Talvez Seja Amor
14 Capítulo 14
Notas iniciais
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O primeiro ponto é que modifiquei a sinopse. Eu tinha uma idéia inicial, mas com o tempo novas foram amadurecendo então decidi mudar o rumo da estória. Quem lê desde o início vai notar. Mas garanto, será para melhor.
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Um outro ponto é que, como já citara na sinopse, apenas os personagens pertencem a Twilight, mas eu, como autora e dona da estória, tenho total liberdade de fazer modificações, como datas de aniversário, etc.
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E por último, mas não menos importante, é que esse capítulo é longo, porque necessitou ser bem detalhado para os acontecimentos do final do mesmo. Então... espero que nenhuma das minhas leitoras cansem enquanto estiverem lendo. Peço só um pouquinho de paciência rsrsrs
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Agora sim, boa leitura
Espero que gostem!!!
POV EDWARD
Subi as escadas e segui pelo corredor. Notei que a porta do meu quarto estava aberta. O som da TV aumentava à medida que eu me aproximava da entrada. Quando Bella apareceu no meu campo de visão, sentada na cama, percebi que ela não olhava para a tela ligada. Bella observava o quarto. Parecia tão absorta.
Ela virou a cabeça e me encontrou, em pé, parado na porta.
– Oi – ela falou, os lábios esboçando um pequeno sorriso.
– Oi – eu disse, entrando no quarto e fechando a porta atrás de mim. Caminhei e sentei-me no sofá.
– Alice foi buscar roupas na minha casa, com o seu irmão. Eu o conheci ainda há pouco. – disse Bella.
– Eu os encontrei lá embaixo. Estavam me esperando, para que você não ficasse sozinha.
– Edward, me desculpe. Além de tomar o seu quarto, estou tomando o seu tempo. Eu disse a Alice que não há necessidade de ficar aqui, que posso muito bem...
– Não! – a interrompi – Quer dizer, você precisa descansar e... segundo sua irmã, seus pais não iam gostar muito de saber o que aconteceu ontem. E você não está tomando nada. Eu só tive que... – pausei, pensando numa justificativa – só tive que dar uma saída rápida, resolver umas coisas. Só isso. Já estou de volta. Não tenho que sair. – sorri para ela.
– Você... não deveria estar viajando hoje? Digo, lembro que você falou que viajava com a peça na sexta, no entanto você ainda está aqui...
– Sim, eu disse. É que a minha viagem foi adiada para amanhã.
Ela riu, depois baixou a cabeça, balançando-a.
– O quê? – perguntei.
– Não, nada. É que... que mundo pequeno não é? Por acaso conheci você há dois dias, no Espejo, e eu nem tinha intenção em fazer aquele teste. Agora, por acaso de novo, estou aqui, conversando mais uma vez sobre sua viagem. Não imaginava isso, te ver tão cedo.
– Sim. – concordei, rindo. – Eu achei que só veria você lá no teatro, quando eu voltasse.
– Caso eu fosse selecionada. – ela sorriu fracamente. – Para ser sincera, achei que não nos veríamos nunca mais. Não sei se tenho chance de entrar e...
– Nunca mais? Você deveria ser menos pessimista. Tenho certeza que uma das vagas já é sua. – retruquei.
– Não é pessimismo. É que... sei lá – ela deu de ombros. –, eu só aprendi a não criar expectativas, a não esperar nada do futuro. É como andar no escuro sabe? Você sabe que vai chegar num lugar, mas não sabe onde. As expectativas trazem sofrimento, por isso a maioria das pessoas prefere evitá-las. – disse Bella.
– Talvez porque ser pessimista é mais fácil, é mais confortável. Por isso essas pessoas se autodenominam realistas. Mas apenas optaram pelo caminho mais fácil. Eu chamo isso de medo.
– Medo? – ela inquiriu e eu assenti. – Talvez. – ela parou um pouco, refletindo, voltando a falar em seguida. – Você alguma vez esperou muito por algo, que no final não saiu como você queria? – Bella perguntou.
– Hmmm... eu não lembro agora. Mas acho que sim. Provavelmente sim – respondi.
Bella sorriu e baixou a cabeça, mordiscando o lábio inferior.
– Uma vez li um livro muito interessante que falava sobre como nós seres humanos vivemos. Esse livro nos leva a refletir sobre muitas coisas, mas o que mais chamou minha atenção foram os depoimentos das pessoas sobre... sobre a expectativa. – ela pausou, ainda com a cabeça baixa, examinando as mãos. Levantou a cabeça e então me olhou, continuando. – Sabe o que é você trabalhar duro, não dormir quase nada, se dedicar inteiramente ao trabalho, criar uma expectativa de que você vai conseguir uma promoção e no final quem recebe é o cara do seu lado que não fez por onde? Sabe o que é você planejar uma viagem, para um lugar que você muito gostaria de conhecer, gastar toda a sua economia e quando enfim chega esse dia, acontece uma coisa que te impede de viajar, como a doença ou a morte de alguém querido? Sabe o que é você admirar uma roupa na vitrine, não ter nenhuma grana na hora, você decide voltar no dia seguinte e não encontra mais aquela roupa, porque aquela era a última peça da loja? Você sabe o que é ser obrigada a mudar de cidade, de escola, e depois que você consegue se firmar nesse lugar, depois que você faz amizades, seu pai decide que é hora de levantar vôo, mudar-se?
Eu a olhei, mas nada respondi.
– Então não. Eu não quero criar expectativas. – Bella completou.
– A última parte, sobre mudar de cidade... é sobre você? – perguntei.
Ela sorriu mais uma vez.
– Estou apenas citando depoimentos que li e que já ouvi ao longo desses meus 17 anos.
– Bella, sei que nem todas as coisas do mundo são boas, mas também não são ruins. E nós somos o que somos pelo que fazemos, não pelo que sabemos. Como você pode afirmar que algo não vai dar certo se você não tentar? Por que desistir? Por que se valer de experiências que não são suas? – questionei.
– Você já se decepcionou com um amigo? – ela inquiriu.
– Não. – respondi, balançando negativamente a cabeça.
– E em um relacionamento? Digo, você já se decepcionou... – ela parou e em seguida continuou. – com alguma namorada sua, depois de criar tantas expectativas em relação a esse relacionamento? – perguntou, deixando-me um pouco pensativo.
Não que eu tenha me decepcionado com as duas únicas namoradas que tive. Elas até eram legais, divertidas, e foram apaixonadas por mim. Se não deu certo, foi pelo fato de eu não sentir da mesma forma, de não ser recíproco, mas não por elas terem me causado algum tipo de decepção.
Mas obviamente que elas criaram expectativas em relação a mim, certo? Será que eu fui uma decepção para elas?
Nunca menti e sempre procurei ser honesto quanto aos meus sentimentos por elas. Quanto a esse ponto, minha consciência está limpa.
Lembrei-me de Tanya e as constantes brigas que tivemos antes do nosso namoro terminar. Demorou, mas felizmente no final ela compreendeu e aceitou que não daríamos certo juntos, que não adiantava insistir em algo que não teria futuro. Talvez ela não sinta como se eu a tivesse decepcionado.
– Não. – disse a Bella. – Não me decepcionei com nenhuma delas. Quer dizer, eu não tive muitas namoradas... – falei depressa, para ela não pensar que eu era um cara com muitos relacionamentos no currículo. – Namorei algumas, terminamos, mas... não. Eu nunca sofri alguma decepção com as namoradas que tive.
– Isso é bom. Pelo menos você nunca sofreu, por amor.
– Talvez porque não cheguei a esse ponto. De sentir amor por elas.
– Por isso não deu certo? – ela perguntou.
– Sim. Provavelmente sim.
Ficamos ali durante alguns segundos fitando o outro em silêncio. Eu podia enxergar a curiosidade nos olhos dela, quando seus lábios se separaram um pouco, como se ela quisesse perguntar algo, mas desistindo.
O que será que ela estava pensando?
Bella desviou o olhar e mordeu novamente o lábio inferior, o que me fez notar que ele estava um pouco mais inchado. Talvez mordiscá-los fosse uma mania dela. Continuei na mesma posição, olhando-a. E olhar para ela, para sua boca, estava fazendo com que eu me sentisse estranho. Logo o pensamento sobre o que Jasper havia dito mais cedo me invadiu. Eu acho que você está apaixonado por ela. Tratei de tirar isso da cabeça, mudando de assunto.
– Aprecio suas teorias, de verdade. Mas insisto que você não deveria pensar tão negativamente. – percebi que ela ia protestar, então continuei. – Acredito que você atrai para si o que se passa em sua mente. É como uma força sabe? Se você pensa positivamente, coisas boas voltarão para você. Mas quando você continua com o pensamento ruim, você atrai coisas negativas. Por isso muitas coisas não dão certo.
Um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios. E então ela perguntou com uma expressão curiosa.
– Você leu O Segredo?
– Li. – respondi, um sorriso esboçando lentamente em meus lábios. – Na verdade li apenas o início. Ele é bem repetitivo. Você leu também?
– Não, mas conheço muitas pessoas que já leram. Minha mãe é uma delas. Você realmente acredita no... segredo?
– Não totalmente. Quero dizer, acredito sobre essa coisa de força, de você atrair aquilo que você pensa. Acho relevante a mensagem que ele trás, sobre fazer com que as pessoas passem a pensar positivamente. Mas é ao mesmo tempo fantasioso. Não acredito que uma pessoa possa olhar todos os dias uma BMW, desejá-la e chegar a tê-la um dia. – falei rindo. Bella sorriu também.
– Bom, minha mãe acredita em tudo desse livro. – ela disse.
– Sério? Não, não acredito. Quer dizer, acho que é a vontade das pessoas de querer e correr atrás das coisas, de se esforçar para obter aquilo que se deseja. Tudo depende de você, de seu esforço, e o pensamento positivo atua 50% nisso. Não podemos esquecer de mantermos os pés sempre ao alcance do chão. Existem coisas inalcançáveis, mas não impossíveis.
– Concordo com você nesse ponto. – ela falou.
– Espero tê-la convencido a mudar o pensamento. Pelo menos na parte sobre o Teatro. – eu sorri.
Bella riu. Um pouco mais alto do que eu já tnha ouvido antes. Era uma risada tão leve, tão espontânea. Ela parecia tão meiga, tão indefesa. Era banal eu dizer que ela ficava ainda mais linda sorrindo desse jeito?
– Tudo bem. Pensarei sobre isso. – ela disse, agora sorrindo de forma mais suave.
– Ficarei estonteantemente feliz se meus argumentos servirem para algo. – eu lhe disse.
Bella sorriu mais um pouco, e então seus olhos vagaram pelo meu quarto.
– Você tem muito bom gosto. – comentou ela.
– Você gosta?
– Sim, tem certa sofisticação e charme. É bem iluminado, espaçoso. É aconchegante. – ela respondeu. – E essa parede de vidro? Uau! Deve ser o máximo acordar vendo o sol nascer e dormir contemplando as estrelas. Você não sente como se a sua privacidade estivesse sendo invadida com essa parede?
