Te amavi

1 Capítulo 1: Eleutheromania


Notas iniciais
Olá,
Gostaria de agradecê-lo por ter parado nesta história e decidido lê-la; isto é, no mínimo, acalentador.
Estava indecisa se postava essa história aqui no Nyah, porque ela já está no Spirit. Mas espero que possa captar a atenção de algum leitor por aqui também.

Essa será uma Shortfic de provavelmente uns 3 capítulos, no máximo.

AVISO DE GATILHO: abordando um transtorno derivado da ansiedade chamado "fobia social/sociofobia"

— O próximo passo, agora, Maurício, seria… — seu olhar é ignoto e ela se mantém firme sobre o que parece querer me entregar. — sair com uma roupa mais leve, que deixe você mais visível. Um dos seus maiores problemas é justamente o medo da percepção que as pessoas terão de você e até mesmo a aversão por ser notado. Com todo progresso no seu quadro e a diminuição das crises, nada mais proporcional que enfrentar esse impedimento.

Olho para o teto colorido em um amarelo gema, voltando a contemplá-la. Desvio meu olhar novamente para a mesa de cedro e a pasta sanfonada cheia de rabiscos que, de alguma maneira, contavam minha história. Sinto o suspiro de Cora ao fundo, um misto de alívio e cansaço.

Sabia o exato motivo de seu trepidar, afinal, ela me acompanhava desde os meus 18 anos, quando finalmente entendi que precisava de ajuda; que meu isolamento não era saudável. Meu caso — segundo o tempo de terapia e o estado em que chegara à clínica — não era simples. Ao contrário, era bem complexo. Sentia uma constante impotência diante de um problema que aos outros simplesmente não existia. Esta ideia muitas vezes me trouxe a conclusão de que estava apartado do mundo. Questionava-me o tempo todo, a cada dia, se a empatia os atingiria algum dia, porque o que a maioria das pessoas sequer imaginava — ou, ao menos, aparentemente não imaginava — é que ter Fobia Social é nada reconfortante.

Assim como a li, ela me entendeu sem que dissesse uma palavra. O sorriso limado já indicava meus sentimentos. E se aquela atitude fosse muito intensa? Expor-me, assim, sem mais nem menos.

— Maurício… Você tem plena capacidade de fazer isso. Eu confio. Olha o progresso que você já teve. — Cora diz, confiante. — Pra um menino que chegou aqui encarando o chão, convencido a não dizer uma única palavra, a gente evoluiu, não? Você até criou uma rede social, entrou em um grupo que era do seu interesse e hoje até interage nos comentários. Não se esqueça, tudo isso fez parte do seu tratamento e você cumpriu plenamente bem. Entretanto, a essência dessa tentativa tem que partir de você.

Talvez valha a pena tentar.

A um pré-adolescente, era dolorido sentir o mundo ruir em minhas mãos sem que uma palavra se raiasse de minha boca. Assim sentia-me na escola: toda vez que passava pelos portões do Colégio Brás Cubas, dava-me zonzeira. Calafrios me acometiam, assim como um pânico inexplicável e incomensurável. Doía. Todavia, a maior dor era a de ter que enfrentar teimosamente aquela sensação durante o resto do dia, não podendo deixar a sala de aula e correr para o meu quarto.

Com o tempo percebi que não eram todas as pessoas que sentiam aquelas emoções ou, na verdade, quase nenhuma delas aparentava senti-las. Já meu apelido… veio como o mais evidente fruto dessa incompreensão. Conforme minhas limitações cresciam, sempre preferia ficar só. Durante todos os recreios, transições de aulas e até mesmo os trabalhos que, por mais custosos fossem, ainda eram mais simples de serem feitos sem que eu precisasse, uma única vez, articular algum raciocínio. Não me entenda mal, não e que eu não os tivesse… Tinha pensamentos até de mais, mas não havia probabilidade de querer expô-los. Meus colegas, ao notarem tal anormalidade, chamavam-me de o menino contra, vocativo que com o tempo reduziu-se a um simples “Do Contra”.

E talvez o mais irônico fosse que eu aprovara a alcunha (por mais que não fosse necessária a minha aprovação para que ela fosse deliberadamente repetida). Denotei-a como verdade. Tomei meus obstáculos como características e me contive em minha condição. Usava o diagnóstico como escudo para me defender dos meus próprios diálogos mentais, os quais me acusavam da minha letargia. É verdade. Até meus 16 anos, não fazia nada para quebrar a condição. O medo dominava os meus mais profundos desejos de acenar, conversar e desenvolver amizades. Ele me paralisava.

Apenas com uma abordagem de Cora e o novo passatempo que descobrira poder mediar minha relação com o mundo — a escrita, bem como a poesia e os textos líricos —, dava passos de formiga para vencer a barreira da fala. Desta forma, até o começo do ensino superior, conseguia ir à padaria, dar um tímido “oi” aos colegas que sentavam ao meu redor e até cheguei a conversar com um garoto também tímido durante uma eletiva comum. Hoje, Xavier e eu somos melhores amigos.

