Tanzaku

20 EXTRA - Volume 23


Notas iniciais
(SPOILER ALERT: Se você não acompanha o mangá e não quer saber das tretas, amigo, nem abre) Boa leitura negos! Para quem não entender o que se passará no capítulo extra, tem uma explicação básica nas notas finais :3

Os perolados se abriram, despertando. Resquícios de um sonho perdido completavam sua mente, nublada pelas ações que não conseguia controlar.

Ergueu o tronco. Os braços caídos ao lado do corpo como uma simples marionete. Estava dormindo, então? A febre deixava seu corpo quente, em brasa... Suado. A julgar pelos fios sem cor colados na nuca, aquele fora um descanso tortuoso.

Vasculhou o lugar. Sozinho, a não ser pelo homem alto de longos cabelos presos em um rabo de cavalo. Estava a sua frente, de olhos fechados e pernas cruzadas. Os braços em frente ao dorso, a expressão dividida entre concentrada e reflexiva. TimCampy no alto de sua cabeça repousava tranquilo, denotando ausência de movimentos bruscos vindos do tal moreno.

Era aquele que o recepcionara com uma espada no pescoço. É, sabia quem ele era.

Então, quando pensou que ele dormia, os olhos negros se abriram. Profundos, densos, contrastando contra os seus nublados. Encararam-se em um olhar demorado.

Talvez esse cara não o conhecesse direito. Talvez devesse tentar...

– Boca... Seca. — soltou, num misto de sorriso amarelo e expressão vazia. Os perolados sem brilho algum.

O moreno murmurou um “Hm” despreocupado. Nos lábios, um sorriso miúdo e potencialmente diabólico. Ele, com certeza, fazia crianças chorar desse jeito.

– Não venha com asneiras. — o moreno soltou, estalando a língua. A vontade de fatiar Allen mudara.

– … Perdão? — fizera menção de levantar, sentindo a ausência de movimentos nas pernas. Droga. Quem era aquele homem tão ameaçador e tranquilo ali, afinal? O que ele podia fazer? TimCampy continuava do lado dele.

– Esse papinho de boca seca. O que é, Décimo Quarto? Você viveu num campo afastado da cidade, é? — Neah travou, quase imperceptível. Fora descoberto em duas palavras! Trocou um olhar com o moreno, vendo-o aumentar o sorrisinho de escárnio.

Não... Fora descoberto antes mesmo de acordar.

– D-do que está falando? Sou eu, A-Allen! — coçou a cabeça, tentando convencê-lo. Não tinha medo dele, nem de sua innocence, mas precisava observar as coisas pelo ângulo do albino. Precisava ganhar terreno.

Kanda se levantou, perigoso, pisando forte. As ameaças contigas nos negros eram densas, carregadas por uma ira que Neah não conhecia. A menos, é claro, quando se tratava...

Sentiu uma mão em seu pescoço, envolvendo-o. E então, o corpo do albino subiu, junto com a mão, erguendo-o no ar. Neah tossiu, desconfortável com a audácia do moreno. Rude, muito rude. Onde estava o cavalheirismo daquele homem?

– Saia. Ou irei matá-lo. — a julgar pelo tom baixo, o moreno não mentia. Não entendia, porém, por que ele ainda mantinha-o vivo.

– Faria isso com o precioso corpo do seu amigo? — sorriu, dissimulado. Quebrado entre um doce enjoativo e um veneno fatal. Essa atmosfera diabética pertencia a família então, pensou Kanda, lembrando de Skin Bolic e Road.

– Sou bom em matar amigos. — o aperto aumentou, turvando os sentidos de Neah.

Por hora, ele não podia agir. Apenas concordou, anotando mentalmente a última frase do curioso homem a sua frente.

Sujeitinho bruto, viu.

Talvez a pose masculina tinha sido corrompida com o passar dos tempos e, nessa época, seja comum existir truculências. Ah, pensou, é uma pena. Este jovem jamais saberá tratar uma dama.

Os perolados reagiram. Ganharam vida, logo empurrando o dorso de Kanda numa atitude desesperada. O corpo cedeu a cama, enquanto as mãos iam no próprio pescoço. O dorso subindo e descendo, afoito, caçando oxigênio.

