Tarja Preta

32 Pobre Joaquim.


— Aula de biologia sobre educação sexual... – resmungou Edgar. – Isso é uma sacanagem quando sua noiva nem te deixa tocar nos peitos dela.

— Calma, você aguenta. – disse Daniel. A palestra iria acontecer no auditório e nenhum estudante estava animado para ouvir o falatório anual sobre sexo cientifico, doenças transmissíveis e bebês indesejados.

Edgar estava se segurando para não ficar excitado enquanto uma mulher com idade para ser sua bisavó falava sobre sexo. Sua concentração foi tanta que nem mesmo reparou na presença de Joaquim e em sua mão boba e iludida na perna de Gabriela. Mas esse detalhe não passou despercebido por Daniel, que ficou muito desapontado pelas atitudes da amiga.

— A camisinha é muito importante, ela ajuda a prevenir... – Daniel não conseguia ouvir aquele monstro velho relinchar nem mais um minuto, principalmente quando um Joaquim tarado tentava masturbar sua amiga com o dedo bem ali na frente de todos os estudantes.

Tudo bem, a luz estava desligada, mas mesmo assim era um absurdo que ela deixasse aquele delinquente mexer nela desse jeito.

— Isso que tenho nas mãos é um pênis de borracha. Acredito que todos saibam dessa informação, mas hoje vamos aprender como colocar a camisinha da maneira correta. Peguem uma camisinha e passe para trás. – a palestrante acendeu a luz.

— Ela tem uma voz tão sensual! – comentou Edgar cutucando Daniel, que parecia espantado. – Não acha?

— Claro... – Mentiu. – Nem quero imaginar o que ela faz com aquilo.

— Camisinha vagabunda... – resmungou Gabriela passando a cesta para o cutucador, que encheu a mão e pegou varias.

— Para mais tarde! – disse ele acariciando o cabelo de Gabriela, beijando-a logo em seguida.

Daniel fez uma careta ao ver a cena. Serrou os punhos e sentiu a raiva subir por sua cabeça. “Calma, se controla...”, pensava enquanto se levantava para poder passar a cesta para outra fila.

Infelizmente, seus esforços para manter o controle foram por água abaixo quando viu Joaquim tocar nos peitos de Gabriela sem ao menos respeitar o ambiente escolar. Movido de raiva, se jogou repentinamente contra Joaquim, derrubando-o no chão.

— Meu Deus! – gritou Gabriela. Todos começaram a prestar atenção na horrenda cena. Daniel socava Joaquim com tanta fúria que ninguém conseguia separa-lo da briga.

— Detenção! – gritou a palestrante.

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— Sabe que pode ser expulso?! – berrou Sérgio que estava esperando para conversar com o diretor da escola. – O que deu em você?!

— Aquele tarado... – começou Daniel. Estava muito nervoso, não queria ficar com mais ódio.

— Meu filho, você já tomou duas advertências!

— Duas com essa! – exclamou. – E ele manchou minha camisa com a baba dele! – resmungou puxando a roupa.

— Você está fora de si!

— Não diga que estou errado, eu tive muitos motivos para fazer o que fiz!

— Que motivos?!

— Não interessa.

— Sou seu pai!

— E eu sou seu filho! Agora que já sabemos, o que acha de irmos para casa e comemorar essa descoberta tomando vodka enquanto assistimos um bom filme com o Tripé?! – Sérgio rosnou, nunca tinha visto Daniel tão irritado.

— Não vou aturar esse mal comportamento.

— Pai, não ligo se eu for expulso! Sempre posso comprar um sítio e plantar maçãs!

— E que futuro isso vai te dar?! – Daniel bufou de raiva, ele não queria que seu pai resolvesse se intrometer em sua vida. Na verdade, desde que Paola foi embora, Sérgio passa muito mais tempo cuidando dos “interesses” do filho do que dos próprios.

— Uma pilha de maçãs... O que acha que tenho na poupança?! – Sérgio revirou os olhos — Além do mais sou um bom menino Devasso. Escola é para pessoas que precisam aprender a ser bons!

— Desde quando virou tão egocêntrico?

— Desde que virou crime bater em um tarado esnobe! Não acredite nas filmagens! Eu não tinha a intenção de bater nele com o extintor de incêndio... Nem de enfiar uma camisinha em sua língua, nem de quebrar sem querer seus braços!

— Filho, o vídeo está na internet! Terei de gastar muita grana para indenizar a família dele!

— Você é rico, deixe de ser pão duro.

— Ameaças, violência, vandalismo... O que deu em você?!

— Não estou ameaçando.

Nesse momento, um homem corpulento e careca apareceu na sala de espera. Sua expressão era de preocupação e impaciência.

— Podem entrar. – disse olhando para Sérgio e Daniel. Eles se dirigiram para a sala junto com o homem, que se sentou em uma grande mesa de madeira. — Senhor Vasconcelos, me chamo Leonard Beker, diretor do CAP.

