Tasting Life
7 06
Notas iniciais
Correram para um lugar qualquer, longe daquele brinquedo, um pouco mais perto do palco. Podiam ver alguns DJ’s tocando, a iluminação acompanhando o ritmo, e então, Naruto se soltou como todas aquelas pessoas que via nos clipes da TV. Seu corpo foi domado pela música, enquanto ia e vinha, enquanto jogava os cabelos e se mexia, acompanhando o som, as luzes... Minato apenas o observava. Ele estava de olhos fechados, um sorriso discreto no rosto. Dava para ver toda a vontade de viver emanando de seu corpo, de sua alma... Podia ver tudo o que ele sempre quisera, podia ver quem ele realmente era.
Fechou seus olhos, saltando algumas vezes e então entrando no ritmo. Já havia muitas pessoas por ali, o evento estava começando a encher. Aquela música era realmente contagiante. Fazia séculos que não se deixava levar por uma festa, mas ali era diferente, não dava para se conter. Talvez por causa de tanta tecnologia que tornava a música palpável, talvez por estar realmente leve, sem pensar em nada que o entristecesse. Se deixou abrir os olhos e encontrou Naruto observando sua pessoa. Os olhos dele brilhavam tanto! E aquele sorriso... Não, não era usual, de modo algum. Seu garoto não costumava aparentar tantos sentimentos bons, não mesmo. Ele era mais de se conter. E agora, tão expressivo! Se deixou correr até ele, mesmo que poucos passos de distância, abraça-lo, praticamente jogando-o para cima. Era lindo, demais, e agora ria sem pudores. Jamais pensara que uma simples mudança poderia influir tanto em seu padrão de comportamento...
O deixou escorrer por seu corpo, e quando os pés dele tocaram o chão, pediu:
— Podemos ir para o camarote ver o que está tocando lá?
— Podemos sim, vamos beber um pouco também!
Animado, exclamou, puxando-o pela mão. Aquele gramado tão vivo iluminava o cenário noturno quando as luzes batiam contra ele, criando uma atmosfera colorida. E tinham bolhas! Máquinas soltando bolhas perto do palco! A única coisa não muito agradável, era a quantidade de pessoal da imprensa cobrindo o evento.
Quando passaram pelo arco imenso e subiram as escadas, encontraram um cenário que mais parecia o paraíso. Toda a decoração branca dentre luzes azuis, negras e rosas. Aquilo realmente valera à pena. Minato foi até o bar, e de lá, voltou com duas taças de champagne. Era estranho beber essas coisas num evento como aquele, mas quem se importava?
Entregou uma delas ao filho e brindaram, sem motivo aparente, pois não disseram nada. A música era diferente, e o palco montado dentre o espelho d’água era ainda mais colorido, brilhante. O som reverberava dentre tantos tecidos finos e embalava todos os presentes, até mesmo os dois. Seus corpos se moviam, sinuosos, outrora provocando ao nada, exatamente como as músicas incitavam. Ah, deliciosa melodia, acalentava até o gosto ruim da bebida...
XXX
Minato olhou seu relógio. Faltavam poucos minutos para as quatro da manhã. Naruto o havia acompanhado a todos os brinquedos, os DJ’s estavam cada vez melhores... A festa em seu auge. Olhou para o garoto ao seu lado. Ele parecia cansado. O abraçou, beijando o pescoço do mesmo, sentindo o perfume adocicado... Por hora teve certos impulsos de... enfim, não importava. Estava tão ébrio quanto ele, quanto qualquer um naquele lugar. Sentiu os braços ágeis ao redor de seu pescoço.
— Otou-san...
Ele choramingou.
— O que foi?
— Podemos descansar um pouco?
— Claro... Onde quer descansar? Aqui ou no hotel?
— Eu... quero me deitar um pouco. Você se importa?
— Claro que não!
Conversavam abraçados. Minato realmente o chamaria para descansar algumas horas e então voltar. Aquilo só terminaria na próxima noite, e o camarote só exigia as pulseiras holográficas e os documentos.
— Vamos, eu estou um pouco bêbado, só quero me deitar também.
Naruto riu, andando abraçado ao pai.
— Você não está bêbado! Eu estou!
XXX
Embolaram-se ao sair do elevador no décimo andar. Riram baixinho pra não incomodar os outros hóspedes e correram trôpegos, de mãos dadas, até a porta do apartamento. Naruto destrancou e fez o favor de trancar depois de entrarem. Minato logo o puxou para a cama, sob alguns edredons, num tipo de sincronia incrivelmente perfeito. A brisa da noite os fizera tremer um bom bocado. Sem sapatos e enfim sem calças pesadas, deitaram lado a lado, calados por um momento.
— Otou-san... — chamou, quando viu o outro com o braço sobre os olhos — Você está bem?
— Sim, mas ainda me sinto num daqueles brinquedos. — riram, principalmente Naruto, quem constatou estar do mesmo modo — É por isso que não costumo beber.
