficou me olhando reprovadora, aposto que ela ia dizer algo como “me leva pra passear em um veiculo sem segurança e ainda quer fazer o passeio sem capacete?”.
Mas antes que ela dissesse algo, eu disse:
–Não comece a reclamar. –eu dizia enquanto ela prendia os cabelos em coque novamente. –É agora que a magia começa.
Subimos na em Blackjack novamente e eu coloquei os meus óculos escuros. O dia estava nublado, mas eu não conseguia enxergar muito bem por causa da claridade. Então, quando ia para aquela estrada reta e plana, eu sempre colocava os óculos escuros. Acelerei e o vento frio daquela tarde de sábado fez os cabelos loiros de Annabeth se soltarem. Ela apertou um pouco mais a minha cintura e deu um beijo do pescoço.
As fazendas na estrada passaram como um borrão para nós. Constantemente Annabeth sussurrava para eu ir devagar, mesmo que eu estive somente a 80 km/h. Eu a ouvi sorrir e tive que sorrir também. Era uma sensação de liberdade maravilhosa, que eu nunca esperei viver com ninguém. No entanto, lá estava ela, dividindo um momento simples e lindo da minha vida comigo.
°°°°°
Annabeth Chase
Percy havia pegado um lençol velho emprestado num bar/pensão a beira da praia. Ele estendeu o lençol e nós nos deitamos ali, na areia da praia. Aproveitando o vento trazido pela maré. Percy era um ótimo namorado, nada convencional, devo acrescentar. Ele não se preocupava em mostrar suas qualidades, e na maioria das vezes eu só via os defeitos. O quanto ele era irritante, o quanto ele não se preocupava com a opinião pública e o quanto ele levava a vida sem ter nada planejado. Eu tinha medo de viver assim e depois algo dar errado, mas o admirava por isso.
Ele era tão feliz e o mais legal é que ele não tinha motivo nenhum pra ser feliz assim. Ao contrário, ele deveria ser uma pessoa amarga, revoltada e de muito mal humor. Mas Percy era o contrário de tudo aquilo, o meu Percy.
–A primeira vez que vim aqui, foi quando levaram todas as crianças do orfanato para um passeio e aqui foi o lugar escolhido. – ele falava com um sorriso singelo no rosto, seus pensamentos pareciam distantes. Minha cabeça estava apoiada em seu peito e quando sua voz grossa se fazia audível, eu sentia todo o meu corpo corresponder às emoções dele. Ele tinha as duas mãos cruzadas atrás da cabeça e continuou a falar: — Foi o único lugar que eu me senti em paz verdadeiramente. Você não sabe o quanto me deixa feliz dividir esse lugar com você.
Dei um beijo nele, era bom beijá-lo, era muito melhor do que todos os poucos garotos que já beijei na vida. Eu mesma finalizei o beijo, mesmo tendo a consciência de que ele queria continuar.
–Vou contar algo pra você que nunca contei a ninguém. –disse olhando naqueles olhos que eram uma imensidão verde.
–Por favor, você não gosta de mulher, não é? –ele perguntou com as sombracelhas franzidas.
Eu bati nele. Ele merecia isso de vez em quando. É cada ideia que ele tira daquela cabeça cheia de algas, viu! Espere um instante... Cabeça de alga até que é um apelido maneiro. Mas voltando para o nosso momento, eu voltei a repousar a cabeça no peito dele e dessa vez ele me abraçou, jogando a sua jaqueta de couro sobre o meu corpo, por causa do frio que fazia com a noite que já estava ficando próxima.
–Pode me contar. –ele disse.
–Eu não vim para Nova York somente para realizar o meu sonho de lançar um livro e nem por causa da faculdade também. Eu vim porque queria ficar longe da minha família. –eu confessei. Percy pareceu ficar incomodado com o que eu disse. Por nunca ter tido uma família, ele sempre prezou demais uma. Para ele família era tudo.
–E porque você queria ficar longe da família? –ele perguntou e colocou o meu cabelo que caia sobre o rosto para trás da orelha. –Você não parece o tipo de garota que sai de casa e nunca mais procura a família por motivos bestas.
–Não, não foi um motivo besta. –eu tomei fôlego e fechei os olhos me aconchegando mais a ele. –Meu pai era um cara muito bom aos olhos do mundo, mas dentro de casa era um monstro. Ele batia muito na minha mãe e eu desde pequena tive que conviver com isso. Você não sabe o quanto é doloroso ficar trancada no seu quarto, com apenas sete anos e agarrada com o Ted, esperando que fique tudo bem com a sua mãe, sendo que era o seu próprio pai que estava a machucando.
