Notas iniciais
RA For Lovers Only Yves & Sofia

Tarde demais, noite avançada, tudo escuro, Yves suspirou. A alma pesada refletida na forma de jogar as chaves, tirar o casaco, andar pela casa. No quarto, sua doce princesinha dormia. A única capaz de ter seu sorriso genuinamente feliz. O resto, uma grande farsa que permanecia imutável. "Apagar a luz às oito. Dormir às nove”.

“- Parece mais uma prisão.”

A voz de Sofia ecoou sua triste verdade. Ali era sua prisão, seu túmulo, seu verdadeiro sarcófago. Yves se sentia como um ser amaldiçoado a vagar na luz do dia, sua treva particular. Nada mais naquela casa pertencia à ele exceto sua filha. Ele mesmo nunca pertencera. Yves sempre pertenceu a ela.

Sentou-se no sofá, uma cerveja em mãos, e ligou a TV. A luz do aparelho o iluminou enquanto bebia o líquido direto do gargalo, esperando prestar atenção em algo que não o lembrasse dela a cada segundo de sua existência, como ele mesmo dissera:

"Eu vejo você em todas as partes. Sua boca, seus olhos... Partes de você”.

Subitamente, aquela mulher de pele alva, cabelos pretos e grandes óculos escuros, surgiu na tela, tentando se esquivar da agressividade das câmeras e da impertinência dos repórteres. Sofia!

A cerveja caiu no chão e a nota do jornal dizia que David Alguma Coisa, fora encontrado morto em seu apartamento, e sua esposa era a acusada. Sua Sofia!

Yves mexia nervosamente no celular, rezando para que ela o atendesse. Quando isso aconteceu? Ela estava presa? O telefone chamava insistente, aumentando a agonia e o pavor em seu coração. Sofia seria incapaz de cometer tal crime, ou qualquer outro, ainda mais contra o homem com quem dividia a própria cama.

- Alô. – a voz quase inaudível ecoou do outro lado da linha.

- Sofia? É você? – ele perguntou alto, colocando um dos dedos em seu ouvido para concentrar-se naquela ligação ruim.

- Sim. – um sussurro respondeu.

- Eu soube agora! O que houve? Onde você está? Eles te machucaram? Como você está? – Yves a bombardeava de

perguntas.

- Eu não o matei. – Sofia murmurou.

- Eu sei, meu amor.

“Meu amor”

O grito de sua alma se uniu ao dela quando Yves a ouviu a soluçar amarguradamente. Encolhida próximo à janela de seu apartamento, Sofia se sentia sem chão e aquelas palavras tão carinhosas a despedaçaram. Após ser deixada novamente por Yves, seu mundo desabara outra vez, mas ela não fazia ideia do que ainda estava por vir.

Encontrar David morto, ser acusada, enfrentar mais de 48hs de exaustivos interrogatórios a deixaram em frangalhos. Apenas queria poder enterrar seu esposo em paz, e talvez, descansar a seu lado. Sem Yves, só lhe restara David, que não era seu grande amor, mas era seu melhor amigo. E ela nem ainda havia conseguido chorar sua perda.

Yves voltou para o sofá, desligou a maldita TV, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, ouvindo o choro de sua querida. Ele nem mesmo tinha o direito de estar ligando para ela, mas ele ainda tinha o direito de amá-la. E isso que fazia todo o impossível entre eles se tornar, simplesmente, real.

- Eu sinto muito. – murmurou ele a única coisa digna a se dizer.

- Eu sei. – ela ofegou.

- Yves? – a voz da esposa ecoou pela sala escura.

- Você deve ir. – disse Sofia, ao ouvir a voz da mulher do homem que amava. – Seja feliz. Alguém ainda está do seu lado. Adeus, Yves.

O fotógrafo apertou o celular entre os dedos. A mão de sua esposa tocou seu ombro esquerdo e sua reação foi mesma de sempre, quando os toques vinham dela. Indiferente.

- Venha. – falou como todos os dias, incansável. – Você deve estar exausto.

- Sim, eu estou. – a voz dele se perdeu na escuridão. — Estou indo embora.

***

Mais uma noite sem dormir, ainda mais depois daquele telefonema. Céus, ela se sentia a pior das mulheres! Havia acabado de enterrar seu marido, mas ao ouvir a voz de seu amante, sentiu a pele arder em chamas. Porque era tão errado? Ela não era uma assassina! Seu único crime era entregar seu coração a Yves, noite após noite, quando entregava seu corpo à outra pessoa.

Precisava descansar, esquecer, precisava de... paz. O último comprimido desceu por sua garganta e Sofia ouviu uma batida na porta de seu apartamento. “Repórteres”, pensou, e a batida permanecia insistente, mas não queria passar por todo aquele alvoroço de perguntas, anotações, fotos e insinuações. Ela queria apenas dormir.

- Sofia! Abra a porta!

“Essa voz? Essa voz! Yves está aqui!”, sua mente parecia trapaceá-la e Sofia caminhou até a porta como que no meio de uma alucinação. Talvez já fosse o efeito dos remédios. Deveria ir pra cama, mas precisava ter certeza de que havia ficado completamente louca.

- Yves.

Os braços dele a envolveram, seu cheiro se espalhando por todos os seus poros.

- Yves.

O coração dela batia acelerado, mas tudo parecia se mover em câmera lenta e a voz dele se afastava em um desencontro de informações sonoras que a deixavam confusa, mas ao mesmo tempo feliz.

- Sofia? – disse Yves segurando-a, já que desfalecia em seus braços — Você está bem?

- Agora estou... – a voz embrulhada se arrastou sorrindo. – Amo você, Yves.

Os olhos verdes se fecharam e seu sorriso se apagou. A palidez da morte tomava conta da pele que era regada pelas lágrimas da sensação de impotência de quem havia chegado tarde demais.

Notas finais
O nyah nao deixa meus asteriscos no centro da pagina! #chorando...u.u

Comentem! :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!