– Não, já nos acostumamos. Praticamente a casa inteira é cercada por várias paredes de vidros. Minha mãe cuidou de toda a decoração da casa, todos os detalhes. Essa casa é antiga, foram dos meus avós paternos. Meus pais modificaram algumas coisas, como quebrar muitas paredes, substituindo por paredes de vidros. Mas mantiveram a estrutura original, arquitetura antiga. Você não teve oportunidade de ver o exterior da casa, já que chegou desacordada, mas nós praticamente não temos vizinhança. Por isso não sentimos como se estivéssemos sendo vigiados.
– Sei. – ela inclinou para o lado a cabeça para mirar a enorme parede de vidro que estava do seu lado direito. – Daqui, só se vê muitas árvores, muito verde. É uma visão belíssima. Seus avós moraram aqui? – ela perguntou, voltando-se pra mim.
– Sim. Minha avó era americana, morreu quando deu a luz ao meu pai. Meu avô decidiu voltar para Londres, morrendo anos mais tarde. Meu pai conheceu minha mãe, e hoje estamos aqui.
– Ah, então você também tem sangue americano correndo pelas veias? – ela perguntou, rindo.
– Sim, tenho. – respondi, rindo também.
– Aqueles são seus pais? – perguntou, apontando para o enorme porta-retrato exposto na estante.
– Sim, são. – levantei em direção à estante e o peguei. Caminhei de volta, e fiquei em pé próximo a cama, colocando-o nas mãos de Bella – Estes são Esme e Carlisle.
– Nossa. Eles são tão... tão jovens! Sua mãe é linda. – disse ela enquanto olhava a foto.
– Sim, ela é. Não é só porque é minha mãe, mas eu a considero uma das mulheres mais lindas que já vi.
– Não posso discordar. E você se parece muito com ela. – murmurou Bella, lançando-me um olhar terno.
Não tinha percebido, até então, o quanto nossos rostos estavam relativamente pertos um do outro. Um fluxo de ar soprou da janela em nossa direção, fazendo com que os cabelos dela balançassem com o movimento e eu pude sentir com mais intensidade que antes o seu cheiro. Inspirei o ar, sentindo um aroma que me lembrava morangos. Podia soar algo inocente se não fosse tão convidativo. E mais uma vez o pensamento sobre o que Jasper comentou na cozinha logo cedo me invadia. Eu acho que você está apaixonado por ela.
Isso estava começando a virar um tormento na minha cabeça.
– Um pouco. – limitei-me a responder, o som saindo muito baixo. Peguei suavemente o porta-retrato de suas mãos, colocando-o novamente na estante, quebrando assim o contato dos nossos olhos.
O que estava acontecendo comigo?
Bella era só uma amiga. Quer dizer, estávamos nos tornando amigos. Eu acho. Será que ela já percebeu o quanto estou sendo idiota ao lado dela?
– Você tem tantos livros – disse Bella, e eu agradeci mentalmente que ela tenha falado alguma coisa quando fui incapaz de sibilar algo coerente segundos atrás.
– Sim, adoro ler. Mas você precisa conhecer a nossa biblioteca. A quantidade de livros que tenho aqui não é nada comparada a quantidade de livros que temos lá – comentei, recuperando novamente minha voz.
– Vocês têm uma biblioteca? Aqui? – perguntou Bella, visivelmente estupefata.
– Sim, nós temos. Lógico que não é uma British Library, mas você pode encontrar muitas coleções, clássicos, grandes autores e...
– Jane Austen? Ou eu não chamaria o seu acervo de biblioteca... – indagou, abrindo um largo sorriso zombeteiro.
– Huh... o que temos aqui, uma discípula de Austen!!
– Mais ou menos isso – ela sorriu. – Ah, vamos lá. Austen escreveu os aspectos cotidianos da época em que viveu, a realidade. Os costumes daquela sociedade, a incapacidade de se ter mobilidade social. Você sabe, suas obras buscavam quebrar barreiras sociais e uma delas foi a submissão da mulher. Eu devo muito a ela. Por causa de mulheres assim, hoje somos emancipadas. – apontou Bella.
– Austen foi uma escritora de romances, mas acima de qualquer coisa ela era uma autora realista. Isso é indiscutível. O que era a mulher no século XVII? Destinada a procriar, submeter-se às vontades do marido, cuidar dos deveres da casa. Quem conseguia um bom partido ainda tinha certas... regalias. Mas muitas não conseguiam sequer chegar ao matrimônio, como a própria Austen.
– Triste sua breve vida não é? Não viveu com o seu amor, o Mr. Lefroy, não casou, não teve filhos... – acrescentou Bella.
– Verdade. Nasceu e morreu virgem. – retruquei, logo me arrependendo de ter tido a infeliz escolha com as palavras. Bella arregalou os olhos discretamente. Eu podia notar que ela estava constrangida, devido ao rubor em seu rosto. – Bem, é o que dizem. – acrescentei.
Ela estava envergonhada, isso era óbvio. Mas por que ela reagiu assim? Será que... será que ela era... não, não pode ser! Bella era virgem?
Eu estava quase explodindo de curiosidade. A possibilidade de Bella ainda manter-se intacta me alegrava e eu me senti estranho por isso. Ela tinha namorado, natural que isso acontecesse de alguma forma, mesmo ela tendo apenas 17 anos, como a ouvi dizer minutos atrás. Mas o fato de saber que aquele idiota ainda não conseguiu tê-la intimamente deixou-me estranhamente esperançoso.
Afinal, do que eu tinha esperanças?
– Acho incrível o quão irônico são os seus personagens. – indagou Bella, tirando-me dos devaneios.
– Elizabeth Bennet? – perguntei.
– Sim, ela mesma. – disse Bella, surpresa com a menção – Mas, não era bem a Elizabeth que eu pensei. Mas, por que você falou na Elizabeth? Ela é a personagem de Austen que eu mais me identifico.
– Não pergunte os motivos, mas já esperava que sua obra preferida fosse Orgulho e Preconceito.
– Sim, você acertou. Talvez porque eu admiro a personalidade de Elizabeth. Ela não era uma bonequinha, era uma mulher à frente de seu tempo. Suas vontades estavam acima de qualquer coisa, e ela não hesitava em falar o que tinha vontade. Não tinha perspectivas de uma moça comum da época, que idealizava obter um bom casamento. Inclusive, recusou-se a casar sem amor, mesmo sabendo que a família sofria com dificuldades financeiras. Muitos podem considerar uma atitude egoísta, mas eu chamo isso de coragem. Tenho muito respeito por ela.
– Mas Elizabeth tinha o defeito de julgar as pessoas pelas primeiras impressões – indaguei.
– Você deve estar falando do Mr. Darcy. Mas era o próprio quem causava má impressão nas pessoas. Você sabe, no início, ele era muito orgulhoso. Rico estúpido. – cuspiu Bella, fazendo-me sorrir.
– Sim, talvez ele o fez. Mas... ele tenta se redimir, declara seu amor e no entanto ela o rejeitou.
– Mas ela teve seus motivos para isso. Não era apenas Elizabeth sendo mesquinha.
– Mas Elizabeth era abusada! – disparei – Por isso fico com a Anne Elliot. Ela foi a heroína mais estável que Austen criou. Ela é madura, inteligente... talvez porque foi a escrita mais marcante que.. O que foi? – perguntei quando percebi sua expressão de incredulidade.
– Não, é que... essa nossa conversa sobre Austen. Nunca tive a oportunidade de discutir com alguém sobre isso, sobre os personagens, sobre Elizabeth. A única pessoa que eu conheço que leu Austen foi Angela, uma amiga da escola, mas ela só leu Orgulho e Preconceito. E é difícil encontrar homens que leem esses livros.
– Que preconceito! – eu disse e ela riu – Na verdade, muitos homens leem sim Jane Austen. Alguns tentam compreender alguns aspectos da essência feminina. Outros, a si mesmo.
Ela franziu a testa por um segundo, mordendo o lábio inferior em seguida, enquanto baixava a cabeça olhando suas mãos. Talvez estivesse pensando em algo para me perguntar? Como eu queria saber o que ela estava pensando...
– Quais livros dela você já leu? – enfim perguntou. Algo em meu interior dizia que não era essa a pergunta que ela gostaria de fazer naquele momento, deixando-me um pouco frustrado.
– Imagino que todos que você leu – eu ri fracamente. – Mas gosto mesmo de Persuasão.
– Aprecio sua preferência. É uma história impressionante e que nos leva a refletir sobre o destino. Bem, pelo menos é para mim. Não há tempo, barreiras e preconceitos que possam interferir no amor entre duas pessoas destinadas a se amarem. Você compreende que... que é inútil fugir do que sentimos porque independente do que aconteça, no final o amor sempre vence.
Expor nossos pontos de vista acerca dos conflituosos personagens de Jane Austen era uma das últimas coisas que eu imaginei conversar com Bella. Não era surpresa, no entanto, que ela estimasse a autora. Metade da população feminina conhecia os romances de Austen, em especial, a trajetória de suas heroínas.
Mas ver e ouvir Bella descrever com suas palavras a essência de um dos meus favoritos livros de Austen, deixou-me nitidamente impressionado. Ela falou no amor de uma forma tão pura, tão verdadeira que eu me perguntei se era isso que ela sentia por Mike. Que ela era o destino dele, que ele era o destino dela.
E quer saber? Eu desejava que isso não fosse possível. Bella não merecia alguém tão desprezível como destino. Porque ela não era como qualquer menina de 17 anos. Ela era tão intrigante e intimidadora. Demonstrava ser uma garota forte, mas ao mesmo tempo parecia ser tão frágil, tão vulnerável nessa pele translúcida. Um tipo de garota que você poderia gastar um dia inteiro conversando e nem notaria o tempo passar.
Bella deveria ter o dom de atrair as pessoas. E o pior é que ela não fazia ideia do poder que ela exercia.
Será que era assim que todos se sentiam, quando estavam a seu lado?
Lembrei de um trecho de um poema de Machado se Assis, que eu recitara na escola, há muito tempo.
“Quando ela fala, parece que a voz da brisa se cala; Talvez um anjo emudece. Quando ela fala.”
Era exatamente assim que me sentia ao lado de Bella. Era como se tudo que existisse emudecesse. Bella tinha uma voz firme. Baixa e clara. E mesmo que transparecesse doçura e timidez, tinha um timbre sensual.
Lembrei a noite anterior, quando Bella bateu o cotovelo nas minhas costas e eu a examinei rapidamente, sem nem imaginar que se tratava dela. Mesmo de costas, notei que era uma garota bonita. E quando a encontrei desacordada, foi inevitável não notar que ela era interessante, como mulher. Como uma mulher é para um homem.
Sim, Bella é incrivelmente linda, mas eu tivera contato com muitas mulheres bonitas, no entanto. Tanya fora uma delas. Não sou como Emmett, mas não vou ser hipócrita a ponto de negar que por muitas vezes eu fizera sexo sem compromisso com mulheres lindas e que transpiravam erotismo. Eu sou homem. Mas Bella nem de longe era como nenhuma delas, porque ela não tinha nenhum apelo sexual. Ela era apenas uma garota bonita.
