Notas iniciais
Minha primeira One. Espero que gostem

Eu tinha terminado meu relatório, seguia para a sala dele com o papel em minhas mãos tremulas. Eu tentaria novamente, faria o convite. Talvez ele aceitasse. Era um possibilidade. Na verdade, nos últimos anos, era disso que eu vivia. De possibilidades. Da possibilidade dele abrir os olhos e ver o quanto eu o amava; a possibilidade dele bater em minha porta, e quando eu abrir ouvir um "Eu te amo". Possibilidades. Apenas isso, ainda muito distante da realidade. Dispersei meus pensamentos, parei e me encostei no batente porta. Ele estava tão distraído, seus olhos perfeitamente azuis, nos quais eu sempre me perdia, focados em um papel. Os cabelos grisalhos reluzindo levemente sob a fraca iluminação da sala.

—Quer alguma coisa Sara?

—Só vim entregar meu relatório – entreguei o papel a ele e me sentei – e lhe fazer um pedido.

Ele desviou os olhos do papel e me olhou por cima dos óculos.

—Faça.

—Quer jantar comigo?

—Não.

—Por que não?

—Porque não.

—É apenas um jantar. Entre amigos.

—Sara...

—Tudo bem. Nem sei por que ainda insisto.

Me levantei e sai da sala. Não exatamente brava, mas decepcionada. Novamente um "NÃO", mais um para minha coleção. Isso tinha um significado, ao menos pra mim. Eu não era boa o suficiente para ele. Mas eu não desistiria. Entrei no vestiário, abri meu armário e peguei algumas coisas de lá. Pus minha mochila e seguia para o estacionamento.

—Oi pra você também, Sara – virei e me deparei com Catherine.

—Oi, Cath.

—Já esta indo?

—Sim.E você?

—Também.

—Vamos então.

Saímos juntas do vestiário. Chegamos a porta do elevador, Warrick estava lá. Droga.

—Oi, Warrick.

—Oi, Sara. Cath.

—Oi — dissemos em uníssono.

O elevador chegou, finalmente. Não via a hora de estar sozinha em meu carro. Não suportava o clima que se instalava entre os dois. Por que não paravam com essa frescura? Não custa nada fazer um convite.

—Não vai entrar Sara? Warrick disse, com o braço na porta do elevador para que ela não fechasse.

—Ah, sim, claro.

Entrei no elevador. Eu tinha razão. O clima estava insuportável. Mal a porta abriu no estacionamento e sai correndo lá de dentro dando um "tchau" muito rápido. Entrei em meu carro, joguei minha mochila no banco ao lado, pus o cinto de segurança e liguei o rádio. O som começou a tocar no último volume, tinha um CD lá dentro. Mas que porra é essa? Marilyn Manson! Tão típico de Greg. Não é o tipo de música que gosto, porém não me importei e deixei o rádio tocar.

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Passei por uma lanchonete, estava com fome e parei para comprar alguma coisa. Desci do carro e andei até lá, distraída em um nível que mal podia sentir me corpo se movendo. Atravessei as portas de vidro, sentei em frente ao balcão e pedi um hambúrguer vegetariano. A garçonete voltou para dentro e fiquei ali observando as pessoas.

Em uma mesa, escondida, ao fim do corredor estavam duas pessoas que me chamaram atenção. Chamaram atenção? Senti um frio na espinha, lágrimas nos olhos e um nó na garganta. Parecia que meu coração tinha sido arrancado do peito e estraçalhado, ali na minha frente. Na verdade, eu preferia que isso tivesse acontecido a ver aquela cena. Grissom e Sofia, sentados como se fossem o casal mais perfeito do mundo. Uma porção de fritas e dois chopes. Uma loira assanhada passando a mão pela barba perfeitamente macia, do lindo homem de olhos azuis. Os dois sorriam. Meus olhos arderam. Senti que uma crise de choro viria a seguir. Sai correndo em direção ao meu carro. Encostei a cabeça no volante e deixei que as lágrimas rolassem por meu rosto. Liguei a carro e segui para meu apartamento, abrindo a porta e correndo para o sofá. Desesperada, chorei. Muito. Daquele tipo que faz você se balançar inteira.

