Te Esperando
4 A Bad Speech
Notas iniciais
Cheguei em casa com a cabeça quase explodindo, tanto por causa da bebida como daquele rosto que parecia tão assustado ao olhar pra mim. Regina! Então aquele tinha sido o destino da mulher da minha vida? Rebolar em cima de um balcão de boate pra conseguir alguns trocados?
Sentei no sofá da sala ainda pensando nela. Presumi que sua vida tinha sido bem mais complicada do que eu pensava para que ela se submetesse àquilo. Eu não a julgava justamente por causa disso, mas queria saber o motivo!
Olhei para o relógio e percebi que já eram quase 6 da manhã... Já estava quase na hora de acordar as crianças. Decidi que não iria conseguir dormir com todos aqueles pensamentos me consumindo. Fui até a cozinha, fiz um café bem forte para mim e já comecei a preparar o café da manha dos meus filhos.
As seis e dez subi e acordei os dois. Gretel sempre demorava mais para sair da cama. Ela acha que eu nem desconfio, mas sei muito bem que ela fica no celular até tarde, daí depois não quer acordar. É incrível como ela era idêntica a mim, não só na aparência, mas também nas atitudes.
Diferente de Gretel, Hensel era quietinho, tímido... Parecia um príncipe com aquele cabelo castanho e olhos verdes certamente herdados de mim. Já a menina era minha cópia fiel: atrevida, não aceitava ‘não’ como resposta, curiosa e extrovertida como ninguém.
Os dois desceram, sentaram à mesa comigo e começamos a comer. Tudo ia bem até que Hensel perguntou:
– Mamãe, cadê o papai? – eu congelei no mesmo instante e Gretel olhou para mim com um jeito triste
– Ele teve que sair ontem a noite para uma reunião da empresa e, como era muito longe, ele decidiu dormir fora... – foi a melhor desculpa que eu encontrei e, graças a Deus ele aceitou. Chequei a hora e já eram quase sete horas – Crianças, vamos logo, vocês vão se atrasar.
Rapidamente eles se arrumaram e eu os levei para a escola. Depois disso, uma ideia que não saia da minha cabeça se aflorou tanto que eu decidi botá-la em prática... Dirigi até a frente da boate e estacionei do outro lado da rua para não ser notada.
De dentro do carro eu via algumas mulheres saindo lá de dentro... Provavelmente outras dançarinas do local. Foi então que o rosto que estava nos meus pensamentos apareceu e foi andando pela calçada.
Num impulso, daí do carro, atravessei a rua e discretamente comecei a segui-la por um longo tempo. O caminho que ela estava fazendo era longo, portanto, presumi que não tinha carro. Umas duas ou três vezes ela parou e olhou para trás desconfiada, mas eu era sempre mais rápida e me escondia atrás de alguma pilastra.
O trajeto dela deu num beco com cara de abandono. Vendo uma porta no fim do beco, entendi que ela entraria ali então acelerei um pouco meu passo. Regina abriu a porta e entrou, mas antes que fechasse, eu coloquei meu pé e a impedi.
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– Mas que diab... – A porta parecia ter emperrado, mas quando olhei, um pé estava segurando-a. Ao subir meu olhar encontrei aquele rosto que eu tanto amava, mas que, naquele momento queria evitar – Emma...
– Olá Regina – ela disse um pouco ofegante. Sua expressão era um misto de tristeza e preocupação... Mas para a minha surpresa, ela não parecia nem brava nem decepcionada – Acho que a gente precisa conversar...
– O que você quer? – perguntei em um tom de suplica... Suplica para que ela não me obrigasse a explicar tudo
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– O que eu quero? – ri ironicamente – quero saber o que aconteceu com você! – eu estava preocupada demais e acabei e=levantando o tom da voz. Ela se colocou pra fora, mas não fechou a porta.
– Depois de dezesseis anos Emma? – ela também levantou o tom – Só depois de dezesseis anos você se lembrou de mim? – Ela baixou o olhar e um sorriso cínico veio ao seu rosto – Óbvio... Enquanto eu dançava em cima de balcões de bares você tava subindo no altar não é... – ela tinha visto a minha aliança, mas eu percebi que ela também usava uma.
