Estou sozinho quando ele me encontra. A cidade é escura e vazia, e as nuvens choram. Eu me sentia um fantasma perambulando sem rumo, frustrado por não conseguir recuperar mais olhos. Briguei com Arrietty e saí de nosso apartamento para sentir os braços do inverno. Percebo sua presença. Ele quer ser percebido.

Paramos diante de uma mercearia abandonada. A chuva escorre pelo toldo aberto, preenchendo o ar de melancolia. Ele ainda é novo, quase tanto quanto eu. Não compreende a vida que está buscando. É apenas uma peça manipulável nas mãos de seu irmão mais velho, um monstro sem qualquer humanidade. Apesar de tudo, eu não quero matá-lo. É uma criança ainda, não sabe o que faz.

Mas ele me engana. Sua voz baixa, quase cálida, diz palavras que não quero ouvir. Meus olhos vibram. Eu preciso me conter. Até que ele diz um nome, um único nome. Leorio. Viro-me de forma brusca e aperto seu pescoço. Poderia matá-lo aqui e agora. Pouco me importa que seus poderes sejam de explosão. Ele não tem coragem de usar... Ele não tem coragem de morrer. Mas eu tenho.

Solto-o. Largo-o para trás, tossindo muito. Volto para casa a passos rápidos. Arrietty ainda está brava quando arrombo a porta, mas logo me segue perguntando o que houve e por que estou tão agitado. Eu pego o celular e ligo para Leorio. Ligo várias vezes, mas só ouço a caixa postal. Não sei se ele está dormindo, ou sem bateria, ou...

“Kurapika,” murmura Arrietty, preocupada.

“Eu preciso ir.”

“É um blefe.”

Prenso os lábios. Lembro-me de respirar. Meus olhos ainda vibram.

“Eu sei.”

“Você vai mesmo assim?”

Viro-me para ela.

“Eu preciso.”

Arrietty suspira.

“Ele só deve estar longe do celular.”

“Eu sei...”

Ela fica esperando. Maldita! Ela fica esperando. No fundo, ela só quer me ouvir dizer.

“Eu quero vê-lo.”

Satisfeita agora?