Talvez o céu seja mais azul amanhã
4 Meu novo mundo
Notas iniciais
Hoje eu finalmente abri meus olhos. É manhã, a claridade me causava dores ainda, e a venda não me permitia ver nada além de branco. Mesmo assim estou tão feliz que poderia até dançar, se pudesse (risos).
São muitos curativos, mas bem menos que antes, “que dia será hoje?” Estranho mesmo foi não ter recebido nenhuma visita, eram três semanas mas tenho certeza de que se passaram muitas mais.
_Hora de tirar essa venda Louise! — Era Márcia que vinha entrando na sala e não estava sozinha.
Eu sorri e fechei meus olhos.
Pude sentir a faixa saindo volta por volta. E a luz aumentando aos poucos. Que sensação ótima! Era um suspiro de vida que estava voltando pra mim.
Aos poucos fui abrindo meus olhos, a luz estava forte, mas não consegui mover meus braços até meu rosto para cobri-los. Um borrão branco se seguiu de uma imagem embaçada do teto. Movi um pouco meus olhos e a minha direita lá estava ela, Márcia, seus olhos mel brilhavam em seu rosto tão claro, estava tentando focar minha vista, mas era difícil ora via, ora não via.
_Olá- ela me disse, e sorriu
_Mocinha sortuda, bem vinda de volta! Estamos felizes em finalmente ver seus olhos!
Olhei mais a frente, vi um borrão, em seguida um homem de cabelos negros e curtos, sobrancelhas grossas, outro borrão, olhos negros, e então finalmente pude enxergá-los. Márcia parecia um anjo com aqueles cabelos encaracolados castanhos e o doutor muito alto e forte com uma cara de sábio.
Eu sorri pra eles, eles sorriram pra mim:
_ Louise não é? Lindos olhos, cuide bem deles. – ele se virou e saiu.
_Cuidemos então desses curativos – disse Márcia.
Mais tarde me arrisquei a virar para o lado, a janela estava aberta, eu então vi o céu, não dei sorte, estava um tempo muito feio com nuvens carregadas e garoando; não demorou a chover, com os respingos da chuva vieram as minhas lágrimas, mentalmente agradecia a Deus por poder ver a chuva de novo, e chorava, mas chorava de felicidade.
Fico me perguntando quantas pessoas dão valor a momentos assim, o mundo delas é tão pequeno, o meu também era, as vezes eu parava no portão da minha casa pra ver o por do sol, ficava lá até as frestas de luz desaparecerem, pensava apenas no sol, na luz, no céu; e quando finalmente escurecia lá estavam elas, as estrelas, praticamente me contavam histórias só pelos seus brilhos na noite. Acho que eu sou meio louca de observar essas coisas, mas se eu não observasse iria perder umas das melhores lembranças.
Já se passaram quatro dias desde que tirei as vendas dos olhos, ainda não consigo me mover muito bem, hoje levantei minha mão esquerda e movi dedo a dedo, foi muito cansativo, minha mão estava bem machucada, cicatrizada na verdade. “será que vou voltar a falar? Espero que sim”.
Quando se está num estado como o meu a gente devia mas não pensa muito, na verdade eu me lembro mais do que penso, acho que isso não é ruim, sei lá. Ficar aqui mofando não é muito interessante, o lado positivo é que até as chatices da minha prima já não são mais problema pra mim, nada mais do mundo lá fora é problema pra mim. Minha maior preocupação é em saber quando o médico vai passar por aqui, anotar mais uma vez em sua prancheta um monte de coisas que nem faço ideia e sair novamente. Talvez ele olhe e sorria novamente, isso me trás esperança.
Pela manhã seguinte, Márcia voltou:
_Como estamos hoje? – Me acostumei tanto com você que vai ser estranho fazer esse ultimo curativo.
“Hã? Porque ultimo? Onde ela vai? Ou será que sou eu que vou?”
_Olá Louise — De longe reconheci a voz, era o doutor que estava entrando na sala- Espero que esteja cansada dessa sala, hora de conhecer um pouco mais do hospital. Vamos leva-la a uma sala compartilhada, porque o seu caso esta melhorando.
A transferência foi muito rápida e logo eu podia ouvir mais vida no hospital, vidas tristes mesmo assim vidas.
Batia meus dedos lentamente sobre o lençol da minha cama, enquanto ressoava em minha mente uma canção. Foi quando senti que havia alguém me observando. Virei os olhos para um lado e para o outro, parei de bater os dedos mas não vi ninguém, ouvi um som, com certeza tinha alguém me observando mas não vinha falar comigo.
A curiosidade tomou conta de mim, mas não conseguia me mover, até que eu me virasse não teria mais ninguém, foi então que apareceu uma careca na minha zona de visão, uma careca muito simpática por sinal:
_Você quer uma ajuda com o travesseiro?
Eu sorri.
_Você não consegue falar né?
A Careca se moveu e finalmente pude ver um garoto pálido que sorria enquanto ajeitava meu travesseiro.
_Você está na ala de recuperação mas sua ficha não é muito boa, meu nome é Marcos. Você também não tem os movimentos do corpo. Por enquanto — ele sorriu novamente.
Ouvi passos:
_tenho que ir! É Louise né? Volto em breve.
Garoto corajoso, estava vestido com roupas de paciente mas parecia muito bem apesar de sua palidez. É muito bom poder ver alguém que se importe por aqui, desde quando troquei de ala Márcia não aparece mais, é outra enfermeira que cuida de mim, essa é calada e triste.
Minha companheira de quarto teve uma crise essa noite. Pude ouvir seus gritos, foi uma convulsão muito forte de inicio, mas ela gritava mais e mais e a cama rangia, os enfermeiros vieram, não consegui ver nada, mas ela não resistiu. Quatorze anos eles disseram só quatorze anos.
Tive todos os tipos de pesadelos e passei a madrugada em claro pensando na tal da morte, pela manhã logo tinha outra paciente em meu quarto. Foi rápido, mas rápida mesmo foi a visita do doutor ao meu quarto, ele disse que votaria em breve e realmente, ele voltou:
_Sabe Louise, o dia em que você chegou nesse hospital, praticamente estava morta, você passou por várias cirurgias, com certeza é uma moça muito bonita e inteligente. Então, esperei até que começasse a se recuperar para poder conversar com você. Já faz dois meses e uma semana da sua ultima cirurgia, você está reagindo, o que é ótimo. Agora você vai começar o tratamento, trocaremos seus medicamentos e você irá se sentir mais cansada, talvez enjoada, isso é normal, não se preocupe é sinal de que estamos no caminho certo. Ok? – Dessa vez ele não sorriu, em nenhum momento.
O medo queimava em minha pele quando pisquei pra ele, foi o máximo que consegui, ele consentiu e saiu da sala calado.
Lá no fundo, eu sabia que o mundo lá fora já não era mais meu, esse era meu novo mundo, e os desafios se tornam diferentes, nesses, a cada vitória não ganho só experiência, ganho vida.
O tratamento seria com toda certeza muito dolorido e demorado.Os remédios eram mais fortes e eu me sentia um tanto drogada toda noite. Mas conseguia me virar com mais facilidade, pena que a janela não ficava mais lá e a única vista interessante que eu tinha era a da cortina em volta da minha cama. Talvez a única vista que eu pudesse ver em muito tempo. Quer saber, Já até me acostumei, não é pior do que não ver nada. Não mesmo.
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