Talvez seja um sonho

5 Baby It's a wild world


Notas iniciais
Esse capitulo ficou maior do que eu pensava, então eu dividi ele em dois. A música Wild World - Cat Stevens estava grudada na minha cabeça na hora que escrevi esse capitulo.

Quando eu era pequeno, sempre que eu me sentia sozinho, minha mãe lia algum livro para mim. Isso acontecia com bastante frequência, então os livros acabavam bem rápido. Eu não lembro muito bem das histórias, porque eu não prestava muito atenção nelas. Eu apenas gostava de ouvir o som da voz da minha mãe. Ela falava devagar e interpretava ao ler. Sussurrava quando deveria sussurrar, franzia a testa e imitava as vozes dos personagens. Eu adorava. Só tem uma história dessa época que eu me lembro, minha mãe chamava de "O homem sem sorte". Era a história de uma garoto que cresceu sem os pais. Ele morava na rua e fazia o que podia para tentar sobreviver. O problema era que ele era muito azarado. Tentou viver de furtos, mas na primeira tentativa a sua vitima era uma delegado de polícia disfarçado. Passou algumas semanas na cadeia, com direito a uma refeição por dia, então decidiu que não iria mais roubar. Quando saiu da prisão, o local em que ele morava, o beco próximo a saída da cidade, estava ocupado por outras pessoas. Tentou ajudar pessoas, mas elas o ignoravam. Tentou arrumar um emprego mas ninguém nem mesmo olhavam para ele. Então, depois de uma semana com fome, com raiva e já bastante triste, ele tentou se matar. Amarrou uma pedra nos pés e pulou no rio que ficava ao lado da cidade. Uma mulher viu ele caindo no rio e correu para salvá-lo. Ela levou ele para casa, trocou sua roupa, lhe deu comida e cuidou dele até que ficassem bom. O garoto nunca tivera tanta sorte. A mulher acabou se apegando a ele e criando-o como filho. Um mês depois ela estava morta, e o garoto estava agora com uma ferida no coração que nunca mais se curaria.

Nunca fui descobri porquê alguém escreveu aquele livro, mas eu nem mesmo fui atrás. Eu me identificava com o garoto, eu realmente era muito azarado. E quando minha sorte começou a mudar, eu fiquei com medo. As duas ultimas semanas tinham sido maravilhosas. A melhor parte do meu dia era quando eu estava com a Thalia, fosse no colégio ou fora dele. Ela era energética, não me deixava parar. "Vamos ali", "vamos fazer isso ou aquilo", "vamos conversar sobre deuses", ou algo do tipo. Ela pregava peças nos professores, em Grover e as vezes até em mim. Eu, é claro, devolvia na mesma moeda.

Naquela manhã, ela não tinha ido para o colégio, o que era um pouco estranho. Eu estava saindo da escola e pensando em passar na casa dela para saber se tinha acontecido algo, talvez ela estivesse doente. Grover passou por mim sorrindo, ele virou e me deu uma piscadinha. Uma menina estava de braços dados com ele, ela era linda, parecia um pouco envergonhada, mas feliz. As bochechas vermelhas deixavam-na fofa.

— Ei, cabeça-de-alga. — Thalia apareceu de algum lugar e me deu um tapa na cabeça.

— Ai! Pra que isso?

— Você estava secando a Juníper.

— Quem? — Ela revirou os olhos.

— A menina com quem o nosso garoto está.

— Ah, é só que... ela parece um pouco envergonhada.

— Óbvio. Ela é quieta demais, calada, na dela, sabe? As outras garotas vivem tirando sarro dela. Ela é meio que um alvo fácil, já que não revida. Acho que amanhã todo mundo vai estar sabendo. Vou ter que tomar algumas providências. — Eu senti um pouco de pena da garota, mas ri. Thalia adorava fazer isso, ela defendia quem não tinha vontade de se defender ou quem não conseguia. A maioria das pessoas do colégio odiavam ela.

— Bem, por quê você não veio para a aula hoje? Eu tive que aguentar aquele porre
sozinho. — Ela sorriu.

— O que você fazia antes de eu entrar na sua vida, hein? Enfim, eu só vim avisar
que não vou poder jogar com você hoje.

— Ah, aconteceu alguma coisa? — Ela suspirou, como se tivesse que contar uma
péssima noticia.

