Notas iniciais
Louise aprende cada dia mais sobre a vida, sobre perdas e ganhos e mais ainda, ela aprende a lutar... Mil e uma desculpas pela demora, o capitulo já estava pronto aguardando minha coragem de posta-lo ><

Os dias passam tão de pressa que logo já será outro ano. O hospital anda movimentado por parentes e familiares de alguns pacientes, vejo muitos sorrisos e olhares distantes em toda parte. Mesmo com tantas pessoas ninguém visitou a Clara. Eu e Marcos vamos lá quase toda manhã, ele até fez a brincadeira dos dedos com ela. Quando a vejo com o olhar feliz até esqueço que esta tão dependente daquelas máquinas malucas, ela é uma grande lutadora, mais que isso, ela tem fé.

A mesmice estava me consumindo por inteira, resolvi sair andando pelo hospital e fui ao 11° andar, onde entre corredores movimentados outros nem tanto encontrei uma grande janela de vidro com vista pra cidade, não tinha ninguém por ali, então me sentei no chão de um lado da janela e fiquei observando todos aqueles prédios e a nuvem de poluição envolvendo-os mais a frente em uma brecha enxergava um azul meio esverdeado, estava distante, mas sabia que era o mar, imaginei a brisa, o barulho das ondas a areia entre os dedos dos pés. Nunca fui à praia, não deu tempo.

_Você não estava em parte alguma, resolveu seguir meu mau exemplo e sair vasculhando o hospital?- Perguntou Marcos enquanto se sentava ao chão no outro lado da imensa janela.

_Acho que sim...

_Você sente falta né? Da sua casa?

_Às vezes... Sinto falta de momentos, sorrisos, abraços, algumas pessoas algumas histórias, mas sempre terei novas histórias pra contar, isso é o que importa não é mesmo?

_Sim, mais ainda se eu estiver nelas. – ele sorriu.

O sol estava se pondo nos arrastamos um pouco mais pra perto e ficamos ali observando-o até sua ultima fresta de luz. Em silêncio apenas, observando.

Na manhã seguinte enquanto fazia minha visita de rotina à ala infantil vi uma baixinha chorando encostada num cantinho do corredor.

_Hei, o que foi baixinha? O que aconteceu?

Ela me olhava com aqueles grandes olhos molhados:

_ Sabe tia, hoje vi um casal visitando um menino, eles o abraçaram e riam e sorriam. Meus pais nunca vieram ao hospital, eu não os conheço, acho que eles não em querem: sou careca, minha pele não é lisa, meus olhos sempre estão avermelhados, sou pequena de mais pra minha idade.

Ela desabou em choros. Me abaixei, a apoiei em minha perna e olhando pra ela disse:

_Você tá falando sério? O que eu vejo é uma garotinha muito especial, que não precisa de beleza pra sorrir, não precisa de cabelo pra ajudar alguém, nem de tamanho pra ter um grande coração. Sabe o que mais eu vejo?

_O que? — Ela me perguntou ainda nada convencida.

_Vejo alguém que é muito querida não só por mim, mas por todos aqueles que ela também guarda no coração. Sua família está sempre com você e sempre estará, olhe pro lado, nós somos sua família e nós te amamos do jeitinho que você é, porque primeiro você aprendeu a nos amar. Agora, enxuga esse rosto e me da aqui o meu abraço, pode ser?

_Sim!!!

“Aquela terrível impressão de que tem alguém nos observando.”

Continuei minha caminhada pela ala infantil e a ultima parada foi no quarto de Clara, Marcos estava muito calado observando-a. Parei ali mesmo, perto da porta e percebi que tinha algo diferente nela e que de alguma forma ele também já havia percebido. Aproximamo-nos e ficamos a visita toda parados ali, calados, olhando pra ela até que ela dormisse novamente.

Minha cabeça deu voltas mais voltas, será que ela estava tão mal assim? Não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas sabia que Clara iria precisar de nós mais que antes.

Naquele mesmo dia voltei ao seu quarto, ela estava suando muito e parecia estar tendo um pesadelo, não sabia se a acordava ou se a deixava assim, quando ela começou a gemer , ela estava tendo uma crise. Na minha mente vieram os gritos da mocinha de um antigo quarto e eu já me sentia com no passado: imóvel. Logo retomei a consciência e chamei os enfermeiros que lhe aplicaram uma injeção, agora ela estava dopada e começava a se acalmar, enquanto ela adormecia sussurrei em seu ouvido:

_Não tenha medo, estamos aqui e estaremos até o fim. Apenas descanse.

Mais tarde resolvi tomar uma água e quando me virei pra sair um médico estava chegando:

_Lamento mocinha, mas temos de levar sua amiga daqui, ela passará por uma cirurgia. _ ele olhou pra minha pulseira- você sabe onde encontra-la.