Eles deviam estar juntos. Eu sentia isso. Nove anos perdidos de minha vida, esperando por alguém que nunca me amou, vivendo com duas possibilidades idiotas. O que eu tinha na cabeça quando vim pra Vegas? Gilbert Grissom, é claro. Ele era única coisa que eu tinha na cabeça há anos. Agora eu sentia meus sonhos e planos se esvaindo, como se uma onde tivesse arrastado tudo conforme a maré subia. Ele já tinha alguém.

Quando sua vida é viver em função de um sonho e esse sonho depende de outra pessoa, os riscos são enormes. Minha vida foi resumida em problemas desde criança, com o alcoolismo da minha mãe, o abuso físico dos namorados dela, o bullying na escola. No fundo, eu sempre tive essa vontade, esse desejo, esse impulso. A classica frase "todo mundo tem problemas" é verdadeira, mas também falsa. A proporção dos problemas é muito fluída e mais ainda a maneira como cada um consegue lidar com eles. O que é fácil para você, pode ser difícil para mim.

Desde que me lembro, eu tenho vontade de não viver. A felicidade de estar viva, nunca fez sentido. Afinal de contas, nunca houve a felicidade. Sempre desejei o alivio do fardo que é estar viva. Tentei procurar ajuda algumas vezes, mas ninguém parecia entender exatamente o que eu sentia. Esse é o problema, só nós sabemos o que sentimos e como é difícil lidar com certas coisas. A nossa dor, só nós podemos quantificar. Estava cansada, exausta, fadigada desta vida.

Me levantei do sofá, os olhos marejados. Segui para a cozinha, peguei alguns comprimidos de paracetamol e tomei. Eu sabia que aquilo não serviria de muita coisa. Abri a gaveta de talheres, retirei de lá uma faca sem serra e a observei. Segui para minha cama. Iria fazer aquilo agora, mas achei melhor me despedir antes. Abri o criado mudo e tirei de lá uma caneta, juntamente um papel de carta.

Depois que terminei, a pus sobre o criado mudo. Chegou a hora. Finalmente aquele sofrimento iria chegar ao fim. Uma pequena vertigem, talvez por causa do remédio, mas prossegui. Um corte, bem leve, só para tomar coragem. Mais um. Nada. Nem uma gota. Repassei mentalmente toda a dor, todo sofrimento de minha vida e senti a faca atravessando minha pele. Vi sangue. Espirrou na carta e na parede, que droga. Agora era a vez do outro. Desta vez um único corte. E certeiro. O sangue escorreu, sujando o travesseiro e uma parte do meu cobertor. Larguei a faca e fiquei ali, esperando a morte chegar. Sentia o sangue descendo de meus pulsos, sujando minhas mãos e molhando os lençóis. Tudo escureceu. Finalmente livre.

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Acordei novamente e fitei o teto. Estava em meu quarto. Que droga! Como isso não funcionou? Senti meu corpo. Nenhuma dor, nenhuma ardência. Levantei minha cabeça. Estava tudo como eu me me lembrava, havia muito sangue. Pus minhas pernas para fora da cama e me levantei. Virei para onde estava deitada e o susto foi enorme. Meu corpo estava ali, pálido e sem vida. E como eu estava em pé? Seria...um...espírito? Meu espírito? Fui ate o espelho e me observei. Uma imagem fraca e quase transparente, mas eu estava perfeita, sem olheiras, pele sedosa e pulsos sem nenhum sinal de corte. Distraída toquei o espelho e ouvi uma voz conhecida.

—Sara?

A voz vinha da sala. Era ele. Grissom.

—Estou aqui.

Parei em sua frente, mas ele passou direto por mim, atravessando meu “corpo”. Me virei e segui atrás dele. Grissom chegou ao meu quarto.

—Sara! Não Sara!

Ele tentou sentir minha respiração. Nada.

—Sara! Você não fez isso comigo! Você não pode! Como me abandonou?

—Mas eu nunca estive com você.

Sabia que ele não podia me ver, nem me ouvir. Mas eu não estava nem aí.

—Sara! Não! como vou viver sem você? Não tem sentido! Eu te amo! Sempre te amei e sempre te amarei.

Como? E isso era hora dele me dizer isso. Agora já era tarde demais.

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POV Grissom

—Sara?

Chamei, entrando na sala e ninguém respondeu. Segui até seu quarto e uma vertigem me atingiu quando vi seu corpo ali, envolto em uma enorme quantia de sangue. Tentei sentir sua respiração. Nada. Eu não podia acreditar naquilo. Ela tinha...se...suicidado.

