Te Encontrei
4 Coincidência
Notas iniciais
Estamos no carro, em frente a entrada do salão de festas. Estou olhando pela janela do carro a movimentação. Há pessoas, muitas pessoas. Todas fantasiadas.
– Nossa... — Meu pai diz, olhando para um casal que está se pegando perto de uma árvore. — Não me surpreende o fato dessas meninas já estarem grávidas... Enfim. — Ele se vira para nós. — Curtam a festa.
– Você não fica com medo de eu freqüentar festas assim? — Perguntei.
– E por que eu ficaria? Filho, em primeiro lugar, você é homem, e homens não engravidam. Graças a deus. E em segundo lugar, eu cofio em você. Sei que não fará nada de errado. — Ele sorriu, — Agora, podem ir.
Saímos do carro.
–Quer que eu busque vocês depois? — Perguntou meu pai.
– Não precisa, né? — Disse, olhando para Luana.
Luana concordou.
– Muito bem. — Meu pai respondeu. Ele acelerou e foi embora.
Ficamos parados olhando o local por uns segundos. Era um mundo diferente não só para mim, mas para Luana também.
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Eu e Luana temos uma teoria de que o mundo é dividido em dois grupos. As pessoas normais: Aquelas que conseguem se encaixar no mundo sem nenhuma dificuldade, ou seja, as que sabem viver. E, as pessoas não normais: As que são diferente. Não conseguem se encaixar no mundo, ou seja, não sabem viver.
Obviamente eu e Luana somos a ultima categoria. Somos completamente diferentes dos adolescentes da nossa idade: Não curtimos sair, não consumimos bebidas alcoólicas, não temos muitos amigos e, somos virgens.
– Somo do tipo "A era de antigamente". — Dizia Luana, quando o assunto era a nossa virgindade.
Encontrar um adolescente virgem hoje em dia é bastante raro. Tanto pro lado dos meninos, quanto pro lado das meninas. No caso dos homens, ser virgem nessa idade é motivo de zoação. Para as meninas, não há zoação. Meninas que são virgens nessa idade provavelmente acreditam em contos de fadas e estão esperando o cara certo, ou seja, o príncipe encantado.
Luana sempre sonhou com esse negocio de "Contos de fadas" "Amor verdadeiro" "Felizes para sempre" e blablabla... Coisas clichês.
– Vai dizer que você não acredita no amor verdadeiro? — Luana perguntou. Nesse dia estávamos vendo "A culpa é das estrelas". Tinha sido obrigado a ir assistir esse filme mimimi na casa dela.
– Não. — Respondi secamente. — Se você acha que no amor as coisas são como nesse filme, você está se iludindo.
– Ta, eu sei que não vão ser exatamente como no filme. Mas, o amor verdadeiro existe, Eric. — Falou ela. — E, a qualquer momento você vai encontrar alguém, e você vai se apaixonar e dai, vou olhar na sua cara e dizer "HA" — Ela riu. Eu ri também, e continuamos a assistir o filme.
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O salão de festa era enorme. Garotos e garotas se encontravam na pista de dança. Estava tocando "Turn me on" do David Guetta. Todos fantasiados de zumbis, bruxas, fadas, piratas... entre outros.
– Muita gente. — Falei baixinho. O que eu to fazendo aqui?– Acho que todos os alunos das seis escolas devem estar aqui.
– Por isso fizeram a festa nesse salão. Acho que é o maior salão da região. — Luana disse, observando.
Concordei com a cabeça.
– Vem, vamos nos sentar. — Luana disse, me puxando.
Sentamos em uma das mesas do salão. Poucas pessoas estavam sentadas. A grande maioria estava na pista, dançando.
Eu e Luana ficamos por um longo tempo ali, apenas observando. Depois, ficamos comentando sobre os alunos.
– Aquele ali deve ser do Matitano. Ele é bem bonito. No Matitano só tem gente bonita, diferente do nosso colégio. — Falou Luana, perto do meu ouvido. O som estava muito alto. Agora estava tocando "I need your love" Do Calvin Harris. — Aquele ali com certeza é da Coates — Ela disse, apontando disfarçadamente para outro garoto fantasiado de Superman. — Só há nerd naquele lugar. Porem, ele é um nerd até bonitinho. — Ela disse, soltando uma pequena gargalhada que acabou chamando a atenção do garoto. Luana se virou para mim, com vergonha e sorriu.
– Será que ele ouviu? — Ela perguntou.
– Acho que não. — Falei no ouvido dela. — Acho que vou pegar algo para beber. Você quer também?
Ela concordou com a cabeça.
Me levantei e fui até o bar, torcendo para ter alguma bebida sem ser alcoólica.
.... ....