— Prazer em conhecê-lo. – começou Sérgio. – Sinto muito por todo o transtorno que meu filho vem causando...

— Serei direto. – o homem encarou Daniel e depois voltou os olhos para Sérgio. – A conduta do seu filho não está nos padrões exigidos pela instituição. O CAP tem diversos alunos vândalos e violentos, são nossa especialidade, mas exigimos bons comportamentos! É a segunda vez que seu filho agride um outro aluno!

— Você faz as coisas parecerem piores do que realmente foram! – disse Daniel transtornado.

— Não se arrepende do que fez? – o diretor perguntou.

— Claro que sim... – começou Sérgio.

— Não! Ele mereceu! – interrompeu Daniel.

— Daniel! – berrou o pai do rapaz.

— Basta! – disse o careca. – Apenas por respeito a seu pai e por saber que sua situação psicológica anda difícil, irei dar mais uma chance a você. Ficará três dias de detenção. Agora saia daqui antes que eu me arrependa!

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— O que deu em você?! – perguntou Edgar se aproximando do amigo. – Já está indo para casa?

— Sim, meu pai está me esperando no carro. – resmungou Daniel.

— Foi expulso?

— Desculpa, mas não quero conversar. – respondeu entrando no carro, deixando Edgar sozinho.

Daniel não gostava de ferir ninguém, ele não queria quebrar o braço daquele bastardo, ele só queria ensinar-lhe um pouco de respeito, mas as coisas fugiram de controle. “Estou cansado disso tudo.”, pensava enquanto olhava a paisagem pela janela do carro. “Por que sou tão impulsivo?”.

Tudo que ele queria era poder acabar com todo o sofrimento, mas isso parecia cada vez mais impossível. Daniel nem mesmo se sentia capaz de fazer o bem a qualquer coisa que o cercasse, não importa o que tencionasse, projetasse ou armasse, suas razões sempre foram superficiais e suas causas vazias. Ele podia sentir o quão oca se tornou sua alma e nem mesmo conseguia relembrar um momento em que se sentiu verdadeiramente feliz.

Tudo parecia incolor, sem gosto, sem cheiro. Nenhuma descoberta por mais importante que parecesse, nenhum sofrimento por mais doloroso que fosse, nenhum amor... Nada. Nada conseguia ocupar sua cabeça, ainda mais agora, que sua culpa faria aniversário.

— Eu ainda consigo ouvir a sua voz. – murmurou ele baixinho para que o pai não o ouvisse. – Vejo seus olhos me seguirem, ouço sua risada. Deveria ter sido eu! — ele olhou para o céu de forma melancólica. – Me desculpe! A culpa é toda minha...

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—Droga, Daniel! Atenda! – era a décima vez que Gabriela ligava para o celular do rapaz e deixava um recado na caixa postal.

— O que será que deu nele? – Edgar perguntou cheio de preocupação. – Ele nem quis falar comigo, não quis nem dizer se foi expulso ou não.

— Eu não sei. – Gabriela suspirou, apoiando a cabeça nos ombros de Edgar. – Quando tudo começou a ficar assim tão estranho?

— Sabe, durante esse tempo, fiquei pensando sobre tudo... – Começou enquanto olhava a amiga nos olhos. – Acho que o Daniel também gosta de você.

— Por que acha isso?

— Está na cara que ele bateu no Joaquim por ciúmes de você!

— De um jeito ou de outro, não importa mais. Ele fez a escolha dele dias atrás quando me declarei.

— Bem, você é quem sabe. Acha que ser orgulhosa agora vai valer a pena? – Gabriela não respondeu, apenas desviou o olhar dele. – Tudo bem, pense um pouco. Mudando de assunto, com que cor acha que eu fico bonito?!

— Você é horrível independe da cor.

— Sério! Eu preciso decidir a cor de minha gravata...

— Ed, preciso de dizer uma coisa. – ela o olhou com seriedade.

— Pode dizer, estou ouvindo.

— É difícil... Mas preciso confessar.

— Está loucamente apaixonada pelo nosso maluquinho?!

— N-Não. – gaguejou.

— Está loucamente apaixonada por mim?! – Gabriela começou a rir.

— Jesus, não!

— Está grávida?! Quem foi o desgraçado?! Eu juro que...

— Não! – disse ela dando um tapa na cara dele – Se acalma, criatura!

— Então o que é, inferno?

— Não foi o Edney que pegou seu chocolate. – ela sussurrou em tom de culpa. – Fui eu.

— Eu sabia! – ele gritou afastando-se dela.

— Eu estava faminta!

— Ninguém liga! Ninguém pega meu chocolate, ninguém! – ele estava furioso. – Por que me deixou bater no Edney?!

— Estava entediada!

— E por que me disse que tinha sido ele?

— Estava me sentindo culpada...Não me julgue! Antes ele do que eu!

— Você não pode ser humana! Você... Comeu meu chocolate!