– Ah! Agora eu sou a culpada pela vidinha que você leva? – eu não tinha nada contra, mas vê-la naquele estado era de cortar o coração – e você também se casou... Provavelmente com algum marmanjo que conheceu – me enfureci e vi sua boca se abrir em sinal de surpresa seguido de uma risada
– Isso aqui? – Ela tirou o anel do dedo e me mostrou – não tá mais reconhecendo a sua primeira aliança, Emma Swan? – assim que ela disse aquilo eu percebi que aquele era o anel igual ao que ela tinha me dado dezesseis anos atrás – Obvio... O seu deve tá no lixo... Aposto que logo que foi embora desencanou de mim e já foi procurar outra pessoa.
– Pelo menos eu não virei prostituta de boteco! – gritei. Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela olhou para baixo. Senti-me péssima pelo que tinha acabado de falar. Quando ia me desculpar uma voz infantil veio de dentro da casa
– Mamãe? – um menino lindo de pijama e com carinha de sono saiu apareceu na porta e Regina parecia ter congelado – Mamãe, quem é essa? – ele perguntou puxando a blusa de Regina. Ela limpou as lágrimas rapidamente e se abaixou para ficar da altura do garoto
– Essa é... – ela olhou para mim – uma amiga da mamãe...
– Por que você ta chorando? – ele perguntou interrompendo-a
– Eu não to chorando, filho... Minha... – ela gaguejou – minha alergia atacou.
– Hmm sei – ele disse – Mamãe... – parecia envergonhado – to com fome... – Regina respirou fundo e eu percebi que ela tentava não chorar de novo.
– Vai lá pra dentro, Henry... A mamãe já vai arranjar algo pra você comer tá? – ela disse e ele balançou a cabeça afirmativamente. Regina beijou a testa do menino e ele entrou correndo. Fiquei um instante em silencio, mas quebrei-o tentando entender:
– Você tem um...
– Filho? – Regina sorriu – Sim... Henry é um presente que Deus me deu mesmo quando eu pensei que ele era uma maldição para mim – seus olhos estavam transbordando – Ele é o motivo de eu acordar todas as manhas... De eu passar fome para poder dar-lhe de comer... De eu... Roubar, às vezes... E... – ela olhou diretamente nos meus olhos e terminou cheia de rancor – de eu ser essa prostituta de boteco...
– Regina me desculp...
– Você só disse a verdade Emma... – ela riu – Por favor, vai emb...
Eu não deixei que ela terminasse, avancei diretamente em sua boca e beijei-a com todo o amor que eu tinha guardado. Ela correspondeu, mas de alguma forma parecia fria ao me beijar. Quando me separei dela suas primeiras palavras depois de um sorriso cínico foram:
– Obrigada pelo ato de caridade! – seu olhar era triste – Eu senti falta do seu beijo... Mas... – ela começou a chorar – Prostituta de boteco, Emma?
– Eu falei sem pensar... – toquei o rosto dela
– São nessas horas que a gente fala a verdade! – ela sorriu amargurada e se afastou – Quem sabe a gente tenha uma chance em outra vida... Você já tem família formada... E eu então? Os anos consumiram toda a minha alegria, toda a minha vontade de viver... Meu destino já esta traçado e consumado, Em...
– Não fala isso, Re...
– É a verdade... Por favor... Vai embora... Me esquece Emma... – ela entrou em casa e fechou a porta.
Instantaneamente eu comecei a chorar e a me xingar... Depois de tudo que ela tinha passado... Tive coragem de chamar ela daquilo? Eu provavelmente não sabia nem da metade da história dela. Um filho... Uma crianca que realmente fez os olhos dela brilharem uma única vez enquanto eu estava ali.
Mas não era o fim! Eu sabia disso... Ela ainda me amava, deixou aquilo bem claro mesmo sem dizer em palavras. Eu prometi pra mim mesma que iria reconquistá-la e a tiraria daquela vida. Ela era a minha felicidade e eu não iria permitir que fosse arrancada de mim mais uma vez.
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