Era estranho, no entanto, que eu pudesse estar pensando nisso. Pensar em Bella de outra forma. E eu já estava começando a ficar irritado comigo mesmo por estar pensando nessas coisas. Eu não devia achá-la interessante.
– Mas... diga-me, o que faz a Anne diferente de Elizabeth? Ela quase despedaçou o coração de Frederick. – perguntou Bella, arrancando-me da abstração.
– Você tem certeza que vai querer discutir qual personagem foi menos mesquinha? – questionei, enquanto caíamos em seguida na gargalhada.
Percebi Bella enrijecer, levando a mão à cabeça, franzindo a testa.
– Você está bem? – perguntei, preocupado.
– Sim, sim. Não foi nada. Só minha cabeça que doeu um pouco. – ela sorriu – Eu perdi as contas das vezes que li.
– Como? – perguntei, mas logo percebi que ela estava tentando retomar o assunto.
– Orgulho e Preconceito. Li tantas vezes que perdi as contas.
– Ah, claro. É interessante, devo confessar. Mr. Darcy merece congratulações. Você sabe, por conseguir domar Elizabeth no final de tudo. – eu disse, sabendo que isso a irritaria.
– Oh! Não fale de Elizabeth! – exclamou, rindo. – À propósito, é incrível como você quase não tem o sotaque britânico. Como você consegue?
– Bom... cresci vendo muitos filmes americanos. Eu assistia atentamente a tudo que eles falavam, todas as expressões e ficava imitando, sabe. Também tive um dicionário de expressões americanas, com gírias, essas coisas. E a música também ajudou. Aos poucos fui me desprendendo do velho e carregado sotaque inglês.
– Música também é uma de suas paixões?
– Para ser sincero, a música ocupa o primeiro lugar numa escala de preferências – confessei.
– Isso é perceptível. É só olhar aquilo ali. – disse Bella, apontando para as várias prateleiras de CDs que ocupavam praticamente uma parede inteira do quarto – você deveria abrir uma loja.
Eu tive que rir.
– O que você gosta, er... de música? – ela perguntou.
Não respondi de imediato. Peguei o controle remoto e liguei o aparelho de som, antes da melodia invadir suavemente o quarto.
– Se importa? – perguntei apontando para a TV. Sabia que Bella não estava prestando atenção antes de eu chegar, muito menos agora, que estávamos conversando.
– Não, não. Na verdade Jasper quem ligou. Eu não queria, mas ele insistiu.
Sorri para Bella, desligando a TV em seguida. Aumentei o volume do som um pouco mais, mas deixando-o baixo suficiente para continuarmos dialogando, sem precisar subir o tom de voz.
– Eu ouço muita coisa, como você pode perceber. Tenho uma queda por Rock, mas música clássica é uma de minhas favoritas. É relaxante, tranqüilizante. – comentei.
– A minha mãe também gosta de música clássica. Ela sempre quis que eu tocasse algumas de suas favoritas no piano, mas...
– Você toca piano? – perguntei num átimo, interrompendo-a.
– Não, quer dizer, eu aprendi a tocar uma ou duas músicas, mas... Nossa! Faz tanto tempo! Não sei se ainda consigo dedilhar alguma nota. Definitivamente tocar piano não é um dos meus grandes talentos.
– Quem sabe depois, quando Alice retornar com as suas roupas podemos descer e você pode tentar tocar alguma...
– Você também tem piano aqui?
– Tenho um. – sorri. – Aprendi a tocar desde pequeno.
– Uau! Que demais Edward. Que mais você sabe tocar?
– Guitarra, violão. E posso esboçar algo na bateria.
– Estou diante de um multi-talento! – exclamou Bella, batendo palmas.
Sorri envergonhado.
– Não, não é para tanto.
– Sério Edward, por que você não tentou seguir carreira de músico? Você podia fazer parte de alguma banda, sabia?
– Na verdade eu já fiz parte de uma, um dia – respondi, quando de repente meu sorriso cessou.
– E por que não faz mais? Por que você resolveu ser ator, se por ordem de preferência sua paixão é a música?
– Isso é uma longa história.
– Se não se importar em me contar, não me importo com o tempo que passarei ouvindo. Mas não quero ser invasiva. Fique à vontade – disse Bella, incentivando-me.
Falar sobre o assunto ainda era um pouco doloroso. Mas era algo que eu não podia ignorar, fazer de conta que nunca aconteceu. Eu evitava conversar sobre isso, aliás, eu nunca conversei com alguém sobre isso. Mas senti uma estranha vontade de compartilhar esse momento da minha vida com Bella.
Sentei-me novamente no sofá ao lado da cama. Corri as mãos pelos cabelos, bagunçando-os, sentindo o olhar de Bella em mim. Suspirei tristemente e então comecei.
– Quando eu tinha 15 anos, formei uma banda de Rock popular em Londres. Era um projeto meu e de mais quatro amigos. Era um sonho antigo, na verdade, que eu tentei conciliar com o teatro. Eu era o vocalista, mas também fazia pontas na guitarra, no violão. Um ano depois de formada, assinamos um contrato de exclusividade num Pub. Tocávamos nesse local todo fim de semana. Com o tempo surgiram novos contratos, muitas apresentações. Estava difícil conciliar a banda com o teatro e por pouco quase abandonei o último.
“À medida que a banda começou a ganhar espaço, que começamos a ficar ‘famosos’, isso me assustou muito e me enervava, porque nosso objetivo nunca foi obter notoriedade, não nesses termos. Éramos apenas cinco jovens fazendo o que mais gostávamos”.
“Não viramos celebridades, graças a Deus. Mas éramos uma banda bastante conhecida na cidade, entretanto. Tocávamos em vários Pubs, fazíamos pequenos shows. Mas tínhamos muita gente interferindo no nosso trabalho. Dizendo o que e como fazer. Malditos empresários. E ainda tinha os paparazzi locais, que nos perseguiam dia e noite. Eles estavam em todo lugar – ri sem humor – Eu não queria que tudo terminasse como terminou”.
Parei enquanto olhava Bella, que ouvia atentamente minha história.
– Quanto tempo a banda durou? – perguntou.
– Um pouco mais de três anos. Eu era o mais novo do grupo. Sofri muito quando tudo acabou.
– E acabou assim? Digo... vocês interromperam um sonho por causa de um trabalho mal feito de empresários? Por causa de paparazzi?
– Os paparazzi irritavam, não vou mentir. Mas não era algo que alcançasse grandes proporções. Como eu disse, nossa Banda só era conhecida na cidade. Quanto aos empresários, eles não foram os responsáveis pelo fim, mas contribuíram com os motivos que nos levaram a isso.
– E então... O que houve?
– A própria banda se afundou. Muitas pessoas tentavam se aproximar de nós, para tentar cuidar dos nossos contratos. Contratamos um empresário que se dizia experiente no ramo. E enquanto ele roubava nosso dinheiro, nos levava a muitas festas, muitas delas eram privadas, acesso restrito. E rolava de tudo. Você sabe, muitas mulheres, bebidas... drogas – falei, dando ênfase a última palavra.
– Você... – ela não precisou terminar porque eu já sabia o que ela queria saber.
– Se eu me droguei? Poucas vezes, mas não passou de cigarro de maconha. Eu tinha 17 anos e tinha algumas curiosidades, mas não tinha perdido minha consciência. E tudo ali, fácil, bem na nossa frente. Foi inevitável não experimentar – pausei, checando o olhar complacente de Bella – Se meus amigos tivessem seguido meu exemplo de apenas experimentar e cair fora, se eles tivessem ouvido meus conselhos, as minhas súplicas... talvez eu tivera mesmo abandonado o teatro. Talvez estivéssemos tocando até hoje. Quem sabe a banda não tinha estourado em todo o Reino Unido. E talvez o Bobby não tivesse morrido.
– Bobby? – perguntou Bella.
– Sim, ele era um dos integrantes da banda.
– E do que ele morreu?
– De overdose – respondi, atento ao semblante aturdido que explodiu na face de Bella, mas que logo suavizara.
– Eu sinto muito.
– Eu também.
– Imagino o quanto foi difícil pra você, perder um amigo e ver a banda se desmanchar.
– Quando aconteceu, já quase não tocávamos. E já nem éramos mais do interesse dos tablóides locais. Foi num momento em que a banda também quase não ensaiava, porque tudo acabava em briga. Eu e o Tom éramos os únicos que não usava drogas e tentamos inúmeras vezes aconselhá-los a largar o vício. Mas elas já estavam ali há muito tempo, como sexto integrante do grupo. Na hora dos ensaios, durante os nossos shows, em qualquer festa que íamos. Até mesmo dentro do carro.
“Bobby era o que mais estava entregue. Ele já nem comia e substituía as refeições por cocaína e bebidas. Até que um dia o organismo não resistiu a carga e... – pausei – E depois disso a banda acabou de vez. Eu e o Tom continuamos amigos, mas os outros dois não tenho notícias. Sei que um deles entrou numa clínica de reabilitação e depois mudou-se para o Canadá, mas hoje nem sei se ele ainda está lá, o que faz...”
– Nossa. Eu... nem sei o que dizer – disse Bella.
– É, eu sei. É uma pena não ter tido um final feliz, pro Bobby, quero dizer.
– E você, o que fez depois disso?
– Fiquei um tempo afastado de tudo. Depois continuei apenas com o teatro, dedicando-me inteiramente a ele.
– E hoje você está aqui — disse Bella, com um sorriso cheio de ternura.
– Verdade – sorri – Se não fosse o teatro talvez eu nunca estivesse aqui – “E nós nunca teríamos nos conhecido”, pensei, agradecendo mentalmente por não ter desistido.
– E... você não pensa em voltar a cantar, a tocar?
– Na época não. Mas, às vezes me pego pensando nessa possibilidade e logo tiro isso da minha cabeça.
– Medo? – questionou-me.
– Não é medo. Eu só penso que não quero mais arriscar. Tive a oportunidade, uma vez, mas não deu certo. Acredito que é melhor deixar as coisas como está.
– Mas o que passou já foi, já era. Você não pode mudar os acontecimentos passados. E talvez nunca esqueça o que houve. Mas isso que aconteceu com o Bobby foi uma fatalidade, e nem a banda e nem você tem culpa disso. Eles entraram nessa, ele entrou nessa. Porque quiseram. Você fez o que pode, aconselhou, tentou abrir os olhos. E isso era o máximo que você podia fazer. Edward, nem tudo está ao nosso alcance. E você tem que seguir em frente, mas sem desistir dos seus sonhos. Se é isso que você quer, vá em frente. Tente mais uma vez. Acredite e você pode conseguir – disse Bella, me olhando fixamente.
Eu queria agir normalmente. Esquecer a sensação quando ela me olha nos olhos. Mas estava cada vez mais difícil. Principalmente agora, com ela sabendo de tanta coisa sobre mim, e me olhando desse jeito, enquanto tentava me convencer a não desistir dos meus sonhos.
Mas não entendo como isso pode servir para mim, mas não para ela mesma.
– E você, vai desistir? – perguntei.
– Desistir? Eu? Do que? – perguntou confusa.
