Taro e Capa

1 Taro e Capa


Notas iniciais
Depois de muita pesquisa e leitura, terminei essa história. Tem bastante elementos da música Taro da banda Alt-J. Recomendo que ouçam e leiam a letra. * Link do vídeo da música no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=S3fTw_D3l10

Robert Capa por Gerda Taro.

TARO E CAPA

Indochina, Maio de ‘54.

O que se seguiu fora clarão branco e amarelo. O estrondo ensurdecedor lhe inutilizou os ouvidos. Não existia dor.

Nunca falava dela realmente. Costumava evitar, não gostava de resgatar dores passadas e torná-las concretas também no presente. Mas agora, não encontrou motivos para não pensar nela.

Lembrava-se do ano. Um mil novecentos e trinta e quatro. Exilado em Paris, a conhecera por um acaso.

Sorria ao lado da amiga, enquanto ele apontava a câmera para as duas. Enquanto a amiga tinha um olhar tímido e submisso, ela ao lado ostentava o queixo erguido. Seus cabelos tinham a coloração ruiva escura, quase castanho, e tinha o corte bem curto, a pele pálida se esticava com o sorriso com dentes brancos que pareciam refletir a luz do sol. Era o sorriso mais brilhante que já tinha visto em toda a sua existência. As sobrancelhas eram finas sobre os olhos que possuíam a íris castanho-esverdeada. Tinha o nariz levemente proeminente, e as bochechas rosadas.

Bateu a foto. As duas relaxaram da pose que faziam juntas, e a amiga sorriu nervosa para ela. Ela, no entanto, lhe ofereceu um riso aberto.

Enquanto a amiga continuava sentada em frente à mesa do bar, ela se levantou e lhe estendeu a mão. Era uma mão pequena, com dedos finos e possivelmente ágeis.

Ele lhe retribuíra o sorriso, e quando perguntara a ela seu nome, ela lhe respondera:

Gerta.

Ele sorriu ainda mais com o nome que fazia sua língua tremer ao tocar o céu da boca. Lhe dissera também o seu:

Andre.

∆∆

Gerta Pohorylle. Mesmo em seus mais derradeiros momentos não conseguia se livrar de seu fantasma. O fantasma sorridente, pálido e audacioso. Gerta era pequena, sagaz e rápida. Quando Andre lhe ensinara a arte da fotografia, ela logo colocou os aprendizados em prática.

Eram muito parecidos, os dois.

Ele tivera tantas... Como em seus últimos suspiros a única que lhe assombrava a mente era Gerta Pohorylle? Quis rir.

Ela ficaria chateada se lhe ouvisse chamando-a de Gerta na frente dos outros.

“Gerda Taro, é assim que me chamo agora!” Lhe responderia com o nariz arrebitado e um olhar cortante.

Com o tempo, ele também se sentiu incomodado quando o chamavam pelo nome.

Nascera como Andre Friedmann, e morreria como Robert Capa. E ainda se lembrava do dia em que decidiram adotar suas novas identidades.

O dinheiro estava apertado, e os dois perseguidos pela guerra, viviam longe de suas terras de origem. Ele fugido da Hungria, e ela da Alemanha, ambos judeus em busca de um país que os acolhesse. Lembra-se perfeitamente do céu alaranjado do fim de tarde, e da rua vazia abaixo da sacada.

— Nós temos que dar um jeito. – Gerta sussurrou coberta pelos lençóis cor bege que jaziam extremamente bagunçados. Robert, que na época ainda era Andre, não conseguiu deixar de pensar que a cor bege claro do lençol se mesclava perfeitamente à cor da perna pálida de Gerta que estava esticada sobre a cama. Ela mexia o pé lentamente, de modo quase infantil.

Mesmo depois de tudo, ele ainda conseguia se lembrar perfeitamente de seu cheiro, da textura de sua pele e do formato de seu corpo que se escondia nu abaixo dos lençóis.

— Fotografia não dá dinheiro em Paris. – Andre resmungou, deitando-se na cama ao lado de sua Gerta.

— Talvez devamos fazer outra coisa. – Ela lhe respondeu ainda sussurrando. Gerta era assim. Se aproveitava do silêncio para deixar com que sua voz soasse como um sibilo aveludado. Aquele mesmo sibilo que depois de anos eriçava os pelos da nuca de Robert Capa.