Consenti e saí do quarto.

As horas seguintes pareciam não passar, fiquei inquieta a noite toda. Quando finalmente fechava meus olhos pra dormir ouvia os gritos daquela garota e via Clara se contorcendo na cama. Foi a pior de todas as noites ruins que passei ali, com angustia preocupação e ansiedade todos misturados na queimação de estômago.

O dia mal amanheceu e eu já estava saindo do quarto pra ter notícias. Marcos se adiantou e chegou antes de mim, estava encostado na parede perto do corredor de braços cruzados e cabeça baixa. Parei de frente a ele, quando levantou sua cabeça me encarou por alguns centésimos de segundos, então me abraçou.

Meu rosto esquentou a barriga esfriou então eu o abracei também. Naquele momento o tempo parou e senti meus batimentos pela veia do pescoço, estava suando frio, meus pelos arrepiaram. “Será um mal pressentimento?” Então nos soltamos, ele segurou minhas mãos e olhando fixamente pra mim disse:

_ Ela vai sair dessa, e nós estaremos aqui pra fazê-la sorrir novamente. Você acredita?

Ele estava com um olhar um tanto confuso , Clara tinha se tornado muito importante pra nós e se quer tínhamos percebido, ela nos motivava a cada dia e nesse dia mais que qualquer outro.

_ Tenho certeza.

A sala de espera estava deserta e só se ouvia nossa respiração por ali. Sentados de frente um pro outro permanecemos de mãos dadas como se estivéssemos em oração cada um no palácio de sua mente vagando cada fio de esperança, cada pensamento positivo que pudesse quebrar aquela tensão que o silêncio criava.

As horas se passavam e não tínhamos noticias de Clara. Até que finalmente alguém nos comunicou que ela já estava em recuperação, que havia passado por uma cirurgia e que em breve poderia estar de volta, mas que não poderíamos vê-la por enquanto.

Sem muito que fazer por ali, resolvemos ir para o jardim, havia passado o horário de almoço, mas não estávamos com fome. Lá, a roseira já estava novamente deslumbrante, as árvores continuavam tão verdes quanto antes e o banco central nos esperava como sempre.

Marcos olhava pra mim e sorria com o olhar, eu provavelmente estava muito parecida com ele. Sentamos naquele banco, em frente à roseira, de costas um pro outro e começamos a rir sem motivo. Nossa tarde se resumiu a esses sorrisos e não víamos a hora de rever aquela pequena que em tão pouco tempo se tornou parte de nossos dias, nossas preocupações e da nossa vida por ali.

Não demorou muito pra que Clara voltasse ao seu quarto. Estávamos a sua espera quando ela voltou, foi como se sua ausência tivesse nos ensinado a acreditar em nós mesmos, e entre risos e sorrisos a recebemos novamente. Pena que ela quase não conseguia falar muito.

O que nunca vou esquecer é daquela manhã, o médico estava no quarto, eu e Marcos muito felizes, ele inclusive gravando aquele momento, foi quando ouvi clara dizer:

_O anjo acertou, ele esteve me acompanhando, disse que eu apenas descansasse, então coloquei meu destino em suas mãos.

Peguei no braço de Marcos e apertei, somente pensei oque ela diria se soubesse que o anjo na verdade, era eu.

_Devo muito a vocês, obrigada, por estarem comigo até o fim.

Agora podia entender, ela não havia se recuperado, apenas teve uma ultima melhora, já tinha visto isso acontecer antes, ela parecia tão viva muito mais saudável. De nada adiantava, porque sabíamos que aquele não era um recomeço.

Naquele mesmo dia antes mesmo do meio da tarde, recebi a notícia de um enfermeiro Clara faleceu de insuficiência pulmonar, seus órgãos já não estavam funcionando bem e infelizmente de qualquer forma só havia pra ela esse fim. Com certeza essa peça rara sempre ficará em nossas memórias, uma guerreira em todos os sentidos, nos ensinou sem perceber a resgatar nossa fé, e mesmo sem ela por aqui não temos porque parar de acreditar.

Subi de elevador ao 11° andar, cruzei meus braços olhando o horizonte. Marcos apareceu e ficou imóvel ao meu lado. Ele estava muito pálido, mais do que de costume, isso me preocupava muito:

_Dizem que antes de falecer temos uma ultima chance, uma chance de nos despedir, de agradecer e desculpar às vezes tem muito tempo, às vezes não. Ela teve essa melhora e os presenteados fomos nós. Dizem também que nossa vida passa diante de nossos olhos e que nosso ultimo suspiro representa nosso maior amor. Foi uma grande honra pra mim fazer parte desse filme.

Marcos continuava imóvel e de seus olhos escorreram lágrimas, silenciosas, assim como nos meus também.