– Você sabe, sobre o teatro. Como você pode me pedir para seguir em frente e acreditar nos meus sonhos se nem você mesma acredita verdadeiramente nos seus?
– Ah não, Edward – ela sorriu – Meu caso é diferente. Não é que eu esteja desistindo de alguma coisa. Como eu disse, só aprendi a não criar expectativas. Não vamos falar sobre mim.
– Por enquanto. Mas, não vejo diferença entre os dois casos – retruquei.
Bella deu de ombros e nada falou.
Permanecemos em silêncio durante alguns segundos. Virei a cabeça para a mesinha que estava do lado direito da cama e notei que a bandeja com o café da manhã de Bella estava praticamente intacta.
– Você comeu alguma coisa? – perguntei, apontando para a bandeja.
Bella inclinou a cabeça e olhou a bandeja, depois pra mim.
– Bebi um pouco do suco e comi uma maçã. Geralmente eu não como muito e particularmente hoje estou sem apetite.
– Você tem que comer mais. Tomou a medicação pelo menos?
Bella fez uma careta.
– Você acha que Alice já não me fez engolir aquele comprimido enorme e fedorento? – eu tive que rir com esse comentário.
– É por isso que eu gostei da Alice. – falei.
– Posso saber por que estão falando de mim? Ouvi claramente o meu nome ser pronunciado – disse Alice, entrando bruscamente no quarto, com uma bolsa na mão. Ela estava com os cabelos espetados um pouco úmidos e tinha trocado de roupa.
– Sim estávamos. Eu estava falando pro Edward como você pode ser uma megera quando quer. – retorquiu Bella.
– Te faço tomar remédios para o seu próprio bem e você me chama de megera? Como você é mal agradecida – disse Alice, dando um fraco tapa na perna de Bella.
– ok, ok. Não está mais aqui quem falou – falou Bella, rindo – E aí, trouxe minhas roupas?
– Sim, estão aqui. Além de escova de dente, xampu, perfume. Trouxe tudo. – disse Alice, entregando-lhe a pequena bolsa – Ah! Está tudo certo na sua casa. Seu pai está no trabalho e sua mãe não desconfia de nada. Rose sustentou a mentira que você saiu mais cedo e que ia passar o dia inteiro na escola.
– Humm. Ótimo. – disse Bella.
Bella me olhou e então percebi que ela queria ficar à vontade para tomar um banho, se trocar.
– Bom... Vou descer. Preciso fazer umas ligações – falei.
– Nós já descemos para almoçar Edward. – disse Alice.
– Almoçar? Que horas já são? – perguntei, olhando em seguida o relógio digital em cima da minha mesa de estudos e me surpreendi quando vi as horas. – Caramba! 12:40?
– Como foi isso? Não vi o tempo passar! – exclamou Bella.
Alice olhava de Bella pra mim e de mim pra Bella. Podia notar que ela parecia divertida com algo.
– Eu... Vou pedir algo para comermos.
– Não é necessário, Edward. Jasper e eu trouxemos comida chinesa pro almoço.
– Você e Jasper? – perguntou Bella. – Vocês estavam juntos esse tempo todo?
– Mais ou menos. Enquanto fui à sua casa, Jasper foi resolver algumas coisas na Faculdade, sobre transferência dele, algo assim. Depois ele me pegou e fomos providenciar o almoço. – respondeu Alice.
– Vou falar com Jasper. Espero vocês lá embaixo então. – falei saindo do quarto.
POV BELLA
– Desde que sai que você e Edward estão aqui? – perguntou Alice.
– Sim, por quê?
– Nada, não. Só curiosidade mesmo – disse Alice, achando que poderia me enganar com esse ar angelical. Sabia muito bem o que ela estava pensando. Principalmente quando a vi suprimindo um sorriso.
– Alice. Para de pensar besteira. Eu e Edward somos amigos agora. Eu sou grata pelo que ele está fazendo comigo. Para de fazer de conta que você se esqueceu que tenho namorado.
– Não estou fazendo de conta, Bella. E eu não esqueci que você tem um projeto de namorado, mas parece que você, sim, esqueceu.
– Do que você está falando? – perguntei, furiosa.
– Que se você estivesse realmente se importando com Mike, você já teria ido embora daqui. Desde quando você banca a garota frágil, Bella? Você não gosta de ser cuidada, de ser o centro das atenções. Por que agora?
– Você está insinuando que eu estou fingindo?
– Não disse isso. Mas se fosse numa outra situação, você não se importaria com o que seu pai e sua mãe iriam pensar. Você já teria ido embora daqui quando acordasse. Você não está se importado com isso e sei muito bem que é por causa de Edward.
– Se esse é o caso, vou embora agora!! – eu disse, puxando as cobertas, levantando-me.
– Para, Bella. Você não vai fazer essa desfeita com Edward, vai? – perguntou Alice, segurando meu braço.
Eu a encarei e esperei.
– Desculpa. Não queria te aborrecer. Você não está errada se estiver aproveitando o dia com Edward. Ele vai embora, sei que vocês agora são amigos. Vamos, tome banho, troque-se e vamos descer.
Eu continue encarando-a, enquanto refletia sobre o que ela acabara de jorrar.
Será que eu estava realmente fazendo isso? Inconscientemente?
Eu não me sentia tão ruim assim. O mal estar passara e eu estava apenas com uma fraca dor de cabeça, dores nas costas e nas nádegas. Mas nada que realmente importasse. Nada que me deixasse trancafiada dentro de um quarto.
Alice tinha razão sobre o fato de eu não gostar de ser o centro das atenções. De ter pessoas preocupadas comigo. E se não fosse Edward, mas sim outra pessoa que se preocupou comigo, cuidou de mim, e em seguida me recebeu em sua casa? Será que eu não teria hesitado e já tivesse ido embora na primeira oportunidade?
Sim, eu teria ido embora.
Então, por que eu fiquei? Qual a motivação?
Não precisava pensar muito porque eu só conseguia encontrar uma única justificativa: Edward.
Fiquei extremamente confusa quando acordei e o encontrei. Não imaginei que o veria tão cedo. Pensei até que talvez nunca nos víssemos outra vez. E ali estava eu, estupidamente feliz por ter passado a manhã inteira conversando com ele.
Perguntava-me se isso estava tão explícito a ponto de Edward perceber, porque ao que tudo indica, Alice já percebera. E essa possibilidade estava me deixando assustada. E eu não gostava quando perdia o controle de mim mesma.
Durante a manhã, enquanto Edward e eu conversávamos, senti por mais de uma vez um formigamento estranho no peito, um tremor e corava freqüentemente quando ele me olhava por mais tempo que o normal. Mesmo no dia que nos conhecemos, eu já sentia um sentimento dúbio ao lado dele. Era uma espécie de conforto e tensão. Eu não saberia explicar o porquê. E sentir o cheiro inebriante dele através dos lençóis da cama não estava me ajudando a pensar direito sobre o que estava acontecendo. Edward tinha um cheiro bom. Uma colônia amadeirada que eu não soube identificar.
Talvez eu só me sentisse assim porque Edward era inenarravelmente lindo. Ele deveria saber o efeito que causa nas pessoas. Em especial as do sexo feminino. Lembrei do dia que nos conhecemos, quando o seu celular vibrou como se recebesse algum SMS e eu deveria imaginar que deveria ser de alguma garota. Será que ele tinha... namorada? Talvez ela não fosse gostar de encontrar uma garota ocupando o quarto dele. Mas espero sinceramente que ela não se importe e o entenda, porque se fosse Mike tendo a mesma atitude de Edward, eu não me importaria.
Acho melhor passar o restante do dia em outro cômodo.
– Você vai me desculpar? – Perguntou Alice, fazendo biquinho, arrancando-me dos pensamentos.
– Não tenho o que desculpar. Às vezes você banca a criatura chata e impertinente, mas é impossível ficar chateada com você – disse abraçando-a.
– Vamos lá. Tira essa bunda da cama e vá tomar banho.
– Ok. – levantei-me, enquanto Alice pegava o controle e ligava a Tv, sentando-se no sofá.
Peguei a bolsa e caminhei ao banheiro, onde o cheiro de Edward estava ainda mais forte.
Olhei ligeiramente ao redor, verificando como o banheiro era grande, além de limpo e organizado. Todo branco, como o quarto, e tinha uma banheira no canto. Havia também um enorme espelho na pia. Toalhas brancas e limpas estavam penduradas. Tive uma súbita vontade de abrir o armário e vasculhar o que ele geralmente usava. Mas, rapidamente imaginei que ele já tivesse guardado tudo na mala, e desisti. Também não queria parecer invasiva.
Tirei a bata de hospital e então abri o vidro do Box. O banho fora demorado, relaxante. Enquanto a água corria pelos meus cabelos, pelo meu corpo, continuei pensando nas palavras de Alice e nos últimos acontecimentos.
Depois do banho, coloquei a roupa que Alice trouxera. Um short jeans, que ia até metade de minhas coxas, e uma camiseta cinza. Sequei o cabelo com a toalha e voltei para o quarto.
– E então? Se sentindo melhor? – perguntou a voz abafada e aveludada, surpreendendo-me. Pensei encontrar Alice no quarto e não Edward.
Edward percebeu, porque logo em seguida ele falou.
– Desculpa, não queria te assustar.
– Não, não me assustou. É que eu pensei que você estivesse lá embaixo.
– Eu estava, mas Alice me pediu para subir e buscá-la. Ela queria ajudar a arrumar a mesa. Disse que uma mulher é capaz de fazer isso melhor que três homens juntos – disse Edward, redondamente enganado pelas intenções de Alice. Eu bem soubera por que ela pediu pra ele vir. – À propósito, meu outro irmão, Emmett, está lá embaixo. Não ligue se ele for um pouco... um pouco engraçadinho demais.
Eu ri.
– Emmett. Enfim vou conhecê-lo. Minha irmã falara algo dele em casa, quando o conheceu, na academia. Mas jamais imaginaria que você pudesse ser irmão dele.
– Mundo pequeno.
– Ou destino – sibilei.
Edward me fitou, mas era como se ele não estivesse realmente me olhando. Ele parecia absorto, perdido em pensamentos.
– Edward? – perguntei.
Edward moveu as pestanas freneticamente e então voltou-se para mim.
– Er... vamos? E... Você não respondeu minha pergunta. Está se sentindo melhor?
– Sim. Apenas dores no corpo e uma leve dor de cabeça. Mas sinto-me inteira. Pronta para outra. – disse eu, zombeteira.
Edward gargalhou, e aquilo era tão natural, tão prazeroso de se ouvir. Qualquer pessoa se sentiria bem ao lado dele. Nossa conversa era tão agradável, tão saudável. Qualquer assunto corria fácil e tudo era estranhamente natural. Não sei explicar a forma como me sentia. Era como se nos conhecêssemos há anos.
E eu tinha certeza que seríamos grandes amigos.
Edward estendeu sua mão e eu hesitei antes de tocá-la.
Senti um choque perpassar pelo meu corpo quando nossas peles entraram em contato. Fiquei tensa abruptamente.
Edward afastou rapidamente sua mão da minha, fazendo-me recuar também.
Ele me encarava e eu me perguntei se ele percebera algo. Eu paralisei, incerta com o que dizer.