– O que quer brother? — Perguntou o barman. Um cara jovem, aparentava ter uns 23 anos. Alto, de olhos claros e de cabelo loiro estilo militar.
– Dois refrigerante — Respondi.
– Um adolescente pedindo refrigerante em uma festa como essa, onde todo mundo chega até a me subornar pedindo algo alcoólico... — Ele sorriu. — Isso é bem raro de se ver.
– É o como meus pais sempre dizem, não sou todo mundo. — Respondi.
Ele soltou uma pequena gargalhada.
– Fantasia legal a sua. — Ele disse.
– Obrigado. — Respondi secamente. — Tem refrigerante?
– Acho que tenho...Qual o seu nome? — Ele perguntou.
– Bom... Eu pensei que você fosse um barman, amigo, não um repórter.
– Respostas na ponta da língua. — Ele sorriu. — Gosto de pessoas como você.
Ele ficou me olhando por alguns segundos. revirei meus olhos, já estava perdendo a paciência. Então, ele foi até o refrigerador e buscou duas latas de cocas.
– Aí está. — Ele as colocou em cima do balcão.
– Obrigado. — Respondi, saindo.
– Pelo menos pode me dizer seu nome? — Ele perguntou.
Me virei para olhá-lo.
– Eric. Posso ir agora?
Ele sorriu.
– O meu é Edílio. Muito prazer, Eric.
Dei as costas e fui embora.
... ...
– Ta aqui. — coloquei as duas cocas na mesa, e me sentei. — Quase dei um soco naquele barman. — Disse, abrindo a lata de coca.
– Ué, por que? — Luana riu.
– Cara chato, apenas.
– Sei. — Luana me lançou um olhar de "Ficou interessado, não é?".
– Haha. — Tomei um gole de coca.
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Aos meus 15 anos, percebi algo diferente em mim no sentido da minha sexualidade. Achava garotas bonitas, mas com os meninos, os sentimentos eram mais fortes. No 1° ano, um garoto da escola, Felipe, me chamava muita atenção. Era a "Minha paixão platônica", e, a partir daí, comecei a acreditar que eu era gay.
Eu e Luana já estávamos próximos, então, decidi contar para ela sobre a minha sexualidade.
– Então...- Disse ela, entrando no meu quarto. — O que você queria me contar?. — ela se jogou na minha cama. Ela praticamente já se sentia em casa.
– É uma coisa meio que pessoal cara... — Disse, se sentando na minha cama e olhando para baixo.
– Uma coisa relacionada ao Felipe, e a forma como você olha para ele? — Luana disse, olhando pro teto.
– Sim... Espera! — Perguntei, erguendo a cabeça e olhando para ela surpreso. — Como você sabe?
– Ah, por favor, Eric! — Ela revirou os olhos. — Você não tira os olhos dele no intervalo.
– Nossa... — Disse, sem graça. — Será que ele percebeu que eu fico encarando ele de mais. — Perguntei.
– Não só ele, mas a escola inteira, acho. — Ela sorriu. — Bom, ainda bem que você se abriu para mim. — Ela se pôs sentada, sorrindo. — Só não entendo porque demorou tanto para me dizer isso.
– Eu estava com medo. — disse, olhando para baixo.
– Aff. — Luana segurou a minha mão. — Olha para mim. — Ergui a cabeça e olhei para seu rosto. — Você é meu amigo, eric. Vou te aceitar do jeito que você é. Pode contar comigo para tudo, sempre estarei com você. — Ela sorriu, eu sorri também.
– Obrigado, Luana. — Respondi, abraçando-a. — Você é a melhor amiga do mundo.
– Eu sei que sou. — Falou ela. Soltei uma gargalhada, terminando o abraço. — Bom, vamos parar com esse clima mimimi, isso não é a nossa cara.
Concordei com a cabeça, sorrindo.
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Estava tocando "Blame" Do Calvin Harris. Eu e Luana continuávamos na mesa, apenas observando. Percebi que o garoto nerd fantasiado de Superman não tirava os olhos da Luana.
– Tem um ser que não tira os olhos de você. — Falei para Luana.
– Oxe, quem? — Ela perguntou, desentendida.
– O Superman. — Respondi. — Ele está te olhando nesse exato momento.
Luana se virou para olhá-lo. Os olhares dos dois se encontraram. Luana envergonhada desviou o olhar e voltou a olhar para mim, rindo.
– Falei. — Respondi, com um pequeno sorriso. O garoto vem em nossa direção. — Ele ta vindo ai. — Avisei a ela.
– Licença. — Ele diz, assim que chega na nossa mesa. — Tudo bem? — Ele cumprimento Luana com um beijo na bochecha. Ele vira para mim. — E ai, beleza? — Ele estende a mão. Educadamente aperto a mão dele. Ele senta do lado da Luana.
