Talvez não fosse tarde demais

1 Talvez não fosse tarde demais


Notas iniciais
Leiam as notas finais!

E lá estava ela. Linda. Deslumbrante. Com sua típica e tradicional camiseta laranja e seu short azul. Seu cigarro na mão, indo de vez em vez em direção ao seus lábios. A cada tragada, um leve suspiro. Seus olhos estavam fundos, e a tristeza emanava em seu rosto. Tudo era completamente normal, a não ser a sua presença ali. O acidente havia sido quase fatal, e ela estava ali. Sentada. Me observando.

Eu realmente não podia acreditar que ela estava mesmo ali. Isso poderia significar que ela talvez me amasse. Ou talvez simplesmente significava que ela estava cansada das outras pessoas que costumam a cercá-la. Talvez ela simplesmente esteja cansada de tudo que acontece em sua vida. A mesma escola. Os mesmos amigos. Os mesmos livros. A mesma marca de cigarro. Talvez ela tenha realmente tentado se matar, e por não ter conseguido, tenha ficado ainda mais frustrada.

Ela provavelmente não sabia que eu havia acordado e estava olhando ela me observar, porque na verdade, ela não estava realmente me observando. Seu olhar estava vidrado em mim. Como se ela estivesse hipnotizada e a única coisa que a diferenciasse de um zumbi ou um fantoche, era seu cigarro.

– Às vezes, gordo, nós precisamos assumir um risco, e tentar nos livrar de toda essa crosta monótona de rotina que nos envolve. – finalmente olhou diretamente em meus olhos, parecendo acabar de acordar de um pesadelo – Mas às vezes, a fuga não é certeira.

Havia se passado três meses desde o acidente, e enquanto esteve no hospital, Alasca não havia permitido uma visita sequer. Nem de seu pai. Nem minha. Nem do coronel. Nem do Takumi. E nem de ninguém. Ela havia se recuperado completamente das lesões físicas causadas, mas seu psicológico estava cada vez pior. Era como se sua alma estivesse se esvaindo cada vez mais e com cada vez mais rapidez.

– Talvez a fuga não seja a melhor saída. – eu finalmente disse, mesmo estando incerto de minhas palavras.

– E será que realmente existe saída, Miles Halter? – ela tinha razão.

Como sempre, Alasca tinha razão. Não havia saída. Nossa mente sempre iria remoer as mágoas passadas e fazê-las se unirem às mágoas futuras, e no fim, tudo iria virar uma enorme bola de neve que iria nos envolver cada vez mais até a nossa morte.

Alasca Young estava morta. Não fisicamente, mas estava morta emocionalmente. Estava morta psicologicamente. Estava simplesmente morta. Eu não conseguia arrumar outra palavra para descrever a situação em que ela se encaixava. E eu também não conseguia uma resposta para dizer a ela. Mas provavelmente ficaria tudo na mesma, porque ela com certeza teria um contra-argumento para me responder, e eu ficaria novamente sem fala.

Seu cigarro finalmente acabou. Ela jogou o pequeno toquinho no chão, encostado na porta, e pegou a caixa de cigarros em cima da cômoda, na qual ela estava sentada ao lado. Mas antes que pudesse retirar outro cigarro de dentro dela, largou a pequena caixa em seu lugar inicial.

Olhou para mim, provavelmente esperando alguma reação ou que eu tivesse ao menos pensado em uma resposta para sua pergunta, que eu implorei mentalmente para que tivesse sido retórica e esboçou um leve sorriso. O primeiro de muito tempo.

Logo o sorriso se esvaiu, juntamente com minhas esperanças. Mas ela havia sorrido, e talvez isso fosse um bom sinal. Ou talvez fosse um ótimo sinal. Ou talvez não fosse droga de sinal algum. Simplesmente um dos diversos sorrisos falsos que ela estava acostumada a a esboçar durante tanto tempo.

Começou a vir em minha direção, e meu coração começou a disparar coma velocidade aumentando cada vez mais com sua proximidade em relação a mim. Mesmo deitado, eu me afastei um pouco de forma que abrisse espaço para que ela pudesse se sentar ou até mesmo se deitar ao meu lado, mas ela simplesmente ficou na beirada da cama, em pé, ao meu lado.

– Já faz alguns meses que meu pai vem tentando me ligar...

– E você não conseguiu falar com ele?

– Talvez eu teria conseguido. Se tivesse atendido alguma ligação.

Claro que ela havia atendido. Isso era mais do que óbvio. E eu perguntar se ela havia falado com ele me fez sentir um completo idiota. Mais do que o normal.

Alasca se abaixou e meu coração começou a bater tão rápido que eu pensei que teria uma taquicardia extrema naquele exato momento. Mas tudo o que aconteceu foi ela simplesmente se sentar ao meu lado e me dar um beijo. Ao contrário do que eu havia pensado, meus músculos começaram a se relaxar conforme os segundos se passaram durante o beijo.

Dez segundos. Eu havia contado mentalmente e nosso beijo durara dez segundos, até ela se recompor, com a coluna reta e voltar a encarar o nada. Mesmo o nada não sendo exatamente nada, pois era uma parede branca. Mas mesmo assim talvez fosse o nada.

Dois minutos – que mais se pareceram duas horas – se passaram e então ela voltou a olhar para mim e meu coração voltou a disparar. Se levantou novamente e voltou a esboçar aquele lindo sorriso de poucos minutos atrás.

Fez um sinal para que eu fechasse os olhos. E eu fechei. Provavelmente eu ouviria o bater da porta e ficaria sozinho ali. Imaginando quão bom era ter ela ao meu lado, mesmo que apenas seu lado físico estivesse ali, enquanto seus sentimentos estivesse a sete palmos embaixo da terra. Mas não. Eu senti o toque de seu corpo quente se recostando ao meu lado.

Ela havia se deitado ao meu lado. Mas não havia pedido para que eu abrisse os olhos novamente. Simplesmente havia se deitado. E então ficamos ali. Deitados. Juntos. Com apenas a escuridão que emavana nossas pálpebras fechadas.

Mas algo estranho estava acontecendo. O calor de sua pele estava se esfriando e ela estava ficando cada vez mais gélida. Meu coração novamente disparou, juntamente com a sensação de perda. Como se parte de mim estivesse levando facadas. Como se minha alma estivesse indo embora juntamente com ela.

Então abri os olhos com plena dificuldade, como de quem acabara de acordar de um sono de três dias. E ela simplesmente havia sumido. Não estava mais ali.

Suor escorria em meu rosto e eu novamente percebi que não passava de um mero pesadelo. Ela não tinha estado ali. Na verdade, eu penso que ela nunca esteve. Não de verdade. Porque ninguém jamais havia conhecido a verdadeira Alasca Young, e ela nunca permitiria que isso acontecesse. Principalmente agora, que era tarde demais.

Notas finais
Espero que tenham gostado. É minha segunda One Shot de final alternativo de um livro do John Green. Gostando, ou não, mandem reviews, por favor.E se gostarem, não acho ruim se favoritarem. :) Obrigado por terem lido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!