— Eu também me sinto estranho. Será que vamos passar mal?
— Não, não é pra tanto. Vamos ficar bem, só questão de tempo. Vem cá...
Puxou o garoto, e então se viram deitados de conchinha. Naruto sorriu, fazendo com que o outro o abraçasse com força antes de entregar-se também aos braços de Morfeu.
XXX
Não viram o sol nascer e nem boa parte da manhã. Minato abriu seus olhos, um pouco de dor de cabeça e um Naruto desacordado amarrando seu corpo com o próprio, uma perna entre as suas e um braço sobre seu abdômen. Os cabelos bagunçados praticamente encobriam os olhos fechados e ele ressonava, provavelmente perdido num ou noutro paraíso. Tão lindo... Por um momento se perdeu em divagações. Tentava entender porque era tão difícil vê-lo sorrindo antes de toda essa loucura começar se ele o fazia com tão pouco. Tentava entender também como ele estaria se sentindo. Era difícil saber se estava realmente gostando daquilo tudo ou se era pura educação para que não se sentisse inútil com todos os seus esforços. Era um mistério, mas não podia negar que estava se divertindo.
Pensou em sua esposa. Em onde decerto estaria, com quem, fazendo o que... Doía, ainda, mesmo que pouco. Não muito por sua pessoa, porque já era adulto o bastante para lidar com os golpes da vida, mas por seu garoto. Era estranho. Algum dia ainda tentaria descobrir por que diabos ela o criara daquele modo, como uma marionete, como um cyborg exclusivamente à sua disposição.
O acariciou o rosto e viu os olhinhos se abrindo pouco a pouco. Ele sorriu, espreguiçando-se, aninhando-se contra o outro corpo feito um gato, e logo se assentou. Minato fez o mesmo.
— Acho que perdemos a festa...
— Não, não. Está cedo ainda. Quer voltar pra lá?
— Mas otou-san… Você não está cansado?
— Não mais. Vamos lá, vamos nos arrumar.
Sorrindo, Minato se levantou e deixou-se perder bons minutos se ajeitando com o filho antes de voltar para a festa.
XXX
Já eram cinco da tarde, e finalmente toda aquela bagunça havia se dissipado. Estava com o filho, dando uma volta pela praia, tomando água de coco para repor ao menos um pouco das energias. Haviam combinado de passar a noite na estrada, em busca de qualquer outra cidade ainda mais distante. Naruto dissera que queria ver as florestas que tanto passavam na TV, e como havia uma delas por perto, Minato considerara que seria divertido e proveitoso.
Foi abraçado de súbito pelo garoto. O olhou meio estranhado.
— Eu quero beber..
— Mais? Naruto... você ouviu o que acabou de dizer?
— É, eu ouvi.
Com um sorriso escarninho, Minato parou frente ao filho, afastando-o momentaneamente.
— Não sei se aguenta...
Desafiou.
— Mais do que pode imaginar...
O garoto com uma sobrancelha arqueada, provocou. Minato o tomou pela mão, correndo em direção à um quiosque movimentado. Surf music tocando, várias pessoas... Assentaram-se no balcão.
— O que vai encarar?
Naruto apenas o olhou, vendo que folheava o cardápio.
— Tequila.
Decidido. O outro aceitou a aposta sem relutar, um sorriso estranho no rosto. Não se sentia com tanta adrenalina desde muito tempo.
Alguns instantes e Naruto alcançou sua segunda dose sobre o balcão. Sentia o gosto do sal na boca, e sem medo, virou de uma só vez, chupando o limão em seguida, aparentemente acostumado. Minato acabara de fazer o mesmo. Se entreolharam e o riso foi incontrolável. Poderiam perder horas fazendo aquilo.
— Isso é muito bom!
Disse, bagunçando os próprios cabelos. Alguns garotos do outro lado do balcão o observavam com sorrisos tortos. Alguns também olhavam para Minato. Assim como as garotas. Estavam chamando atenção demais.
— Eu sei, mas acho que a gente deveria se mandar.
— Por quê? — sussurrou pertinho do mais velho, assim como ele fizera — Tem algo errado?
— Não, acho que não... — se afastou — Mas a gente iria passar a noite na estrada, não é mesmo?
— É verdade. Então não vou tomar nem mais meio disso.
Ria enquanto falava, o rosto adoravelmente afogueado. Minato deixou algum dinheiro e o tomou num meio abraço, andando na direção do hotel.
Quando entraram no elevador, ambos se sentiram claustrofóbicos, o mais velho desabotoando a camisa enquanto seus olhos passeavam sobre a imagem do filho, quem mordiscava o lábio inferior e se abanava, errando miseravelmente na tentativa de não deixar que Minato se sentisse tão observado.
Por hora, tinham um longo caminho para trilhar, juntos e sozinhos.
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