Percy levantou a mão como um aluno faz para fazer uma pergunta ao professor.
–Fala, Percy.
–Quem é Ted?
–Meu ursinho de pelúcia. –ele fez uma expressão de alivio. Já disse que ele era muito ciumento? Então, ele é muito ciumento. –Não me diga que você estava com ciúmes? Era apenas um ursinho e eu tinha sete anos!
–Talvez só um pouco. –ele deu de ombros. –Continua, amor.
Eu perdi o fôlego quando ele me chamou assim, mas decidi continuar, porque pelo o que parecia, nem ele mesmo havia percebido. Continuei a minha história:
“Meu pai era um homem bom, pagava as contas, sustentava a casa e me mantinha em uma boa escola. Porém ele achava que todas essas coisas boas que ele fazia lhe davam o direito de poder tratar eu e minha mãe como bem quisesse. E até os meus 12 anos ele não tinha encostado em mim, mas eu estava cansada daquilo e como tinha o gênio muito forte, não conseguia não confrontar o meu pai. Em um jantar ele quis bater em minha mãe simplesmente porque o bife tinha passado do ponto. Eu disse que ele não era homem suficiente por querer bater em uma mulher, minha mãe até tentou me fazer calar a boca, eu não consegui e levei a primeira surra do meu pai.
Durante toda a minha adolescência eu tive que conviver com aquilo. Eu demorava na escola só para não vê-lo e todas as vezes que nos víamos, nós discutíamos. Uma vez eu fui perguntar por que a minha mãe o porque que ela o aturava, ela disse que ele era um homem bom, tirando aqueles defeitos.E ainda me disse para nunca mais falar mal do meu pai novamente. Aquilo foi o fim pra mim, depois do ódio que cultivava pelo o meu pai eu comecei a culpar minha mãe também. Não era justo ela me fazer passar por tudo isso, sentir tanta dor e medo por ela, para ela defendê-lo. Convive naquela casa até os vinte anos, tempo demais pra falar a verdade. Depois do que descobri de Craig, eu não tinha mais chão para pisar e ficar na minha cidade natal já não fazia sentido. Fiz minhas malas, consegui um estágio aqui em NY e me mudei.
Fiquei sabendo que minha mãe se separou do meu pai depois que saí de lá. Acho que meu pai se arrependeu, mas não quero saber mais dele e nem da minha mãe. E eu não sei se um dia serei capaz de perdoar os meus pais.”
Eu chorei muito quando terminei a minha narrativa. Percy me abraçou forte, ele tentou me acalmar fazendo carinho no meu cabelo. Mas eu menti, eu me importava sim com os meus pais, eu queria sim que fossemos uma família normal. E acho que ele percebeu isso e eu chorei ainda mais porque percebi que ele percebeu.
–Isso dói demais. –Percy murmurou.
–O quê? – eu perguntei tentando controlar o choro.
–Te ver chorar. Dói muito. –ele respondeu. –Eu não quero ver isso nunca mais.
–Mas a vida é assim, Percy. –eu consegui me controlar um pouco. –As pessoas machucam as outras toda hora.
–Annabeth, olha pra mim. –ele pediu e me fez olhar nos seus olhos. –As pessoas cometem falhas e às vezes machucam uma as outras sem perceber. Porque somos seres humanos, somos imperfeitos. Mas nem todas as pessoas fazer isso propositalmente. Não é porque o número de pessoas ruins e que fazem coisas ruins seja alto, que as pessoas boas não existem mais. Nem todo mundo vai machucar você. Não porque quer. E eu não digo isso só para você confiar em mim, digo para confiar nas pessoas novamente. Em amigos novamente, nos homens novamente. –ele beijou a minha testa. –Nem todo mundo vai machucar você.
–Eu não conhecia esse seu lado filósofo. –eu disse fazendo nós dois rimos um pouco.
–Nem eu. –ele confessou. –Eu acho que você deveria perdoar os seus pais.
–Como você quer que eu os perdoe? –eu falei indignada. –Meu pai me fez mal a vida inteira e minha mãe simplesmente concordou com as atitudes dele. E aí eu vou e os perdôo assim? Uma vida inteira deles me fazendo mal e em apenas alguns segundos eu os absorvo?
–É assim que funciona o perdão, meu amor. –ele me chamou de novo de “amor”. Eu surto agora ou depois? Depois, ele está filosofando, não seria legal atrapalhá-lo. –Eu não tive família, Annabeth, e você tem uma. Se seus pais se arrependeram mesmo, você deveria perdoá-los. E você finalmente vai poder ter uma família de volta. Sei que parece injusto 20 anos sofrendo e em apenas segundos tudo ser esquecido. Mas magoas só faz mal pra quem guarda. E eu não quero ver você chorando de novo.
