Talvez quase uma história de amor
1 A chave de fenda
Gosto de pensar nele como alguém que me ensinou até onde tolerar e como devo ser tratada em um relacionamento. Mas na real, ele é o motivo de eu me questionar se existe mais de um grande amor na vida, ou se assim como Drummond, se você não ficou com seu primeiro amor você está fadado a ficar sozinho. Assim como Drummond também, eu acreditava e acredito ainda, que tenho apenas duas mãos mas carrego nelas o sentimento do mundo. Essa é uma história bonita, profunda, é um amor poético, mas infelizmente ou não, essa é a minha história de um não amor.
Dia 1, sexta-feira.
Acordei ansiosa para meu primeiro trabalho, se é que posso chamar assim, como cartunista. Lá pelo meio da minha adolescência nunca tinha beijado alguém, eu achava que eu sabia até onde ia o significado da palavra amor, como eu era inocente. O que eu sabia sobre o amor era ter amado um menino por sete anos no mínimo, menino esse que nunca me deu atenção, que eu não sabia nada sobre, e que mais tarde descobri que assim como eu, também gostava de meninos. Perdi o foco, voltando a história, cheguei no evento com a minha pastinha, lápis, meia calça (que só fui descobrir que estava rasgada três dias mais tarde), saia e meu caderno do Doctor Who. E lá estava ele, o menino mais adorável que eu já tinha visto em toda a minha vida, ele tinha longos cabelos loiros presos em um coque desarrumado, olhos verdes e brilhantes, era daqueles que você percebe que é fofo a distância. Andei até ele tropeçando nos meus próprios pés, tímida como sou, ele me deu boas vindas, me entregou as instruções do evento, e disse:
— Nossa como eu amo Doctor Who!
Me ganhou em uma única frase.
Me direcionei a mesa em que meu nome estava escrito, fui olhando assustada os rostos que eu nunca tinha visto antes ao meu redor, ouvi alguém me dar um “oi moça”, mas abaixei a cabeça e andei mais rápido, salas lotadas e pessoas novas nunca foram meu forte. Me sentei e percebi que uma menina não parava de olhar meu caderno do Doctor Who, ignorei e comecei a ler as minhas tarefas para aquele final de semana.
Dia 2, sábado.
Consegui encontrar minha melhor amiga ao chegar no evento, ela estava trabalhando em outra área, então ficava muito complicado de a gente se ver. Conhecia ela a um ano mais ou menos, mas todo mundo que nos conhecia jurava que éramos amigas de uma vida inteira. E muitas vezes mentíamos dizendo que nossas mães eram amigas quando crianças e decidiram ficar grávidas no mesmo ano, e sentíamos como se fossemos mesmo, mas a realidade de fato passava longe disso, nossas mães sequer se conheciam. Ela estava muito nervosa nesse dia, tinha que fazer uma apresentação para muitas pessoas, ela costumava se confundir com as palavras quando estava nervosa, e além disso, tinha esquecido todas as suas anotações em casa. Respiramos um pouco juntas antes de o dia começar, e tomamos coragem para entrar no evento. Chegando lá, um pessoal havia se juntado para fazer um correio elegante, aparentemente eu não era a única que me interessei por alguém, mandei alguns correios elegantes para a minha amiga de brincadeira, ela mandou alguns brincando e alguns reais e recebeu alguns reais também, acontece que os organizadores do correio elegante não tinham nada de organizados, muitas cartinhas se perderam e entre elas, uma que eu deveria ter recebido. Passadas algumas horas eu estava mais interessada no correio elegante e nas brincadeiras do que no evento em si, achei um menino lá hilario, esqueci de perguntar o nome dele, ele era completamente o oposto de mim, era extrovertido, engraçado, o tipo de cara que todas as meninas queriam para elas, menos eu. Não consegui tirar dos olhos e nem do pensamento o menino do primeiro dia o tempo todo, quer dizer, do canto dos olhos, não queria que ele reparasse que passava horas encarando ele.
Quase na hora do almoço recebi meu primeiro bilhete, ele dizia “Me chama de Doctor e pega na minha chave de fenda”, fiquei espantada e achei engraçado também, estava em anônimo mas não precisava de nome. Só podia ser ele.
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