—Sara! Não Sara!

—Sara! Você não fez isso comigo! Você não pode! Como me abandonou?

Eu balancei seu corpo, na tentativa idiota de acorda-la.

—Sara! Não! como vou viver sem você? Não tem sentido! Eu te amo! Sempre te amei e sempre te amarei.

Estava eu ali conversando com um cadáver. Estava eu parecendo mais Heathcliff do que Grissom. Cadáver. Aquilo parecia não se encaixar a ela. Para mim, sempre seria a minha Sara. Avistei uma carta sobre o criado mudo e a peguei, notando que estava endereçada a mim. Abri na folha e pude vê-la escrevendo ali.

Querido Gil

Você sabe da minha história, do meu passado, de todos os problemas e dificuldades que passei. Mas você não sabe o peso de tudo isso, da dor que sempre senti. Conhecer você e me apaixonar da maneira mais profunda possível, foi um sopro de vida nesta mulher sem propósito. Infelizmente, esse sentimento não recíproco. Sei que esta feliz. Agora você tem ela, Sofia. espero que você a ame e cuide dela, assim como ela fará você. Nunca vai te amar como eu, pois isso seria impossível. Eu te amo. Sempre te amei. Com vocês juntos, sem você, eu não teria mais motivos para viver. Perdi o sopro de vida que me dava sentido e forças todos os dias. Sem você, não teria sentido respirar ou fazer meu coração bater. Sem você.

Da sempre sua,

Sara Sidle.

PS: Catherine não tenha medo de revelar seu amor por ele. Ele também te ama, eu sinto isso. Você sabe de quem estou falando. Faça isso antes que, assim como pra mim, seja tarde demais. Um beijo à todos vocês, meus queridos colegas.

Eu ainda não acreditava. Aquilo era tudo minha culpa? Eu e a Sofia? Juntos? Nunca. Eu amava Sara acima de tudo. Ela era minha vida, meu ar, meu tudo. Mas eu nunca tive coragem de contar isso a ela. E por que? Por medo. Na verdade, por pura idiotice. Sim, eu era um idiota. Tanto medo pra que? Isso me serviu de alguma coisa? Não, apenas para perder ela. A minha vida. E agora? Como seguir em frente? Isso era possível? Sem ela parece não ter como, não ter sentido. De que me adianta viver agora sem ela? Talvez agora eu entenda a cabeça de suicidas. Sim, agora eu entendia. Sempre me pareceu uma coisa egoísta, mas quando acontece com você é diferente. Eu não tinha motivo para viver. Não mais. Mas, teria eu coragem de fazer o mesmo? Neste momento, nesta situação? Com toda certeza. Mas como? Primeiramente ligaria para Brass e depois...a arma dela, sobre a cômoda. Nunca gostei de armas, mas nesta situação ela faria o efeito mais rápido. Me lembrei de sua carta, precisava fazer uma também. Peguei um papel e um caneta.

Catherine

Ela se foi, não há mais motivos para viver. Sim, você sabe eu a amava. Mais que tudo. Mais que a mim mesmo. E por medo, ou estupidez, nunca disse isso à ela. Peço desculpas à todos e lhes deixo um abraço.

Gil Grissom.

Deixei a carta ali, em cima da cômoda. Liguei para Brass e peguei sua arma. A pus em minha têmpora direita. Eu tinha de tomar coragem. Respirei fundo

—Sara, me perdoe.

Apertei o gatilho e por um segundo senti uma dor aguda em minha cabeça. Meu corpo desabou em encontro ao chão.

—___________________________

POV Sara

—Não!

Eu gritei enquanto ele apertava o gatilho e seu corpo foi de encontro ao chão. Eu não podia toca-lo. Me encostei na parede, abracei meus joelhos e comecei a chorar. Chorar. Algo que não tinha mudado em minha "vida". O que eu tinha feito? Por um enorme engano, uma idiotice minha, tirei minha vida e a dele também. Eu era uma idiota, uma estúpida. Senti algo tocar meu braço e me assustei.

—Grissom?!

—Sara? Você...não...eu...

—Eu sei, é confuso.

—Espera, nós somos...espíritos?

—É. Eu acho que sim.

