Eu não estou mais contando os meses. O tempo para mim é um conceito estranho. Quando era criança, contava os dias para minha mãe preparar aquele bolo de cenoura que eu e Pairo tanto amávamos. Hoje, não existe mais nada a esperar. Exceto esse vazio que me consome e me faz fitar o teto com a mente perdida.

Sei que abandonar Leorio foi errado. Eu não deveria ter ido. Não deveria ter lhe dado esperanças. Não sou um homem justo, afinal. Mas agora isso é apenas um passado que não me importa. Leorio estará melhor sem mim. E eu estarei melhor sem ele. Falta pouco para recolher todos os olhos agora. E esse ódio ainda me consome, arrancando aos poucos cada pedaço meu. Um ódio que me deixa vazio.

Arrietty continua ao meu lado. Ela nunca vai realmente embora. Às vezes, eu consigo escutá-la chorando à noite. Nós nos entendemos em nossas dores não compartilhadas. Encontrei nela uma amiga, uma companheira, alguém que talvez esteja por perto quando eu morrer. Eu gosto de olhar para ela. Morrer em sua companhia seria uma morte agradável.

Ela não fala muito sobre Leorio ou sobre quem quer que encontre nos dias em que se afasta de mim. Fico admirado por seus sorrisos. Conheço um pouco da dor que carrega. Como ainda consegue sorrir? Ela nunca me responde realmente. Só fica na dela, alheia ao mundo, mas ao mesmo tempo tão desperta, que consegue me ler como se eu fosse uma sequência de palavras.

Nesta tarde, depois de todos aqueles meses que não contei, ela caminha pela praia e observa o mar. Sempre me traz aqui quando quer pensar. Eu sinto a brisa em meu rosto, o cheiro do sal... Arrietty senta-se a meu lado na areia e encosta a cabeça em meu ombro. Eu roço seus cabelos com os lábios. É bom sentir o cheiro dela.

“O que nós vamos fazer quando isso acabar?”

“Acabar? Não vejo mais sentido em falar em fim. Nós não temos história, Arrietty. Não mais.”

“Você é tão pessimista...”

Ela suspira.

“Eu só achava... que a vida seria mais do que isso... algo como o que meu pai me ensinou.”

“Você não precisa seguir esse caminho se não quiser,” rebato.

“Acho que já estou fundo demais para voltar...”

“Eu não consigo te entender.”

Ela se afasta e me olha daquele jeito profundo. Aquele olhar que me lê. O olhar que me desnuda.

“Eu queria uma família. Uma vida normal. Quem sabe um cachorro. Eu não quero morrer...”

Umedeço os lábios.

“Eu também não, Arrietty.”

“Você tem uma história. Ao lado do Leorio. E do Kurode. E de mim. Como quer escrevê-la? Como você realmente quer escrever?”

Fecho os olhos. Estou cansado disso tudo. Às vezes, ela é irritante.

“Não há espaço para o amor na vida que escolhi para mim, Arrietty.”

Ela olha para o mar. Seus cabelos estão soltos. Ela parece mais nova quando os deixa desse jeito. E mais bonita. São esses os momentos que me fazem vê-la como mulher.

“Você tem razão. A vida que nós escolhemos não tem espaço para o amor. Mas, sabe? O amor é uma coisa intrometida. Ele vai aparecer, quer você queira ou não. E não vai pedir licença.”

Não respondo. Ela fica em silêncio. Nós não trocamos nenhuma palavra até o sol se pôr, e a escuridão reivindicar a praia. Arrietty levanta-se e espana a areia das roupas. Eu me levanto também. Nós vamos embora juntos. Sem falas. Sem sons.

Porque nos entendemos na dor.

Notas finais
Vou confessar uma coisa a vocês: sempre que venho atualizar a Kokoro e a Tamashi, fico cheia de medo de me enrolar e trocar os capítulos das duas fics. Já pensou um capítulo do Leorio na fic narrada pelo Kurapika e vice-versa? Gente, faltam só dois capítulos agora e eu não respondi um monte de comentários. Peço desculpas por isso! Mas vocês sabem que eu sempre respondo tudo com muito carinho. Beijos! ♥