Talvez o céu seja mais azul amanhã

8 Então é Natal - especial


Notas iniciais
Hora de cair a fixa.. Parece que o mundo lá de fora não faz mais tanto sentido assim pra Marcos... Não acham? ^^

Já se passaram dois dias e não tenho visto Marcos em lugar algum, minhas visitas se resumem ao jardim, que, aliás, já perdeu as rosas, e a Clara, ela é um doce, pena estar tão mal e não poder sair daquele quarto. Sinto-me só como nunca havia me sentido antes, penso se Marcos está bem, ele sempre some, mas desde que me mudei de quarto ele esteve por aqui.

Já é quase Natal e eu nem tinha me tocado. Quando voltei do jardim encontrei um embrulho em cima de minha cama com meu nome, logo fui abrindo, era um note book cinza.

_ Nossa já tinha me esquecido disso. – Resmunguei de qualquer forma.

_ Acredito que seus familiares estejam esperando notícias suas.- Era o Doutor que estava sentado numa cadeira ao lado da porta. – Pediram pra te entregar, aqui está o seu moldem, divirta-se.

Ele cruzou os braços e foi saindo, mas parou por um segundo.

_ Não deveria dizer, mas acho que alguém que está dois quartos a direita adoraria uma visita, não acha?

Coloquei meu note no colo e fui empurrando minha cadeira de rodas até o quarto de Marcos. Lá estava ele, deitado, dormindo em sua cama, cheio de fios e medicamentos.

Parei ao seu lado e o observei por um minuto, logo ele falou:

_ Você não vive sem mim né? Sentiu minha falta?

_Pois é, eu não vivo. O que aconteceu? Está melhor? – eu lhe perguntei.

_Não foi nada inesperado. Estou melhorando, serve?- Ele riu.

_Já é um começo. — também ri.

Fiquei no quarto de Marcos até que ele pegasse no sono. Engraçado como ele parecia estar tão feliz, são as levantadas que damos na vida, nos tornam cada vez mais fortes.

Estava na ala infantil sentada num canto quando entrei no meu perfil para saber dos meus amigos. Não havia muitas mensagens mesmo com tantos meses de distância, minha melhor amiga estava muito brava dizendo que eu fui embora sem me despedir dela.

Minha mãe já havia operado, e também deixado um recado pra mim:

Minha filha,

Espero que esteja tudo certo aí no Rio, sua tia me disse que você está se dando muito bem com o novo trabalho no hospital, que você adora as crianças... Estou escrevendo pra mandar notícias de que estamos todos ótimos por aqui e não vemos a hora de sua visita.

Era óbvio que minha tia além de viva era uma mentirosa. “Novo trabalho?” Andei vasculhando o perfil de minha mãe e só então pude entender que ela estava ainda em fase de tratamento e não fazia nem ideia do que estava acontecendo comigo. Nem ela nem ninguém. Talvez fosse melhor assim, de alguma forma sinto que aqui é o meu lugar, pelo menos por agora.

Vi uma foto de um amigo vestido de palhaço e me lembrei de Marcos no meu primeiro dia na ala infantil e ri.

_O que é isso? Que cara gozado! — disse Marcos se sentando ao meu lado no chão.

É meu perfil, esse é um amigo lá de Minas. Você não tem um perfil?

_Não – ele me respondeu simplesmente — Mas eu tenho essa câmera, já está meio ultrapassada. O Doutor sempre me traz novos cartões. Mas só uso em dias especiais, como hoje.

Ele nos filmou sorrindo e acenando. Olhei para seu pulso:

_Sua pulseira, agora é cinza. O que significa?

Ele colocou a mão esquerda sobre a pulseira, ficou um pouco tenso, então virou pra mim e sorriu:

_Hoje é Natal, de presente ganhei essa outra pulseira, cinza. Ainda bem, roxa me parecia tão feminina. Haha.

_ E isso é bom ou ruim?

_Depende do ponto de vista — ele virou e começou a filmar as crianças assistindo ao teatro de fantoches.

Reparei que ele também andava agora com uma maquininha o tempo todo, ela não apitava nem nada, assim como seu relógio que ele sempre usou.

_Posso ter um perfil como o seu? — Ele me perguntou.

_Claro! Vamos fazer um pra você.

Pra quem nunca viu um note book nem um e-mail, Marcos se saiu super bem. Tiramos uma foto tão engraçada pra sua capa! Mas a parte mais esclarecedora veio quando lhe perguntei quem ele conhecia:

_Conheço os doutores as enfermeiras e os pacientes. Será que eles têm um perfil também? – ele esfregava sua careca.

_Não sei, e fora do hospital? Você conhece alguém?

_Fora do hospital? Eu deveria? As pessoas lá de fora são tão estranhas!!

Finalmente me dei conta de que Marcos havia crescido por aquelas alas do hospital. Ele não recebia visitas, nem carta, nem nada. Todos o conheciam ele conhecia a todos, mas não saia dali desde sempre.

Fechei o note e olhei para Marcos observando as crianças. Estava tão feliz as vendo rindo, que por um segundo me peguei sorrindo também:

_Sabe, esse Natal está ainda melhor, é bom ter você por aqui. — disse Marcos.

_ Me sinto feliz por estar aqui também. Feliz natal.

_Feliz Natal.

Notas finais
Marcos não parece muito bem, será que finalmente Louise está entendendo sua complicação? esse especial traz Louise de volta a seu mundo, sua mente, e voltamos a entender seus pensamentos.