_Você sempre fala tão bonito. -ele disse- Aprendi tanto com você, assim como aprendi com Clara, mas de certa forma você é diferente, seu coração é diferente. Eu gosto disso...

Dessa vez a atenção não foi ao por do sol, mas as estrelas, que apesar do céu tão sujo relutavam em brilhar.

Não era uma noite perfeita Havia mais tristeza que esperança no ar, mas ainda estávamos ali, isso significava que estávamos lutando.

_Vamos ao jardim? – Perguntou Marcos- Você nunca foi lá à noitinha.

Concordei e descemos ao jardim, que, aliás, era tão bonito à noite quanto ao dia, as luzes iluminavam todo de uma forma diferente e as cores se misturavam como se aquilo tivesse sido planejado, tornando tudo muito especial por ali.

Sentamo-nos em baixo da paineira, ele segurou minha mão. Estava muito frio, e eu sentia algo queimar dentro de mim, rezava pra que ele não estivesse por partir também.

_Se eu te contar um segredo, você promete guardar com você?-ele me perguntou

Ele se virou colocou a mão em meu rosto e se aproximou. Encontrei algo em seu olhar que eu não conseguia definir, ele parou e me observou. Estava curiosa, ele também me parecia curioso então encostamos nossos rostos em seguida nossos lábios e dali, saiu um beijo.

Meu coração acelerou, meus lábios pulsavam, e sentia como se tivessem me dopado novamente.

_Esse é meu segredo. Guarda com carinho.

Na troca de olhares finalmente eu entendi o sentimento.

No meio de toda aquela preocupação meu sentimento era uma mistura de medo de perder também a ele, e por outro lado o sentimento de carinho, compreensão. “Como ainda não havia percebido meu amor por aquela careca?”

Era noite de lua nova, Há quem acredite que essa lua representa um novo recomeço, que uma nova oportunidade surgirá. E eu ultimamente ando acreditando.

Na manhã seguinte o Doutor veio ao meu quarto, ele me pareceu um tanto feliz. Fez aquelas anotações de sempre. Dessa vez ele não foi embora, nem contou piadas, se sentou novamente perto da cama e deixou de lado sua prancheta. Cruzou as mãos entre as pernas, abaixou a cabeça, pensou por algum momento, então sorriu novamente e disse:

_O que posso dizer mocinha, é que sentirei sua falta, você foi um dos milagres que presenciei, com certeza Deus tem grandes planos pra você! Só mais esses exames e você finalmente estará de alta. Não é incrível?

Vi no olhar do Doutor uma enorme felicidade, ele realmente acreditou em mim e agora, via que valeu a pena.

Eu sorri o sorriso mais largo que consegui e o abracei em agradecimento.

_Se não estou enganado, a ala infantil a espera, boa visita.

_Obrigada doutor.

Quando cheguei à ala infantil Marcos estava no not com a câmera do lado.

_O que temos pra hoje senhor Marcos?

_Temos você, oque mais podemos querer?

_Bom dia tia Louise!! -Todos disseram.

_Bom dia galerinha, como estamos hoje?

_vivíssimos!

_Haha! Vocês são de mais...

Marcos gravava aquela reunião diária como se fosse um dia especial, e eu não entendia nada.

Ele sorria tanto e olhava pra mim de um modo que me deixava sem jeito.

Depois do almoço sentamos no cantinho da sala, ele me mostrou algumas fotos que eu desconhecia. A mais bonita de todas era uma no jardim, onde eu ainda na cadeira de rodas observava a copa de uma árvore. Perfeita eu diria.

Aquele dia sua pulseira já não era mais cinza, era vermelha. Não saber o que elas significam me deixava louca.

Devo confessar que aquele dia, mas especificamente aquela manhã, foi incrível. As crianças pareciam muito felizes, até mesmo aquelas que não podiam sair de seus quartos. No meu perfil mandei uma linda mensagem a minha família, dizendo que eu estava amando tudo aquilo no rio e que estaria de volta muito antes do que eles imaginam.

À tarde Marcos contou casos pra lá de engraçados, mas a melhor parte de tudo era ele passando a mão naquela careca, me fazia lembrar a primeira vez que o vi, ou melhor, vi sua careca.

Aquele mundo parecia tão perfeito, estava rodeada de doenças e tristezas, mas mesmo assim, só via esperanças e motivos pra sorrir, sou mais uma vencedora, tenho motivos de sobra pra sorrir.

Voltei já de tardezinha, estava pensando em contar ao Marcos que em breve estaria de alta, mas tive uma baita surpresa ao chegar em meu quarto:

_Mass, por porque, ahn, uai. Você!?

Notas finais
Espero que tenham gostado :3 Muito em breve (dessa vez) postarei não só o próximo como todo o fim desse enredo. Assim todos saberemos o que marcos realmente tem... :)