Te Quiero, Mon Amour!
2 Je suis à la maison!
Vai lá, Gabriela. Abra os olhos. Levante dessa cadeira. Arraste sua mala pra fora desse avião e realize seu maior sonho de uma vez. Você chegou tão longe, não irá desistir agora, certo? Confie em si mesma! Você consegue, você é capaz. Falta pouco, muito pouco. Vai, menina!
Após ouvir o piloto anunciar que estávamos em Paris, eu repetia consecutivas vezes a ladainha mentalmente, tentando adquirir a determinação necessária para encarar a realidade à minha frente; como se a cada pensamento, minha autocoragem aumentasse um porcento e me deixasse menos tensa; o que era uma inverdade. A intensidade de estar ali era incomparável com qualquer sentimento que eu já tenha sentido antes, algo novo, algo bom, algo imensurável.
Trêmula, olhando para cada área do avião e esperando algum sinal da bravura de uma super-heroína me atingir e forçar-me a me erguer na marra, comecei a indagar-me: por que eu estou sendo tão covarde? Mil ideias vieram à minha mente naquele instante, mas eu fui imediatamente interrompida por uma aeromoça.
— Mademoiselle?
Pisquei múltiplas vezes, a mirando e levantando-me do assento.
— O-ooui…
— Precisa de ajuda para se deslocar? — ela perguntou. Talvez por culpa do medo ou de outra sensação ainda pior, sua fala soou um pouco rápida para mim. Antes que pudesse respondê-la, alguém tocou em meu ombro esquerdo. Logo vi que era um dos alunos do programa do intercâmbio, e em seguida todo o bando apareceu atrás. Senti-me um pouco mais relaxada ao lembrar que estavam ali comigo, como se dissessem: “Você não está só, Gabriela, a Argentina inteira está contigo! Vamos todos sair daqui juntos!”
Paris está lá fora; basta alguns passos e eu a alcançarei, finalmente.
Abri um sorriso para o pessoal, que agradeceu a comissária de bordo e me ajudou a locomover-me até a pista onde o avião havia pousado. Um dos garotos carregou educadamente minha mochila, e enquanto saíamos do avião, fez uma série de perguntas sobre minhas expectativas para o intercâmbio. Hora errada de tentar puxar assunto. Não costumo ignorar as pessoas tão facilmente, mas... ele que me perdoe, porque eu só conseguia pensar em uma coisa: Paris. Paris. Paris! Eu tô em Paris! E pela primeira vez, eu pisei em território internacional. Eu saí do meu país de origem. Eu realizei o maior sonho da minha vida!
— Estamos na França! — Rodrigo, o guia contratado pelo governo argentino para nos acompanhar, congratulou, a mil metros de distância, junto com o eco de sua voz e o pessoal exclamando gritinhos.
Eu era incapaz de mover qualquer músculo de meu corpo, de raciocinar ou de silabar qualquer palavra. Uma das meninas nos filmava desde a saída de Buenos Aires, e certamente capturou inúmeras imagens minhas boquiaberta, atônita com a situação. Diante de todas as ideias possíveis cogitadas por mim a respeito de qual seria minha reação ao encarar a realidade à minha frente, acabou que aconteceu o mais inesperado: eu sequer tive. Permaneci em choque, dentro de um transe que aparentava ser eterno, até Rodrigo me despertar com um estalo na frente do rosto.
— Gabriela? Se sente bem?
Apenas assenti, enquanto ele me guiava até uma das cadeiras do ônibus que nos levaria para o aeroporto. Aspirei fundo o ar pela janela, admirando a vista da pista.
— Sorprendida? Feliz? — Ouvi uma voz feminina repleta de empolgação ao meu lado e senti o banco afundar. Era a menina ruiva que nos gravava e captava cada reação, provavelmente para a família ou quem sabe até criar uma série de vlogs para seu canal do YouTube. Identifiquei seu nome no crachá. Mariana.
— Sí… — Dei um sorriso, por fim, balbuciando alguma palavra em meio a tanta perplexidade e acenei para a câmera.
Através da enorme janela, fitei cada pedacinho do céu, que àquela manhã se mostrava impecável, num azul vistoso. E pensar que a uma hora dessas, eu estaria no cantinho do meu quarto com o caderno, tentando rotear a Internet do vizinho para poder estudar os verbos irregulares da língua francesa... E cá estou eu aqui hoje: no próprio país. Que evolução, hein?
Essa reflexão me fez debulhar em lágrimas. Em um momento ou outro, sabia que isso iria acontecer, e não houve aviso prévio, tampouco pausas. A turma inteirinha olhou para mim, emocionada. Partilhávamos do mesmo sonho, afinal, e sentir o abraço de vários deles assim que chegamos ao aeroporto, era reconfortante.
Céus, até mesmo o chão era lindo aos meus olhos; o aeroporto, enorme e super lotado! Era como se cada olhar me filtrasse por dentro, examinasse minha alma feliz e abismada; eu sequer havia passado pela imigração ainda ou mirado a cidade, e já estava me sentindo tão realizada!
Era como se eu estivesse em casa e eu estava amando sentir a melhor sensação de toda a minha vida.
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