– VOCÊ QUER ME MATAR BAKANDA? — o moreno deu-lhe as costas, soltando um “tsc” característico – OE, ERA EU QUEM DEVI-

– O Décimo Quarto estava aí.

O mundo parou. Allen engoliu em seco, nervoso, as mãos começando a suar.

– … A-aqui? Kanda... Por que, por que não me matou? Ele fez algo com o Johnny? Ele ameaçou você? TimCampy... — o golem, até então parado, levantou voo, pousando na mão estendida de Allen – Você filmou?

– Não matei, mas na próxima mato. Fica esperto Moyashi. — fez menção de continuar o caminho em direção a porta.

– Espera... Cadê o Johnny Kanda? — Allen subiu os olhos, fitando as costas do espadachim. — Vocês sabem do perigo, droga. Vocês deviam ir embora!

– Ele não viu nada. Estava fora quando aconteceu. — Allen suspirou, aliviado. Kanda não o preocupava, mas Johnny... Sentiu os olhos marejarem, emocionados. Sensíveis demais para a postura que deveria ter caso quisesse conter o Décimo.

– Protega Johnny. — por favor, completou em pensamento. — Ele não sabe onde está se metendo... — Kanda se virou, farto daquele drama sem sentido. Encontrou Allen encolhido, segurando TimCampy com força. Fracote.

– Ele está aqui por você idiota. Ele sabe. Pare de resmungar essas merdas e assume logo que você tem que reagir. — deu um passo em direção ao pescoço de Allen, a vontade clássica de fatiá-lo retornando com força. Ah, vai, só um pouquinho...

– Mas que droga, Kanda! Por que está aqui me dizendo essas coisas? Por que voltou? Você devia ter ficado com o Alma, lá, bem distante de mim! — um soco. O Walker se irritou, puxando as vestes de Kanda num movimento rápido. Socou-o de volta, derrubando, subindo em cima dele. — Você desperdiçou os sentimentos do Alma a vida inteira! — e a sequência de socos começou, descontrolada, lágrimas pesadas escorrendo pelo rosto do albino. Pingando nas bochechas de Kanda, que permitia qualquer violência contra si – VOCÊ NÃO MERECE UM AMOR TÃO PURO!

E algo no interior do moreno despertou.

Enraivecido.

Trocou as posições em segundos, ignorando os protestos do albino. Segurou os punhos dele e o encarou, os socos pulsando em seu rosto. O maldito usara força real, para variar.

Sentado em cima dele, imobilizando-o como fizera no reencontro deles, Kanda soltou:

– Não se ache no direito de falar o que quiser. — Allen acordou do surto, os olhos levemente arregalados. — Não jogue a sua solidão nas minhas costas Moyashi.

Kanda estava certo.

Allen tremeu, a respiração falha entrecortando os pensamentos.

Eu te amo... *****”

Naquela vez, Mana dissera “eu te amo” para mim ou para ele?”

E se eu dissesse que você matará alguém importante para si?”

Isso que dá rir do Tiedoll, estou ficando igual a ele...”

Parou de debater.

O corpo cedeu, sentindo a ardência do aperto em seus pulsos.

Não tinha coragem para murmurar um pedido de desculpas. Estava ressentido, machucado, evitando qualquer contato com outros humanos. Estava solitário, naufragando nos próprios desejos. Tão pequeno... Tão fraco.

Apavorado.

Kanda saiu de cima de si, largando-o de qualquer jeito. Continuou deitado, acompanhando-o com os olhos sem animação alguma. O moreno pegou o copo de vidro, derramando a água da jarra nele e o estendeu, sem rodeios.

Allen o encarou, em dúvida. Os sentimentos ressurgindo, embolando, misturando e complicando seus julgamentos.

– Toma.

Ele sabia, sua garganta estava seca. Árdua, dolorida. Igualmente machucada.

E ao sentir a água descendo pelo seu corpo a dentro, apertou o copo com força em um entendimento mudo. Johnny estava ali para ajudá-lo e Kanda... Kanda voltara ao inferno apenas para buscá-lo. Para estar presente toda vez que precisasse emergí-lo das cinzas.

Kanda voltara por ele, Allen Walker.

O mesmo Allen Walker que agradecera ao entregá-lo Alma e uma oportunidade de paz.