– Você na frente? – perguntei, minha voz era vacilante.
– Claro, claro. Vamos – disse Edward, enquanto eu caminhava bem atrás dele, o acompanhado.
POV EDWARD
Perdido.
Essa era a atual definição para Edward Cullen.
Eu não queria sentir essas coisas, mas estava difícil não sucumbir ao poder que Bella exercia sobre mim.
Sai.
Sai.
Sai.
Sai da minha cabeça.
Eu não posso sentir isso. Maldito Jasper.
Maldita hora que eu resolvi trazer Bella para minha casa. Eu sentia raiva, muita raiva. Mas era de mim mesmo.
Mas, por algum motivo doentio, eu sentia que essa foi a atitude mais certa que eu já fizera.
Destino.
Era a palavra que não saia da minha cabeça.
Estava se desenhando, mas eu me recusava aceitar.
Bella tinha um compromisso, eu era apenas um amigo para ela.
Mas então, ela falara em destino. Por duas vezes.
Parecia um filme na minha mente. O teatro, a Banda, os problemas, a morte de Bobby, O Sr. Gottan, Sacramento, o Espejo... Bella”.
Emmett e Rosalie? Coincidência? Ou mais uma peça do destino?
Eu nunca fui uma pessoa intuitiva, mas uma coisa eu sabia. No dia que eu conheci Bella, algo faiscou em meu interior e agora isso estava complicando a minha vida.
Quando estávamos próximos, as palavras de Jasper me invadiam como rajadas de vento. Eu acho que você está apaixonado por ela.
Eu estava tentando ignorar essa merda com todas as minhas forças. Mas quando entrei naquele quarto e a vi, vestida casualmente, com os cabelos molhados, braços e pernas parcialmente expostas... Eu descobri que a desejava. E o pior é que não havia nenhuma apelação em suas roupas.
Não, não pode ser isso. Talvez eu estivesse apenas fascinado. Bella não era como as garotas que eu já estive. Era perceptível na maturidade de suas falas. Ela era apenas linda. Isso. Era apenas isso.
Mas então nossas peles se conectaram e eu me arrependi até a última geração por ter tomado a atitude de estender minha mão pra ela dar a sua, fazendo-me lembrar que não, não era só isso.
Tentei respirar e foi ainda mais difícil quando o mesmo cheiro do perfume feminino que Bella usava na noite anterior penetrou minhas narinas, dizendo-me que eu não o esqueceria tão cedo.
Descemos a escada num silêncio desconfortante. Pelo menos para mim.
Agradeci ver Alice e meus irmãos na sala, vendo Tv.
– Até que enfim conheci a Bella adormecida. – disse Emmett.
– É um prazer enfim conhecer você também – disse Bella.
– Enfim? Por quê? Sua irmã falou de mim?
– Bella, cuidado com o que você vai falar. Você sabe a irmã que tem, não é? – disse Alice a Bella.
– Ah não. Nada demais, Emmett. Ela apenas mencionou algo sobre você ontem, antes de vocês saírem. – disse Bella, sem imaginar que Emmett acreditaria em qualquer coisa que ela falasse.
– Ah, sei. – sibilou meu irmão, em decepção.
– Agora que Bella desceu, podemos comer? – perguntou Jasper.
– Sim. Vamos. – respondi.
Caminhamos para a sala de jantar. Eu seguia bem atrás de Bella.
Bella sentou-se ao lado de Alice, que estava ao lado de Jasper. Eu sentei de frente para a Bella e do meu lado direito, Emmett, que estava de frente para Alice.
– Hmmmm. Isso aqui está muito bom! – disse Emmett com a boca cheia.
– Emmett, você podia pelo menos engolir a comida para depois falar? – advertiu Jasper.
– Mas que porra! Eu sempre falo de boca cheia! – retrucou Emmett, ainda de boca cheia.
– Meninas, por favor, ignorem ele. – eu disse.
– Não se preocupem conosco. Não quero vocês não se sentindo à vontade na própria casa porque estamos aqui. – disse Bella.
– Bella está certa. Emmett, coma do jeito que você quiser. – disse Alice, divertida.
– Tão vendo? Babacas! – Exclamou Emmett.
Passamos todo o almoço com Emmett falando asneiras, fazendo as meninas rirem. Algumas vezes me peguei rindo também, assim como Jasper.
– Mas e então Bella, o que foi aquilo ontem? Confundiu álcool com água? – perguntou Emmett, arrancando risadas de Bella e Alice.
– Emmett! – adverti.
– Não, tudo bem Edward.– disse Bella rindo. – Bom, digamos que eu não sou acostumada a beber, então... – ela deu de ombros.
– Você nunca tinha bebido antes?
– Só champanhe, no réveillon. – respondeu Bella.
– Nem no seu aniversário? – insistiu Emmett.
– Não, muito menos no meu aniversário. E acredito que meus pais não iriam gostar disso. Eles detestam bebidas.
– No dia que eu não beber no meu aniversário pode ter certeza que fui abduzido e substituído por um clone. – falou Emmett – E aí, não vão mesmo comemorar o aniversário de vocês? – ele perguntou a mim e a Jasper.
– Edward não vai estar aqui. – disse Jasper.
– O aniversário de vocês está chegando? Quando é? – perguntou Bella.
– 20 de outubro. – respondi.
– Vocês nasceram no mesmo dia? – perguntou Bella.
– Ah, esqueci de te falar Bella, eles são gêmeos. E vão fazer 21 anos. – disse Alice.
– Gêmeos? Vocês são gêmeos? – perguntou Bella, cética.
– Bom, sei que Edward é bem mais bonito que eu, mas sim, somos gêmeos.Bivitelinos. Por isso não temos a mesma carinha. Infelizmente, pelo menos pra mim. – respondeu Jasper.
– Ah, para com isso Jasper. Você não se vê claramente? – perguntou Alice, deixando Jasper aturdido.
– Eu... não. Eu só...
– Incrível. Nunca conheci gêmeos antes. – comentou Bella, interrompendo a fala mal sucedida de Jasper.
– Todos ficam surpresos, mas somos. – falei, dando um meio sorriso.
– Edward, bem que você podia dar uma fugida e voltar para comemorarmos juntos. – disse Emmett.
– Eu não sei. Já pensei sobre isso, mas vai depender de muita coisa. Depende da cidade que eu vou estar, do dia...
– Nossos pais já estarão aqui. Ah, dá um jeito Edward. – disse Jasper.
– Vou ver o que posso fazer. Se der, posso voltar por 1 ou 2 dias.
– Por falar em aniversário, essa semana foi o aniversário da Bellinha aqui. – disse Alice.
– Alice! – advertiu Bella.
– Quando foi? – perguntei.
Bella deu um longo suspiro e respondeu.
– Foi na quarta, dia 13.
– No dia que estávamos no teatro? Era o dia do seu aniversário? Não acredito que você não disse nada. – falei, um pouco aborrecido.
– Desculpa, Edward. É que... não era importante e...
– Completar idade nova sempre é importante. – a interrompi.
– Não adianta discutir, Edward. Bella detesta que as pessoas saibam que é seu aniversário. Ela não gosta de ser o centro das atenções, ganhar presentes e... – enquanto Alice falava, eu ia absorvendo as novas informações acerca da personalidade da garota que estava virando a minha cabeça. Ela não gostava de ser o centro das atenções. Eu imaginava isso. Por isso ela era insegura quanto ao teatro.
– Mas você podia ter me dito Bella. Eu não ia contar a ninguém. – falei.
– Sinto muito. – sibilou Bella, numa voz pesarosa.
Eu a olhei e não falei mais nada.
Minutos depois tiramos a mesa e Alice foi ajudar Jasper com a máquina de lavar louças. Emmett correu e se esparramou no sofá, ligando a TV novamente. Bella e eu ficamos em pé, procurando o que fazer.
– Quero levar você num lugar. Vamos? – perguntei.
– Claro. – Bella respondeu.
Caminhei pelo corredor, ainda no térreo e então chegamos à frente da grande porta. Hesitei antes de abrir e então olhei para Bella.
– Falei que a traria aqui, então... seja bem vinda à nossa biblioteca – eu disse, abrindo, então, a porta dupla.
Entrei e segurei um lado da porta, me afastando para que ela entrasse em seguida.
Bella nada falou. Aliás, ela nada falou com palavras. Porque seus olhos diziam tudo.
Eles estavam radiantes.
Bella caminhou ao redor da sala, que tinha uma enorme mesa de reuniões no centro, dois sofás e algumas poltronas espalhadas, além do meu piano. Ela corria o dedo pelas prateleiras, verificando os títulos. Parecia como uma criança jogada num parque de diversões.
Permaneci em silêncio, assistindo seu regozijo.
Minutos depois, ela enfim me olhou.
– Edward. É maravilhoso!!
– Eu sabia que você ia gostar.
– Gostar? Eu não tenho palavras pra expressar como é perfeito este lugar – ela falou, em êxtase.
Mostrei a Bella toda coleção de Jane Austen, já que ela me desafiara logo cedo. Também alguns dos livros que eu mais gostava. Inclusive dei a ela de presente “Money”, um livro de Martin Amis, que era um dos meus favoritos. Ela relutara, dizendo que não podia aceitar, porque além de ser um dos meus favoritos, iria desfalcar a biblioteca. Lógico que eu achei isso um absurdo. Discutimos alguns segundos até que ela cedeu, tornando-me vitorioso.
Sentamos na grande mesa e ficamos discutindo trechos de alguns dos livros que tínhamos em comum. Depois abandonamos totalmente os livros e começamos a conversar sobre nós e fazer perguntas pessoais ao outro. Eram banais, mas fizeram com que conhecêssemos mais o outro. Na verdade, era uma espécie de continuação do diálogo que iniciamos há dois dias no Espejo, quando fomos interrompidos pelo meu celular.
– Nome completo?
– Isabella Marie Swan, e o seu?
– Edward Anthony Cullen. Então você tem 17 anos? – perguntei.
– Sim, e você 21, pelo que eu ouvi no almoço. – Bella disse.
– É, tenho. Mas você não parece ter 17.
Ela riu.
– Minha mãe diz que eu nasci com 35 anos de idade e fico mais velha a cada ano. Ela diz que eu devia ter sido a irmã mais velha. – ela riu de novo.
– Bom... Não tive muito contato com Rosalie, mas a impressão que tive é que você realmente parece ser mais velha que ela. Digo, na maturidade. – expliquei.
– Não sei realmente o que aconteceu com Rosalie. Mesmo pai, mesma mãe e somos completamente opostas.
– Até mesmo fisicamente vocês são completamente diferentes.
– Oh, claro. Rose é extraordinariamente linda! – disse Bella, rindo com escárnio.
– O que foi? Você acha que não é tão bonita quanto sua irmã?
– Ah, Edward, qual é. Rosalie parece que foi esculpida a dedo. Com certeza meus pais estavam inspirados quando a fizeram. Eu sou tão comum. – disse Bella, rindo. Eu tive que rir, cético com esse absurdo. Bella era linda. Rosalie também, mas eram belezas distintas.
– Qual a sua definição de comum?