Eu pensei nas palavras dele, pensei mesmo, mas sentia que ainda não conseguia trocar nem que fossem poucas palavras com os meus pais. Ele ficou me olhando com aqueles olhos verdes acolhedores. Quem diria que aquele cabeça oca fosse guardar tanta sabedoria, hein? Enfim... Eu acho que o amo. Não tenho certeza, mas ele é diferente dos outros rapazes de quem já gostei. Antes de Craig eu até tive algumas paixões e em todos os casos eu sempre achei que o coração havia me pregado uma peça, por eu sempre me apaixonar pelas pessoas erradas. Mas como eu disse: ele era especial. Eu não só o amava, eu queria amá-lo, foi escolha minha sentir isso.
Quando eu ia beijá-lo, uma onde fria, extremamente fria, molhou-me até a metade das pernas. E o quê o meu namorado lindo fez? Ele fugiu daquela água gélida –é gelada mesmo, ninguém toda banho na praia de Montauk por isso – e me deixou lá com as pernas doloridas do exercício que ele passou para eu fazer. Eu gritei com ele, é claro. Ele riu de mim, é obvio. E depois começou a chover muito forte, somente aí que a desgraça veio me ajudar.
°°°°°
Sabe aquele bar/pensão que eu disse que Percy havia pegado o lençol velho emprestado? Então, ele conhecia o pessoal de lá. Eram bem acolhedores e hoje o estabelecimento estava vazio. Não havia sido aberto. O dono do local, acho que o nome dele era Quíron, deixou a gente ficar ali até que a chuva passasse; que segundo o noticiário iria ser só no dia seguinte.
–Você precisa comprar um carro, Percy. Moto não previne nem da chuva. –eu disse me aconchegando mais a ele. Estamos sentados no chão ainda com o lençol velho sobre nossas pernas. As cadeiras estavam sobre a mesa e Quíron disse que não havia quartos disponíveis no andar de cima. Ficamos no chão do bar mesmo. –Você pode chamá-lo de Blackjack também.
–Vou pensar. –ele me disse.
Ele ficou batucando os dedos no chão. Ele era agitado, percebi que ele não conseguia ficar quieto, como se tivesse hiperatividade. Então ele se levantou e foi até uma maquina de som que tinha ali. Percy me chamou com um gesto de mão e eu fui.
–Escolhe a música. –ele falou.
–Porquê?
–Nós vamos dançar.
Eu não sabia dançar, mas como só tinha eu e ele ali, não neguei. O repertorio era bom, apesar de Percy gostar de Hip-Hop como ele mesmo havia dito, ele tinha escolhido a categoria de rock. Eu escolhi uma música que eu lembrava ser legal, mas não me lembrava como era. Falta de coerência? Sim, estou aprendendo com o Percy.
Quando “I want you” dos Kings of Leon começou a tocar, Percy me embalou em seus braços. Ele conhecia a música, por incrível que pareça, e cantava ela no meu ouvido. Éramos desajeitados, mas nos divertimos tanto que nem me lembro da vergonha de parecer uma vítima de derrame enquanto dançava. Ele me girou, me pegou no colo, me irritou, como sempre. Mas acima de tudo ele me fez feliz. Quando a música terminou, ficamos abraçados. Eu podia sentir o coração descompensado dele bater, também devia ser hiperativo.
–Eu amo você. –ele sussurrou no meu ouvido. –Talvez eu te magoe, te irrite, te decepcione. Sou falho e a pessoa mais imperfeita que existe. Contudo eu te amo. E prometo que vou tentar fazer as minhas qualidades se sobressair a tudo isso. Farei por você por que eu...
–Te amo. –completei o que ele dizia. Nós não estávamos olhando nos olhos um do outro, meu rosto estava escondido no pescoço dele e ele parecia não querer parar de cheirar os meus cabelos. Eu o abracei tão forte que ele até gemeu por conta do aperto. –Eu também te amo. E muito.
Percy tirou o meu rosto delicadamente de onde estava. E me deu um beijo que jamais esquecerei na vida. Acho que mesmo aos 80 anos poderei sentir o gosto dos seus lábios salgados e as carícias que a sua língua fazia na minha. Aquele cheiro de chuva molhando a terra que invadia o local, minhas mãos no cabelo dele que fora molhado pela chuva enquanto ele colocava a moto para dentro, o aperto dos seus braços ao meu redor. Vou me lembrar de tudo isso e vou agradecê-lo eternamente por ter me permitido amá-lo.
Quando nos separamos e eu pensei que Percy fosse dizer algo coerente com o momento, ele diz:
–Com barba ou sem barba?
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