Então... Realmente... O albino não estava sozinho. Tinha os amigos da Divisão de Ciências, que passavam por cima das ordens do alto escalão para enviá-lo Johnny. Tinha os Exorcistas, aguardando-o, encobrindo a presença de Kanda. Tinha Cross que sempre esteve ali, disposto. Aquele mesmo que era mestre na arte de fugir, que poderia estar vivo modificando akumas em um canto qualquer do mundo.

E tinha Timcampy, que na presença de Neah, escolhera ficar nos ombros de Kanda.

Para alguém solitário, até que Allen se servia de amigos preciosos.

– Obrigado. — soltou, devolvendo o copo vazio. Um sorriso miúdo adornava os lábios, a cabeça caída um pouco para o lado. — Até que o Babakanda foi útil para alguma coisa~

– Tsc. — Kanda resmungou, a veia ameaçando estourar. Diabos. E ele ainda voltara a Ordem para isso. Grande merda, devia ter arrancado aquela cabeça albina quando o Décimo arcordara.

Pôs o copo na mesinha, puto. Allen, que ria baixinho das reações alheias, ainda teve que alfinetar.

– Nee, como está a Lenalee? — um sorrisinho falso dançava nos lábios, assistindo o showzinho em posição VIP. Kanda se virou, exalando vontade assassina, a Mugen aparecendo repentinamente na mão do espadachim.

– FODA-SE A LENALEE.

– OE KANDA! — o recriminou, indignado com a falta de modos. A Lenalee foi a segunda exorcista a acompanhá-lo naquela rotina insana! Ele tinha que, ao menos, ter um pouco mais de cuidado ao falar dela.

– Que é caralho?! — respondeu, os braços cruzados numa birra irada.

– Você devia ser mais cavalheiro!

– E você devia parar de ser mentiroso.

– Eu me preocupo com a Lenalee!

– E daí? Você se preocupa com todo mundo Moyashi! Não diga como se ela fosse especial ou qualquer coisa dessas.

– Huuuh, isso é ciuminho, é? — Kanda pegou a Mugen e marchou para a porta, pronto para sair vazado. Se ele quisesse continuar com teatrinhos, que entretesse as paredes. Allen, notando a atitude dele, gelou. — Ei, não, Kanda! Tá, tá, tá, você tem razão, ok? Eu me preocupo com todo mundo, eles são meus amigos! Não é nada especial com a Lenalee ou algo assim! Fica aqui!

– Pra quê? — Kanda parou, emburrado.

– … Preciso de ajuda. Johnny disse que eu devia tomar banho quente, lembra? Mas não sinto minhas pernas. — Allen sorriu amarelo, pensando em como poderia ter dito aquilo sem parecer interesseiro. Afinal, ele só queria que o moreno permanecesse no quarto para ajudá-lo, nada mais.

– Tsc. Não sou babá de feijões Moyashi! — ouviu-o bater a porta. Coitada, né, Kanda tinha um problemas com portas desde as primeiras missões juntos.

– Ah, qual é! Vou contar pro Johnny quando ele voltar, hein. — e o albino sorriu, assumindo a personalidade poker.

– Tá, tá. Que seja. — ele caminhou até o corpo no colchão, contrariado. Se estava ali deveria ao menos ser útil. Passou o ombro pelo braço do albino, sentindo-o depositar o peso em si. Levantou-o, olhando para ele interrogatório.

– Quê?

– Consegue ficar de pé? — Allen, ouvindo a pergunta, tentou andar. Tendo ajuda era fácil, mas não sentia firmeza para fazer isso sozinho.

– Mais ou menos. Por que não sinto minhas pernas? — trocaram um olhar denso. O albino sentia que, de alguma forma, tinha dedo do espadachim aí.

E a personalidade cruel de Kanda invadiu o ambiente, com direito a uma expressão sádica no rosto. Woah, diabólico... pensou Allen, a sobrancelha arqueada.

– Medida de precaução. — sorriu, feliz da vida.

– QUÊ? VOCÊ ME BATEU, SEU IDIOTA? A CULPA DESSA SITUAÇÃO É TUA ENTÃO! — e recomeçaram a briga. Allen se remexendo inquieto e Kanda sentindo-se irritar.

– Foi o Johnny. Tsc. Ele injetou uma daquelas coisas da Divisão de Ciências enquanto você dormia.

– V-você permitiu um absurdo desses? Kanda! E se eu não andar NUNCA MAIS na minha vida?