– Olha bem pra mim Edward? Magra, baixinha, não sou loira.
– Você não se vê com muita clareza, sabia? Sua beleza é clássica, é natural. Essa sua comparação é ridícula. – disparei.
– Rosalie é atraente, é interessante. Ela pode ter o homem que desejar. Veja o seu irmão. Ela atrai todos eles.
– E você acha que não é interessante? – perguntei incrédulo.
Ela me olhou por um longo momento, e então respondeu.
– Não. Quer dizer, não sei de ninguém que tenha se interessado por mim. Além de... er... Mike. Tenho certeza que não sou uma pessoa atraente. – minha cólera voltara com a pronúncia do nome. Mas fiquei feliz, por outro lado, que ela não mencionara a palavra namorado.
– Você está redondamente enganada sobre isso. – disse, torcendo para que ela não percebesse o duplo sentido nas minhas palavras.
Bella mordeu o lábio inferior e eu lutei para não ficar como um idiota olhando enquanto ela se movimentava.
– Qual sua cor favorita? – perguntei, voltando ao foco das perguntas.
– Azul. E a sua? – perguntou Bella.
– Azul também. – respondi. Rimos simultaneamente.
– Que perfume você usa? – dessa vez Bella tomou a iniciativa.
– Polo Black e você?
– Hypnôse – ela respondeu. Agora estava explicado porque eu não esqueceria esse cheiro.
– Banda favorita? – perguntou.
– Hmmm. Não seria bem uma banda, não mais... Mas gosto muito do Van Morrison. E você?
– Beatles. Sempre.
– Ah sim. Beatles. Uau! Isso foi imperdoável, digo, eu, sendo britânico, esquecer de citar os Beatles? – questionei-me rindo.
Bella riu e continuou.
– Comida preferida?
– Fast-Food. E você? – perguntei.
– Adoro comida italiana.
– Não é à toa que seu nome é Isabella.
– Sim. – ela riu – Os avós da minha mãe eram italianos. Ela sempre quis colocar esse nome quando tivesse uma filha. Mas meu pai queria Rosalie. Então quando minha irmã nasceu eles tiveram que fazer sorteio. Meu pai ganhou e o resto da história você já deve imaginar.
– Você foi a segunda filha e então sua mãe pôde colocar Isabella.
– Graças a Deus. Não queria me chamar Rosalie.
Rimos.
– Como são seus pais? – perguntei.
– Meu pai, Charlie, é muito parecido comigo, tanto fisicamente como na personalidade. Rosalie se parece mais com nossa mãe, Renée. Ambas são bonitas, divertidas, e a minha mãe tem uma garra admirável. E ambas são muito irresponsáveis. – ela riu.
– Sua mãe parece ser uma pessoa legal. Você fala dela com orgulho. – comentei, junto com um sorriso.
– Muito. Somos muito ligadas e ela é minha melhor amiga. Assim como Alice.
– E o seu pai?
– Charlie é mais fechado. Ele não é um tipo de pessoa emotiva e também não é chegado a demonstrações de afeto. Mas às vezes essa armadura dele cai, amolecendo-o. Mas vamos parar de falar sobre eles. E então, qual a próxima pergunta?
– Qual seu filme favorito? – perguntei.
– Hmmmm. Nossa, vários, mas não sei... acho que Uma Linda Mulher. Sou muito fã da Julia Roberts. E você?
– Boa escolha. Gosto de todos do Jack Nicholson.
– Não lembro se já assisti algum filme dele...
– Sério? Ah, não pode ser. Você nunca assistiu Um Estranho No Ninho? – perguntei. Eu era fissurado em Jack Nicholson, e sempre dava um jeito de tentar fazer as pessoas gostarem dele também
– Acredito que não. É novo? – perguntou Bella.
– Não – eu ri – É de 1975.
– Nossa!! Isso tudo? Definitivamente nunca assisti mesmo.
– Isso pode ser corrigido agora mesmo. Vamos assistir? – perguntei, depois da idéia que tive subitamente. Eu tinha quase todos os filmes do Jack Nicholson em DVD.
– Agora?
– Sim. Se não quiser tudo bem.
– Não, não é isso. É que...bom, eu achei que você ia tocar alguma coisa no piano. – disse Bella, pegando-me de surpresa.
– Você quer que eu toque algo?
– Sim. Você, poderia? Só uma música. E então podemos assistir o filme. – disse animada.
Olhei Bella por um segundo, sorri e então me levantei, andando até o piano. Era a primeira vez que eu me sentia nervoso em tocar pra alguém.
Olhei Bella mais uma vez, por mais tempo que há segundos atrás. Ela também me olhava, esperando. Sua expressão era de incentivo e expectativa.
Voltei minha atenção para as teclas do piano e comecei a tocar. Era uma melodia que eu estava tentando compor há algum tempo, mas que eu não conseguia terminar. Fui encaixando notas aqui e ali, pausava algumas vezes, continuando em seguida.
Não sei exatamente por quanto tempo fiquei ali sentado, tocando. Mas ao final, consegui compor uma música inteira. Isso era algo que eu não fazia há anos.
Fui deixando a melodia ficar mais baixa, até parar de tocar totalmente.
Girei a cabeça em direção e Bella e a encontrei sentada no chão, com as duas pernas flexionadas e os braços abraçando-as.
– Gostou?
– É linda!! – ela balbuciou.
– É uma canção de ninar.
– Você compôs? Agora?
Assenti com a cabeça.
– Eu não componho há muito tempo. Não sei como consegui concluir essa canção. Talvez sua presença tenha me inspirado, então vou chamá-la de Bella’s lullaby.
– Edward, você... Você... Eu... nem sei o que dizer.
– Não precisa dizer nada. – eu disse, levantando-me e caminhando até ela. Abaixei-me de cócoras, até nossos rostos ficarem muito próximo. – Seus olhos falam por si.
Nossos olhos se comunicaram em silêncio pelo que pareceram ter durado horas, mas que não passaram de segundos. Era intenso. Cheio de emoção. Perguntei-me se seria apenas pela canção ou se havia algum significado oculto naquela troca, porque eu nunca vi alguém me olhar da forma que Bella agora me olhava. Seus olhos brilhavam e ficaram maiores por um instante, até que seus lábios se separam vagarosamente e um súbito desejo de poder tocá-los me consumiu. Até que ouvimos alguém bater a porta e saímos do transe.
Levantei-me rapidamente e andei em passos largos até a porta, abrindo-a quando revelou Jasper.
– Desculpa interromper, é que Alice se foi e pediu pra avisar a Bella que a irmã virá buscá-la depois do trabalho.
Olhei para trás, onde Bella estava, e pude ver que ela também levantara.
– Obrigada, Jasper. – respondeu Bella, numa voz baixa.
– Er... de nada. Eu já vou.
– Jasper – chamei-o– Emmett ainda está assistindo TV na sala? – perguntei.
– Sim, por quê?
– Não, é que eu gostaria que Bella assistisse Um Estranho No Ninho, então queria pôr o filme aqui na sala mesmo, mas já vi que não será possível.
– Emmett está assistindo The Big Bang Theory desde a hora do almoço. Você sabe que ele não vai sair de lá tão cedo. Creio que terão de assistir na TV do seu quarto. – disse Jasper.
– Hmmm.. claro, claro. No meu quarto. – falei.
– Er... tchau. – disse Jasper, indo embora.
– Bella... er... Você ainda vai querer assistir o filme? – perguntei.
– Sim. Não foi esse o combinado? Você toca, eu assisto. – disse, sorrindo.
– Então, vamos? – falei, abrindo mais a porta, dando espaço pra ela sair.
Ela assentiu com a cabeça e pegou o livro que eu lhe dera, atravessando a porta da biblioteca em seguida.
Caminhamos devagar, enquanto Bella seguia olhando os quadros, as esculturas e as paredes de vidro que davam visão para o exterior da casa. Passamos pela sala e acenamos para Jasper e Emmett, que assistiam The Big Bang Theory na enorme LCD. Quando Bella deu as costas e começou a subir as escadas, Emmett riu e fez um gesto obsceno, que significava... bem... Deixa para lá. Apenas ignorei e segui Bella.
Chegamos no meu quarto e eu disse a Bella para deitar-se na cama que eu ficaria no sofá. Ela protestou, dizendo que não estava sentindo nada e que não precisava ficar deitada e que eu ficasse na cama, que ela iria para o sofá.
Após nossa pequena ‘discussão’, decidimos que os dois ficariam na cama. Bella sentou-se primeiro, acomodando um travesseiro em suas costas, enquanto eu abria o armário e pegava o DVD de Um Estranho No Ninho, colocando-o no aparelho, apagando a luz do quarto e fechando as cortinas, em seguida.
Acomodei-me junto à Bella, pondo dois travesseiros em minhas costas, nossos braços quase se tocando.
Durante o filme, me pegava olhando para ela vez em quando, que assistia atentamente. Fazíamos comentários acerca dos acontecimentos. Na verdade Bella fazia, porque eu perdera a conta das vezes que eu tinha assistido e já sabia de cor tudo que acontecia. Até de trás pra frente.
Após o filme, continuamos a conversar sobre diversos assuntos. Amenidades, na verdade. Nem percebi quando estávamos novamente fazendo perguntas pessoais entre si.
– Você já brigou com alguém? – perguntou Bella.
– De sair no tapa? – perguntei, rindo.
– Sim. Briga, briga de verdade. – ela parecia excitada.
– Tirando os meus irmãos – eu ri – só uma pessoa. Um garoto da escola.
– Por quê?
– Coisa de criança.
– Ah, eu quero saber. Conta! – ela quase fez beicinho.
– Ah, eu era um idiota. Só porque ele beijou a menina que eu disse que achava bonita, pronto, foi isso.
– Sério? Quantos anos você tinha?
– Acho que uns doze anos. Mas ela não gostou do beijo dele afinal, então não sei porque eu parti pra briga, só nos fez ganhar uma suspensão.
– Você gostava dela?
– Era uma paixonite infantil. Não acho que cheguei a gostar dela.
– Vocês namoraram?
– Não. Ela só tinha onze anos. Só trocamos um beijo, desses de criança, nem lembro direito.
– Hmmmm. – ela pareceu pensativa.
– O que foi? – perguntei.
– Ela foi seu primeiro beijo?
– Sim.
– Você sempre se lembrará dela. — disse sorrindo
– Não acredito muito nisso. – eu ri, lembrando – Não foi uma experiência muito boa. Fomos pegos pelo pai dela, que acabara de chegar na escola para buscá-la. Ele acabou tirando-a do colégio depois desse episódio.
– Nossa. Radical ele.
– É, verdade. Nunca mais a vi depois disso.
Ficamos em silêncio alguns segundos, então perguntei.
– E você?
– Eu o que? – perguntou Bella.
– Quando foi seu primeiro beijo?
– Eu tinha quinze anos.
– Foi com alguém da escola?
Ela me olhou e depois de um longo minuto respondeu.
– Foi com o Mike.
Eu a olhei cético. Ela não podia estar falando sério.
Além de namorado, o energúmeno tinha sido o primeiro beijo dela?