— Quer ser garçonete? Limpar a rua?

— Quero ter o que comer, Andre.

Dessa vez ela não sussurrou. E lá estava mais uma vez o olhar fixo, mais cortante do que uma navalha castanho-esverdeada. Suas finas sobrancelhas se juntavam, e seus lábios estavam entreabertos. Queria beijá-los, mas sabia que ela não era assim. Ela lhe repeliria e voltaria com o assunto novamente.

— Será que minhas fotos são tão ordinárias assim? – Andre murmurou com o olhar baixo. Sentiu a mão pequena e gélida de Gerta lhe tocar a face, e ela se sentava na cama, exibindo os pequenos seios e a barriga reta.

— Você sabe muito bem a resposta desta pergunta, Andre. Você é um fotógrafo talentosíssimo. A culpa não é sua... E além do mais, se fosse apenas isso, eu ganharia dinheiro, já que minhas fotos são muito melhores que as suas.

O brilho de zombaria percorreu o rosto de Gerta, e Andre riu de maneira exagerada. Beijou-lhe o topo da testa e se levantou da cama, ainda rindo. Gerta semicerrou os olhos de maneira desafiadora.

— Está zombando com minha cara?

— Me diga você, mon amour.

— Você sabe, todo mestre acaba sendo superado pelo aluno. É o ciclo da vida. Não se sinta ameaçado.

Adorava o jeito que seu lábio superior se encolhia exibindo os dentes brancos e polidos. Era como um animal selvagem pronto para o ataque, com as narinas infladas e os olhos brilhantes. Mas em seguida ao invés de atacar, ela riu. Riu com a boca aberta, exibindo até o fundo de sua garganta.

O seu maior ataque era realmente o seu riso. Ora riso divertido, ora seco e arrogante. Mas naquele momento era de diversão. Ela se levantou da cama e começou a se vestir, primeiro as roupas íntimas e depois um vestido azul-celeste. Andre gargalhou junto dela, e a ajudou fazendo um laço nas costas com a tira do vestido.

— Se ao menos fôssemos americanos... – Ela resmungou enquanto se virava para ele e selava os dois lábios, um no outro. Andre assentiu, desanimado.

— As fotos podem ser boas ou ruins, fotógrafos americanos sempre têm mais prestígio por aqui. – Andre continuava abraçado a ela, segurando em sua cintura.

— Se nós conhecêssemos algum americano, poderíamos pedir o nome dele para se passar por um fotógrafo... Com certeza ganharíamos mais, e ainda dividiríamos com ele.

Ele se lembra que o que se seguiu fora um estalo. Um estalo com a ideia, e com a possibilidade de uma solução confortável.

Andre repassou em sua mente todas as pessoas que conhecia, mas não conhecia nenhum americano. Era bem óbvio que não teria nenhum estrangeiro que se interessasse em visitar a Europa naquele tempo de guerra, principalmente americano.

— Não conheço nenhum. – Andre respirou fundo, largou a cintura de Gerta e se jogou novamente na cama, de barriga para cima. Ela o imitou e se jogou ao lado dele, também de barriga para cima.

Sentiu Gerta rir ao lado dele.

— Sabe o que seria engraçado? – Questionou ela, ainda rindo.

— O quê?

— Um pseudônimo.

Andre riu pelo nariz.

— Um fotógrafo recém-chegado da gloriosa América. Esse cara ganharia muito dinheiro...

— E ninguém saberia que ele na verdade não existe, e é só invenção de dois judeus fotógrafos.

Os dois ostentavam um sorriso maldoso nos lábios. Gerta se aconchegou no peito de Andre, e o observou.

— Ele teria de se chamar Robert. – Ela disse.

— Por quê?

— Ah, todo americano se chama Robert.

Andre ponderou sobre aquilo por um tempo, e concordou silenciosamente.

— E o sobrenome? – Gerta quis saber. A brincadeira se tornava séria, e o brilho zombeteiro há muito já havia abandonado o olhar de Gerta. No fundo de sua mente Andre especulava consigo mesmo o que aconteceria se realmente fizessem aquilo.