Apontei para os dois corpos ali no quarto. Ele tocou meu rosto e me fitou por um longo tempo. Esperei tanto por aquilo. Parecia uma corrente elétrica percorrendo todo meu “corpo”. Ele se aproximou mais e me beijou. Foi perfeito, parecia que estávamos em perfeita sincronia. Agora sem nenhum medo, sem regras, sem o laboratório. Eu sentiria falta de lá, mas agora eu estava ali com ele e nada mais importava. Nos separamos e ele me levantou do chão.

—E agora? Como vai ser?

—Não sei Gil, só importa que estou com você

Escutei alguém entrando na porta. Era Jim.

—Oh céus!

Catherine estava logo atrás dele.

—______________

Estávamos em nosso velório. Digamos que isso era tão estranho quanto parece ser. Realmente estranho. Catherine tinha nossas cartas na mão. Não havia muitas pessoas ali, apenas o pessoal do laboratório, alguns policiais e a mãe do Gil. Estávamos ao lado do meu corpo. Ainda não tínhamos conversado sobre o que eu tinha feito.

—Por quê?

—Por você, por mim, pela dor, pela vida.

—Sara.

—É serio...vamos...deixar isso pra lá.

—Você pensou mesmo que eu estivesse com ela? Sabe que poderia ter conversado comigo.

—Sim – eu sorri timidamente – tive certeza. Conversar o que, Gil? Você me ignorou por tantas vezes. Além do mais, só eu sei o peso dos meus problemas.

—Jamais estaria com ela, é e sempre foi você quem eu amo.

Warrick entrou na capela com os olhos marejados e parou ao lado de Cathrine.

—Está na hora.

—Já?

—Sim.

—Tudo bem. Catherine disse e o abraçou.

Todos que estavam lá se despediram de nossos corpos. Os caixões foram lacrados e seguiram em fila ate os túmulos. Era um lugar muito bonito, com árvores deixavam o local ainda mais agradável. Era estranho ver os caixões com nossos corpos descendo até o fundo. Grissom me abraçou com força.

—O que foi? eu perguntei, encostando a mão em seu rosto.

—Nada.

A terra foi jogada até cobrir toda o espaço vazio. A grama foi posta por cima. Aos poucos todos foram embora. Sobraram apenas nossa equipe. Nossos amigos. Nick, Greg, Warrick e Catherine. Estavam todos olhando para as covas e abraçados.

—Eu vou indo.

—Me da uma carona, Nick? Greg disse, de forma desanimada.

—Claro. Até mais pessoal.

—Tchau meninos. Catherine disse, secando uma lágrima.

Ficaram ali apenas os dois, Catherine e Warrick. Será que Catherine seguiria meu conselho?

—Será que ela...

—Honey, vamos esperar. Gil disse, beijando o topo de minha cabeça.

Catherine pegou minha carta, manchada de sangue, e leu novamente. Warrick também leu.

—A quem ela se referia?

—Tem certeza que não sabe quem é?

—Cath...

—Você sabe quem é.

—Talvez.

—E?

—Eu te amo, Catherine. Desde aquele primeiro caso, no cassino de seu pai. Amo cada detalhe em você, sua personalidade, a maneira como você lida com os casos, as famílias. Admiro a mulher que você é. Não sei por que nunca te disse isso.

—Ah, Warrick — Catherine disse o abraçando — é tão bom ouvir isso. Me apaixonei por você faz tanto tempo, você é um homem incrível. Eu te amo. Sara sempre me encorajou a conversar com você e aqui está ela agora...morta.

—Teria coragem de fazer isso?

—Não posso dizer que não, nunca sabemos qual o tamanho da dor que ela sentia, que eles sentiam, que todos sentem.

—Jamais faça isso comigo. Nunca!

Ele tocou seu rosto e se beijaram. Eu sorri. Finalmente!

—Missão cumprida, Honey?

—Sim. Com toda certeza. Vamos?

—Vamos.

Catherine e Warrick desceram o caminho pedregoso abraçados. Peguei a mão do meu príncipe dos olhos azuis e andamos lentamente até uma forte luz branca. Paramos embaixo dela. Virei de frente para ele e nos beijamos. Foi naquele momento que eu soube. Estaríamos juntos por toda a eternidade.

Notas finais
O que acharam? não esqueçam dos Reviews que deixam a autora muito feliz. Beijos Pamella P.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!