Então, ela não tivera ninguém além dele. Não provou outros beijos, não sentiu outros braços.
Será que as minhas suspeitas de que ela era virgem tinham fundamentos? Depois da reação dela enquanto falávamos de Jane Austen, isso pareceu muito provável. Mas claro que eu jamais perguntaria a Bella algo tão íntimo.
– Então, ele foi seu primeiro namorado? – perguntei, tentando esconder meu descontentamento com a revelação.
– Sim. Primeiro beijo, primeiro namorado.
– Hmmmm. Claro, entendo. Você é nova. Não poderia ter tido muitas experiências, claro.
– Ao contrário de você? – conjecturou, pegando-me de surpresa. Ela baixou a cabeça e eu pude assistir o velho rubor preencher sua face, que eu já sabia que acontecia quando ela estava envergonhada.
– Não precisa ficar com vergonha. – eu disse.
– Eu... desculpa. Você não precisa falar sobre isso. – disse ela.
– Tudo bem. Não tem problemas. – falei, dando um meio sorriso.
Bella sorriu em resposta e então comecei a falar.
– Tive sim, algumas mulheres. – na verdade muitas, mas não queria assustar Bella com os dados. – Mas namorada, do tipo que você leva pra casa e apresenta a sua família, eu só tive duas.
– Quantos anos você tinha quando namorou a primeira? – perguntou.
– Eu tinha 18 anos. Ela era da minha turma do 3º ano, mas só depois da formatura que... Que namoramos. – respondi, lembrando de Victoria. Não fui o primeiro namorado dela, mas fui o primeiro homem.
– E quando tempo durou? – perguntou Bella.
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– Por que não deu certo? – perguntou Bella, parecendo muito interessada em saber a resposta.
– Porque nossos sentimentos não eram mais recíprocos. Ou nunca foram.
Ela pensou sobre e então perguntou.
– Quem não gostava mais de quem? Quer dizer, quem terminou com quem? – perguntou. Eu deveria saber que com Bella devemos ser cautelosos com o que dizemos. Ela sempre consegue ler nas entrelinhas.
Suspirei antes de responder.
– Bem... Eu terminei. É que, você sabe, às vezes fazemos escolhas no qual descobrimos com o tempo que não são escolhas certas. Quando namorei Victoria, foi mais por pressão que por vontade. Digo, da minha parte. Aconteceram coisas que... que eu tive que namorá-la para não causar problemas. – respondi, lembrando do pai dela indo à minha casa, dizendo que eu tinha que assumir um compromisso com ela depois de tê-la tirado a virgindade, ameaçando-a expulsar de casa.
– Que coisas aconteceram? – questionou Bella, deixando-me nervoso. Que merda eu ia dizer? O que ela ia achar quando souber que eu tirei a virgindade de uma garota, na noite da formatura, sem nem namorá-la?
– Eu... Bem... Nós, você sabe... Nós dormimos juntos.
– Ah... – limitou-se a dizer.
E mais uma vez o silêncio constrangedor pairava no ar.
– E a segunda? Como foi com a sua segunda namorada? – perguntou Bella, quebrando o silêncio.
– A segunda, namorei meses depois de Victoria. A família dela era amiga da minha família. Foi um pouco mais conturbado que o primeiro. Nós brigávamos muito.
– E você gostava dela?
– Por um bom período pensei que sim. Mas o tempo me mostrara que eu estava enganado, que era apenas... – pausei cauteloso, medindo as palavras – carnal. Nós nunca daríamos certo juntos. – falei observando Bella, que mantinha a mesma expressão, mesmo depois de eu ter confessado que por muito tempo pensei estar apaixonado por Tanya por causa do sexo.
– Ela era bonita? – perguntou Bella.
– Sim, ela era. Quer dizer, era normal, uma garota normal.
Bella arqueou uma sobrancelha e mordeu o lábio inferior, antes de fazer mais uma pergunta.
– Qual o nome dela?
– Tanya.
– Hmmm. Nome forte. Quando vocês terminaram?
– Uns dias antes de eu me mudar para cá.
– Por isso terminaram? Por que você teve que vir para cá?
– Não, não. — disse, sacudindo a cabeça. — Como falei, nossa relação era complicada. Discutíamos bastante, já não nos dávamos bem há tempos. Tentei terminar nosso namoro várias vezes, mas Tanya não aceitava, ela chorava bastante, pedia uma chance, que eu não lhe neguei. Mas, a minha vinda para Sacramento só fomentou o que eu quisera fazer há muito tempo.
– Por que vocês discutiam?
– Tanya era muito ciumenta. Muito possessiva. Ela não queria que eu tivesse amigos, que eu pudesse me divertir em algum lugar que ela não estivesse e eu nunca aceitei isso. Sempre fiz o contrário do que ela queria. Eu devia ter terminado muito antes, eu sei. Mas, tinha nossas famílias que eram muito amigas. Pensei que talvez ela amadurecesse e no final déssemos certo. Foi quando descobri que isso nunca seria possível, porque eu nunca fui apaixonado por ela e era tarde demais para que isso acontecesse.
– Você acha impossível um relacionamento dar certo se uma das partes não estiver apaixonada pela outra, mesmo que esse sentimento possa aflorar com o tempo?
– Bella, num relacionamento, estar apaixonado não é a única condição para dar certo. Precisamos primeiramente acreditar que vai dar certo e saber que ninguém pode controlar ou mudar o outro. É algo crescente, como uma planta que se desenvolve a base de luz e água. Quando ela é esquecida, ela morre. É preciso regar com confiança, respeito, compreensão. É saber falar, saber ouvir. É ter consciência que passarão por momentos de frustração e desentendimento, mas que juntos poderão superá-los. É trocar carinho, mutuamente, para que isso não se perca com o tempo. – pausei, e então continuei. – Bella, eu jamais tive qualquer uma dessas coisas com Tanya, ou mesmo com qualquer outra. Como posso acreditar que o tempo mudaria alguma coisa? Nós já tínhamos perdido tempo demais.
Bella manteve-se muda, mas seus olhos demonstravam que ela estava confusa.
– Eu nunca senti nada por Tanya. Não havia respeito e nem confiança no nosso relacionamento. Nós nunca conversávamos, nem quando brigávamos. Nossas discussões acabavam com nós dois na cama. Mas os conflitos continuavam sempre ali.
Bella continuava calada. E eu estava começando a me preocupar.
– Eu nunca senti nada por ninguém até que... – fui interrompido pelo som de batidas na porta.
– A porta. – sussurrou Bella.
– Er... pode entrar. – falei, vendo Emmett aparecer na porta logo em seguida.
– Aew, queria interromper nada não, mas sua irmã ligou disse que chega em quinze minutos. — disse à Bella.
– Sim, sim. Claro. Eu.. uma hora eu tinha que ir para casa, não é. – sibilou, com um sorriso nervoso que não passou despercebido.
– Jante conosco? – pedi.
– Não sei, eu... vou trocar esse short pela calça jeans e vou esperar Rosalie lá embaixo. – disse, levantando-se. Pegou a bolsa que Alice trouxera e correu para o banheiro.
Não demorou dois minutos quando Bella saiu de lá. Ela pegou o livro e então descemos as escadas. Sentamos no sofá da sala. Jasper e Emmett falavam algo sobre ter sido um prazer tê-la na nossa casa, que eles gostaram dela e blá blá blá... Eu não estava prestando muita atenção no que eles conversavam.
Eu só sentia um aperto. Um aperto tão forte no peito que chegava a doer. Minha respiração estava descompassada e eu sentia o suor frio pela minha pele. Corri as mãos pelos meus cabelos constantemente, enquanto fechava os olhos. Implorando para que o tempo parasse.
Então ouvi o barulho da campainha. Vire-me e olhei Bella instantaneamente. Não sei se era fruto da minha imaginação, mas eu vi tristeza em seus olhos. Seria a mesma tristeza que havia nos meus?
Não, não seria.
Porque para ela eu era apenas um amigo. Ela não poderia estar sentindo a mesma tristeza que a minha, porque ela não sentia o mesmo que eu sentia.
E eu me perguntava, que diabos eu realmente sentia?
Não eu não estava apaixonado por ela. Não era isso. Não ainda.
– Vamos Bella? – disse Rosalie logo que entrou quando Emmett abriu a porta.
Bella continuou sentada, estática. Ela me olhava, mas eu não compreendia o porquê do seu silêncio. Franzi a testa, confuso, esperando que ela reagisse de alguma forma. Que respondesse a pergunta da irmã, se levantasse e fosse embora.
Mas ela estava ali, no mesmo lugar. Me olhando.
Vi seu olhar mudar de inexpressivo para desespero e então entendi o que ela queria. Ela não queria ir embora agora. Bella estava querendo ficar mais tempo aqui, comigo.
Um fio de felicidade e esperança percorreu pelo meu corpo, mas eu sabia que só estávamos adiando o que brevemente aconteceria. Bella iria para casa, seguiria sua vida. E eu viajaria no dia seguinte, sem uma previsão exata de volta.
– Rosalie, você se importa se eu levar Bella pra casa? – perguntei, sem tirar os olhos de Bella.
Vi o rosto de Bella suavizar, e seus olhos me agradecerem.
– Não me importo, mas... eu acho que Bella já abusou demais da hospitalidade de vocês. Vejo que ela está perfeitamente bem. – disse Rose.
– Não. Ela sempre será bem vinda nessa casa. – falei, olhando agora para a loura.
– Er... Edward pediu pra eu ficar, pra jantar. – disse Bella.
– Sinto informá-los que não há nada feito para o jantar. Teremos que pedir, de novo. – disse Emmett.
– Não vamos comer aqui. – disse.
– Não? – perguntou Bella.
– Não. Vou levá-la para jantar num restaurante quase aqui perto. Se você não se importar, claro.
– Não me importo. – respondeu.
– Bom.. então eu vou indo. Quer que eu leve suas coisas? – perguntou Rosalie.
– Sim. Leve, por favor. – disse Bella, entregando-lhe a sacola e o livro.
– Bom, tchau meninos. Até qualquer dia. – disse Rosalie, indo embora.
– Ei Rose, espera. Quero falar com você! – disse Emmett, correndo atrás dela.
Rimos os três.
– Bom... Vocês não vão jantar aqui, mas eu e Emmett sim, então me dêem licença que vou pedir uma pizza. – disse Jasper, indo embora.
– Só um segundo que vou buscar a chave do carro e a carteira — falei.
Bella assentiu e eu subi, até o quarto. Peguei tudo que precisava e desci rapidamente.
– Vamos? – perguntei.
– Sim.
Enquanto seguíamos até a garagem vimos um Emmett voltando frustrado.
– Relaxa, Emmett. Rosalie é assim mesmo. Não sei o que houve entre vocês, mas garanto que vai passar. Só não a pressione muito. – advertiu Bella.
– Queria entender a cabeça dela. – disse meu irmão.
– Eu tento isso há 17 anos. – todos nós rimos.
– Bem... Bom rango pra vocês – disse Emmett, entrando na casa.
Ao chegar no Volvo, abri a porta para Bella e em seguida sentei no meu banco.