– Eu vou ali no banheiro e já volto. — Falei, me levantando. Olhei para Luana e pisquei.
Claro que eu não ia segurar vela, por isso saí. Fui até o banheiro, que por sinal estava um nojo (Banheiro masculino, né?). Fui "Tirar água do joelho". Em seguida lavei minhas mãos. Me olhei no espelho, passei a mão no meu cabelo e sai do banheiro. Assim que sai, esbarro em alguém. O impacto foi tão forte que eu quase voei para trás.
– Caralho, olha por onde anda! — Falei, com raiva. Era um garoto. Tinha mais ou menos o meu tamanho. Não dava para ver seu rosto, ele estava usando uma mascara do Jason, aquele do filme de terror.
– Desculpa, eu não vi você. — Falou ele. Sua voz era grossa, mas suave de se ouvir. — E outra, foi você que veio para cima de mim então... — Ele levantou as mãos, como se tivesse se rendendo.
– Claro, como se eu tivesse querendo me jogar em cima das pessoas! — Estava decidido a começar uma discussão, mas acabei deixando para lá. — Ta, desculpa. — Disse, me retirando.
– Espera. — Ele segurou levemente meu braço — Eu não conheço você?
– Não sei, não da para te reconhecer com essa mascara, gênio. — Respondi.
– Ah. — Ele soltou uma leve gargalhada. — Verdade. Espera. — Ele tirou a mascara.
Arregalei meus olhos. Ele... O garoto do ônibus...
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Ta, eu admito. Sim, eu já acreditei no "Felizes para sempre".
Existe dois tipos de gays, na minha opinião. Os gaylinhas: Aqueles que nunca querem algo sério. Simplesmente só querem ficar com você por uma noite, e no outro dia, te esquecem. E, os "Gays encantados": Aqueles que são, na verdade, príncipes encantados. Raros de se encontrar.
Eu era do tipo que me apaixonava rapidamente, se iludia rapidamente, e, no final, se decepcionava.
Quando você se decepciona varias vezes no amor, você acaba não acreditando que, algum dia, você encontrará o amor da sua vida. E daí, acaba que nem eu: Achando o amor uma idiotice. Uma perda de tempo.
Meu primeiro "Namorado" foi um garoto que conheci na internet. Ele morava na minha cidade e então, nos decidimos nos encontrar para nos conhecermos melhor. No segundo encontro pedi ele em namoro. Ficamos junto por mais ou menos dois meses namorando escondido. Achei que aquilo, aqueles momentos, seriam para sempre. Mas, acabei me iludindo. Ele terminou. Fiquei mal, claro. Mas, fazer o que, né?
Depois desse dia, decidi que, nunca mais iria me apaixonar.
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Ele ajeitou o cabelo para o lado, com as mão.
– Agora que me lembrei. — Falou ele, batendo em sua testa levemente. — Você é o garoto do ônibus. O garoto do cabelo bagunçado. — Ele sorriu. Um sorriso largo, com umas covinhas nas bochechas.
O garoto do cabelo bagunçado? Ta explicado o porque ele ficou me encarando naquele dia...
– Desculpa ter te encarado naquele dia. — Falou ele. — Eu só achei seu cabelo... Um pouco... Chamativo. — Ele riu.
– Tudo bem. — Disse. — Já estou acostumado em ter pessoas me encarando.
– Meu nome é Gustavo — Ele estendeu a mão.
– Me chamo Eric. — Apertei sua mão. A mão dele era suave, e estava um pouco quente.
– Então... Eric. — Ele sorriu, soltando a minha mão. — O que faz aqui?
– O mesmo que você. — Respondi. — Só que daqui a pouco eu vou embora. É que aqui não é a minha praia.
– Então, por que veio? — Ele perguntou, ainda sorrindo.
– Estou acompanhando a minha amiga. — Respondi.
– Ah, certo. Também estou acompanhando uns amigos. — Ele falou.
– Ah.
Estava tocando "Outside" Do Calvin Harris. Ficamos encarando um ao outro por alguns segundos sem dizer nada. Até que quebrei o silêncio.
– Certo — Olhei para o chão, envergonhado. — Vou indo.
– Espera. — Ele disse. Voltei a olhar para ele. — Você vai assistir o jogo lá no colégio Feliciano?
– Eu estudo lá. — Falei. — Mas não sei se vou assistir o jogo, não curto futebol. — Respondi.
– Ah... — Ele olhou pro chão. — Tudo bem. — Ele voltou a olhar para mim, com um pequeno sorriso. — Então... Foi um prazer te conhecer, Eric.
– Digo o mesmo. — Respondi, com um pequeno sorriso. Em seguida, me retirei.
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