O espadachim deu de ombros, como quem diz “fazer o quê, né.”

Os perolados estreitaram, consumidos pelo mal. Tá, Allen tinha que arranjar uma forma de se vingar de Kanda, ah, se tinha...!

Chegaram a porta do banheiro. O moreno pôs a mão na maçaneta, abrindo-a. Entrou com o albino pendurado a tira colo, notando como o banheiro era apertado demais para os dois juntos. Olhou pro espelho, reparando na imagem que via refletida ali. Próximos. Pareciam um casal.

– Pode sair. Espera no quarto, quando eu terminar te chamo. — deu de ombros, largando-o na parede branca. Banheiro branco, box branco, azulejos brancos e moyashis brancos. Era brancura demais.

Fechou a porta atrás de si e sentou, resolvendo organizar os pensamentos.

Ouviu uns resmungos, berros desengonçados e barulhos. Ignorou. Ouviu o box sendo aberto, os resmungos aumentarem e a água do chuveiro cair. Ignorou. Ouviu, quinze minutos após, o registro ser fechado e os resmungos, relaxados, voltarem.

– Pode vir! — rezou para Allen estar vestido, enquanto pensava no motivo de servir de ajudante de inválidos. Ele, um Exorcista, fazendo trabalho de Finder.

Ô sina.

Abriu a porta, quase aliviado por encontrá-lo devidamente composto. Enlaçou a cintura do branquelo e começaram a caminhar, vagarosos, no ritmo do baixinho. Kanda respirava fundo, tentando a qualquer custo não se irritar com a lerdeza alheia.

Quando viu que ainda não tinham saido do banheiro, bufou. Pegou-o no colo, pouco se importando com os protestos, podendo enfim andar como bem entendesse. Cruzou o ambiente em três passos e o jogou, despreocupado, na cama.

Allen, porém, fizera questão de levá-lo junto. Aquela seria sua doce vingança.

– Oe, oe, oe. — Kanda sentiu a força que o maldito fazia contra seus ombros, resistindo a dor para erguer a cabeça.

E travou.

Allen, com os cabelos bagunçados e a expressão dúbia, fazia o impossível para parecer inocentemente apetitoso.

– Ah, me desculpe Kanda... — os perolados brilharam, vendo o moreno a frente hipnotizado. Os negros derreteram, num desejo súbito de beijá-lo. Já estavam na cama mesmo.

Os rostos de aproximaram. Allen fechou os olhos, entregue, numa provocação recheada de tortura. Kanda o copiou, indo para a frente... Indo para a frente...

E então, Allen o acerta no meio do abdômen.

Kanda retrai o corpo, surpreso pelo ataque, sendo empurrado pelas mãos hábeis do albino. Jogado no chão, como um saco de batatas velhas.

Allen gargalha, balançando as pernas em utilidade máxima. Oh, o maldito fingira invalidez só para sacaneá-lo! Era um pilanta mentiroso mesmo...

– Ai, Kanda, você tinha que ver sua cara! — e a risadaria permanecia, deliciada, as mãos apertando a própria barriga.

– É mesmo Moyashi? Vejamos quem vai rir de quem! — Kanda se ergueu, assassino, pronto para voar no pescoço do albino....

– TADAIMA~~ — e a porta abre, revelando um Johnny repleto de tralhas para concertar e sujeira no rosto. Ele sorria, feliz e cansado, pelo dia bem aproveitado.

Allen, que por um segundo vacilou ouvindo a ameaça, sorriu vitorioso. Estavam quites.

Kanda, emburrado, xingou o mundo enquanto reunia a Mugen e saia pisando fundo, duro, para a rua.

Moyashi infeliz. Sortudo, mas infeliz.

– Woaaah~ salvo pelo gongo! — e riu, frente a expressão confusa de Johnny.

– Ué, o que eu perdi? — ele fechou a porta, curioso.

– Nada demais, Johnny, nada demais~

Notas finais
Amarulla adorou escrever este extra e suspeita que Kalhens também. Seguinte: isso foi escrito logo após o cap. 23 de DGM. É uma versão Yullen de como as coisas poderiam acontecer, saka? Tipo um Tanzaku no futuro :3 Enfim, chegamos oficialmente ao término. Agradecemos por tudo s2.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!