Nossa amizade se desenvolveu a partir de um seminário de Neurociência, no qual me inscrevera por indicação da faculdade. Sentamo-nos lado a lado e sequer nos notamos nos dois primeiros dias. Todavia, ao vislumbrar minhas anotações sobre as palestras, o loiro se aproximou pedindo-me que as passasse a ele, pois perdera a preleção de tarde para noite. Tímido, respondi-lhe que não haveria problemas.

Durante o coffee-break do evento, começamos a conversar na cafeteria.

A princípio, nada sabia além do fato de que aquele loiro de cabelos cacheados e sardas se interessava por jogos de videogame, gibis de ficção científica e que almejava, um dia, ter uma conversa normal com Denise — uma das meninas mais populares e extrovertidas do campus, cujos cabelos ruivos e as maria-chiquinhas características costumavam chamar muita atenção para si —. Reparava costumeiramente em seu caderno de esboços quando, Xaveco, popr vezes sentado ao meu lado, esboçava desenhos da estilista que estava no 5º semestre de Design de moda. Via, sob os papéis, traços firmes das maria chiquinhas e um rosto harmônico retratado com realismo.

Seus talentos não se esconderam conforme nossa comunhão foi se estendendo e eu pude apreciar vários rostos desenhados enquanto o rapaz passeava pela capital paulista. Uma das obras que mais me chamava atenção, era o busto de uma moça que ele vira descansar em uma árvore do Ibirapuera. Seus olhos — conforme a representação do meu amigo — se direcionavam para algum ponto bem longe da realidade, enquanto os cabelos negros e longos lhe escorriam pelo rosto e os lábios brilhosos eram tocados pela própria mão. Aquela imagem que se perpetuava em minha mente correspondia a um átimo que o jovem pudera captar, uma vez que, segundo ele, no instante seguinte a moça saíra da espécie de transe em que se encontrava, como que se tivesse tido uma epifania, voltando a escrever em seu caderno envelhecido. Xavier trazia mágica ao mundo, assim como nossa amizade trouxe-me, como muitas outras coisas em minha vivência, energia para continuar lutando contra a sociofobia. As relações humanas me proporcionavam uma rede de conexões.

O retinir da caneta metálica me trouxe à realidade. Ouvi as reiterativas, porém necessárias recomendações de Cora relativas a como proceder em casos de um colapso, quando o cronômetro tocou, avisando que a uma hora de sessão havia se encerrado. Despedi-me da mulher com um abraço tímido e tratei de me encaminhar ao elevador do prédio corporativo de 35 andares. Aquele ar metropolitano nas decorações de São Paulo ainda faziam-me pensar: tudo padronizado, moderno e industrial, o que se contrastava com os múltiplos cenários e realidades que encontrava quando saía à rua. Descendo ao térreo, esperei no ponto de ônibus, observando as propagandas no painel ao lado do banco e entrei no veículo. Sentando-me à janela, conseguia observar as paisagens que passavam aos meus olhos. Neste momento, ouvia Blonde Redhead, banda que admirava desde mais novo.

23 me deixa reflexivo ao ouvi-la. E reflito quanto à lógica paradoxal de como 1 segundo — para a maioria das pessoas — é nada sendo que, simultaneamente, que seriam as horas, dias e anos senão uma sucessão contínua desse tempo tão curto? Em um segundo, tanta coisa pode acontecer…

O visor do celular marca 19h quando adentro o apartamento alugado e o céu, nublado, trazia toda uma aura úmida que me agradava. Em meu quarto, tiro os livros da faculdade de cima da cama e me deito, encarando fixamente a parede com os quadrinhos que eu mesmo pintei ao decorar o apartamento. O palhaço Koko está sorridente na pintura e nem mesmo parece que o relógio que segura derrete em suas mãos.

— Eu sempre tenho um treco quando entro nesse seu quarto, sabia? — Xaveco aparece. Sempre assustado com a principal pintura exposta na parede, ele já se acostumou a nem bater à porta para entrar. — Então… — Senta-se na poltrona preta. — Só queria avisar que nesse fim de semana eu vou pro rancho dos meus pais, tá? Vou aproveitar que não tenho aula. — Aparentemente, o curso de Engenharia Mecatrônica tinha uma brecha no calendário.

— Aproveita pra pescar um pouco. — Sorrio com poucas palavras, lembrando-me do que ele gosta de fazer.

— Você vai ficar de boa, né? — O fluxo de pensamentos corre solto a todo momento. Sozinho, às vezes é mais difícil ou vice-versa. Mas eu já tenho me acostumado a lidar com isso.