Coloquei o cd de Van Morrison e dei partida. Durante o trajeto, conversamos apenas sobre músicas. Bella me falou o que não saia do seu Ipod, cujas bandas eram quase as mesmas que eu ouvia. Não demorou muito tempo, estávamos na frente do restaurante.
– Comida italiana? – perguntou Bella.
– Você disse que gostava. – respondi, rindo. Ela também riu.
Antes que eu pudesse abrir a porta para ela, Bella já estava saindo do carro. Bufei mas não falei nada.
Entramos no restaurante e fomos recebidos pelo maitre, que nos acompanhou a uma mesa para dois. Logo o garçom chegara com o menu. Pedi um capeletti de frango e Bella um ravióli de cogumelos.
Enquanto nossos pedidos não vinham, conversávamos bebendo coca-cola.
– Moro aqui há quase dois anos e nunca tinha vindo nesse restaurante. – disse Bella. – Ele é tão aconchegante, tão íntimo.
– Fico feliz que tenha gostado. Tenho certeza que você também vai aprovar o sabor da culinária.
– Eu confio nas suas apostas. – disse.
Minutos depois nossos pratos chegaram.
Esperei Bella provar o ravióli, para em seguida degustar o meu capeletti. Durante todo o jantar me vi satisfeito pelos seus comentários acerca do lugar e da comida.
Conversamos mais um pouco sobre tipos de culinárias e confessei a Bella que sabia cozinhar algumas especialidades. Ela me perguntou se algum dia eu cozinharia algo pra ela.
– Eu sinceramente espero que eu possa. – respondi.
– Claro que você vai. Edward você vai viajar a trabalho, mas vai voltar. Não fale como se você não fosse mais voltar. – disse Bella.
– Você vai querer me ver quando eu voltar?
– Claro que sim. Depois de tudo não acredito que você ainda não percebeu que agora somos grandes amigos. – ela disse.
– Claro, amigos. – eu disse, monótono.
– Podemos ir? Já está tarde, meus pais daqui a pouco vão sentir minha falta em casa. – perguntou Bella, fazendo o aperto no peito voltar com muita força.
– Sim, vou te levar em casa.
Acenei para o garçom, pedindo a conta. Deixei o dinheiro na mesa e então pudemos sair.
Entramos no carro em silêncio e em silêncio continuamos durante grande parte do trajeto, exceto quando Bella explicou onde morava. Nem o som me importei em ligar. Bella estava encolhida, no banco. Olhando a paisagem através do vidro. Havia um desconforto, uma tensão, que antes não existia. O momento da despedida se aproximando e a sensação de vazio disputava lugar com o aperto no meu peito.
Eu não sabia o que dizer, aliás, eu não tinha nada pra dizer. Algo que quebrasse o clima de tensão que pairava dentro do carro. Enquanto eu estava absorto, buscando palavras ou formas de amenizar o desconforto, a voz de Bella despertou-me de sobressalto.
– O Tower Bridge! Eu sempre quis vir aqui! – disse Bella, de repente excitada.
– Você quer que eu pare?
– Sim, eu quero. Podemos parar?
Eu assenti com a cabeça e parei o carro no acostamento.
O Tower Bridge era realmente um lugar deslumbrante à noite. Eu já estivera aqui algumas vezes. Mas sempre sozinho. Era um lugar bom para relaxar, refletir, pensar na vida.
Descemos do carro e caminhamos até ficarmos próximo da ponte. Bella sentou-se no píer, de frente pro rio. Eu hesitei, em pé, não sabendo bem o que fazer. Ela olhou para trás e fez sinal com a mão, para eu sentar do seu lado. Segui seu comando, sentando-me.
Ficamos lá por eternos minutos, em silêncio. Um do lado do outro. Eu olhava para as águas refletidas pela lua do Rio Sacramento, que hoje pareciam estar tão calmas, tão caladas. Tudo parecia estar mudo. O céu, as estrelas. A única coisa que gritava naquele instante era o meu coração, que parecia não cansar de trabalhar acelerado. Eu sabia que não era bom, pelo menos pra mim, adiar o momento. Quanto mais o tempo passava, mais a dor me corroia. Eu precisava ir embora, precisava apressar os minutos.
– Eu amo a noite. – disse Bella de repente, contemplando o céu.
Permaneci em silêncio.
– Amo essa cor que o céu assume quando o sol vai embora, a penumbra da lua, a luz das estrelas. – Bella continuou. Cada palavra fazendo-me perceber que eu não devia estar ali. Que tudo isso era errado. O lugar, a hora, a pessoa.
– Bella, precisamos ir embora. – eu disse sem olhar pra ela, preparando-me para levantar quando senti um choque na minha pele no momento em que ela segurou o meu braço.
– Não precisamos. — disse, a voz baixa.
– Está tarde, seus pais devem estar preocupados. – eu falei, sem ainda encará-la.
– Do que você tem medo Edward? – ela perguntou. A questão deixando-me confuso.
– Medo? Eu... nada. Não estou com medo. Seus pais não farão nada comigo acredito. Eles não sabem que...
– Você sabe que não é disso que eu estou falando. – me interrompeu.
– Eu não sei do que você está falando. – eu disse. As palavras de Jasper na cozinha agora me chicoteavam causando dor, muita dor. Eu acho que você está apaixonado por ela.
– Olha para mim. – pediu Bella. Eu relutei antes de olhar finalmente pra ela, e quando me virei o que eu encontrei deixou-me confuso, muito confuso. Bella estava com o rosto cheio de lágrimas e respirava com muita dificuldade.
– Diz que você não sabe do que eu estou falando. – balbuciou. Eu não sabia o que fazer, muito menos o que dizer. Não sei o que estava acontecendo comigo, eu nunca senti algo dessa magnitude por alguém e eu não sabia identificar até onde Bella poderia estar sentindo o mesmo até o momento presente, quando ela me pedia para dizer essas palavras.
O som abrupto do toque do meu celular no bolso emergiu entre nós, quebrando o contato dos nossos olhos. Olhei o visor e verifiquei que era Emmett.
– Alô?
– Edward, onde vocês estão? Rosalie me ligou perguntando por Bella.
– Eu já estou levando ela pra casa. Avise-a, por favor.
– Edward, ela tem namorado, esqueceu?
– Não, Emmett. Boa noite para você. – disse, enervado, desligando sem ouvir a resposta dele.
– Sua irmã ligou...
– Eu entendi. Vamos. – disse Bella se levantando.
Caminhamos até o carro e permanecemos no mesmo silêncio de antes.
Eu dirigia um pouco rápido, querendo acabar logo com isso. Não muito depois, parei o carro na frente da casa de Bella.
Bella não se moveu. E eu não tinha forças nem para olhar para o lado, para onde ela estava. Eu continuei olhando para frente, apertando forte o volante do carro. Eu não precisava olhar para sentir a respiração arfante dela, para ver que ela estava mordendo o lábio inferior e que ela mexia nervosamente o cabelo.
Ela suspirou e então abriu a porta, saindo relutante do carro sem dizer nada. Naquele instante, várias coisas passaram pela minha cabeça, tudo em um segundo. Refleti sobre os acontecimentos do dia, no meu quarto, na biblioteca, no restaurante e por último, no Tower Bridge.
Foi quando me vi lutando com todas as minhas forças contra esse sentimento e percebi que não adiantava lutar porque eu já perdera a batalha. Eu me apaixonei por ela. Eu estava perdidamente e inexplicavelmente apaixonado por ela. Ela estava na minha pele, na minha mente, no meu coração. Entrou de uma forma que eu já não sabia se era possível arrancá-la de lá.
Agora estava tudo muito claro. Não nos conhecemos por acaso. Tudo que me fez chegar até Sacramento não foi por acaso. Bella não entrou na minha vida por acaso. Era destino.
Desci do carro rapidamente, batendo a porta com força e gritei.
– Bella!!
Ela parou de caminhar e permaneceu estática, ainda de costas para mim.
Caminhei lentamente até chegar próximo a ela. Hesitantemente toquei o seu ombro, sentindo o tremor do seu corpo, do meu corpo, com a conexão. Bella então se virou, ficando de frente para mim.
– Eu sei do que você está falando. — falei.
– Sabe? – questionou. A voz baixa, trêmula
Assenti com a cabeça, enquanto nossos olhos não se desgrudavam por um segundo, com a antecipação. Eu desviei meus olhos dos seus, fitando os seus lábios. Voltei a fitar seus olhos, que pareciam querer o mesmo que eu queria.
– Não quero saber o depois. Meu lado irracional já me vencera. Agora eu só quero fazer uma coisa.
– O que você quer fazer? – perguntou, num fio de voz.
– Isso. – respondi, colocando minhas duas mãos em seu rosto, fechando os olhos e pressionando meus lábios contra os dela.
Meu coração batia rápido demais, minha pele estava em chamas. Eram tantos sentimentos, tantas emoções. Por um segundo achei que Bella não corresponderia, até que ela pousou as duas mãos na minha nuca, puxando-me para mais perto dela. Desci minhas mãos para a sua cintura, juntando nossos corpos, enquanto provávamos o hálito, o sabor e o calor dos lábios do outro pela primeira vez. No início o beijo era lento e delicado. Movíamos nossos lábios em sincronia, apenas nos provando, nos conhecendo. Sentindo a textura e a sensação do momento. Mas a cada segundo, foi se tornando cada vez mais errático, desesperado. Hesitei brevemente antes de enfiar lentamente a minha língua dentro de sua boca, que me recebeu sem protestos. Senti nossas línguas se moverem ardentemente enquanto Bella agarrava com mais força o meu cabelo, fazendo-me estreitar ainda mais os braços na sua cintura, sucumbindo à volúpia. Eu já nem sabia mais o que era respirar. Senti o desejo explodir cada vez mais voraz dentro de mim e algo pulsando entre minhas calças, e eu sabia exatamente o que isso significava. E sem querer eu gemi. Um gemido gutural que me fez lembrar onde estávamos, quem eu era e quem Bella era.
Afrouxei meu aperto na sua cintura e diminui o ritmo do movimento dos nossos lábios, tentando lentamente descolar meu corpo do dela. O beijo foi ficando mais calmo, até que desprendemos totalmente nossos lábios. Ainda ofegávamos e nos mantínhamos abraçados. Abri os olhos e encontrei os olhos de Bella ainda fechados. Ela deu um longo suspiro e então abriu os olhos, fitando-me, extasiada.
Bella mexeu comigo de uma forma que nenhuma mulher tinha conseguido antes. Se já estava difícil tirá-la da minha mente, depois daquele beijo eu sabia que jamais conseguiria...
Notas finais
Tem mais de 16 mil palavras esse capítulo. Mas enfim terminou onde eu queria.
Eu estou EMOCIONADA com esse capítulo, juro!! Enfim o beijo que tanto queríamos.
Mas e agora? o que vai acontecer? Edward vai embora, todo mundo sabe. Mas e Bella? Como ficará a situação dela com o Mike?
Bem... essas são perguntas a serem respondidas no próximo capítulo.
E POR FAVOR!!!!FAÇAM UMA AUTORA FELIZ!!!!DEIXEM REVIEWS!!! hahahahaha
Bjusssss
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