— A idiota da minha mãe. Ela esta namorando com esse cara, ele vai fazer um jantar na casa dele e quer que eu vá. Eu estava devendo um favor para ela, então sou meio que obrigada a ir. — Em duas semanas eu tinha aprendido algumas coisas sobre a Thalia, e a mais importante era que ela odiava falar da mãe. Algumas dias atrás nós tínhamos ido acampar(por sinal, se você odeia mosquitos, eu não recomendo). Estávamos nós dois deitados olhando as estrelas, a fogueira crepitando próximo a gente. Thalia estava bebendo, mas eu tinha recusado, já tinha provado que era péssimo naquilo. Ela começou a chorar e contar sobre sua mãe. Aparentemente a mãe dela, Maria, teve um caso com esse grande empresário e acabou se apaixonando por ele. Para tentar ficar junto a ele, ela fez de tudo engravidar, e conseguiu. Porem o homem era casado com outra mulher, e simplesmente foi embora, sem ligar nem para ela e menos ainda, para a filha. Maria culpava Thalia, odiava a filha com os olhos do homem que foi embora e que ela nunca realmente quisera.

— Ah, que droga. Mas por que diabos ele quer que você vá para esse jantar?

— Parece que ele tem um filho também e quer que nossa nova "família" se entenda. Eu preferiria ser atingida por um raio.

— Se eu fosse Zeus eu estaria bem tentado a jogar um raio em você.

— Se você fosse o Senhor dos Deuses, Percy, o mundo estaria uma droga. Isso é, pior do que já está.

Nós rimos muito. Decidi que a levaria até a sua casa. No caminho conversamos sobre o que faríamos se fossemos deuses. Nós chegamos incrivelmente rápido, o que era uma droga.

— Percy, é...bem, amanhã vai ter esse...hum, festival. Vai ser naquele parque que fica no norte da cidade. Minha mãe disse que vai...é...usar a casa, e que eu preciso sair, então... você quer ir comigo? — Ela estava nervosa, ficava esfregando as mãos uma na outra. Seu rosto estava levemente rosado, e eu não entendia o porquê, mas meu estômago deu algumas reviravoltas.

— É...claro. Eu te pego que horas? [notas do autor: a noite intera, por favor] — Thalia sorriu de um jeito travesso, todo o nervosismo de antes sumiu na hora.

— Às seis, vista algo legal. — Ela me deu um beijo no rosto e entrou dentro de casa. Eu fiquei parado alguns minutos até que meu cérebro voltasse ao normal, então me virei e comecei a andar.

Durante a caminhada, percebi duas coisas. A primeira coisa é que amanhã era dia doze de junho, dia dos namorados. A segunda é que eu tinha um encontro. Dei graças aos deuses não ter entendido isso antes, porque se não eu teria ficado muito vermelho e nervoso para responder. Era meio difícil acreditar que eu realmente tinha um encontro no dia dos namorados.

Eu estava tão distraído que quase fui atropelado. O motorista buzinou e saiu me xingando. Primeiro eu fiquei surpreso, depois confuso. Não tinha dado conta para onde estava indo ou qual caminho eu estava tomando, apenas continuei andando e meus pés me levaram para bem longe de casa. Demorou alguns segundos para eu conseguir me localizar. Eu tinha andado até a casa da Annabeth.

Dois Percy lutavam dentro de mim. Um dizia "Cara, já fazem semanas, ela não quer te ver depois de semanas. Ela provavelmente nem lembra mais de você". E o outro revidava "Nós consideramos ela uma amiga, mesmo que não a gente não tenha vindo antes". Eu fiquei ali parado olhando para a casa, não sei dizer por quanto tempo. E não saberia dizer o que teria feito a seguir, quando ouvi a Sra. Chase me chamando.

— Ah, Perseus. Que bom revê-lo. Vamos entrar, Annabeth não chegou ainda. — Ela carregava várias sacolas, e eu me ofereci para ajudá-la. A casa estava mais ou menos do jeito que eu lembrava, muitos livros e antiguidades espalhados por todo lugar, porem a bagunça parecia bem organizada. A Sra. Chase fez eu me sentar na cozinha enquanto ela preparava uma janta. Havia várias anotações, livros, pesquisas e canetas em cima da mesa, mas ela rapidamente retirou tudo.

— Como vai o trabalho, Sra. Chase?

— Ah vai bem. Ótimo na verdade. Estou criando uma estratégia que vai expandir a
empresa de uma forma extraordinária. Em uns dois anos nós já iremos cobrir boa parte do
país.

— Ei, isso é ótimo, Sra. Chase.

— Sim, maravilhoso. São boas oportunidades, com filiais em quase todas as grandes cidades, fica mais fácil a transição para elas. Se Annabeth quiser, a gente poderia morar em qualquer uma delas. — Aquilo não era tão ótimo.