O silêncio que se seguiu durou ao que pareceu horas. E Gerta permanecia em silêncio, também absorta em seus próprios pensamentos.

O céu já enegrecia, o vento frio já varria o quarto entrando pela porta da sacada aberta, e os postes já iluminavam a rua com a luz laranja e bruxuleante do fogo.

— Capa. – Andre sussurrou após o interminável silêncio.

Observou Gerta erguer os olhos em sua direção, e a boca dela era uma linha rígida.

— Está realmente pensando em fazer isto? – Perguntou com a voz rouca.

— Você não?

∆∆

O nome Robert Capa por um bom tempo servira aos dois igualmente. Robert Capa fora o que os unia. Realmente dera certo tal atrevimento de inventar um personagem para que suas fotos ganhassem valor, a farsa, entretanto, não durara por muito tempo. Porém, tempo suficiente.

Gerta que já era Gerda Taro permanecera ao seu lado por um bom tempo, mas isso também tivera seu fim.

Ela aprendera tão bem. Era ousada e incisiva. Cobrira a guerra ao lado dele, nos primeiros momentos juntos, como carne e unha. E tomaram para a vida tal frase:

“Se suas fotos não são boas o suficiente, você não está perto o suficiente.”

Ironicamente o fim dos dois se dera devido a tal lema.

Lembrou-se então, do dia em que ela partira. Há muito não mantinham contato como antes, tanto que ele finalmente tomara o nome Robert Capa para si. Sabia que ela cobria a guerra na Espanha, ao lado de tal Ted Allan. Mas ainda sim, esperava encontrá-la em Paris ao final de tudo.

Não se importava se agora partilhava a cama, a carreira e o coração com Ted Allan. Queria apenas poder vê-la. Ver seu sorriso, seu cabelo avermelhado e os olhos esverdeados lhe fitarem novamente. Mesmo que com ressentimento. Queria ser arrebatado novamente por aquele olhar que lhe atingiria como um tapa na cara, como na primeira vez em que a viu.

E fora Renée que lhe dera a notícia.

Era um dia como qualquer outro. A francesa de pele salpicada com sardas e cabelo loiro dormia sibilando calmamente sobre a cama. Robert degustava de uma profunda tragada em seu cigarro. Deslizou a mão pelo cabelo e decidiu descer até o bar mais próximo. Cobriu a francesa pintada e deixou o quarto.

Chegou ao bar sendo cumprimentado animadamente pelo garçom que fora em busca de sua bebida favorita, a vodka. Renée chegou em seguida, com olheiras ao redor dos olhos e os cabelos negros despenteados.

Se cumprimentaram, mas o ar mórbido nunca deixou o olhar do companheiro. Quando Capa se preparava para lhe perguntar o ocorrido, o rapaz já se adiantava a explicar.

— É Gerda. – Renée começou em um tom receoso. — Morreu ontem, na Espanha.

Quem estava ali não era mais Robert Capa. Era Andre Friedmann, e era Andre que tremia as mãos e tinha lágrimas lhe cegando os olhos. Lembrou-se de tudo. Lembrou-se dela, do dia em que a conhecera, da primeira vez em que a tomara como sua e da última, de suas discussões e do veredito final.

Se não fosse quem era, talvez ele estivesse junto dela quando partisse. Se não fosse tão mulherengo e infiel, talvez Gerda nem tivesse ido à Espanha. Se tivesse cumprido o que jurou, talvez ela ainda estivesse viva.

Renée lhe tocou o ombro e Robert percebeu que mal sentia o seu toque.

— O velório será aqui em Paris, deve ser em uma semana. – E foi embora.

Robert costumava beber. Muito. O tempo inteiro. Mas naquele dia bebeu mais do que poderia suportar. Caminhou aos tropeços até sua casa na rua de cima, e agradeceu silenciosamente ao perceber que a loira não ocupava mais sua cama.

Jogou os sapatos para o lado e deitou sobre a cama, o rosto colidiu contra o travesseiro e todo o cheiro que sentia era do perfume francês da loira que ocupava aquele lugar mais cedo. Se odiou por isso. Puxou o ar novamente, ainda com a cabeça enfiada no travesseiro em busca do cheiro de Gerda, mas nada sentiu. Fazia muito tempo que ela não se deitava naquela cama.