— Claro. Já tenho algumas coisas planejadas também. Talvez ir àquela padaria que a gente costuma frequentar, comer uns cookies. — Sorrio.

— Poxa, traz pra mim. — Ele me responde, pidonho. — E qualquer coisa, não hesite em me chamar no WhatsApp. Sei que você não gosta tanto de conversa à distância, — Ele faz uma expressão cômica. — Aliás, você nem gosta de conversar… — O que as pessoas não imaginam é que às vezes é assim. Às vezes não. De quando em quando, quero conversar, colocar tudo que sinto para fora, mas simplesmente não consigo, o que me causa um certo malogro… Noutras vezes, apenas quero me fechar e ficar inerte ao mundo. — ...mas um momento de crise não lhe dá o direito de escolher.

Ao concordar com ele e transitarmos de assunto para resolver as burocracias da limpeza do apartamento e recebimento de encomendas no feriado, ele sai, fechando a porta, deixando-me pensativo. Planejo ir à alguma papelaria próxima e comprar telas de algodão para passar um de meus desenhos a um quadro. Abro o notebook, deixando como fundo Sweetie Little Jean, do grupo Cage The Elephant.

Ignorava o mar de notificações no canto inferior esquerdo da tela enquanto iniciava o Google Chrome, até que uma atrai minha atenção.

Notificação: Messenger

Uma das minhas favoritas é essa aqui, mas eu não vou saber informar a autoria pra você. Foi um perfil que vi no site em que escrevo.

23

"Twenty three seconds

Vinte três segundos

In you I see a chance

Em você eu vejo uma chance

Twenty three magic

Vinte três magias

If you change the name of love

Se você muda o nome de amor"

não me diga que 1 segundo é um instante ínfimo.

se acumulasse todas as 23 vezes em que deixei escapar o tempo pelas minhas mãos, poderia ter aprendido e praticado ressuscitação.

ele não morreria em minha frente pedindo por ajuda.

não me diga que 1 minuto não é nada, pois se guardasse todos os minutos em que me antecipei, poderia adiar nossa conversa. talvez não fosse uma pessoa tão precipitada e emocional a você.

em 23 segundos muitos fenômenos podem ocorrer.

as pernas de um sapo terão seu último estímulo, decretando sua morte.

em algum lugar do mundo, um casal dará o seu primeiro beijo; dois maníacos chegarão ao orgasmo; um senhor terá seu último suspiro para, então, envolver a morte em seus braços; um tiro passará pelos miolos de um traficante.

em 23 segundos eu procurarei mais razões para não sentir o que sinto por você. nesses 23 segundos, alguma criança terá pesadelos com terríveis monstros que consomem seus sonhos; em 23 segundos, tudo acaba, vivenciaram os dinossauros ao receberem bólides em seus crânios; em 23 segundos, um velho macilento será desenganado; em 23 segundos, não há como não dizer que o (nosso) fim será decretado.

em 23 segundos, eu terei amado você infinitas vezes. mas nenhuma delas terá sido suficiente.

Você conhece esse autor, Do Contra?”

O que mais me intrigava naquela mulher era como ela fazia o que fazia. Suas exclamações pareciam muito bem sugestivas. Estava entre interpretar aquele fenômeno como uma coincidência e despistá-la, ou perguntar-lhe ensandecidamente como ela achara meus textos. Aquela garota não existia. Não sabia se ficaria feliz, assustado ou enraivecido; mas certamente estava surpreso. A página carregara rapidamente e assim, não hesitei em teclar minha maior dúvida naquele momento.

— Como raios você conseguiu achar os meus textos? Eu não os posto em quaisquer grupos e você sabe exatamente o porquê, Mônica.

Eu os publicava em um site desconhecido pela maioria das pessoas ao meu redor, com um nome totalmente aleatório e que, principalmente, não estava associado ao meu perfil no Facebook. O que me incitava a procurar alguma brecha que eventualmente pudera ter deixado em meu perfil.

Meu desejo era simplesmente encontrá-la, entendê-la, sabê-la. Ou tínhamos uma conexão incompreensível, ou ela sabia demasiado. Assimilar o motivo pelo qual nossas conversas rendiam tanto e o porquê de cada diálogo nosso me resultar em uma catarse eram questionamentos para mim. Acima de tudo, porque ao olhar seu delicado rosto na tela, não conseguia esquecê-lo. Os olhos negros e expressivos, o nariz perfeitamente desenhado, as bochechas naturalmente marcadas, os lábios carnudos junto aos dentes frontais destacados, a pele levemente amorenada e os cabelos curtos ligeiramente ondulados. Aquela constelação de detalhes deixava-me perplexo de modo que pensava nela todos os dias.

Notas finais
Se quiserem comentar, serei uma autora ainda mais feliz. Obrigada!
Ainda não comecei a elaboração do segundo capítulo, pois gostaria de opiniões por parte dos leitores :)