— Na verdade, Perseus, eu gostaria de falar com você sobre isso. Sabe, eu não quero me mudar, eu até gosto dessa cidade, desse bairro. Mas, Annabeth está...se perdendo. Cada dia mais. E é irritante porque eu não consigo alcança-la, não consigo conversar com ela. Mas acho que você pode, sei que ela tem você como amigo, faça ela ver um pouco de senso e desistir daquele garoto.

— Nós nem somos tão amigos assim, senhora. Não sei se posso fazer ela deixar, quem quer que a senhora quer que ela deixe. — Eu estava confuso, muito confuso.

— Ela gosta de você garoto, não teria trago você para casa apenas por bondade. Estou lhe dando a oportunidade, então, se você gosta da minha filha, quer ela bem ou quer ter ela por perto, faça ela desistir daquele rapaz que está destruindo a vida dela. Ou serei forçada a levar ela para outra cidade.

— Mas...mas isso não é certo! A senhora não...

— Quer falar sobre o certo e o errado, menino? Vamos falar sobre, então. — Ela se levantou e pegou alguma coisa nas suas anotações. Voltou e se sentou de frente para mim, cruzou as pernas e fixou aqueles olhos tempestuosos em mim. Era a imagem de uma deusa grega, Atena. Ela tinha uma escudo gigante em uma das mãos e uma lança na outra. Uma outra deusa estava na imagem, Nike, a deusa da vitória. — Está vendo essa imagem? Atena era a deusa da sabedoria e também a deusa da justiça. Em seus julgamentos, a deusa não levava em conta o certo e o errado. Ela provavelmente diria que isso não existe. Existem escolhas, e com elas consequências. Mas com o passar do tempo nos apegamos cada vez
mais no certo e no errado, você quer saber o porquê? Nós, e me incluo nisso apenas por capricho, criamos e adotamos um sistema de recompensas. Nós andamos do lado "certo" da lei, então queremos segurança, conforto. E para os que andam do lado "errado" queremos que sofram, que morram. Andamos do lado "certo" da religião então queremos o paraíso, e para os outros, o inferno. Um rapaz mata o outro e rouba-lhe as coisas, isso é certo? Isso é errado? Ou isso é apenas uma escolha? Você não pode classificar as escolhas dos outros. Se você quer saber, só existe uma coisa justa nesse mundo, e é a morte. Ela não liga se você é bom ou mal, certo ou errado. Ela está acima desse nosso sistema binário de pensar, e de novo me
incluo por puro capricho. Levar Annabeth para longe dessa cidade não é uma escolha só minha, ela tem que querer. É algo que prezo bastante, Perseus. Você tem uma escolha para tomar, mas tem pouco tempo, da ultima vez que ela me não me ouviu, não durou muito para aceitar o que sugeri.

Depois daquela conversa, eu perdi totalmente a fome. Eu confirmei aquilo que já sabia, ninguém ganharia uma discussão contra a Sra. Chase. Annabeth chegou alguns minutos depois e ela pareceu muito feliz em me ver. Nós ficamos o resto da noite conversando, ela parecia mais feliz que antes. Ela me contou sobre o novo colégio dela e estava me atualizando sobre os lugares que ela já conheceu na cidade.

— Você ta estranho, Percy. Tem algo te incomodando?

— É que eu tive uma conversa com tua mãe mais cedo. Ela meio que...

— Embaralhou teu cérebro?

— Bem...sim. Acho que ela me chocalhou tão forte que algumas peças na minha cabeça se soltaram. — Ela riu.

— Ela tem essa capacidade, tente viver vinte e quatro horas com isso.

— Falando em mães, a minha quer te conhecer, deveria aparecer lá qualquer dia, ela
é muito legal.

— Você tem falado de mim para sua mãe? — Todas as garotas parecem ter essa habilidade irritante de tirar coisas constrangedoras de afirmações simples.

— É...sim, é claro. Mas não fique se achando muito, eu conto quase tudo pra minha mãe. — Ela estava sentada em sua cama, o cabelo loiro brilhando junto com a luz do quarto.

— Annabeth, sua mãe mencionou um garoto. Você...você voltou com o seu namorado?

— Sim. — Ela disse aquilo com firmeza. Seus olhos desfocaram um pouco e ela virou o rosto para a escuridão que tentava entrar pela sua janela. — A verdade Percy, é que eu me sinto um pouco culpada pelo modo como as coisas aconteceram. Mas já está tarde, é melhor você ir. — Eu me despedi dela e já estava quase na porta quando ela me chamou.

— Percy?

— Oi.

— Diga a sua mãe que algum dia irei conhecê-la, okay?

— Tudo bem. — Mas nada parecia realmente bem.

Notas finais
E aí, o que acharam do capitulo?