Chorou silenciosamente durante toda a noite que se seguiu, e deixou a casa no dia seguinte disposto a nunca mais tocar no nome de Gerda Taro, a não ser que fosse estritamente necessário.

O funeral aconteceu na semana seguinte, e foi mais uma prova pela qual Robert Capa teve de passar. Tudo não passava de caos. Muitas pessoas queriam se despedir da famosa Gerda Taro, a exímia fotógrafa e líder política. Robert queria apenas ver seu rosto uma última vez.

A multidão celebrava Taro como uma heroína, e Robert bem sabia que ela realmente o era. Sua Gerta, sua heroína.

Conseguiu avistar Ted Allen por um segundo, do outro lado de toda a bagunça silenciosa. Primeiro viu seu cabelo loiro mal cortado, e logo depois o olhar fixo no seu. O momento não excedeu dois segundos, mas pareceu uma eternidade. Queria falar com Ted, queria saber como tudo aconteceu realmente, sem ser pela mídia ou de boca em boca, afinal, ele estivera lá com ela. Onde eu deveria estar, pensou, amaldiçoando a si mesmo. Mas não falou, o único contato que tiveram se resumiu àquele olhar.

Robert sabia que Ted o reconhecia. O olhar do homem, mesmo dentre tantas pessoas, expressava reconhecimento, e até raiva. Era impossível não reconhecerem Robert Capa, mas Robert sabia que Ted o reconhecia por ser mais do que o mítico fotógrafo. O reconhecia como ex de sua falecida namorada.

O corpo dela estava todo coberto por uma manta, e a única parte visível de Gerda era seu rosto. Provavelmente o tanque que lhe atropelou teria lhe destruído as pernas e braços, deixando intacto somente o rosto. Robert se lembrou de suas pernas pálidas e finas, de sua barriga reta e do umbigo pequeno. Da ponta dos dedos dos pés dela, e como se remexiam impacientemente sobre a cama enquanto conversavam. Sua clavícula sempre muito proeminente, dos seios rosados e do eco de sua risada.

Seu rosto estava pálido, não como antes, mas morto. Os lábios escuros, e rodelas negras rodeavam os olhos. Até mesmo o vermelho de seus cabelos estava apagado. Teria ela levado as cores do mundo junto consigo?

Sua boca formava uma linha fina e rígida, as finas sobrancelhas estavam separadas. Mas que mentira, pensou, Gerda sempre tinha aquela ruga entre as sobrancelhas... E agora a ruga se fora. Parecia estar dormindo, mas Robert sabia da verdade.

Para as pessoas ao seu redor, aquela não era a desafiadora Gerda. Para eles, aquela era a corajosa Gerda Taro, a fotógrafa, a ativista política... A heroína.

Lembrava-se do ano. Um mil novecentos e trinta e sete. Escondido em Paris, se despedira dela por infortúnio.

∆∆

E agora, estava ali. Com a mão esquerda estendida fechada em punho, e o corpo que sofria de espasmos involuntários. Apesar de tudo, não sentia dor. Avistou, apavorado, sua perna há cinco metros de si, piscou forte, completamente abalado.

Tentava segurar algo que não conseguia tocar fisicamente. Sentia falta de Gerda, mas nunca se arrependeu de tê-la deixado entrar. De tê-la deixado o fazer feliz por algum tempo. Arrependia-se sim de ter errado, mas nunca de tê-la conhecido.

Le photographe est mort. [1]

“Desvaneceu-se para casa em Maio de '54
As portas abrem como braços, meu amor
Indolor com uma grande proximidade
Para Capa, para Capa. Capa escuro depois de nada
Se reuniu com sua perna e com você, Taro”
[2]

[1] “O fotógrafo está morto”, em francês.

[2] Trecho da música Taro, da banda ∆ Alt-J.

Notas finais
Robert Capa e Gerda Taro sempre me foram fonte admiração. Sempre quis escrever algo sobre eles, e quando ouvi a música do Alt-J não consegui evitar. Um dia almejo ser tão boa jornalista quanto eles foram fotógrafos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!